segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Solidão, escreveria um livro se ajudasse.



De repente a alma se percebe só. Novamente só!

Imersa em uma corrente, presa a si mesma, e além do que imaginava, cada suspiro de respiração, cada gesto de amor, de companhia, de abraço, de sorriso, de amor, é como uma serpente que te prende ainda mais no sonho, na ilusão, de que ainda há esperança para se salvar.

Não, não há. A solidão é terrível, a angústia do estar só não passa desapercebida. Em algum momento, por mais belo e inebriante que seja ela reaprece. Ela esta presente sempre, nunca nos abandona.

Falo para um tipo de pessoa muito especificamente que irá me compreender, mas talvez não. A solidão de si mesmo não pode ser compreendida. Se assim fosse possível, duas almas se compreenderiam e sairiam eternamente deste estado em que só alguns são capazes de experimentar e manter a sanidade, mesmo que, por algum momento.

Dói, assistir um filme com "happy end", mas dói ainda mais ver um outro, em que o casal se desencontra e ver ali, a realidade nua e crua de uma vida inconstante, insegura, e acima de tudo desesperadoramente sem sentido e cheia de desencontros.

Somos construídos para amar e para receber amor, como se isso fosse de fato nos libertar de nossa realidade última, a de que estamos sós. Amamos, somos amados, mas parece que não é o bastante, sobra algo, resta um tanto ainda que fica de fora. Não é possível amar esta parte, não é possível ser completo, nunca.

Incompleto, só resta uma coisa a fazer, cortar esta parte que sobra, que faz marca de falta e que nunca para de crescer. Ama-se, corta o mal pela raiz, mas logo ela renasce, como a fênix das cinzas.
O alcool, as drogas, os amores, as paixões...
São tantas distrações..
Mas nenhuma é eterna.
Nem as reticências duram para sempre. Elas acabam com um único ponto final que quando furado, se atravessa ao outro lado da página. Este atravessamento mostra que há muito mais por lá, muito além de ti, muito além de mim.

Cada momento em nossa história em que insistimos em colocar um ponto final, carcamos o lápis, ou a caneta até rasgar a folha de nossas vidas. Para que? Apenas para cair novamente na armadilha da serpente que mostra uma outra vida para além de nossas escolhas já feitas.

Sim, rasgar o papel das páginas da vida e escrever uma nova história é tentador. Mas aos poucos vamos percebendo algumas repetições. Como em um pesadelo tentamos acordar, mas estamos inebriados com a sensação de aconchego, de carinho, de novidade, de sermos enfim amados e completos. Uma nova história, é possível sim, repetimos a nós mesmos incansavelmente. Insistindo em falar mais alto que aquela pequena e incomoda sensação de que logo logo tudo estará perdido novamente.

Em breve o jogo será perdido, a pagina deverá ser novamente rasgada, o livro reescrito, até que a tinta da vida se acabe.

É triste demais, alguns dirão. Não, não é triste viver assim, tristeza é uma coisa diferente. A solidão que nos acompanha não nos torna tristes. Não é porque estamos angustiados e inquietos com o hoje, com o amanhã, ou mesmo com o passado, que somos tristes. Somos e sentimos outra coisa, apenas isso.

A tristeza como parte, como algo que esta ali e às vezes vai embora. Chega uma hora que ela não dói mais. O que dói é outra coisa, de outra ordem.

Não é uma solidão que pode ser estancada, com um abraço, um beijo, ou um dizer de alguém infinitamente querido: "estou aqui". É angustiante no começo. Lembro-me muito bem dos primeiros momentos em que pude representar esta solidão em minha história.

O mundo continua colorido, os sorrisos, as alegrias, os amores, mas simplesmente, por algum estúpido motivo temos a certeza de que tudo isso não é para nós. É como se fossemos expectadores de um lindo filme, de um romance, de um "felizes para sempre". Mas só que, sabemos que a felicidade não vai durar.

Sonhamos com a solidão, acordamos nela e muitas vezes ela demora para dar uma brecha. Quantos relacionamentos fracassados, quantas vidas desperdiçadas, quanto tempo perdido, quanto medo e sofrimento, por fim, quantos problemas. Apenas porque demoramos a aceitar que sim, somos solitários.

Nossos sonhos, nossas brincadeiras de criança nos remetem a um herói, a um alguém sempre só. Sempre amargurado por um amor perdido, por uma vida inteira que podia ter sido e que não foi, mas que por alguma razão, aprendeu a ser assim.

Sim meus caros, sobreviver a estes estados é complicado. Complicado ainda é não se desesperar. Pânico, angústia, depressão, isolamento social, são apenas nomes, mas que jamais contemplam nossas experiências pessoais.

Na intimidade aceitamos ajuda dos outros. Uma mão amiga, um abraço de um familiar, um beijo da amada (o), um "estou aqui" de qualquer um que nos quer bem. Mas não, isso não passa, a folha tem que ser rasgada novamente, e temos que escrever outra ilusão pois esta não se sustenta mais. A corrente já apertou demais novamente, já é possível sentir na carne a dor, mas não a tristeza, é estranho né?

A angústia representa apenas um ultimo passo. A de que a ilusão foi desfeita, foi destruída e que agora só resta você.

Bom, talvez fosse melhor assim, só você, porque afinal de contas com isso a gente sabe mais ou menos lidar. Só, talvez não consigo mesmo, mas com o fato de estar condenado a estar só. Uma pena, sim uma pena perpétua.

Perpetua, como no cemitério, a casa dos solitários, esta é a vida que algumas pessoas tentam viver. Não nos critiquem porque muitas vezes nos isolamos ou não queremos sorrir. Não nos condenem a "tristes, deprimidos, em estados de pânico, melancólicos", ou qualquer outro estado enunciado nos manuais de psiquiatria e psicologia da vida. Quando estamos carentes apenas queremos colo, apenas queremos o outro, ali onde ele esta, onde ele estava. Somos insaciáveis em determinados momentos, mas na maioria deles vivemos de esmolas, de um sorriso de um estranho, de um bom dia no elevador, de um sol que volta a brilhar, de uma chova que começa a cair.

Vivemos de momentos curtíssimos, como uma brisa que traz consigo o cheiro da chuva. Com o barulho do vento assobiando lá fora, isso sim é vida, acontecendo sempre, eterna independente da gente. Somos o contrário do egoísta, não temos uma "minha vida" temos a vida em nós e sabemos que ela se manifesta quando quer. Enquanto isso a gente se distrai, mas ela é solitária, pois carrega consigo também a morte.
A folha que cai lindamente da arvore depõe contra toda a majestade e força estrondosa da árvore, pois ela também ira um dia morrer. Nossa solidão não é tristeza, é outra coisa, é muito além das palavras, dos termos, das presenças, das companhias, dos amores e dos licores.

Nossa solidão nos encontra a noite, nos sonhos, ou durante o dia, quando ouvimos "tchau". Quando estamos no banheiro, ou no caminho para casa, ou para o trabalho. Quando vamos a qualquer lugar e simplesmente não temos com quem compartilhar aquele momento. Quando de fato percebemos o quão único e especial somos cada um de nós. Não por sermos melhores, incompreendidos, piores, ou qualquer outro julgamento de valor, não!

A solidão tem um que de vida nela. De possibilidade que os encontros com os outros não permite. Mas ao mesmo tempo de coisa única, de incompreensibilidade. Para alguns, de terror.

Mas não fique triste, por favor, não se entristeça por nós que somos assim!

Isso nos entristece e muito, saber que nossos amados e amantes se entristecem por não conseguirem nos alcançar no fundo de nossas almas. Estamos lá por algum motivo, sabe?

Somos de lá, nos protegemos lá, descansamos nas tempestades de nossa alma que sobrevive a este turbilhão de coisas acontecendo ao mesmo tempo, sem sequer notar nossa existência.

É por aí o caminho para ter uma vaga ideia de nossa vocação. Vá ao lugar mais alto, abra os olhos e veja tudo o que puder, depois lembre-se de sua insignificância. A solidão tem a ver com esta insignificância, por isso não posso dizer de uma tristeza, mas de uma liberdade.

A minha inexistência me permite escrever qualquer coisa, me permite ser quem eu quiser, me permite aos poucos me determinar da forma como eu gostaria. Mas aqui amigos, novamente já estamos escrevendo no livro da vida, uma página cheia de ilusões, de devaneios, de distrações. No final das contas, estas páginas também serão arrancadas, visto que são ilusões apenas para apaziguar nosso verdadeiro eu, nosso solitário e insignificante eu.

Gosto de encontrar-me com insignificantes como eu, que se percebem assim. Que saibam de sua insignificância, de sua solidão e que não tente me tirar da minha, mas que me de a mão, para que caminhemos juntos, na amizade, no respeito e acima de tudo, em nossa própria solidão.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Aos Visitantes do Blog:

Gostaria de informar e agradecer a todos os que tem me acompanhado que mudamos de endereço em Londrina. 

As mudanças foram necessárias de acordo com a crescente demanda pelo serviço. O que por um lado é muito bom, pois tanto pacientes, quanto amigos, e familiares acreditaram no meu trabalho e me apoiaram nesta difícil decisão rumo a um lugar melhor.

Bom, neste momento de mudanças, de fato, percebi que o blog ficou desamparado (para utilizar o termo que venho trabalhando) e quase que em último plano na minha vida. Porém, outas áreas foram tomando corpo e aos poucos se destacando como por exemplo algumas publicações em jornais específicos como o "Jornal da Gleba" aqui em Londrina e também o jornal "Psicologia em Foco" produzido em Maringá, mas com circulação mais ampla em toda região do norte do paraná.

Algumas escolhas precisaram ser feitas neste tempo. Dediquei-me mais à leitura e formação da prática clínica, à congressos internacionais, à celebração de convênios com algumas empresas, instituições, sindicatos, e também com alguns convênios de saúde. O mestrado também tem me tomado um bom tempo em meus dias. Mesmo assim, o blog continuou recebendo cerca de 2.000 visitas mensais. Antes de minha parada estava com cerca de 4.000 visitas, mas compreendo que o espaço se tornou um local de pesquisa, e de conhecimento agregado, muito mais do que o que havia sido proposto anteriormente, um espaço de discussão.

Agradeço imensamente a todas as 2.000 visitas mensais, e espero nestas "férias" voltar a escrever aos amigos internautas com maior frequência assim que possível.

Não apenas aos amigos internautas, mas à todas as pessoas que vem me apoiando nas mudanças fundamentais para, até mesmo, uma melhor qualidade no atendimento clínico. Em novo espaço físico, mas com a mesma proposta de instigar o sujeito a saber sobre si, de devolver às pessoas o que de humanidade delas que se perdeu durante a existência. Aos poucos, vamos construindo uma prática psicanalítica humana, baseada em Freud, mas que vai além, que passa por Lacan, mas que se reconstrói a cada encontro, a cada sessão, a cada olhar.

Em cada palavra, em cada gesto, em cada suspiro, em cada silêncio, desvelar o inconsciente ali presente, mas nunca com a utopia de que é necessário saber de tudo sobre si. Abandonar este ideal de onipotência para aos poucos perceber que, talvez, somente assim, a vida ainda pode ser diferente, ainda pode surpreender.

Fica o convite a todos, para visitarem o novo espaço assim que desejarem!

Grande abraço e até breve.

Marco Leite

terça-feira, 11 de setembro de 2012

TDAH - Déficit de atenção e Hiperatividade: por Alfredo Jerusalinsky

Diagnóstico de Déficit de Atenção e Hiperatividade. O que pode dizer a Psicanálise?

Por Alfredo Jerusalinsky

(Conferência proferida na Fundación para el Estúdio de los Problemas de la Infância, Centro Dra. Lydia Coriat, em Buenos Aires, junho de 2003) Transcrição: Norma Filidoro (revisada pelo autor).

Para começar, acho interessante pontuar o estatuto simbólico que assume, nas crianças, um transtorno motor. O conto “Final de Jogo” de Julio Cortazar, publicado no seu livro Ceremonias (referimos aqui a versão original castelhana) nos oferece um exemplo de conseqüências não somente poéticas, mas também e incontornavelmente, no campo da razão lógica. Não vou resumir aqui esse conto – o que seria certamente um atentado contra a fineza literária de um dos melhores contos que já tem se escrito sobre o mundo das crianças – mas sim acho oportuno referir o que ele nos informa. Na antípoda da hiperatividade encontramos a paralisia ou a inibição? De qualquer forma transformar paralisia em inibição constitui já um primeiro passo na tentativa do afetado de outorgar uma significação a sua impossibilidade. Embora não seja essa uma significação facilitadora, é, sem dúvida, um “movimento” endereçado a situar seu membro paralítico no campo da relação com o outro. É a partir desse “movimento” – sobretudo quando se trata de uma pequena criança – que os outros movimentos podem chegar a ser possíveis. Desinibir é algo que já virá a se fazer, definitivamente, no campo das significações, ou seja, no campo do outro. É por essa via que o paralítico enlaça seu membro a ordem simbólica extraindo-lo da tragédia de repousar para sempre no campo do real. É evidente, hoje em dia, as conseqüências que isto pode ter operando sobre a neuroplasticidade própria da infância.

Quem se atreveria a afirmar, na atualidade, que um membro paralítico tratado na pura re-articulação de seu mecanismo tem as mesmas conseqüências psíquicas, e mesmo cerebrais, que um tratamento onde o membro faz parte de uma matriz simbólica sustentada por um sujeito, que o inclui como parte de sua relação com o outro? Pois bem, no conto de Julio Cortázar uma menina esconde sob o jogo das estátuas sua paralisia cerebral. O olhar de um rapaz que passa fugazmente num trem, a faz imaginar ser a escolhida de seu amor. As amigas a enfeitam e recobrem de brilhos que tornam mais imperceptível seu defeito. Aliadas desejantes de um desfecho feliz, não atinam a compreender que quanto maior a distância entre a majestade da imagem e a miséria de sua rigidez, maior a dor da menina que se sabe não ser a máscara da estátua aderida a seu corpo, mas que nisso descobre – uma dor que, embora torturante, não é inútil – também não ser um puro corpo inerte. É se sonhando no olhar do outro – o jovem rapaz, o príncipe de sua pequena história – onde ela encontra seu ser e onde o movimento de seu braço, por modesto que for, adquire todo seu sentido.

O conto de Cortázar está exatamente no avesso da hiperatividade e do déficit de atenção. Se aquela menina precisou, para descobrir quem ela era, passar pelo valor simbólico da máscara que encobria sua paralisia e distrair sua atenção do membro que lhe negava o movimento, não será que nossos “hiperativos” e “distraídos” também precisam passar pela experiência da relação com o outro para impor uma significação a sua agitação que lhe mostre que vale a pena moldar seu movimento, e que venha, por essa via, a descobrir o que o arrasta sempre para outro lugar daquele que se lhe demanda? Ainda, levando em conta a neuroplasticidade, tais sintomas são causa ou conseqüência?

Em segundo lugar, vou me dedicar a analisar alguns estudos de investigação sobre a Síndrome de TDAH (Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), também chamada CHADD ou Children’s atentional deficit disorder. Também chamada ADDH.

Um dos estudos mais interessantes que encontrei é realizado por investigadores espanhóis cujo orientador se chama Miranda Casas. Esse estudo se intitula Evaluación e intervención con niños pre-escolares con manifestaciones de trastornos por déficit de atención con hiperactividad y conducta disruptiva. Conduta impulsiva é uma das categorias diagnósticas do DSM IV.

Antes de passar à análise detalhada desse estudo que reúne as conclusões de 65 estudos realizados, quero colocar em evidência o modo de proceder de alguns laboratórios a respeito desta questão. O laboratório Novartis, um dos fabricantes da Ritalina (metilfenidato), que é a medicação mais habitualmente usada neste suposto transtorno, Novartis Pharmaceutical Corporation, publica um folder de difusão, destinado a médicos, que estimula o uso da Ritalina. Trata-se de um estudo realizado por MTA Cooperative Group, extraído dos Archivos Generales de Psiquiatría de 1999, n°56 2.10831086 que foi, por sua vez, publicado pela American Academy of Pediatrics (AAP), especificamente pelo sub-comitê destinado à investigação do déficit de atenção e hiperatividade.

Devo dizer que estes estudos publicados em inglês são apresentados por este laboratório como uma espécie de resumo estatístico do seguinte modo: no que concerne aos sintomas impulsivos e hiperativos, que se supõem que formem parte essencial da TDAH, é dito que o uso da medicação Ritalina apresenta após 14 meses de uso, uma eficácia de 56%. Também afirma que a efetividade do tratamento combinado, ou seja, o uso da Ritalina mais tratamento comportamental, mais tratamento social (isto é, o treinamento dos pais e professores) apresenta uma efetividade de 60%. Afirma também que o tratamento comportamental apresenta uma efetividade de 45% quando isolado, sem medicação e que o tratamento comunitário isolado apresenta uma efetividade de 36%. O que não está dito neste gráfico é que, em 38% das crianças, o tratamento medicamentoso isolado não apresentou nenhum efeito, isso está publicado em letra menor nos estudos que acompanham o folder. Quer dizer que temos que dedicar, pelo menos, um par de horas à leitura para nos inteirarmos disto, apesar de que, de modo quase instantâneo, nos inteiremos, através dos gráficos, dos resultados “positivos” da medicação.
No entanto, é curioso, porque a conclusão que se tira olhando os gráficos é que se aos 14 meses a efetividade da medicação foi de 56% quer dizer que em 44% não teve eficácia. O laboratório o apresenta somente do lado da positividade.

Os investigadores que encontraram, não 44%, senão menos que isso, ou seja, que o medicamento não teve eficácia em 38%, dizem que isso demonstra que o medicamento deve ser usado com muita prudência, já que não está demonstrado que tenha verdadeira eficácia. Quer dizer que para os investigadores basta que 38% não reaja positivamente para dizer que não se deve confiar em demasia na medicação, porém, para o laboratório basta que 56% faça algum efeito para dizer que o uso do medicamento é altamente recomendável.

Os investigadores e a AAP observam que, ainda que se possa colocar a hipótese da existência desta síndrome, a diversidade de superposições que os signos apresentam com outras patologias levanta um interrogante sobre sua especificidade. O laboratório não disse nada disto, senão que nas 579 crianças investigadas, entre sete e dez anos de idade, se verifica a presença da síndrome, de uma síndrome sobre a qual os investigadores se perguntam acerca de sua especificidade. Qual será o motivo desta sutil diferença na apresentação dos resultados da investigação?

Isto coloca em evidência que o interesse que movimenta a indagação acerca de um possível modo de sofrimento das crianças, no caso dos investigadores, guarda uma discrepância significativa com o motivo que o laboratório evidencia nesta divulgação. Investigadores e laboratórios não coincidem em seus interesses. Há na instrumentalização das investigações para mais além da intenção do investigador. Pode-se discutir a metodologia ou a conceitualização do investigador, porém não acusá-lo da implementação, dessa sutil, mas decisiva, torção que um laboratório pode fazer de suas conclusões.

O primeiro fato a questionar é o critério com que os laboratórios difundem este tipo de investigação. Vamos, então, analisar a metodologia e os critérios com que os investigadores, honestamente, tentam legitimar a presença de uma nova síndrome com a intenção de detectá-la e curá-la.

A conclusão do estudo da MTA Cooperative Group diz que “nosso estudo tem uma série de questões que não foram respondidas, que consideramos fundamentais” e que são as seguintes:

-Há algumas crianças em que esta medicação não é permanentemente necessária?
-Por que em alguns casos o uso da medicação, para obter algum efeito, tem que ser prolongado enquanto em outros casos não?
-As descobertas sobre as melhorias nos tratamentos combinados, no caso da amostra tomada, teriam obtido igual nível de êxito sem a medicação?
-Qual é a proporção, no tratamento combinado, devida a uma ou a outra coisa?
-Qual dos dois tratamentos deveria continuar para obter resultados persistentes?
-Será que persistirão as melhorias registradas quando essas crianças forem maiores? E, se assim for, isso se atribuiria à medicação ou à terapia comportamental?
Estudos posteriores dos nossos sujeitos, após os 14 meses, são necessários para responder algumas destas perguntas críticas que nenhum estudo pode até agora responder. Este reconhecimento não os impede de concluir que, é pertinente falar de TDAH e que é importante fazer os três tratamentos (segundo se lê no Abstract).
Além disso, dizem que se fosse necessário sacrificar uma intervenção, seria a comunitária; se tivéssemos que sacrificar duas, seria a comunitária e a comportamental; a última a sacrificar seria a intervenção medicamentosa. E isso quando o tratamento combinado das duas terapias não medicamentosas não apresenta diferenças significativas nos resultados obtidos, comparando com os resultados obtidos com o uso da medicação somente. No entanto, a conclusão é que se deve usar o medicamento. Qual o fundamento que valida tal conclusão?

Metodologicamente isto não se sustenta: não é sustentável a conclusão acerca do uso preferencial da medicação. Ou, pelo menos, não do uso isolado da medicação. Não se sustenta que seja apresentada como o tratamento central.

No estudo de Miranda Casas, afirma-se que o diagnóstico de TDAH não pode efetuar-se antes dos sete anos; entretanto recomenda-se que o diagnóstico se faça antes dos sete anos por uma razão perfeitamente plausível: qualquer patologia diagnosticada precocemente tem um grau de mobilidade maior do que se fosse diagnosticada mais tardiamente. Em função disso, é razoável que se recomende que o diagnóstico se faça antes. O que não parece muito razoável é que se faça antes que o sujeito portador conte com as condições que permitam realizá-lo.

Trata-se de um estudo que se dedica a validar indicadores que permitam que o diagnóstico de TDAH se realize antes dos sete anos e que em estudos longitudinais permita a verificação da existência desta síndrome. Para verificar a existência mesma de uma síndrome que não se pode diagnosticar antes dos sete anos, se propõe diagnosticá-la quando ainda não se pode diagnosticar, para que se verifique que o que depois dos sete existe ou se supõe que exista, realmente existe.

No que se fundamenta o diagnóstico de TDAH: em entrevistas e escalas de estimativa preenchidas por pais e professores, técnicas para observação direta do comportamento e aplicação de procedimentos de avaliação centrados na criança. Ou seja, a metodologia proposta para diagnóstico é fenomenológica, nem sequer clínica: é exclusivamente fenomenológica por se basear na presença ou ausência de certos comportamentos.

Assim está dito: para sua avaliação devem-se seguir os critérios diagnósticos aplicáveis às crianças em idade escolar. Ou seja, para diagnosticar TDAH em crianças em idade pré-escolar se segue os critérios diagnósticos aplicáveis a crianças em idade escolar. Entretanto, diz o mesmo estudo, já que as pré-escolares exibem com freqüência comportamentos impulsivos apropriados para sua idade e já que estes tendem a diminuir na medida em que a criança adquire habilidades pró-sociais e de tomada de perspectiva (no sentido de ‘saída do egocentrismo’), necessita-se realizar comparações com esses progressos evolutivos, que os sintomas apareçam em dois ou mais contextos, que não haja indícios de dano neurológico prévio, nem transtorno generalizado do desenvolvimento ou transtorno psicótico. Nisso têm razão. Somente deixa à margem de um diagnóstico diferencial, as neuroses. Isto se deve a que a palavra neurose tem sido suprimida do DSM IV, o que implica uma transformação diagnóstica em direção à fenomenologia, não à clínica.

Apesar de que para diagnosticar TDAH em crianças pré-escolares sigam-se os mesmos critérios usados para as crianças em idade escolar, e apesar disto merecer a observação de que muitos desses comportamentos são apropriados às crianças pequenas, o informe afirma: “... a utilidade deste instrumento para o diagnóstico de TDAH na primeira infância se põe em evidência nos estudos que demonstram ser possível classificar corretamente uma porcentagem elevada de crianças hiperativas com idades entre três e seis anos". Ora, não dá para diagnosticar, mas dá para classificar? A que tipo de classificação estão se referindo se não é a nosográfica?

O mesmo estudo afirma: "... levando em conta as inconsistências provocadas pelo amplo processo de desenvolvimento das habilidades implicadas neste transtorno, damos ênfase à observação dos comportamentos e das condutas não-adaptativas durante o processo de avaliação e em particular, nos conceitos naturais (sic). Atualmente, não existe um sistema de classificação empiricamente validado para o diagnóstico do comportamento perturbador e, mais concretamente de TDAH".

Quer dizer que os investigadores admitem que não há um método certo, consistente com a nosografia do DSM IV, para a realização de diagnóstico nas crianças pequenas.
Segue: "Conseqüentemente, não existe um método confiável para avaliar a continuidade dos problemas comportamentais precoces, nem tampouco é possível identificar os fatores etiológicos". Quer dizer que a causa pode ser qualquer uma. "E a variabilidade das respostas das crianças às medicações estimulantes não permite confiar plenamente em sua eficácia..." No entanto, devemos medicá-las. É quase uma religião.

Ninguém diria que o que descrevem não tem nenhuma base (caberia aqui nos perguntarmos seriamente de que base se trata), por que fenomenologicamente encontramos crianças agitadas e crianças distraídas, o que acontece é que nada permite afirmar que as melhorias sejam próprias à administração da medicação. Não está claro que a medicação seja pertinente. Tampouco está claro que elas padeçam de uma alteração originariamente neurológica em todos os casos em que se apresenta tal comportamento. Além disso, na maioria das crianças em que a medicação produz algum efeito, deve-se esperar 14 meses para que estas mudanças se estabeleçam. Em idades precoces, uma intervenção psicológica no prazo de 14 meses, na grande maioria dos casos, obtém modificações altamente significativas, sem contar que o transcurso mesmo de 14 meses na infância costuma estar acompanhado de mudanças que dificilmente tornam comparável a criança do início com a criança do fim de esse lapso, especialmente no que se refere aos itens propostos para o diagnóstico do TDAH.

Quais escalas são utilizadas para esta avaliação? São utilizados três tipos de escala: o primeiro tipo são as escalas específicas de hiperatividade; o segundo são as escalas de variação situacional; o terceiro são as listas gerais de problemas. Estas listas gerais de problemas são respondidas por pais e professores.
As escalas específicas de hiperatividade são muitas e diversas, porém pode-se sintetizá-las da seguinte maneira. A Associación de CHADD mostra em sua página quais são as perguntas mais freqüentes. A primeira é: meu filho tem THDA? Qualquer pai pode se fazer esta pergunta. A resposta a esta pergunta é: todas as crianças (sic) podem, eventualmente, ter uma atividade excessiva (sic). Sua atenção também pode, eventualmente, ser breve (sic). No entanto, se seu filho é mais ativo que outros de sua idade, então tem TDAH. Este não é o único indicador, há outros: que a criança tenha esquecimentos freqüentes, perca seus pertences, seja desorganizada, seja inconstante em seus pensamentos, que seu professor afirme sua dificuldade em permanecer sentado, que não consiga esperar que suas perguntas sejam respondidas, que preste mais atenção ao redor que a si mesmo (ou também o contrário), que manifeste agressividade, que apresente dificuldades acadêmicas na aprendizagem da língua e da matemática. Nessa página consta que, se a criança apresenta estas características, seus pais estão autorizados a pensar que seu filho tem TDAH e devem levá-lo para uma avaliação (neurológica?). Temos aqui um resumo do que são as escalas específicas de hiperatividade.

As escalas de avaliação situacional comparam o comportamento da criança em diversas situações: na escola, em casa, no clube. Para os comportamentalistas, a situação é caracterizada pelo físico, o entorno, o local. Não se trata de diferentes situações, nem das significações produzidas em torno da criança em cada âmbito. O que perguntam é o mesmo em cada um desses âmbitos: na escola e em casa. Essa escala se complementa com a de conduta para os pais: como se comportam os pais é o quê eles fazem concretamente (não o que os inspira, seus desejos, suas intenções). A EPC tem 99 perguntas que são destinadas a avaliar a relação entre a competência social das crianças e o comportamento de seus pais.

Estas escalas se propõem a registrar condutas anti-sociais, problemas escolares, timidez, retraimento, transtornos psicopatológicos (enquadrados no DSM IV, ou seja, no mesmo padrão), problemas de ansiedade, problemas psicossomáticos... Ou seja, tudo.

Na tentativa de circunscrever esta entidade nosográfica a um dano neurológico específico, o seja, na tentativa anatomista deste estudo, dizem o seguinte: "Certos estudos que tentam estabelecer os correlatos neuro-anatômicos do comportamento em crianças com TDAH, têm sugerido que certas anormalidades na estrutura do córtex pré-frontal e suas interconexões com outras regiões cerebrais especificamente relacionadas com uma disfunção fronto-estriada, são características do TDAH. As dificuldades das crianças em idade escolar com TDAH parecem então estar associadas com o domínio do funcionamento da zona frontal, ou seja, a auto-regulação de funções executivas como a fluidez verbal, impulsividade, perda da inibição e manutenção da atenção, assim como a organização e monitoração da conduta".

Entretanto, também afirma: “... mostram-se evidentes as diferenças nos comportamentos circunscritos ao funcionamento da região pré-frontal. Assim, mesmo que algumas das habilidades associadas a esta região só alcancem um nível de desempenho adulto aos 12 anos, em geral apresentam seu período maior de desenvolvimento entre 4 e 7 anos, sendo que o nível de execução adulta se alcança, aproximadamente aos 10 anos de idade. Somente uma minoria de estudos neuropsicológicos analisou o impacto do dano frontal em sua progressão através do desenvolvimento, devido à escassez de lesões localizadas e de ferramentas de avaliação apropriadas, bem como à falta de parâmetros claros de avaliação e à dificuldade para criar tarefas que permitam avaliar a função e habilidades circunscritas à área pré-frontal".

Apesar de todas estas afirmações, a conclusão afirma que o TDAH deve-se, seguramente, a uma alteração na área pré-frontal (não havendo, até o momento, suficientes estudos que apóiem tal afirmação, nem metodologia que permita fazê-los).

Não teríamos nada contra essa circunscrição já que, seguramente, por obra do que chamamos neuroplasticidade, se houvesse alguma alteração importante na matriz simbólica que molda a maturidade do SNC, seria bem provável que pudesse vir a fabricar-se alguma disfunção cuja localização não é registrável (mesmo que alguma vez pudesse chegar a sê-lo), nessa área. Mas o que deve ser dito, sem dúvida, é que não sabemos.

O que fica em pé a respeito do TDAH? Certamente um grupo de boas pessoas que tem uma profissão que os leva a interessar-se pelas dificuldades das crianças já percebeu que quando uma criança tem problemas, eles aparecem em várias áreas ao mesmo tempo. Quando uma criança tem problemas é muito difícil encapsular ou delimitar esse problema a uma área específica. Detectado isto, supuseram que esta manifestação diversificada da dificuldade devia obedecer a uma unidade funcional de transtorno. Como se a interconexão entre estas dificuldades fosse produzida por uma certa conexão da funcionalidade de seu comportamento. Esta suposta unidade funcional poderia se apoiar em dois pontos:

A atenção que neurologicamente, desde o ponto de vista das neurociências básicas, ninguém sabe o que é... Tenho buscado tudo o que neste sentido poderia chegar a me informar e a resposta dos neurocientistas é: "não sabemos em quê consiste a atenção". Falo da investigação básica. Trata-se de uma investigação ou de investigadores básicos que não tem nenhum interesse corporativo, nem em capturar pacientes, nem em vender medicação.
No terreno da atenção, não tem havido avanços dos conhecimentos neurobiológicos como se tem no terreno da memória, da percepção, da linguagem ou da sexualidade. Por isso ninguém pode afirmar que o TDAH tem um correlato neurobiológico e o uso "experimental" da medicação tem os resultados que acabamos de analisar, ou seja, incertos, inconsistentes para afirmar conclusivamente que cura.

O outro ponto que permitiria supor uma unidade conceitual – algo da ordem do imaginário, é a inibição: os mecanismos inibitórios de controle do movimento. Porém há mais: supõe-se que esta unidade funcional de controle seja autônoma. Quer dizer, que não poderia alterar-se por outras causas senão, exclusivamente, pela alteração dessa unidade funcional mesma; ao contrário, não haveria maneira de justificar um diagnóstico específico. Para justificar um diagnóstico específico é necessário supor uma etiologia e a etiologia supõe um ponto causal que neste caso seria a alteração (anatômica ou neuro-química) de esta unidade funcional. Se esta unidade funcional dependesse de outras, então, ao não ser autônoma, a causa poderia estar mais atrás ou mais dispersa ou ser mais ampla e complexa. Assim, já não se justificaria o diagnóstico específico porque haveria que diagnosticar algo que englobasse também a outra causa... Ou as causas que estão mais atrás, ou ainda algo que não é da ordem de uma relação linear ‘causa-efeito’ mas da ordem da sobre-determinação, ou seja, da convergência num ponto de diversos fatos de modo tal a produzir uma significação que não está previamente contida em nenhum deles.

Até aqui, a análise metodológica tal como a apresentam os que a propõe. Agora nosso ponto de vista sobre esta questão.

Como anotação entre um e outro capítulo, devo dizer que é importante, quando alguém faz a crítica de uma proposição psicopatológica, indagar no seio mesmo da metodologia de quem a propõe, porque é de supor que, se alguém pudesse ter alguma razão em sua contrapartida é porque existem lacunas no interior mesmo da demonstração do que se propõe. Vale a pena dar-se sempre este trabalho, porque na discussão com aqueles que nos propõem estas coisas (são verdadeiramente coisas), é muito importante mostrar quais são as lacunas que eles têm em sua própria metodologia, porque é a única chance que temos de nos fazer escutar por eles, supondo neles uma honestidade em sua proposição. Não creio que seja um bom procedimento dividir o mundo entre bons e maus e pensar que os maus são os outros e que como nós somos os bons, temos razão. Vale muito mais supor, não que todos somos bons, mas que todos somos bons e maus ao mesmo tempo, embora isso não diga nada da verdade de nossas afirmações. Dividir os bons e os maus é um procedimento tão religioso como o que eles propõem.

Qual nosso ponto de vista nesta questão? Para apresentá-lo vou-me reportar a três conceitos:

1. Conhecimento.
2. Memória.
3. Inteligência.


Vou iniciar pela inteligência.

É um efeito da modernidade a redução da inteligência a sua expressão lógica do real. A redução logicista da inteligência é uma obra da modernidade, a partir de Descartes. Antes não existia. A inteligência se foi reduzindo ao campo da lógica e da racionalidade por obra, em grande parte, das contribuições dos positivistas, especialmente Locke e Hume que demandaram à psicologia que construísse um corpo teórico que permitisse afirmar a correspondência entre o percepto (o que é percebido), o perceptum (a representação que disso se faz) e o percipiens (o agente da percepção). Isto é uma reivindicação dos filósofos positivistas ingleses que não encontraram na psicologia de seu tempo tal construção. É por isso que a partir de Locke y Hume e com o mesmo fundamento filosófico y epistemológico começam a surgir psicólogos ou investigadores psicológicos que buscam este casamento entre o objeto (percepto), a representação do objeto e o aparato perceptivo. Assim surge Von Helmholtz que na segunda metade do século XIX escreve o "Tratado de Óptica" que investiga a estrutura do olho para ver como o percipiens registra o perceptum, e avalia o nível de correspondência ou transformação que há entre um e outro pólo da percepção óptica em função da mecânica física da luz e a transformação de suas trajetórias. Esse tratado foi publicado em 1879 apesar de que as investigações são de 30 anos antes. É o ponto de partida de muitos estudos psicológicos como os de Wundt, Keller, Koffka, a teoria da Gestalt... Embora quem mais tenha contribuído na análise desta correspondência tenha sido Piaget. Ele foi quem mais contribuiu para o reducionismo do conceito de inteligência a sua expressão logicista, controvertendo a idéia proposta por Aristóteles. Na realidade, a lógica aristotélica foi progressivamente se tornando desconhecida e distanciada pela modernidade. Para Aristóteles, paradoxalmente o pai da lógica, a inteligência era aquilo que permitia a inteligibilidade do discurso, segundo figura no capítulo II de seu "Organon". Esse conceito de inteligência foi se dissolvendo até o ponto de hoje em dia parecer muito natural assimilar a inteligência ao nível de complexidade lógica das operações. É em função do reducionismo psicologicista que Piaget tem sido muito bem acolhido na psicologia norte-americana. Essa psicologia não é totalmente contraditória ao comportamentalismo. Abandona a ingenuidade skinneriana do condicionamento direto e introduz, como um neo-behavorismo, a lógica como intermediação. É por isso que na psicologia comportamentalista norte-americana encontramos muitas adaptações de Piaget, embora devamos reconhecer um certo forçamento de sua teoria para isso.

Estes comportamentalistas que acabo de citar, tanto os da Academia Norte-americana de Pediatria como os da Espanha, utilizam neste estudo conceitos piagetianos (não somente, mas inclusive) que não entram de forma alguma em contradição com suas afirmativas.

Desde o ponto de vista psicanalítico, a inteligência não se dá nem ao nível de complexidade lógica da razão nem como a inteligência emocional de Goleman. A inteligência para o psicanalista conserva todo seu sentido aristotélico: aquilo que torna inteligível o discurso, ou seja, não somente a ordem da razão, mas também, e em certo modo fundamentalmente, sua poética Como é muito fácil verificar, esta versão da inteligência inclui a lógica sem se resumir a ela. Apesar da pretensão da ciência de apoiar-se na lógica matemática e nos modelos matemáticos para deixar seus enunciados a salvo das vicissitudes do desejo, nem mesmo nesse discurso (matemático) as coisas funcionam assim. Posso demonstrar isso brevemente: Lacan retoma na lógica de Russell, Pierce, Frege y Kantor, o tema da lacunariedade do discurso matemático. Faz isso com dupla finalidade. Primeiro para demonstrar que a suposição, de que a "vida emocional”, ou a lógica do desejo e a lógica da linguagem, não teriam um suporte na matemática, é falsa. Não é que a vida psíquica seja ilógica e que a vida científica seja lógica, essa dissociação não existe. A segunda finalidade é demonstrar que a ciência, por mais alheia que se imagine às vicissitudes do desejo, não o é.

Vou mostrar-lhes, muito brevemente, um exemplo disto. Cantor disse que há números que não se podem escrever: 1,9999999999999... Qual seria o último número que poderíamos escrever antes de passar do 1 ao 2? Impossível. Quer dizer: há uma lacuna. Para preencher esta lacuna, os matemáticos criaram algo que se chama os números imaginários. Lacan usa esta escritura (o signo da raiz quadrada de menos um igual i(a)). para dizer que isso é a imaginarização do que não se pode escrever, ou seja, daquilo que sobra como resto e que não temos como escrever.

Vocês devem estar se perguntando o quê isso tem a ver com o TDAH. Em seguida verão. Quando alguém não tem como escrever algo que lhe afeta, imagina alguma coisa. Quando alguém não sabe o quê fazer, faz magia (como diz minha pequena filha Clara de oito anos, depois de ver Harry Potter). E assim procede também a ciência; mesmo com o discurso matemático que parece ser o mais isento das conseqüências deste vazio. Até mesmo essa variante do discurso humano, que se apresenta como o mais isento dos efeitos desse resto, padece das conseqüências dessa falta radical que nos caracteriza e nos transforma em falaseres.

Assim também procede a ciência e creio que isso nos explica porquê estes bons investigadores no lugar onde não encontrem nada, coloquem algo, coloquem um nome com a melhor das intenções de poder manejá-lo. O problema é que não sabem que estão pondo algo no lugar em que não há ou no lugar em que o que há não é necessariamente da natureza que eles supõem, ao menos não necessariamente. A partir disso, são levados por um suposto lógico incoercível e inquestionável a afirmar com certeza o que não têm certeza nenhuma.

No plano da inteligência ocorre o mesmo: em nossa clínica, quando tropeçamos com problemas na inteligência, nos vemos na dificuldade de explicar através do reducionismo logicista o quê se passa com uma criança que tem dificuldades de aprender ou de prestar atenção em alguma coisa. E sabemos que isto excede tanto a lógica suposta da inteligência como também excede uma suposta lógica homóloga do SNC.

O segundo conceito é o de memória. Existem estudos acerca da memória que distinguem quatro tipos de memória. Uma memória antiga ou de largo alcance, uma memória imediata, uma memória de trabalho e uma memória de processamento. Todo o mundo conhece a memória de largo alcance, também a imediata. A de trabalho é indispensável para levar a cabo certos procedimentos que requerem da antecipação de uma tarefa; pode armazenar-se ou apagar-se. Por outro lado, toda a informação passa pela memória de processamento para ser transformada em dados armazenáveis ou descartáveis; é uma memória que não guarda nada concreto; se chama memória por que contém a informação que permite a recordação acerca do sentido, da direção, em que deve ser processado um dado. Uma espécie de ‘memória burocrática’

Esta diferenciação é útil, e não existe ainda uma expressão clínica por que se trata de descobrimentos recentes. Talvez possamos encontrar um equivalente dela no conceito de ‘transcrições’, na “Carta 52” de Freud a Fliess (1895), ou mesmo no “Projeto de uma Psicologia para Neurologistas” (1896), também de S. Freud. Assim como Lacan se deu ao trabalho de incorporar à psicanálise os aportes que a lingüística contemporânea nos oferece, aumentando sensivelmente o grau de precisão de nossa escuta e nossas intervenções, dessa mesma maneira caberia esperar que nós, os psicanalistas, nos ocupassemos da questão da memória à luz desses descobrimentos, assim como também fez Freud em seu momento, transformando as teorias da memória da época.

O importante é que, mais além da diferenciação desses quatro modos de funcionamento da memória, ela não obedece a um mecanismo inatamente fixo senão que depende do modelamento que a matriz simbólica lhe imponha; tanto que o modo de funcionar dessas quatro formas vai depender desse modelo. É importante considerar dessa forma a questão da memória porque no TDAH, justamente, um dos traços predominantes é que a memória falha alternativamente dessas quatro maneiras - isso se consideramos as coisas desde o ponto de vista funcional. Se considerarmos desde o ponto de vista da etiologia, podemos tomar dois caminhos: ou considerar que algo está alterado originariamente ali onde faz sede, no SNC, cada uma dessas formas, ou bem podemos pensar que a matriz que as organizou mudou o rumo da memória. Obviamente que a psicanálise elege este segundo caminho que, por sua vez, não se dissocia da primeira colocação já que hoje é perfeitamente verificável como de um modo neuroplástico, o SNC vai obedecer em seu funcionamento àquilo que ali se intime ou, dito mais psicanaliticamente, àquilo que ali se inscreve.

Elsa Coriat, em “Psicoanálise e clínica con bebés”, oferece uma bela metáfora, que fala de um papel em que se escreve o desejo dos pais e que o papel que está ali, o SNC, vai dizer o que ali se escreve.

Vamos passar à clínica: verificamos que o mais marcante na manifestação clínica de uma criança diagnosticada com TDAH reside nos problemas com o conhecimento, seja esse conhecimento da ordem da organização de suas praxias, seja da ordem da aprendizagem escolar, seja da ordem de saber como deve compor ou organizar sua relação com os objetos e as pessoas. Quando aparece uma criança com esse diagnóstico, o que se apresenta clinicamente a nós é que tem problemas com o conhecimento. O quê é o conhecimento? Desde o ponto de vista psicanalítico, o conhecimento não pode estabelecer-se se o enunciado que o sustenta não possui um estatuto simbólico. Assim vemos crianças que podem funcionar de um modo mais ou menos adaptado ou concordante com a mecânica física das coisas, cujos enunciados não têm no discurso um estatuto de conhecimento. Não podem formular sobre esse conhecimento uma enunciação que transite pelo campo do outro, assim a condição fundamental para que um enunciado seja considerado da ordem do conhecimento não se cumpre, ou seja, a questão da verdade. Provavelmente, se fazemos uma prática puramente no âmbito da saúde, teremos um conjunto orgânico que funciona mais ou menos adequada e harmonicamente, mantendo um certo crescimento sustentado em tamanho e forma, bem como, talvez logremos que desordens funcionais maiores, como poderiam ser as convulsões, as distonias ou as paralisias se façam presentes em uma medida mínima. No entanto, nenhum desses procedimentos garante que o quê a criança conquiste como conhecimento, ou como capacidade de funcionamento físico, a ordene no campo do desejo. Ou seja, a ordene em um campo que não é nem da saúde nem da educação, mas da ordem do inconsciente.

A articulação entre saúde e educação, desde o ponto de vista dos discursos de cada uma, é impossível. Somente pode-se entender a imperiosa necessidade da articulação entre esses dois discursos se levamos em conta que eles têm efeitos e causas na produção inconsciente que conduz ao sujeito. Aí é onde a articulação entre a saúde e a educação se torna não somente necessária, mas também conceitual e estruturalmente viável.

Sábado passado supervisionei um caso de una menina de 4 anos muito falante que dizia coisas assim: "o cachorro tem o gato para que mamãe me dê de comer e eu não tenho mamãe sem que os panos me vistam por isso...". Um delírio não estruturado no qual era possível escutar a ressonância de frases ditas pela mãe. O que aparecia nessa enunciação era, primeiro, a dificuldade de saber o quê ela queria dizer e, segundo, qual era o estatuto de verdade disso que ela enunciava. Assim, se alguém lhe perguntasse o que é um gato, ela respondia dizendo "pipoca bem quentinha". Teríamos que averiguar se seu gato gostava de pipoca, porque então assim poderíamos ver se ela não estava demasiado longe na associação daquilo que lhe era perguntado. Esse grau de liberdade na associação mostra que não há recalque; o que falha ali é o que recorta o deslizamento da cadeia significante de modo tal que ela fica obrigada em sua sintaxe a uma certa semiótica que vem do Outro (mesmo que isso pese a Chomsky).

Chomsky tem uma frase famosa: "Idéias verdes incolores dormiam furiosamente", com a qual pretende demonstrar que ali todo o mundo reconhece uma frase mesmo que não queira dizer nada, e que isso demonstra a existência de uma gramática generativa inata, dado que o reconhecimento da condição de frase pressupõe que, mesmo não dizendo nada, responda a certas regras gramaticais. Alguém com essa mesma frase poderia dizer, à luz do delírio dessa menina, exatamente o contrário. Esta frase seria consistente com o sistema enunciativo dessa menina se alguém pudesse dizer que é possível reconhecer ali uma frase, porém a menina não pode reconhecer no que diz uma frase. Isso demonstraria que a gramática generativa não é inata. Provavelmente Chomsky nunca teve nenhuma experiência com crianças delirantes. Diferentemente de nós que, a partir de nossa experiência, podemos verificar que há crianças delirantes que, embora falem, não sabem que o que dizem é uma frase. Mais que isso, tampouco sabem que é uma palavra, ou o que é uma letra, nem onde colocar o ponto. Porque a pontuação é filha predileta do recalque, é filha do corte que separa as coisas das palavras. Que coisas se separam em primeiro lugar? O peito da boca, a voz da boca, o olho do olhar, as fezes do ânus. O corte se realiza não por uma arbitrariedade, senão em nome de uma certa ordem que não é inata, e que mesmo quando já se encontra no discurso deve ser inscrita na criança. Por isso que as mães se dão tanto trabalho! Essa modalidade, esse modo de inscrição, é o que chamamos matriz simbólica, e sabemos que vai depender em altíssimo da formação dessa matriz o modo de funcionamento do SNC, da forma de inscrição dessa matriz.

Experiências clínicas de todo tipo nos mostram que a mudança do "meio ambiente" ou a mudança na proposição dessa matriz, muda as coisas em uma criança e, como os mesmos pesquisadores mencionados dizem, quanto mais cedo melhor.

Mas sabemos que fazer um diagnóstico extremamente cedo, em um tempo em que não se pode fazer, acaba por fabricar aquilo que se supõe evitar. Se alguém introduz o diagnóstico, se ministra a medicação precocemente e se trata uma criança como se fosse "um TDAH", ao final podemos ter razão. Isso é o que encontramos na clínica. Por isso, o psicanalista opta por não saber. Não porque sejamos burros, mas porque reconhecemos que esse lugar que a ciência preenche artificialmente está vazio, porque esse vazio cumpre uma função decisiva que é permitir que a matriz simbólica seja tal, seja simbólica. Ou seja, que o signo lingüístico não represente a coisa que lhe deu origem. A coisa que deu origem a essa marca tem que se apagar para que esse signo se torne polissêmico. Se soldarmos uma criança a um suposto positivado de um lugar anatômico que falha, a vida dela vai se desenvolver ao redor desse lugar anatômico.
O quê nós, os psicanalistas, inventamos? Dispositivos que deixam esse lugar vazio. São dispositivos que não são iguais em todos os momentos da vida de um sujeito, porque sabemos que na infância se tramita essa inscrição, esse modelamento e, na vida adulta esse trâmite está, de alguma maneira, concluído. Estamos dizendo que durante a infância temos chance de direcionar as coisas para o melhor ou para o pior. Antecipar-se a uma patologia suposta não faz nenhum favor às crianças. Refiro-me a antecipar-se preenchendo um lugar quando é o sujeito mesmo que deve dar a versão a esse encobrimento.

O que podemos dizer em relação ao TDAH? Podemos dizer que além das inconsistências, da falta de verificação da existência de um correlato etiológico autônomo... Além da impossibilidade científica de afirmar sobre a existência de uma unidade que permita fazer disso uma síndrome, o que podemos dizer é que o surgimento dessa síndrome e a proliferação de seu diagnóstico comportam um traço iatrogênico importante na clínica para as crianças.

Não creio por isso que devamos suspender as investigações, senão devolver-lhes sua seriedade e, em segundo lugar, não implementar clinicamente, nem no diagnóstico nem na estratégia de tratamento, algo que não se sabe.

Então, em que pode contribuir o discurso psicanalítico para esclarecer sobre qual conduta clínica seguir? É certo que encontramos crianças hiperativas. A fenomenologia é verdadeira: existem crianças com problemas de memória, de atenção, de aprendizagem, de linguagem, com problemas psicomotores. No entanto, essa fenomenologia se mostra nas crianças "suspeitosamente" concordantes com o que os investigadores chamam uma "dificuldade social". Trata-se de crianças com dificuldades para representarem-se no campo dos outros. A possibilidade enunciativa que essas crianças possuem costuma estar em questão: têm dificuldades no campo da linguagem, embora possam não tê-las no campo da fala.

O que quer dizer essa correlação, esta coincidência do diagnóstico de TDAH, com dificuldades no campo social? Quer dizer simplesmente que a instância do Outro, nessas crianças, está em questão. Quer dizer que aquilo que constitui o corte entre a coisa e o sujeito, a operação que apaga a coisa para que o sujeito possa enunciar de um modo polissêmico o que averigua sobre a coisa, que aquele corte que sustenta a diferença entre o verdadeiro e o falso, entre o ficcional (o que corresponde à ordem do imaginário) e a ordem do simbólico (o modo em que o sujeito mesmo se representa no outro)... esse corte, falha.

Será que as dificuldades sociais são uma conseqüência da síndrome ou será que essa dificuldade social é indicadora do ponto central da etiologia do que ocorre com essas crianças? Colocar-se em uma posição reducionista e organicista é desconhecer a possibilidade, comprovada na clínica de 100 anos de psicanálise na prática com crianças, de que a não constituição da instância do Outro, ou mesmo as falhas nessa constituição, incide nisso que não se sabe o que é, mas que se chama de atenção.

O que é um déficit de atenção? É não saber a que dirigir a percepção. Um déficit de atenção é não poder dar continuidade ao perceptum, não poder produzir no perceptum um ato de nominação que lhe dê extensão simbólica. Se não tem extensão simbólica é porque este objeto não chega ao Outro, não passa pelo campo do Outro, carecendo assim de significação. É por isso que a criança não persiste. Nas crianças que apresentam déficit de atenção e hiperatividade é clinicamente comprovável que a extensão simbólica está reduzida e achatada sobre a coisa. Essa é a razão, e não outra, como dizem os investigadores, de que as crianças não desconheçam ou não recusem a presença dos objetos, mas se limitem a manuseá-los até rompê-los.

Esta síndrome à luz da neurose não é nenhum mistério, nem nenhum descobrimento recente. Que se pretenda, no entanto, essa correlação, nem um pouco comprovada, com as funções pré-frontais, e mesmo se essa correlação se comprovasse... O quê mudaria na clínica? Em princípio parece que nada. Assim como um comportamentalista intervém no campo da relação, um psicanalista também o faz. Qual é a diferença? A diferença que separa o comportamentalista é que seu ato não está desenhado em concordância com aquilo que constitui a inscrição, o modelamento do SNC, e a posição de sujeito para que ele esteja habilitado a representar-se no discurso. Porque seu modo de intervenção se faz objeto por objeto, ação por ação, palavra por palavra... O quê quer dizer que ignora de um modo lato que os humanos não funcionamos de um modo monoaural, coisa por coisa ou palavra por palavra, mas que funcionam mais além da correspondência biunívoca da relação entre o signo lingüístico e a coisa. E, justamente porque funcionamos na polissemia do significante – e isso nos permite nos articular no discurso, a coisa pouco importa.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Psiquiatrização da vida e o DSM V: desafios para o início do século XXI


Psiquiatrização da vida e o DSM V: desafios para o início do século XXI



Publicado em: 12/03/2012
Crianças que fazem muita birra sofrem de um distúrbio psiquiátrico recentemente descoberto, a chamada “desregulação do temperamento com disforia”. Adolescentes que apresentam de forma particular comportamentos extravagantes podem sofrer da “síndrome de risco psicótico”. Homens e mulheres que demonstram muito interesse por sexo, quer dizer, aqueles que têm fantasias, impulsos e comportamentos sexuais acima da temperança recomendada, muito provavelmente padecem do distúrbio psiquiátrico chamado “desordem hipersexual”. Confiram o texto de Paulo Amarante, Diretor do Cebes, e Fernando Freitas, ambos pesquisadores do LAPS/Fiocruz, sobre o novo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
 
Essas são algumas das várias novidades que estão sendo propostas pela Associação Americana de Psiquiatria (conhecida internacionalmente como APA), para suceder o DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), em vigor desde 1994.  Há outras novidades que vem chamando a atenção de todos. Por exemplo, a “dependência à internet” e a “dependência a shopping”.  

O que o DSM representa? Não apenas para a saúde pública propriamente dita, mas para a própria construção da subjetividade e intersubjetividade do homem contemporâneo?  A medicalização crescente do nosso cotidiano. 

Apenas para se ter uma ideia da chamada “inflação” dos distúrbios considerados objeto da psiquiatria: há cinquenta anos atrás eram seis as categorias de diagnóstico psiquiátrico, e hoje são mais de trezentas. 

Nas últimas décadas o DSM tem servido como a bíblia para a chamada psiquiatria moderna e para os saberes e práticas subordinadas à sua hegemonia. Os autores de suas sucessivas edições argumentam suas pretensões são: (1) Fornecer uma “linguagem comum” para os clínicos; (2) Servir de “ferramenta” para os pesquisadores; (3) Ser uma “ponte” para a interface clínica/pesquisa; (4) Ser o “livro de referência” em saúde mental para professores e estudantes; (5) Disponibilizar o “código estatístico” para propósitos de pagamento dos serviços prestados e para fins administrativos do sistema de saúde; e, finalmente, (6) orientar “procedimentos forenses”.  

Os impactos provocados por cada edição do DSM são inúmeros. Bem próximo de nós, está aí o exemplo da pesquisa da OMS sobre a saúde mental dos moradores da Metrópole de São Paulo. Segundo os resultados dessa pesquisa, cerca de 1/3 da sua população sofre de algum distúrbio psiquiátrico. A grande imprensa nacional tomou tal pesquisa para alertar à população que a situação do sistema de assistência em saúde mental do país está muito aquém das demandas dos cidadãos, muito em particular o SUS.  E que sendo São Paulo uma megalópole de um país com tendências à urbanização acelerada, o seu exemplo deve ser considerado como alarmante. 

O que escapa à maioria das pessoas que receberam essa notícia pela grande mídia são detalhes de grande importância para a credibilidade da própria pesquisa. Quem financiou essa pesquisa? Além da FAPESP (Fundação de Amparo a Pesquisa de São Paulo), entre outros órgãos públicos, como a própria OMS e a OPAS? Foram grandes conglomerados da indústria farmacêutica: Ortho-McNeil Pharmaceutical, a GlaxoSmithKline, Bristol-Meyers Squibb e Shire. Curiosamente, os autores declaram não haver conflito de interesses. Se isto não é conflito de interesses então é necessário revisar este conceito!

O DSM-V chega sendo objeto de grandes controvérsias. Basta uma consulta na Internet para se tomar conhecimento das contundentes críticas feitas por alguns dos principais autores do DSM-III e DSM-IV.  O que o DSM-V vem reforçar ao DSM-IV? Parece ser a tendência à medicalização dos comportamentos humanos de nossa época, ao transformá-los em patológicos em seus mínimos detalhes. Nos termos que vem se tornando públicos, o DSM-V reforça a tendência a assegurar e a ampliar o mercado da saúde mental: 1) o consumo arbitrário de medicamentos de natureza psicotrópica, sem qualquer cuidado com os seus efeitos sobre a própria saúde de seus consumidores; (2) a expansão de serviços de diagnóstico e de consultas; (3) a medicalização da vida.

Na medida em que o modelo “a-teórico” (como ele mesmo se define) do DSM nos possibilita constatar, principalmente a partir desta sua quinta versão, que seu objetivo real não é lançar luz sobre o conhecimento dos sofrimentos mentais, e sim produzir mais mercado para as intervenções psiquiátricas,  cumpre à sociedade recusar este projeto medicalizante/patologizante. As entidades de saúde, particularmente as médicas, os Conselhos de Saúde e de Direitos Humanos, os órgãos públicos de normalização, regulação, fiscalização (Ministério da Saúde, Ministério Público, Conselhos Profissionais, dentre outros) precisam se posicionar e cobrar a responsabilidade dos autores e multiplicadores de tais iniciativas.
Fernando Freitas é Diretor da Abrasme e Pesquisador do LAPS/Fiocruz
Paulo Amarante é Presidente da Abrasme, Diretor do Cebes e Pesquisador do LAPS/Fiocruz 

terça-feira, 22 de maio de 2012

V Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental XI Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental

V Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental
XI Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental

Fifth International Congress of Fundamental Psychopathology

Eleventh Brazilian Congress of Fundamental Psychopathology






Tema / Theme 
Dietética corpo pathos / Dieting, Body, Mental Suffering

Local / Venue
Ponta Mar Hotel - http://www.pontamar.com.br
Avenida Beira Mar, n° 2200 - Meireles - Fortaleza, Ceará, Brasil

Data / Date
6 a 9 de setembro de 2012 / 6-9 september 2012

Horário / Schedule
Dias 6, 7 e 8 - das 8h às 20h. / 6, 7, 8 Sept. - 8 a.m. to 8 p.m.
Dia 9 - das 8h às 14h. / 9 Sept. - 8 a.m. to 2 p.m.

Público-alvo / Target audience
interessados em geral / Those interested in Fundamental Psychopathology

Língua do congresso / Congress Language
português / portuguese; espanhol / spanish; francês / french; inglês / english

Contato / Contact
Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental
Rua Tupi, 397 - 10° - sala 104
01233-001 São Paulo, SP
Tel.: 55 11 3661-6519
E-mail: psicopatologiafundamental@uol.com.br


Convocatória:

A Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental (AUPPF) convida todos os interessados para participarem do V Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e XI Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental que será realizado no Ponta Mar Hotel, Fortaleza, Ceará, Brasil, de 6 a 9 de setembro de 2012.

Muito além dos chamados "transtornos alimentares", o tema geral do Congresso - Dietética corpo pathos - solicita apresentação de trabalhos que reflitam e comentem sobre a ética da oralidade, que muitos pensadores, filósofos, médicos, psicanalistas e escritores, consideram fundamental para a civilização.

De fato, desde o mito edênico, que representa a saída do humano em direção à sua própria humanidade, passando pelo canibalismo e pela antropofagia, a questão da ética da oralidade, entendida como os limites da liberdade sobre práticas orais, coloca o humano em relação direta com a civilização e a barbárie.

Atualmente, os chamados distúrbios da oralidade - anorexia, bulimia, obesidade, alcoolismo, drogadição, voracidade, cobiça, insaciabilidade, ambição desmesurada, fissura, sofreguidão, glutonice, avidez, devoração - estão de tal forma presentes em nossa civilização, que colocam em risco não só a existência pessoal, mas a da própria espécie humana e sua espaçonave.

Esses sintomas são claramente destrutivos e, por isso mesmo, merecem nosso esforço de pensamento buscando sua compreensão e sua resolução.

A AUPPF conta com a presença de um grande número de participantes apresentando trabalhos em nosso já tradicional encontro bi-anual.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Encontro com a Vera Besset - Maringá


terça-feira, 24 de abril de 2012

Um pouco sobre o Inconsciente em Freud e Lacan.

Muito se fala sobre o inconsciente em psicanálise, e muitas coisas devem ser esclarecidas sobre este tema. Estudantes, profissionais e a população em geral normalmente tem a sensação de que o inconsciente seria algo das profundezas do psiquismo. Algo como uma entidade, um ser que está lá adormecido nas entranhas dos homens e que de alguma maneira não deve ser tocado. Ao contrário, deve ser dominado, domesticado, refreado, contido.

Bom, não é desde inconsciente que fala Freud em 1915 (depois em 1930 no texto "mal-estar na civilização" ele irá sedimentar melhor o pensamento de que coisas boas encontram-se neste estado). Lacan em 1964 chega a afirmar que o inconsciente "Não é o lugar das divindades da noite" (p.31) embora no mesmo texto, Lacan traga que Freud em seu texto "A ciência dos sonhos" afirma que dali saem larvas. Mas o que afinal seriam estas larvas?

Pensemos que as larvas aqui descritas são aquilo que nos incomodam, que nos trazem uma sensação de asco, que nos movem a julgar moralmente, ou ainda que ao olharmos para elas, sentimos vergonha de as ter cultivado em nosso íntimo. Sim, cultivamos as larvas que não queremos olhar, e até aqui o cultivo, ou ainda o ato de alimentá-las com nosso sangue, nos revela muito sobre este inconsciente que está vivo. Alimentamos as larvas para não ter que se haver com a fome delas, com sua reinvidicação, como animais que são acalmados com comidas para que seus donos não tenham problemas com eles.

No entanto é necessário dizer que estas larvas não estão nas profundezas, mas antes, se apresentam sempre em nossa face. Nós é quem não conseguimos enxergá-las em nós mesmos. Aí temos as formas de nos defendermos daquilo que nos é tão íntimo, que está em nossas entranhas, enraizado e que produz seus frutos em nossa face.

Com frequência aquilo que não suportamos nos outros é justamente aquilo de que tanto tentamos fugir de nós mesmos. Aqui funciona alguns mecanismos deste "local de larvas" para não ser identificado em nós, por exemplo, o mecanismo da projeção. Projeta-se em alguém, e normalmente a sensação é muito maior do que de fato a característica se apresenta na personalidade da pessoa, e a partir disso temos alguém muito mais que nós mesmos, o que nos move a fixar o olhar na imagem do outro. Assim como Narciso (no mito) fixou-se na imagem refletida na água.

O inconsciente está aí, na cara, na face, no reflexo de si mesmo no outro. Simplesmente não temos condições para aceitar. Seja por vergonha (medo de reprovação), asco (medo de ficar impuro e ser exluído da presença dos "puros") ou ainda pela moral (medo de ser julgado e condenado socialmente). Embora pareça que não, estes três "diques psíquicos" (Freud, 1926), dizem da mesma coisa, ou seja, o medo de ser excluído da relação com outro que amo, seja eu mesmo este outro, ou ainda um outro qualquer que me ame. Em última instância, estes três fatores (asco, vergonha e moral) me impedem de reconhecer em mim aquilo que imagino que o outro irá reprovar. Efim, medo de perder o amor pelo qual tenho orientado minha vida (Freud, 1930).

O interessante disso tudo é que justamente, as larvas estão em nossa face, comem-nos de fora para dentro, e as marcas ficam à lá "O Retrato de Dorian Gray". No livro não é difernete, embora as pessoas não percebam a verdadeira face do jovem, eles percebem que algo esta muito estranho, afinal de contas o tempo para ele não passou. 

O inconsciente embora seja atemporal (enquanto cronológico) ele nos move em direção ao tempo, ele é movimento que tem seu próprio tempo, o tempo das marcas. O personagem do romance no entanto não tem marca alguma senão a marca do tempo que não passou. O inconsciente está na cara das pessoas, seja por lágrimas diante uma situação ruim, ou pelo leve sorriso diante de uma felicidade incontida. 

Incontido, esta é a palavra que nos ajuda a definir o inconsciente, ele não pode ser contido. Não pode, porque não temos forças suficientes para isso, mas tentamos. O Ego trabalha, como diria Freud, "como um caveleiro que conduz o cavalo" o cavalo é mais forte e segue adiante, mas o caveleiro quem designa o caminho a seguir. 

O inconsciente então é revelado, ora como força, ora como local e ora como estado, isso em Freud. Lacan vai reunir tudo isso e em 1964 vai indicar que o inconsciente é tudo isso junto, e ainda mais, vai ao cerne da questão e afirmar que "é estruturado como a linguagem", o inconsciente fala, é vivo, chegando a afirmar que de fato, "O que o sujeito (do inconsciente)* mais teme é nos enganar, nos colocar numa pista falsa ou, mais simplesmente, que nós nos enganemos, pois, antes de mais nada, é bem claro, vendo nossa cara, que nós somos pessoas que podemos nos enganar como todo mundo" (Lacan 1964, p.43). 

O inconsciente então meus amigos, é simplesmente aquilo que está para além de nossa imagem refletida no espelho. Revela-se a nós como larvas que nos comem por dentro, porque nos revelam nossa própria condição humana, nossa existência passageira, nossos desejos. O inconsciente não é uma entidade demoníaca (muito menos o ID freudiano), ele apenas é a verdade sobre nós mesmos, na qual, devido ao medo de perder o amor do outro (Freud, 1930), não nos permitimos enxergar.


_______________________________

* - Lacan quando cita o Sujeito aqui, está falando do inconsciente, porém julguei necessário os paraenteses acrescentando o termo "inconsciente" pois não consta neste parágrafo específico exatamente esta expressão"Sujeito do inconsciente", embora, durante a leitura fique claro que ele está de fato falando do Sujeito do Incosciente.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Trabalhar com palavras - A psicanálise e seu método parte I

Pense no que estas palavras significam para você:

Amor
Encontro
Extase
Gozo
Dor
Pecado
Deus
Lágrima
Tristeza
Medo
Terror
Pânico
Animal
Tubarão
Vida
Morte
Perda
Luto
Saudade
Indiferença

Se estas palavras, apenas as palavras desconectadas de qualquer outra palavra de alguma forma lhe impresionaram por favor, peço que coloque um comentário abaixo para semana que vem prosseguirmos com o trabalho.

Grande abraço a todos e espero vossa cooperação...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Depressão e capitalismo: entrevista com Maria Rita Kehl

Depressão e capitalismo: entrevista com Maria Rita Kehl.

 Entrevista realizada pelo jornalista Luiz Zanin para o Estadão, caderno Cultura.

Amigos, segue aí a entrevista que fiz com Maria Rita Kehl sobre seu livro O Tempo e o Cão, publicada no Cultura do domingo passado. 

Habituados, por dever de ofício, a ouvir os outros, os psicanalistas são seres que se autoobservam. Maria Rita Kehl dirigia seu carro pela Via Dutra, quando surgiu pela frente um cachorro. Não havia como parar, o carro estava acossado pelos caminhões que vinham por trás. O animal foi atropelado, e saiu mancando pelo acostamento. O choque fez a psicanalista meditar sobre a velocidade que preside a vida contemporânea, a aceleração que nos leva a reagir instantaneamente a tudo que acontece para, em seguida, esquecer com igual rapidez. Vivemos em regime de um eterno presente, cada vez mais intenso. E cada vez mais sem sentido, para não dizer “alienado”, conforme vocabulário de outra época.
Em sua clínica, e na própria literatura das profissões psi, Maria Rita tem observado o aumento de queixas de depressão. Talvez seja o mal-estar do século, a “moléstia” do capitalismo turbinado e globalizado. O cão da Via Dutra (que, afinal, não morreu no acidente) a ajudou a juntar as duas pontas do problema e relacionar a depressão com determinada experiência do tempo: talvez os deprimidos sejam os sujeitos que “sofrem de um sentimento de tempo estagnado, desajustados do tempo sôfrego do mundo capitalista”.
Esta a hipótese de O Tempo e o Cão (Boitempo, 304 págs., R$ 39), livro que faz com que análise clínica e crítica social dialoguem e se completem de modo a iluminar o fenômeno da depressão contemporânea. A seguir, a entrevista concedida pela psicanalista ao Estado.

Primeiro, a questão do método. Eu me refiro à maneira eclética de mesclar conceitos psicanalíticos (em especial de Lacan) com ideias da filosofia, principalmente dos frankfurtianos, a partir de Benjamin. Como chegou a essa síntese fértil para abordar um tema específico como o das depressões?

Esta primeira pergunta me é particularmente interessante. Na verdade, o que faço não é nada novo. O próprio pensamento de Lacan, muitíssimo mais abrangente que o meu, dialoga constantemente com pensadores de outras áreas, tanto os contemporâneos dele quanto os clássicos. Os frankfurtianos, por sua vez, incluem a psicanálise como uma das ferramentas da teoria crítica – entre eles, penso que quem melhor compreendeu Freud foi Walter Benjamin. Hoje quem faz isso com mais ousadia, a meu ver, é o Slavoj Zizek; no Brasil, posso citar rapidamente Paulo Arantes e Vladimir Safatle, entre outros, de modo que me considero muito bem acompanhada.

O título do livro, O Tempo e o Cão, refere-se diretamente a uma experiência, que imagino um tanto traumática, de atropelar um cachorro na estrada. Gostaria que explicasse como elaborou esse incidente no sentido de uma percepção das relações entre a depressão e a temporalidade.

Foi um acidente de pequena importância até mesmo para o cão, que consegui não matar por sorte. Por pouco, a velocidade normal do tráfego na Via Dutra, entre caminhões e ônibus, me obrigaria a passar por cima dele. Se em vez de um cão fosse uma criança seria impensável não frear, mas teria provocado um acidente de proporções tremendas. Qual a novidade disso? Sabemos que a velocidade regular de nossa vida cotidiana é brutal; estamos habituados a ela. Mas o incidente na estrada me fez pensar nos efeitos subjetivos da aceleração da vida contemporânea. Na época andava lendo Benjamin, para quem a atividade contínua de “aparar os choques” da vida moderna (repare que ele escrevia sobre Paris no final do 19) é incompatível com a dimensão da experiência e está entre as causas do que ele chama de melancolia. Comecei a pensar no livro por aí.

Interessantes as objeções ao uso intensivo dos medicamentos no tratamento psiquiátrico das depressões. A doutrina da “eficácia contemporânea” passa necessariamente pela medicalização do sintoma?

Eu não condeno em bloco o uso dos antidepressivos. Sei que muitas pessoas dependem de medicação até para sair de casa e chegar ao analista. Os antidepressivos podem salvar vidas. Minha crítica se refere ao uso indiscriminado de medicamento como tentativa de apagamento do sujeito do inconsciente, segundo a lógica de que o valor da vida se mede pela eficiência. Os efeitos dessa aliança sobre o modo como as pessoas tentam suprimir as próprias crises normais da existência com medicamentos, a meu ver, incluem-se entre as causas do aumento das depressões no século 21.

De que maneira isso também pode ser interpretado como uma conivência entre a psiquiatria e o interesse econômico dos laboratórios?

Este é um fato objetivo. A pressão dos laboratórios sobre os psiquiatras, a presença maciça das grandes marcas de medicamentos a financiar congressos de psiquiatria, o prestígio dos medicamentos de última geração, em relação aos quais os psiquiatras temem ficar desatualizados e perder clientela, etc. A psiquiatria hoje está tão atrelada às descobertas da indústria farmacêutica que, de acordo com alguns críticos da área, a produção de um pensamento teórico sobre as doenças mentais se reduziu a zero. Virou uma “psiquiatria veterinária”, na expressão do psicanalista André Green. Mas há importantes exceções a este estado de coisas; não são poucos os psiquiatras que indicam que a medicação deva ser acompanhada de alguma forma de terapia da palavra.

De qualquer forma, o que parece contar mesmo é a “aceleração do tempo” contemporâneo. Ponho entre aspas porque o tempo não acelera e sim a nossa percepção dele. Você associa esse fenômeno às novas tecnologias, ao chamado turbocapitalismo? Estes fenômenos predispõem à depressão?

Você tem toda a razão, não é o tempo que acelera, somos nós. Aliás, o que é o tempo? A leitura de Henri Bergson me foi de grande valia para pensar nessa questão. A impressão que se tem, desde a revolução industrial, é que o tempo em sua dimensão cronológica vem se acelerando de uma forma exasperante. Quanto mais tentamos aproveitar o tempo, quanto mais dispomos das horas e dos dias segundo a convicção de que “tempo é dinheiro”, mais sofremos do sentimento de desperdiçar a vida. Você já reparou que depois de uma semana muito corrida, com a agenda repleta de compromissos, tem-se a impressão de que o tempo voou e nada aconteceu? O que me preocupa é que, na tentativa de fazer render o tempo desde o começo da vida, hoje os pais de classe média e alta começam a educar seus filhos segundo o mesmo princípio da agenda cheia. Algumas dessas crianças cheias de compromissos se tornam insatisfeitas, dependentes de estimulação externa, incapazes de devanear e inventar brincadeiras quando estão desocupadas.

Achei interessante (e alarmante) essa questão das mães ansiosas, que não conseguem dar aos filhos o seu devido tempo e mantêm uma expectativa alta em seu desempenho. Em que medida isso afeta a criança e a predispõe à depressão? A posição (enfraquecida) dos pais também chama a atenção. De que maneira a família nuclear parece se desagregar atualmente por força das exigências sociais crescentes?

Essa pergunta são duas, certo? A ansiedade materna, bem antes de se manifestar como expectativa pelo desempenho da criança, tem a ver com a pressa em mantê-la sempre satisfeita. Mas a melhor forma de amar uma criança não é impedir que ela conheça a falta: a falta é constitutiva do aparelho psíquico. Ela não pode faltar! A criança começa a virar gente (sujeito) ao inventar recursos simbólicos para lidar com o vazio e a insatisfação. Ora, a sociedade em que vivemos é regida por essa espécie de imperativo kantiano às avessas: goze. Que dizer da obrigatoriedade do gozo? Ela só não é mais danosa porque é impossível de cumprir. Aqui entra sua segunda questão: os chamados pais enfraquecidos são exatamente os que vivem em dívida com a satisfação de seus filhos. Difícil encontrar algum ideal tão inquestionável quanto o prazer. Mesmo os pais que não desconhecem a função de colocar limites aos excessos de suas crianças, não encontram outros ideais para transmitir a elas.

De certa forma, a modernidade pode ser vista como uma patologia do tempo, que atingiu um ponto insuportável de aceleração. Acredita que esse fator ou pode produzir outros sintomas psíquicos além da depressão?

Certamente sim: as drogadições, por exemplo, não seriam sintomas da urgência em gozar que comanda a vida contemporânea? E a violência banalizada nas grandes cidades, não seria sinal do encolhimento da capacidade de negociar conflitos em função dessa mesma urgência?

Você acredita que um estudo psicanalítico desse tipo funciona também como uma crítica ao capitalismo contemporâneo, ao consumismo, à reificação crescente, etc?

Espero que sim, ainda que as críticas jamais tenham tido o poder de derrubar o capitalismo. O que o poderá derrubar, algum dia, serão as condições materiais concretas produzidas por suas próprias contradições. Nossa: agora falei como uma cartilha. Mas penso que a produção do pensamento crítico é um importante dispositivo contra o conformismo, o sentimento fatalista de que está “tudo dominado”, de que o capitalismo conseguiu anular todas as visões de mundo diferentes dele. A crítica é um “veneno antimelancolia”, no sentido benjaminiano da “indolência do coração” que caracteriza a atitude fatalista.

Já detectou em sua clínica alguma repercussão da atual crise econômica mundial? Acha que ela contribuirá para gerar mais depressivos ou ao contrário, pode produzir uma conscientização crítica do modelo atual?

No meu consultório, casualmente, não. Pode ser questão de tempo. Quanto à crise atual provocar ainda mais depressões, respondo que sim, no que concerne ao desemprego, ao desamparo, à desesperança dos que são chutados para fora do sistema produtivo como seres supérfluos. E por outro lado, não: o abalo do pensamento único que correspondia ao triunfo da concentração do capital financeiro poderá ter interessantes efeitos antidepressivos. Somos novamente convocados a pensar, fazer projetos coletivos, resgatar esperanças em outra ordem mais justa que esta que causou o desastre. O singular, o modesto, o pequeno, poderão retomar seu trabalho nas brechas do grandioso, do monumental, do “dinheiro que apenas se olha” (Débord). Os movimentos sociais poderão se revitalizar; as pessoas poderão reinventar a ação política e deixar de se sentir supérfluas. Quem sabe o fatalismo melancólico deixe de dominar a subjetividade?

Você acha que a proliferação de manuais de autoajuda, de receitas de felicidade, tem algo a ver com a “felicidade obrigatória” que a sociedade do desempenho nos prescreve?

Concordo com você. Mas respeito aqueles que, na falta de outros recursos, buscam nesses livros caminhos para sair da depressão. Ocorre que o ideal de felicidade, que no século 18 nos libertou do conformismo religioso, hoje se tornou opressivo. Virou uma subideologia da sociedade de consumo. Ora, a felicidade não é uma mercadoria que se possua. Não é uma conquista do ego; ela não para quieta, não nos garante nada. As pessoas sentem-se culpadas por não possuir a tal felicidade, o que os torna ainda mais infelizes. Prefiro, com Oswald de Andrade, deixar de lado a felicidade e apostar na prova dos nove da alegria.

Você vê possibilidade de diminuir o sofrimento do depressivo, sem alterar as condições sociais que com ele se relacionam?

Você me permite esclarecer um ponto importante. A ideia de que a depressão seja um sintoma social não significa que os depressivos devam ser tratados como casos sociológicos. Os depressivos devem ser escutados, como todos os que buscam a psicanálise, um a um. Assim, em sua singularidade irredutível, deve ser conduzida a análise dos depressivos – que passa, necessariamente, pela reversão da forma como cada um deles se deixou alienar (como todo sujeito, aliás) pelas formações hegemônicas do imaginário social.

domingo, 1 de abril de 2012

Psicanálise e a Falta.

by: Orlando Pedroso
Quem já se aventurou em ler um pouco de Freud sabe o que significa esta imagem produzida por Orlando Pedroso.

Como diria o ditado clichê "uma imagem vale mais que mil palavras".

Fico me perguntando as vezes o que seria uma imagem que representasse de fato a psicanálise, em especial meu trabalho clínico.

É impressionante como as vezes as imagens não represntam a exatidão do que se deseja representar, talvez esta não seja a função delas, talvez seja exatamente de fazer como a própria psicanálise, ou ainda, como o próprio Freud o fez em seus textos, colocar questões.

Existe um algo ali a ser examinado, a ser crivado, a ser compreendido, mas que de alguma forma por mais que se fale sobre nunca se chega a UMA definição do incognoscível. A palavra de ordem aqui é FALTA. Faltam palavras na verdade. Faltam palavras que descrevam, falta tempo para pensar, falta dinheiro para pagar por sessões diárias no intuito de encontrar-se com aquilo que faz ALGO em minha vida, mas que não tenho nem idéia do que pode ser. O que pode ser tanto AQUILO que faz algo, quanto o ALGO que faz aquilo.

E literalmente faz a KILO, faz muito, pesa, sobrecarrega, e quem carrega todo este peso é o coitado do EU. Que não suporta, mas é suporte para o que se manifesta independente de sua vontade, de sua consciência, ou ainda, de si mesmo.

Uma resposta a uma pergunta e um incomodo como se ainda não fosse a resposta certa. O divã é como uma máquina do tempo onde as pessoa entram a dentro em seu passado para tentar explicar o que queriam ter dito. Queriam, mas pesou muito o Kilo daquilo que foi dito e novamente o analisando já está falando de outra coisa, incerto do resultado de sua explanação, mas esá tentando.

Pesa aqui, mede ali, a palavra vai ganhando status de objeto, vai representando de fato a coisa incognoscível, pela primeira vez (novamente) a coisa vai ganhando forma, vai se caracterizando, vai ganhando caráter de uma letra, como um caractere, algo real. De repente, após dizer tudo sobre aquilo, algo escapa, algo falta, uma pergunta vem a cabeça:

- E agora o que faço com isso?

O isso, deixa de ser aquilo, passa a ser algo conhecido, mas estranhamente, à lá "O Sinistro" de Freud, já era conhecido desde sempre. E se era conhecido desde sempre, não é de fato o que faltava saber.

E vamos nós de novo na próxima sessão com o mesmo método, tentar saber o que falta, e assim por diante até que o que falta deixa de ser importantante. Continua claro e evidentemente funcionando ali, incognoscivelmente, mas continua presente. 

O método passa a ser mais importante que a falta em si, pois frente a falta, descobriu-se um meio de lidar com isso, ou seja, falar sobre isso, falar sobre a coisa. Aos poucos falar sobre a coisa também deixa de ser importante, encontrá-la, conceituá-la, racionálizá-la, negá-la, encontrá-la deixa de ser o que o é buscado em analise.

A análise entra em outro tempo, o tempo de falar da falta. 

Falta AQUILO, falta a KILO, muita falta.

Falta, por isso o método analítico é importante, senão imprescindível, porque até hoje, mesmo com o avanço tecnólogico (que só avança porque algo falta), mesmo com as religiões (que buscam Aquele que falta), ou mesmo com a arte (que representam senão o que falta, ao menos mostram que ainda falta) TUDO tenta lidar com a FALTA mas só a análise permite àquele que se ve faltante, de fato ser faltante ser uma falta-atuante.

Então acho que cheguei à resposta que me perguntei no começo do texto, uma imagem que representasse de fato a psicanálise não existe, ainda falta.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Grants For Single Moms