quarta-feira, 4 de abril de 2012

Depressão e capitalismo: entrevista com Maria Rita Kehl

Depressão e capitalismo: entrevista com Maria Rita Kehl.

 Entrevista realizada pelo jornalista Luiz Zanin para o Estadão, caderno Cultura.

Amigos, segue aí a entrevista que fiz com Maria Rita Kehl sobre seu livro O Tempo e o Cão, publicada no Cultura do domingo passado. 

Habituados, por dever de ofício, a ouvir os outros, os psicanalistas são seres que se autoobservam. Maria Rita Kehl dirigia seu carro pela Via Dutra, quando surgiu pela frente um cachorro. Não havia como parar, o carro estava acossado pelos caminhões que vinham por trás. O animal foi atropelado, e saiu mancando pelo acostamento. O choque fez a psicanalista meditar sobre a velocidade que preside a vida contemporânea, a aceleração que nos leva a reagir instantaneamente a tudo que acontece para, em seguida, esquecer com igual rapidez. Vivemos em regime de um eterno presente, cada vez mais intenso. E cada vez mais sem sentido, para não dizer “alienado”, conforme vocabulário de outra época.
Em sua clínica, e na própria literatura das profissões psi, Maria Rita tem observado o aumento de queixas de depressão. Talvez seja o mal-estar do século, a “moléstia” do capitalismo turbinado e globalizado. O cão da Via Dutra (que, afinal, não morreu no acidente) a ajudou a juntar as duas pontas do problema e relacionar a depressão com determinada experiência do tempo: talvez os deprimidos sejam os sujeitos que “sofrem de um sentimento de tempo estagnado, desajustados do tempo sôfrego do mundo capitalista”.
Esta a hipótese de O Tempo e o Cão (Boitempo, 304 págs., R$ 39), livro que faz com que análise clínica e crítica social dialoguem e se completem de modo a iluminar o fenômeno da depressão contemporânea. A seguir, a entrevista concedida pela psicanalista ao Estado.

Primeiro, a questão do método. Eu me refiro à maneira eclética de mesclar conceitos psicanalíticos (em especial de Lacan) com ideias da filosofia, principalmente dos frankfurtianos, a partir de Benjamin. Como chegou a essa síntese fértil para abordar um tema específico como o das depressões?

Esta primeira pergunta me é particularmente interessante. Na verdade, o que faço não é nada novo. O próprio pensamento de Lacan, muitíssimo mais abrangente que o meu, dialoga constantemente com pensadores de outras áreas, tanto os contemporâneos dele quanto os clássicos. Os frankfurtianos, por sua vez, incluem a psicanálise como uma das ferramentas da teoria crítica – entre eles, penso que quem melhor compreendeu Freud foi Walter Benjamin. Hoje quem faz isso com mais ousadia, a meu ver, é o Slavoj Zizek; no Brasil, posso citar rapidamente Paulo Arantes e Vladimir Safatle, entre outros, de modo que me considero muito bem acompanhada.

O título do livro, O Tempo e o Cão, refere-se diretamente a uma experiência, que imagino um tanto traumática, de atropelar um cachorro na estrada. Gostaria que explicasse como elaborou esse incidente no sentido de uma percepção das relações entre a depressão e a temporalidade.

Foi um acidente de pequena importância até mesmo para o cão, que consegui não matar por sorte. Por pouco, a velocidade normal do tráfego na Via Dutra, entre caminhões e ônibus, me obrigaria a passar por cima dele. Se em vez de um cão fosse uma criança seria impensável não frear, mas teria provocado um acidente de proporções tremendas. Qual a novidade disso? Sabemos que a velocidade regular de nossa vida cotidiana é brutal; estamos habituados a ela. Mas o incidente na estrada me fez pensar nos efeitos subjetivos da aceleração da vida contemporânea. Na época andava lendo Benjamin, para quem a atividade contínua de “aparar os choques” da vida moderna (repare que ele escrevia sobre Paris no final do 19) é incompatível com a dimensão da experiência e está entre as causas do que ele chama de melancolia. Comecei a pensar no livro por aí.

Interessantes as objeções ao uso intensivo dos medicamentos no tratamento psiquiátrico das depressões. A doutrina da “eficácia contemporânea” passa necessariamente pela medicalização do sintoma?

Eu não condeno em bloco o uso dos antidepressivos. Sei que muitas pessoas dependem de medicação até para sair de casa e chegar ao analista. Os antidepressivos podem salvar vidas. Minha crítica se refere ao uso indiscriminado de medicamento como tentativa de apagamento do sujeito do inconsciente, segundo a lógica de que o valor da vida se mede pela eficiência. Os efeitos dessa aliança sobre o modo como as pessoas tentam suprimir as próprias crises normais da existência com medicamentos, a meu ver, incluem-se entre as causas do aumento das depressões no século 21.

De que maneira isso também pode ser interpretado como uma conivência entre a psiquiatria e o interesse econômico dos laboratórios?

Este é um fato objetivo. A pressão dos laboratórios sobre os psiquiatras, a presença maciça das grandes marcas de medicamentos a financiar congressos de psiquiatria, o prestígio dos medicamentos de última geração, em relação aos quais os psiquiatras temem ficar desatualizados e perder clientela, etc. A psiquiatria hoje está tão atrelada às descobertas da indústria farmacêutica que, de acordo com alguns críticos da área, a produção de um pensamento teórico sobre as doenças mentais se reduziu a zero. Virou uma “psiquiatria veterinária”, na expressão do psicanalista André Green. Mas há importantes exceções a este estado de coisas; não são poucos os psiquiatras que indicam que a medicação deva ser acompanhada de alguma forma de terapia da palavra.

De qualquer forma, o que parece contar mesmo é a “aceleração do tempo” contemporâneo. Ponho entre aspas porque o tempo não acelera e sim a nossa percepção dele. Você associa esse fenômeno às novas tecnologias, ao chamado turbocapitalismo? Estes fenômenos predispõem à depressão?

Você tem toda a razão, não é o tempo que acelera, somos nós. Aliás, o que é o tempo? A leitura de Henri Bergson me foi de grande valia para pensar nessa questão. A impressão que se tem, desde a revolução industrial, é que o tempo em sua dimensão cronológica vem se acelerando de uma forma exasperante. Quanto mais tentamos aproveitar o tempo, quanto mais dispomos das horas e dos dias segundo a convicção de que “tempo é dinheiro”, mais sofremos do sentimento de desperdiçar a vida. Você já reparou que depois de uma semana muito corrida, com a agenda repleta de compromissos, tem-se a impressão de que o tempo voou e nada aconteceu? O que me preocupa é que, na tentativa de fazer render o tempo desde o começo da vida, hoje os pais de classe média e alta começam a educar seus filhos segundo o mesmo princípio da agenda cheia. Algumas dessas crianças cheias de compromissos se tornam insatisfeitas, dependentes de estimulação externa, incapazes de devanear e inventar brincadeiras quando estão desocupadas.

Achei interessante (e alarmante) essa questão das mães ansiosas, que não conseguem dar aos filhos o seu devido tempo e mantêm uma expectativa alta em seu desempenho. Em que medida isso afeta a criança e a predispõe à depressão? A posição (enfraquecida) dos pais também chama a atenção. De que maneira a família nuclear parece se desagregar atualmente por força das exigências sociais crescentes?

Essa pergunta são duas, certo? A ansiedade materna, bem antes de se manifestar como expectativa pelo desempenho da criança, tem a ver com a pressa em mantê-la sempre satisfeita. Mas a melhor forma de amar uma criança não é impedir que ela conheça a falta: a falta é constitutiva do aparelho psíquico. Ela não pode faltar! A criança começa a virar gente (sujeito) ao inventar recursos simbólicos para lidar com o vazio e a insatisfação. Ora, a sociedade em que vivemos é regida por essa espécie de imperativo kantiano às avessas: goze. Que dizer da obrigatoriedade do gozo? Ela só não é mais danosa porque é impossível de cumprir. Aqui entra sua segunda questão: os chamados pais enfraquecidos são exatamente os que vivem em dívida com a satisfação de seus filhos. Difícil encontrar algum ideal tão inquestionável quanto o prazer. Mesmo os pais que não desconhecem a função de colocar limites aos excessos de suas crianças, não encontram outros ideais para transmitir a elas.

De certa forma, a modernidade pode ser vista como uma patologia do tempo, que atingiu um ponto insuportável de aceleração. Acredita que esse fator ou pode produzir outros sintomas psíquicos além da depressão?

Certamente sim: as drogadições, por exemplo, não seriam sintomas da urgência em gozar que comanda a vida contemporânea? E a violência banalizada nas grandes cidades, não seria sinal do encolhimento da capacidade de negociar conflitos em função dessa mesma urgência?

Você acredita que um estudo psicanalítico desse tipo funciona também como uma crítica ao capitalismo contemporâneo, ao consumismo, à reificação crescente, etc?

Espero que sim, ainda que as críticas jamais tenham tido o poder de derrubar o capitalismo. O que o poderá derrubar, algum dia, serão as condições materiais concretas produzidas por suas próprias contradições. Nossa: agora falei como uma cartilha. Mas penso que a produção do pensamento crítico é um importante dispositivo contra o conformismo, o sentimento fatalista de que está “tudo dominado”, de que o capitalismo conseguiu anular todas as visões de mundo diferentes dele. A crítica é um “veneno antimelancolia”, no sentido benjaminiano da “indolência do coração” que caracteriza a atitude fatalista.

Já detectou em sua clínica alguma repercussão da atual crise econômica mundial? Acha que ela contribuirá para gerar mais depressivos ou ao contrário, pode produzir uma conscientização crítica do modelo atual?

No meu consultório, casualmente, não. Pode ser questão de tempo. Quanto à crise atual provocar ainda mais depressões, respondo que sim, no que concerne ao desemprego, ao desamparo, à desesperança dos que são chutados para fora do sistema produtivo como seres supérfluos. E por outro lado, não: o abalo do pensamento único que correspondia ao triunfo da concentração do capital financeiro poderá ter interessantes efeitos antidepressivos. Somos novamente convocados a pensar, fazer projetos coletivos, resgatar esperanças em outra ordem mais justa que esta que causou o desastre. O singular, o modesto, o pequeno, poderão retomar seu trabalho nas brechas do grandioso, do monumental, do “dinheiro que apenas se olha” (Débord). Os movimentos sociais poderão se revitalizar; as pessoas poderão reinventar a ação política e deixar de se sentir supérfluas. Quem sabe o fatalismo melancólico deixe de dominar a subjetividade?

Você acha que a proliferação de manuais de autoajuda, de receitas de felicidade, tem algo a ver com a “felicidade obrigatória” que a sociedade do desempenho nos prescreve?

Concordo com você. Mas respeito aqueles que, na falta de outros recursos, buscam nesses livros caminhos para sair da depressão. Ocorre que o ideal de felicidade, que no século 18 nos libertou do conformismo religioso, hoje se tornou opressivo. Virou uma subideologia da sociedade de consumo. Ora, a felicidade não é uma mercadoria que se possua. Não é uma conquista do ego; ela não para quieta, não nos garante nada. As pessoas sentem-se culpadas por não possuir a tal felicidade, o que os torna ainda mais infelizes. Prefiro, com Oswald de Andrade, deixar de lado a felicidade e apostar na prova dos nove da alegria.

Você vê possibilidade de diminuir o sofrimento do depressivo, sem alterar as condições sociais que com ele se relacionam?

Você me permite esclarecer um ponto importante. A ideia de que a depressão seja um sintoma social não significa que os depressivos devam ser tratados como casos sociológicos. Os depressivos devem ser escutados, como todos os que buscam a psicanálise, um a um. Assim, em sua singularidade irredutível, deve ser conduzida a análise dos depressivos – que passa, necessariamente, pela reversão da forma como cada um deles se deixou alienar (como todo sujeito, aliás) pelas formações hegemônicas do imaginário social.

domingo, 1 de abril de 2012

Psicanálise e a Falta.

by: Orlando Pedroso
Quem já se aventurou em ler um pouco de Freud sabe o que significa esta imagem produzida por Orlando Pedroso.

Como diria o ditado clichê "uma imagem vale mais que mil palavras".

Fico me perguntando as vezes o que seria uma imagem que representasse de fato a psicanálise, em especial meu trabalho clínico.

É impressionante como as vezes as imagens não represntam a exatidão do que se deseja representar, talvez esta não seja a função delas, talvez seja exatamente de fazer como a própria psicanálise, ou ainda, como o próprio Freud o fez em seus textos, colocar questões.

Existe um algo ali a ser examinado, a ser crivado, a ser compreendido, mas que de alguma forma por mais que se fale sobre nunca se chega a UMA definição do incognoscível. A palavra de ordem aqui é FALTA. Faltam palavras na verdade. Faltam palavras que descrevam, falta tempo para pensar, falta dinheiro para pagar por sessões diárias no intuito de encontrar-se com aquilo que faz ALGO em minha vida, mas que não tenho nem idéia do que pode ser. O que pode ser tanto AQUILO que faz algo, quanto o ALGO que faz aquilo.

E literalmente faz a KILO, faz muito, pesa, sobrecarrega, e quem carrega todo este peso é o coitado do EU. Que não suporta, mas é suporte para o que se manifesta independente de sua vontade, de sua consciência, ou ainda, de si mesmo.

Uma resposta a uma pergunta e um incomodo como se ainda não fosse a resposta certa. O divã é como uma máquina do tempo onde as pessoa entram a dentro em seu passado para tentar explicar o que queriam ter dito. Queriam, mas pesou muito o Kilo daquilo que foi dito e novamente o analisando já está falando de outra coisa, incerto do resultado de sua explanação, mas esá tentando.

Pesa aqui, mede ali, a palavra vai ganhando status de objeto, vai representando de fato a coisa incognoscível, pela primeira vez (novamente) a coisa vai ganhando forma, vai se caracterizando, vai ganhando caráter de uma letra, como um caractere, algo real. De repente, após dizer tudo sobre aquilo, algo escapa, algo falta, uma pergunta vem a cabeça:

- E agora o que faço com isso?

O isso, deixa de ser aquilo, passa a ser algo conhecido, mas estranhamente, à lá "O Sinistro" de Freud, já era conhecido desde sempre. E se era conhecido desde sempre, não é de fato o que faltava saber.

E vamos nós de novo na próxima sessão com o mesmo método, tentar saber o que falta, e assim por diante até que o que falta deixa de ser importantante. Continua claro e evidentemente funcionando ali, incognoscivelmente, mas continua presente. 

O método passa a ser mais importante que a falta em si, pois frente a falta, descobriu-se um meio de lidar com isso, ou seja, falar sobre isso, falar sobre a coisa. Aos poucos falar sobre a coisa também deixa de ser importante, encontrá-la, conceituá-la, racionálizá-la, negá-la, encontrá-la deixa de ser o que o é buscado em analise.

A análise entra em outro tempo, o tempo de falar da falta. 

Falta AQUILO, falta a KILO, muita falta.

Falta, por isso o método analítico é importante, senão imprescindível, porque até hoje, mesmo com o avanço tecnólogico (que só avança porque algo falta), mesmo com as religiões (que buscam Aquele que falta), ou mesmo com a arte (que representam senão o que falta, ao menos mostram que ainda falta) TUDO tenta lidar com a FALTA mas só a análise permite àquele que se ve faltante, de fato ser faltante ser uma falta-atuante.

Então acho que cheguei à resposta que me perguntei no começo do texto, uma imagem que representasse de fato a psicanálise não existe, ainda falta.

sexta-feira, 16 de março de 2012

MANIFESTO CONTRA A MEDICALIZAÇÃO DA SOCIEDADE:

PARA ASSINAR O MANIFESTO CLIQUE AQUI:  http://www.crpsp.org.br/medicalizacao/manifesto_forum.aspx


De 11 a 13 de novembro de 2010, em torno de mil profissionais das áreas de Saúde e Educação, estudantes e representantes de entidades participaram do I Seminário Internacional "A Educação Medicalizada: Dislexia, TDAH e outros supostos transtornos", em São Paulo.

Como ação política deste evento, foi lançado o Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, de atuação permanente, que tem por finalidade articular entidades, grupos e pessoas para o enfrentamento e a superação do fenômeno da medicalização, bem como mobilizar a sociedade para a crítica à medicalização da aprendizagem e do comportamento.

Durante o lançamento do Fórum foi aprovado o Manifesto que, nesta ocasião, obteve a adesão de 450 participantes e de 27 entidades. Este documento destaca os objetivos do Fórum, suas diretrizes e propostas de atuação.

Consideramos fundamental que as discussões do Fórum possam se ampliar no âmbito da sociedade e, para tanto, convidamos você ou sua entidade para assinar este Manifesto, cujo teor apresentamos a seguir:

Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade

A sociedade brasileira vive um processo crescente de medicalização de todas as esferas da vida.

Entende-se por medicalização o processo que transforma, artificialmente, questões não médicas em problemas médicos. Problemas de diferentes ordens são apresentados como “doenças”, “transtornos”, “distúrbios” que escamoteiam as grandes questões políticas, sociais, culturais, afetivas que afligem a vida das pessoas. Questões coletivas são tomadas como individuais; problemas sociais e políticos são tornados biológicos. Nesse processo, que gera sofrimento psíquico, a pessoa e sua família são responsabilizadas pelos problemas, enquanto governos, autoridades e profissionais são eximidos de suas responsabilidades.

Uma vez classificadas como “doentes”, as pessoas tornam-se “pacientes” e consequentemente “consumidoras” de tratamentos, terapias e medicamentos, que transformam o seu próprio corpo no alvo dos problemas que, na lógica medicalizante, deverão ser sanados individualmente. Muitas vezes, famílias, profissionais, autoridades, governantes e formuladores de políticas eximem-se de sua responsabilidade quanto às questões sociais: as pessoas é que têm “problemas”, são “disfuncionais”, “não se adaptam”, são “doentes” e são, até mesmo, judicializadas.

A aprendizagem e os modos de ser e agir – campos de grande complexidade e diversidade – têm sido alvos preferenciais da medicalização. Cabe destacar que, historicamente, é a partir de insatisfações e questionamentos que se constituem possibilidades de mudança nas formas de ordenação social e de superação de preconceitos e desigualdades.

O estigma da “doença” faz uma segunda exclusão dos já excluídos – social, afetiva, educacionalmente – protegida por discursos de inclusão.

A medicalização tem assim cumprido o papel de controlar e submeter pessoas, abafando questionamentos e desconfortos; cumpre, inclusive, o papel ainda mais perverso de ocultar violências físicas e psicológicas, transformando essas pessoas em “portadores de distúrbios de comportamento e de aprendizagem”.

No Brasil, a crítica e o enfrentamento dos processos de medicalização ainda são muito incipientes.

É neste contexto que se constitui o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, que tem como objetivos: articular entidades, grupos e pessoas para o enfrentamento e superação do fenômeno da medicalização, bem como mobilizar a sociedade para a crítica à medicalização da aprendizagem e do comportamento.

O caráter do Fórum é político e de atuação permanente, constituindo-se a partir da qualidade da articulação de seus participantes e suas decisões serão tomadas, preferencialmente, por consenso. É composto por entidades, movimentos e pessoas que tenham interesse no tema e afinidade com os objetivos do Fórum.

O Fórum se fundamenta nos seguintes princípios:

- Contra os processos de medicalização da vida.
- Defesa das pessoas que vivenciam processos de medicalização.
- Defesa dos Direitos Humanos.
- Defesa do Estatuto da Criança e Adolescente.
- Direito à Educação pública, gratuita, democrática, laica, de qualidade e socialmente referenciada para todas e todos.
- Direito à Saúde e defesa do Sistema Único de Saúde – SUS e seus princípios.
- Respeito à diversidade e à singularidade, em especial, nos processos de aprendizagem.
- Valorização da compreensão do fenômeno medicalização em abordagem interdisciplinar.
- Valorização da participação popular.

O Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade se propõe os seguintes desafios:

I. Ampliar a democratização do debate
o Estabelecer mecanismos de interlocução com a sociedade civil
i. Popularizar o debate, sem perder o rigor científico.
ii. Pluralizar os meios de divulgação, incluindo cordéis, sites, artes em geral.
iii. Construir estratégias para ocupar espaços na mídia.

o Estabelecer mecanismos de interlocução com a academia
i. Ampliar a discussão entre profissionais das diversas áreas;
ii. Construir estratégias para ocupar espaços nos cursos de formação inicial e continuada dos profissionais das diversas áreas.
iii. Apoiar propostas curriculares de humanização das práticas de educação e de saúde.

o Socializar o significado da medicalização e suas consequências
i. Reconhecer as necessidades das famílias que vivenciam processos de medicalização.
ii. Esclarecer riscos da drogadição – drogas lícitas e ilícitas - como consequência da medicalização.
o Ampliar a compreensão sobre a diversidade e historicidade dos processos de aprendizagem e de desenvolvimento humano.
II. Construir estratégias que subvertam a lógica medicalizante
o Ampliar a produção teórica no campo da crítica à medicalização.
o Intervir na formulação de políticas públicas, subsidiando o embasamento em novas concepções de ser humano e de sociedade.
o Apoiar iniciativas de acolhimento e o fortalecimento das famílias, desmitificando pretensos benefícios da medicalização.
o Apoiar ações intersetoriais que enfrentem os processos de medicalização da vida.

São Paulo, 13 de novembro de 2010


Entidades que assinam o Manifesto até o momento:

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo – CRP-06

Grupo Interinstitucional Queixa Escolar - GIQE

Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional - ABRAPEE

Rede Humaniza Sistema Único de Saúde

Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente de São Paulo - CONDECA

Departamento de Pediatria - Faculdade Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP

Faculdade São Bento da Bahia – Curso de Psicologia

Faculdade Social da Bahia – Curso de Psicologia

Fórum de Saúde Mental do Butantã

Anhanguera Educacional

Sindicato dos Psicólogos do Estado de São Paulo - SINPSI

Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro – CRP 05

Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo -SINPEEM

Mandato do Vereador Eliseu Gabriel

Mandato do Vereador Claudio Fonseca

Mandato do Deputado Estadual Carlos Giannazi

Colégio Universitas - Ensino Médio – Santos, SP

Universidade Estadual de Maringá – UEM - Departamento de Psicologia

Fundação Criança de São Bernardo do Campo

Universidade Comunitária do Oeste Catarinense – UNOCHAPECÓ – Curso de Psicologia

Universidade Federal da Bahia – UFBA - Departamento de Educação

Associação de Docentes da Universidade de São Paulo - ADUSP

Associação Nacional de Pesquisa em Pós-Graduação – ANPED – GT Psicologia da Educação

Instituto Sedes Sapientiae

Associação Palavra Criativa

Universidade de São Paulo - Laboratório Interinstitucional de Estudos e Pesquisas em Psicologia Escolar e Educacional - LIEPPE

Centro de Saúde Escola “Samuel Barnsley Pessoa” (Butantã) Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - FMUSP

Grupo de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente – DEDICA – Curitiba, PR

União de Mulheres do Município de São Paulo

Sociedade de Pediatria de São Paulo - SPSP

Fórum Paulista de Educação Infantil

CNTE - Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação

CFP - Conselho Federal de Psicologia

Assinaram o Manifesto 450 participantes do I Seminário Educação Medicalizada: Dislexia, TDAH e outros supostos transtornos.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Antidepressivos e sua eficácia - Minha contribuição ao final da Reportagem...

As vendas dos antidepressivos nunca estiveram tão em alta. Só no Brasil, no primeiro semestre de 2011, foram comercializados 34,6 milhões desses remédios, um aumento de quase 50% em 4 anos, segundo a consultoria IMS Health. A mesma fonte aponta que, nos EUA, 253 milhões de receitas foram prescritas em 2010 — 22 milhões a mais que 3 anos antes. Na Inglaterra, o serviço de saúde calcula que o consumo cresceu mais de 25% entre 2007 e 2010.

Os números vêm chamando a atenção dos pesquisadores. Nos últimos anos, diversos estudos científicos surgiram para investigar essa epidemia de depressão. Alguns são alarmantes. Para muitos especialistas, antidepressivos não são mágicos. Pelo contrário. Podem ser até menos eficazes que pílulas de farinha — os placebos.

Um dos principais nomes a defender isso é o psicólogo clínico Irving Kirsch, professor da Universidade de Hull e autor do livro The Emperor's New Drugs, exploding the antidepressant myth (“As novas drogas do imperador, explodindo o mito dos antidepressivos”, sem edição brasileira). Ele analisou 38 dos testes clínicos — publicados ou não — que foram enviados para o FDA, a agência de vigilância sanitária dos EUA, para aprovar os remédios Prozac, Effexor, Serzone e Paxil. Esses medicamentos, quando surgiram no mercado, foram vistos como revolucionários para o tratamento da depressão. O Prozac, por exemplo, entrou no mercado dos EUA em 1988 e, com agressiva campanha de marketing, em pouco tempo se tornou o líder do setor. Já o Efexor, lançado em 1993, ficou famoso por ter efeitos colaterais menos agressivos do que os outros antidepressivos, enquanto o Paxil se tornou conhecido por ter sido o primeiro medicamento aprovado nos EUA para tratamento de ataques de pânico — e mais tarde pelo efeito colateral de ganho de peso.

Vendo os testes desses medicamentos, Kirsch notou que só os resultados que envolviam pacientes severamente deprimidos foram publicados — apesar de, hoje, serem comercializados para qualquer intensidade. Nos mesmos documentos, viu que os efeitos desses medicamentos foram mínimos para casos de depressão média e leve (segundo a escala Hamilton de Depressão, a mais usada). E mais: depois de lançados os remédios no mercado, não encontrou mais nenhum estudo dos laboratórios sobre eles. As pesquisas posteriores sobre seus efeitos se resumiriam às feitas em universidades, como a publicada no final de 2010 pelo professor de psicologia da Universidade da Pensilvânia, Robert DeRubeis, que aponta semelhança entre antidepressivos e placebos.

No levantamento, DeRubeis avaliou 6 testes com 728 pacientes deprimidos e descobriu que a taxa de eficiência dos antidepressivos era praticamente igual à das pílulas de farinha no tratamento de depressão. No caso dos pacientes que receberam os placebos, a cura viria porque é comum que as pessoas se sintam melhores quando recebem tratamento, qualquer que seja ele. É o chamado “efeito placebo”, testado em todo medicamento antes de chegar ao mercado. Na conclusão do estudo, sem citar os dados exatos, o acadêmico diz: “a vantagem da medicação de antidepressivos sobre o placebo foi de inexistente a insignificante entre pacientes com sintomas de depressão leve, moderada ou até severa”.

Kirsch reúne dados similares sobre os testes dos 4 antidepressivos que analisou. Em seu livro afirma que “antidepressivos são drogas com pouquíssimo benefício terapêutico, mas com efeitos colaterais muito sérios”. Para ele, antidepressivos são similares aos placebos ativos — pílulas de farinha que provocam efeitos colaterais. Entre as consequências estariam náuseas, perda da libido e até dependência. 

A influência do marketing
Muitos psicólogos questionam também o excesso de propaganda na adoção desses medicamentos. Um estudo que saiu no New England Journal of Medicine, assinado pelo professor de psicologia da Universidade da Califórnia Robert Rosenthal, mostra que, em 74 estudos registrados no FDA dos EUA, foram publicados em jornais científicos 37 com resultados positivos para os antidepressivos, enquanto 22 que tinham resultados negativos (ou seja, que não havia diferença significativa entre placebos e antidepressivos) ficaram na gaveta.

O artigo ressalta, ainda, que 11 estudos que tiveram resultados negativos foram publicados de modo que parecessem positivos. Rosenthal conclui que, ao se analisar apenas as pesquisas publicadas, os antidepressivos pareciam ter eficiência de 94% enquanto todos os estudos analisados apontavam para uma taxa bem menos expressiva: 51%.

Junto a isso, vieram críticas em relação à atuação de alguns psiquiatras. Eles foram acusados de envolvimento excessivo com a indústria farmacêutica, promovendo medicamentos de certas marcas e recebendo benefícios em troca. Desde pequenos presentes entregues pelos representantes da indústria, como ingressos para shows e telefones celulares, até pagamento de estadia em caros congressos. Outra queixa é que prefeririam receitar rapidamente um antidepressivo em vez de ouvir o paciente e tentar entender a sua história de vida. “Há uma motivação econômica: é possível atender muito mais gente receitando antidepressivos do que ouvindo um paciente”, disse Daniel Carlat, psiquiatra e autor do livro Unhinged, The Trouble with Psychiatry.

Revista Galileu: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI291080-17933,00-ANTIDEPRESSIVOS+FUNCIONAM.html

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Não é de hoje que aqui no Blog as pessoas encontram críticas ao pensamento da medicalização, mas é preciso termos bom senso. Esta matéria publicada na revista Galileu no entanto não diz sobre as consequencias de deixar o pacientes "abandonado" sem nenhuma alternativa. Retirar muitas vezes o medicamento, ou ainda dizer ao paciente "Olha, temos este ou aquele, mas não existe comprovação científica de que o meciamento irá funcionar corretamente como esperamos".

Bom, não sou a favor da medicalização, mas temos que admitir que em alguns momentos, a terapia medicamentosa faz-se necessária. Bons psiquiatras trabalhando conjuntamente com bons Psicoterapeutas / Psicanalistas tem um resultado muito satisfatório seja com depressão, sindrome do panico, Trantornos compulsivos / obsessivos, entre outras manifestações de mal-estar psíquico.

O problema é o valor que é dado para a terapia medicamentosa, muito excessiva em relação a outras terapias. Como por exemplo a psicoterapia.

Alguns irão dizer:

Mas espere um pouco, é muito mais caro psicoterapia do que a medicalização-terapia.

Até pode ser que o psicólogo psicanalista cobre mais caro que uma cartelinha de medicamentos, mas após algum tempo, você poderá viver sem ele. Já com o medicamento sem o trabalho em conjunto com um psicólogo / psicanalista, me desculpe, acho que será quase impossível.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Outras coisas acontecendo...


Devíamos tanto sermos mais distraídos em nossas vidas, rotinas, em nossos planos.

Acredito que para sermos um pouquinho mais felizes, em nossa agenda deveria ter um espacinho para a distração todos os dias. Ao menos um momento para sair da rotina, e sei lá, fazer algo diferente até que a novidade torne-se rotina, e quem sabe até uma marca em nossas vidas.

Claro que não estou dizendo para TODA Terça-Feira, você pegar o carro e dar umas voltas no quarteirão. No entanto, prefiro não excluir também esta possibilidade.

As vezes as pessoas se apegam tanto ao planejado, tanto ao controle, ao depois e depois e depois, mesmo com o depois sendo ainda hoje. Esquecemos do nosso agora.

É impressionante como esquecer do agora é corriqueiro em minha vida. Por exemplo, estou em casa com várias coisinhas para fazer. Quando saio de casa lembro-me de todas elas. Vou pelas ruas em direção ao meu destino, ligo o radio (as vezes não) e quando dou por mim estou perdido, sem saber o que tinha que fazer AGORA. 

Estou com alguns trabalhos para ler, ligo o computador, abro o word, sento na frente dele, abro o e-mail, entro no msn, entro no facebook, mas aquilo que eu estava para fazer, nem sonho mais o que era...

Algumas pessoas tentam desesperadamente lembrar-se das coisas. Acho engraçado aquela expressão "Eu abro a geladeira para pensar". Quem de nós nunca abriu a geladeira para pensar, ou ao menos nunca testemunhou alguma pessoa fazendo isso? É impressionante como buscamos exatamente no lugar mais impossível de encontrar o que precisamos naquele "agora".

Isso pode significar alguma coisa. A rotina está acabando com nossa memória? Não, não é por ai. Sabemos e lembramos depois de algum tempo o que precisávamos fazer, apenas estamos dando um tempo para nos perder.

Pesquisas recentes sobre o ato de bocejar chegaram a uma conclusão de que o bocejo humano é uma forma de resfriar o célebro. O ato de procurar na geladeira (fria) o que jamais iriamos encontrar por alí pode ser também um sinal de que estamos precisando esfriar a cabeça subjetiva... 

Precisamos nos perder mais de vez em quando. Sair de um lugar e procurar outros, não pela novidade, mas apenas para encontrar outra coisa.

Certa vez sai de casa a procura de um restaurante. Andei de carro pelas avenidas mais gastronomicas possíveis e quando dei por mim, estava eu (cerca de 40 minutos depois) desligando o telefone pois havía pedido uma pizza, na pizzaria de sempre, a pizza de sempre com a comphania de sempre...

Não se trata de viver novas e fortes emoções, mas apenas de saber que existem outras possibilidades, que durante nossa existência outras pessoas, coisas, atos, programas, lugares, tudo isso também acontece. Sair um pouco do nosso comodismo, nem que seja para depois retornar à enfadonha rotina.

Abrir a geladeira as vezes e de lá retirar uma água, transformar o que era "falho" em uma oportunidade de algo mais. Sair de casa, conhecer pessoas novas e a partir daí ter mais amigos, ou não, apenas conhecer histórias, lugares pessoas. 

Ainda mais neste momento em que a vida corre a frente do relógio, o agora acaba passando despercebido. Nosso lado humano tenta contornar, seja bocejando, seja indo para a geladeira, seja com atos falhos, ou ainda com sintomas físicos que até podem chegar a doenças cronicas. Poderia sitar inúmeras delas que estão ligadas com o estilo de vida das pessoas, mas não quero hoje falar sobre isso aqui.

Da próxima vez que for abrir a geladeira para pensar, lembre-se, aquilo nem sempre foi um "desvio" do cotidiano, e de fato, PENSE, o que há ali que você pode pegar, consumir, ou apenas saber que está lá para depois. 

Façamos doz desvios de nossas rotas uma oportunidade de abertura para o novo.

Lembre-mo-nos de colocar em nossas agendas ao menos uma vez por dia: 

 *  ABRIR A GELADEIRA

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Minha humanidade ainda me mata...

Aquele humano que habita em mim ainda vai me desgraçar a vida. 

Humano, incontrolável, e muitas vezes impensável, irresistível, irremediável. Este habitante em mim me consome de uma forma inintrrupta. Mas posso dizer uma coisa, com certeza absolukta, ele não sou eu, ou ainda, melhor dizendo, ele é a parte humana de mim que insiste em me envergonhar, em me fazer chorar, em me fazer sentir, em me fazer sonhar.

Se tirássemos nossa humanidade, teríamos talvez total controle sobre nossos atos, nosso organismo funcionaria como o biológico ordena. Hora de excretar, seria hora de excretar, hora de dormir, seria hora de dormir, hora de morrer seria hora de morrer. Uma vida sem nossa humanidade, seria simples, mas ao mesmo tempo extremamente promissora.

Sem o desejo que, ao mesmo tempo que nos impulsiona, nos joga na cara inúmeros motivos pelos quais fracassaremos, seríamos respondentes de nossas necessidades. Precisaríamos de mais dinheiro, mas não haveria ganância, o que nos ajudaria muito para não trabalhar desmedidamente e deixar de lado tantas coisas cotidianas, como um sorriso, um bom dia ou ainda um momento em familia antes de deitar.

Sem nossa humanidade aproveitariamos muito mais coisas da vida, como por exemplo, comeríamos apenas o necessário, não haveriam obesos nem anoréxicos. Não haveriam alcólatras também, nem viciados em drogas, afinal, sabendo e sentido a destruição que tudo isso nos causa, nada mais orgânico do que ficar longe disso tudo. Experimentaríamos, e logo cairíamos fora, eu acredito. O organismo não teria tempo de se acostumar com a substância tornando-se dependente dela.

Sem nossa humanidade, jamais haveria saudade, ou ainda o luto. Perderíamos alguém, e assim como os animais, apenas olharíamos para a carcaça com uma certa indiferença, pois saberíamos com certeza que logo logo seríamos eu e você ali estirado no chão.

Ah, como a vida seria mais simples sem nossa humanidade.

Mas aí eu me pego pensando, que sem nossa humanidade não teríamos a solidariedade. Quem não pudesse trabalhar, não trabalharia, não teria dinheiro e morreria. Seríamos um grande exército de trabalhadores, seríamos na verdade como formigas, ou como os leões, ou como qualquer outro bando de animais. Não esperaríamos ao lado do doente cambaleante, não sofreríamos as dores daquele que partiu, mas que já dava sinais de que não chegaria muito mais longe. 

Sem nossa humanidade, seríamos qualquer outra coisa que se movesse simplesmente em virtude de si mesmo. Isolados do mundo, sem a concepção de narcisismo, afinal, seria apenas um egocentrismo respeitado e muito importante para a sobrevivência do animal. Seríamos o bicho homem.

Volto a dizer, que a minha humanidade ainda me mata, mas a dos meus amigos, sempre, há de me ressucitar.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Pura morte

O amor é fogo quer arde sem se ver, mas como o combustível dos carros de carrida, ele mesmo assim queima e deixa cicatrizes. Sentimos sua presença, seu calor, sua força. Deforma-nos a face original, antes pura, agora marcadas como amados. Uma vez na brasa do amor, para sempre marcados, em busca da chama que arde, que queima, que marca, mas que jamais explode.

Assim como a chama queima a vela, nos deixamos ser amados como a parafina se deixa ser queimada. Quando fogo e calor demais, a parafina se esgota muito antes da noite acabar. O fogo deve queimar na medida em que a parafina da conta de ser queimada.

Aquelas velas enormes nas igrejas, os Círios, queimam o ano inteiro. Na verdade queimam nas celebrações. Deveríamos queimar de amor apenas nos momentos corretos diriam os mais equilibrados. Mas de equilibrados o inferno e os hospícios estão cheios.

Permite que o amor queime em você e marque a todos quem você puder marcar. Um sorriso, um abraço, um perdão, e acima de tudo a compreensão, a misericórida a piedade. São Francisco de Assis diria que não se vive sem amar, sem ser amado. Deixa de ser a vela, a parafina para ser o fogo.

Acho que este é o segredo do amor que purifica, que ama na medida em que o outro suporta ser amado. Não mais parafinas, mas o próprio fogo, o próprio amor. Amar os pobres, as coisas, as criaturas, as crianças aos leprosos, aos odiados, aos que nos odeiam. Ora, o fogo não queima e marca apenas o que se pode queimar. Deixa sua marca também nas paredes mais frias de concreto sólido e intocável. Marcas que permitem a todos saber que o fogo passou por ali.

Mas há dois tipos de chama. A que purifica, queimando as impurezas, e a que destrói.

Poderíamos simplesmente pensar que existe uma hora pra cada coisa, pequeno engano nosso. Na verdade sinto que o fogo que purifica sempre é bom. Mas é visto como destruição para aqueles que não suportam os planos do Amor.

Quando queima-se uma floresta inteira, as vezes podemos imaginar que foi um pecado, uma destruição sem medida, uma total falta de consideração da natureza por ela mesma. Dois anos depois passamos e vemos a vida florescendo, vida nova, ressurgida das cinzas que ao queimar, conseguiu adubar o solo e com a chuva pode fazer germinar as sementes em terra ainda mais fértil que antes.

As sementes que jamais conseguiriam germinariam em uma floresta, pois a humidade, a sombra de arvores maiores e os animais que poderiam comer seus brotos, agora pode crescer e florescer em terreno seguro.

Assim são nossas virtudes. Uma vez que nossa alma é tocada pelo fogo do amor, e tornamo-nos nós mesmos a chama que queima e marca o outro como amados, poderemos ver florescer o novo, a novidade  vida nova em meio às cinzas.

Acredito firmemente que o fogo agora, apenas purifica. Porém também destrói. E assim é o amor, quando queima, arde sem se ver, mas depois de um tempo aparecem as marcas eternas da destruição de uma vida que passou, que foi sem marcas eternas e depois de mais um tempo, as marcas de uma vida eterna, marcas que tranformam a própria alma em fogo que purifique.

Tudo bem, o amor pode arder sem que se veja, mas suas marcas podem ser vistas nos olhos de quem foi muito amado, e hoje tornaram-se amantes, brilham com uma chama que não se apaga.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sonhar sonhos...

Sonhos são feitos de que?

  • 3 ovos
  • 600 g de farinha de trigo
  • 50 g de fermento de pão (padaria)
  • 400 g de batatas cozidas
  • 1 pitada de sal
  • 1 xícara de chá de leite morno
  • 2 colheres de sopa de manteiga

Embora este blog não seja de culinária, as vezes é bom variar. Não, meus caros leitores, não discutirei uma receita de sonhos com vocês, ao contrário, não acredito que haja receitas para os sonhos que vamos explorar.

Só precisamos ficar atentos para a cobertura. Afinal de contas, sonhos sem a cobertura acabam sendo apenas paozinhos com açúcar em cima.

Mas o que torna os sonhos tão especiais?

Bom, como toda receita, tem um modo de preparo, ou seja, uma técnica, um método correto de misturar os ingredientes e uma quantidade certa de ingredientes. Tem também o segredinho do cozinheiro... 

Acho que poderíamos ficar apenas no segredinho do cozinheiro. 

O que faz uma receita qualquer tornar-se especial, é justamente o segredinho do cozinheiro. 

Para quem já assistiu o filme "Kung-Fu Panda", já deve estar imaginando um pouco do segredo para tornar-se uma pessoa, um dragão guerreiro, ou ainda fazer uma receita especial de macarrão. Duas das coisas que eram almejadas pelo Panda do filme.

Saber como fazer o macarrão do seu pai, assim, entrando de vez no "quadro" restrito dos conhecedores do segredo do macarrão especial e também tornando-se membro efetivo da família, pois ele era (visivelmente) adotado, era um dos seu sonhos. O outro era ter o conhecimento do pergaminho que revelaria de vez seus poderes e o tornaria o verdadeiro e único dragão guerreiro.

Ambos estão ligados com o conhecimento para ser algo, para ser alguém. Ambos estão ligados com o sonho de alguém que busca algo para rechear a sua vidas de emoções, aventura, reconhecimento e acima de tudo felicidade.

Enquanto o corpo é o pãozinho com pitadas de açucar, para ser sonho, é preciso o recheio. É preciso alegria, é preciso esperança, é preciso sentimentos que tragam felicidade, ou no mínimo a realização.

Fico imaginando, entre os vídeos que circulam pela web, uam criança indo comer um sonho tão desesperadamente esperando que naquela mordida, o conteúdo do recheio possa msturar-se com sua boca e trazer a ela a deliciosa sensação esperada. Quando morde no entanto não encontra nada ao não ser a secura daquele pão. 

Um sonho sem o recheio não passa de um pedacinho de pão doce. Não é sonho, é apenas a realidade aparente, sem qualquer conteúdo que o eleve a categoria de sonho.

O importante dos sonhos é justamente o conteúdo que traz consigo, mesmo que imaginariamente. Quando comemos um sonho de doce de leite, de nata, de chocolate, ou de qualquer coisa que seja, não importa o recheio, tem que ser recheado.

Quando sonhamos e buscamos a realização de nossos sonhos, acabamos muitas vezes deixando de lado o recheio, ou ainda o pãozinho, que sem ele, não seria um sonho perfeito. Acabamos nos preocupando muito mais com a forma, com a receita, com o objetivo final, e esquecemos do sabor. 

O sabor que tem cada passo na confecção de uma guloseima, e também da confecção de um sonho, ou na realização de um sonho. Cada dia tem sua paticularidade e acabamos por até desdenhar o hoje em nome do amanhã.

O Panda do filme aprendeu muito bem a desdenhar do hoje para atingir o objetivo do amanhã. Focamos nossas vidas em busca de um sonho e nos esquecemos que o sonho, que a realização dele se dá no agora. Em cada pedacinho de hoje, em cada momento, em cada instante é que o sonho é construído. Depois de pronto, basta aproveitar.

Ao amanha serve o descanso, a paz, a satisfação de um "dever" cumprido. As vezes tenho vontade de matar quem colocou em nós a sensação de "dever" nas nossas realizações. Primeiro porque o sonho, delicioso como é, não deveria ser um dever. Deveria ao contrário, ser compreendido como ele realmente o é, ao menos para mim, uma consequência.

Sonhar, querer, desejar, imaginar, nos ajudam a construir caminhos, rotas, pensarmos métodos, formas de buscar o almejado. Mas precisamos levar em conta que a vida é muito mais que o sonho. O sonho é uma sobremesa, temos que gostar também dos legumes, que a princípio, são sem graça, amargos, sonsos, mas também fazem bem. Acima de tudo nos enriquecem com diferentes sabores, tornando até, porque não, o doces ainda mais doces.

Aprender também que a sobremesa vem depois da refeição. É apenas um bom e delicioso toque final. Aprender que uma boa pratada de salgado, mais do que necessário, pode ser até mesmo muito gostoso, saboroso, delicioso, às vezes melhor até mesmo que a sobremesa.

É difícil, eu sei, o arroz com feijão de cada dia. não é facil reconhecer os sabores deliciosos a cada pratada de mesma coisa. Mas chega um momento que é necessário, afinal, ninguém vive apenas de sonhos. Mas para poder aproveitá-los ainda mais, precisamos aprender na caminhada, que ela também faz parte do banquete da vida.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

GRUPO DE ESTUDOS EM PSICANÁLISE - 2012

GOSTARÍAMOS DE AGRADECER A TODOS OS PARTICIPANTES DO GRUPO DE ESTUDOS EM PSICANÁLISE QUE ESTIVERAM CONSTRUINDO CONOSCO ESTA BELA TRAJETÓRIA DE AULAS, SEMINÁRIOS, ENCONTROS, DISCUSSÕES E ACIMA E TUDO MUITA AMIZADE.

EM 2012 RETORNAREMOS OS TRABALHOS COM MAIS NOVIDADES. A PRINCÍPIO SEGUE O BANNER DE DIVULGAÇÃO.





 

MAIORES INFORMAÇÕES:   http://www.hu.psc.br/curso/extensao/2012/

GRANDE ABRAÇO A TODOS E FELIZ ANO NOVO

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Contemporaneidade, tempo perfeito para a Psicanálise.

Quando o Supérfluo se tornou o necessário, podemos dizer que enfim, entramos verdadeiramente em uma sociedade diferente da modernidade. Chamam este tempo de contemporaneidade, ou ainda, a sociedade líquida, sem vículos, onde acima de tudo o que prevalece é o efêmero.

Mas afinal de contas, o que é que aconteceu que as pessoas deixaram de importar-se com o amanhã?
Será que o consumismo conseguiu deixar uma marca indelével tão arraigada em nossa psique que acabamos de fato entrando na onda, de uma vez por todas, de que tudo que eu quero eu posso conseguir. Seja através da compra, do roubo, ou da troca, é possível satisfazer meus desejos, e ainda por cima, existirá sempre algo que o satisfará.

Isso é que imaginamos quando damos uma olhada na sociedade um pouco que superficialmente. Claro que reconheço os vínculos cada vez mais instáveis. Claro que percebo que o fútil e o efêmero, ou seja, a aparência hoje em dia se sobressai à essência, se sobressai àquilo que está arraigado em nós. Consigo enxergar sem muito sacrificio relações humanas cada vez mais pragamáticas na medida em que conquisto o outro até que eu usurpe dele todo seu valor, sua vida, seu ânimo, até que ele não me sirva mais, como se eu fosse seu centro, seu rei, seu deus, e ele, um mero súdito que está ali na posição de objeto para me servir.

Reconheço que as pessoas cada vez se utilizam de uma máscara pervesa, na qual utilizam do outro como um objeto, até que o outro torne-se dejeto. A partir daí, cada um para seu canto.

Onde está o amor no qual aprendemos a sermos felizes com a alegria estampada no sorriso do outro. Onde estará o ser feliz com o outro, ao invés de puro sacrifício de uma das partes? Onde estará a virtude de ser, de existir para além das máscaras que encobrem os sujeitos na contemporaneidade. 

Pergunto-me por fim, onde estará os sujeitos, os indivíduos, os humanos?

Na clínica, timidamente eles acabam aparecendo.

Homens que buscam desesperadamente alguém pra conversar e pagam um preço altíssimo por isso. Mulheres que encontram-se com homens diferentes todas as noites, mas que ainda esperam em seu íntimo, pelo seu prícipe encantado. Pessoas que buscam encontrar outras pessoas na vida, e o que acabam encontrando de melhor é a figura do analista treinado para isso.
Não é de hoje que se conhecem relatos de casos de homens que buscam prostitutas para conversar. Pode ser na obra "O doce veneno do escorpião" ou na vida real. Pessoas pagam para poderem ser ouvidas, pagam para encontrar-se alguém.

Na análise, embora seja uma experiência paga, e acima de tudo artificial, visto que é criada, a pessoa encontra-se consigo mesma. Percebe-se pessoa, descobre-se alguém, e a partir daí, posso até arriscar, surge um ser humano.

Até então vivendo sem sentido algum, a experiência analítica promove uma escuta de si mesmo, e aos poucos os sentidos vão sendo construídos e reconstruídos. A vida começa a ser vista de forma diferente, na medida em que cada um suporta. As relações começam a ter um gosto especial, podendo até chegar ao limite de, quem sabe, o analisante encontrar um outro alguém fora do consultório.

Os pais, irmãos, irmãs, familiares, deixam de ser apenas membros, e tornam-se pessoas. Os amigos passam a ser importantes e insubstituíveis, não que não possam ser trocados, ou perdidos, mas passam a ganhar o status de únicos, cada um com suas características próprias. 

A maioria das pessoas que entram em análise acabam percebendo que o sonho que viviam, por melhor que seja era muito mais um pesadelo. Acordam bruscamente com as marcas do tempo que passou sem saber direito o que ou quem as deixou ali, mas passam, a partir daquele momento a colorir com as cores que deseja e dar um sentido próprio e querido para cada marca, para cada cicatriz.

Psicanálise em nosso tempo corrido, do efêmero, do vulgar, dos padrões despadronizados onde o que reina é a liquidez dos laços e das relações sociais parece coisa de louco. E talvez até seja.
Posso assegurar no entanto que os normais muitas vezes invejam os loucos. Basta recorrermos à alguns nomes como Rembrandt, Monet, Da Vinci, João Paulo II, Gandhi, Jesus Cristo, Sidharta Gautama (o primeiro Buda), entre tantos outros que foram considerados loucos.

Todos estes e muitos outros tem uma coisa em comum, eles tinham laços profundos consigo mesmos, com os outros, e também buscavam a paz. Cada um de sua forma encontrou na sua vida a paz que almejava. Mesmo que para todo o resto do mundo aquilo fosse dor, sofrimento, angústia, loucura. Para eles, era justamente o que buscavam.

A análise hoje permite este espaço, este tempo, em que as pessoas dedicam a si mesmas para encontrarem-se no turbilhão tempestuoso que é a vida. E posso garatir a todos, a tempestade muitas vezes continua, mas chega um momento que ela não assusta mais.

Arrisco a dizer que a psicanálise nunca foi tão necessária quanto é hoje em dia. Poder ter um momento para si mesmo, onde o outro ali na frente não aponta ninguém além de você mesmo pode parecer coisa de louco, talvez até seja, mas é o primeiro passo para um vínculo mais profundo consigo mesmo, e depois com os outros. 
Como as pessoas poderiam ter um vínculo profundo se não conhecem a quem estão para vincular-se? Não se casa alguém, ou fica-se sócio com alguém que não conhecemos. Assim somos todos nós. Estamos casados em um corpo com alguém estranho a nós mesmos. Até peço desculpas pela franqueza, mas é impossível se ter paz com quem não se conhece, é impossível ter paz consigo mesmo se não nos conhecermos ao menos um pouco.

 
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