quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Fujo da beleza interior do senso comum.

Muitas pessoas dizem que o importante na vida é encontrar alguém com beleza interior, porque esta, nunca se acabará.

Tenho minhas dúvidas.

Depois de algum tempo em análise, fui percebendo que a beleza interior para uns é o pesadelo para outros. Fujo dela, como o diabo da cruz.

Busco ao contrário, uma certa insatisfação interior, solidão, medo, desamparo. Alguém que já tenha se dado conta, ao menos um pouquinho que a existência um dia acaba.

Gosto das pessoas que têm em seu interior cicatrizes de derrotas, e não daquelas que colecionam inúmeros troféus de conquistas, vitórias e ainda por cima hasteiam seu estandarte por onde quer que passem, como se o coração das pessoas fossem um terreno a ser conquistado.

Gosto de pessoas que passam desapercebidas e que ao invés daquela saudade insuportável de "pombinhos apaixonados" deixem no ar um sentimento de que a conversa foi uma delícia, e a esperança de em breve retornar a se ver.

Prefiro muito mais olhar nos olhos das pessoas e descobrir ali dentro o mistério de alguém que existe de fato, e não alguém que apenas espelha seu próprio ser. Existir para mim vai muito mais além, vai desde ter a noção de que o mundo existia antes de minha existência, até a noção de que ele continuará existindo sem minha presença. Sim, existir significa talvez fazer falta ao outro, porém, uma falta suportável e que ainda por cima, poderá ser preenchida de outras formas, como comendo chocolates, ou com outros amigos, outras pessoas, uma cervejinha no bar.

Não quero desvendar os segredos e mistérios dos olhares das pessoas por quem sou cativado. Ao contrário, busco apenas contemplá-los. Mesmo que eu as vezes pergunte milhares de porques no intuito de tentar compreender aquele ser a minha frente, basta-me uma resposta como: "porque eu gosto disso assim", ou ainda, "porque sim" ou "porque não".

Chega um momento de nossas vidas que a beleza interior deixa de ser igual a beleza exterior. Por exemplo, uma face serena, linda, bela, e que demonstre muita paz, pode esconder um interior tempestuoso, como um animal indomesticável que luta buscando por liberdade. Como é bela a tempestade, pena que cause muitos estragos, mas todos eles, sem excessão, são reparados com o perdão.

As vezes me engano com as pessoas. Sim, não sou Deus, que conhece tudo e a todos.

Deixei de lado a esperança com a humanidade para adotar uma posição mais passiva frente às pessoas. Desta vez, não espero outra coisa ao não ser isto: a surpresa.

Este ano que se passou conheci a verdadeira beleza interior, ou ao menos a beleza que mais considero ultimamente que é a capacidade de ser surpreendido. 

Para ser surpreendido no entanto é necessário ser belo por dento também. Faz-se necessário deixar-se ser surpreendido, limpar o campo da vida e da história e nada esperar do outro. Qualquer coisa que o outro faça acaba nos surpreendendo.

Talvez seja este o desdém com relação à vida que permite com que ela se torne cada vez mais apaixonante e cheia de surpresas. Não esperar nada dela, como se ela nem sequer existisse. Aos poucos a própria vida vai se revelando a você, assim como as pessoas de beleza interior. Aos poucos vamos nos surpreendendo e descobrindo que ainda sim, é possível a surpresa da vida, esta sim, é a maior das belezas interiores que podemos encontrar.
Que em 2012 possamos ficar sempre surpresos com a vida que pulsa no olhar dos outros e principalmente também, em nosso prórpio olhar.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Angústia, da morte para a vida.

Entre um momento infinito, em que o relógio marca a diferença entre dois segundos, parece que se passa uma vida inteira frente a nossos olhos. A sensação de desamparo, de falta de sentido, de falta de apoio, de que ninguém e nem nada pode retirar nossa alma, nossa mente, nosso corpo, do sofrimento psíquico angustiante que a certeza da morte traz. 

Muitos foram os relatos de Hematidrose, o mais conhecido, o que ocorreu com Jesus Cristo. Hematidrose significa suar sangue.

Bom, claro que pouquíssimas pessoas em sua existência irão chegar a este ponto, porém existe algo que ocorre em nossa existência. Em algum momento de nossas vidas parece que nossos sonhos vão se desmorando, as coisas deixam de se encaixar, uma doença, uma perda de alguém querido, um momento mais complicado em nossas vidas, bom, de qualquer forma, em algum momento muitos de nós irão passar pelo que a psicanálise conhece como angústia.

Freud fez um tratado diferenciando a Angústia do Medo, da Fobia, do Pânico. Hoje a psiquiatria traz outro nome, dando ênfase no sintoma e não na constiuição do fenômeno.

Na bibliografia médica mais atual, os quadros de angústia são conhecidos como Transtorno de Ansiedade Generalizada. A mente não para de mentir para nós, e por mais verdades que ela diga, continuamos tentando nos enganar com o que acreditávamos, e não com o que a mente traz como novidade.

Para quem não passou por este estado conscientemente (Lacan em "Complexos Familiares" diz que todos passamos por isso no nascimento) podemos comparar a situação da angústia como uma pessoa que está nadando na praia. De repente, sem mais nem menos, a pessoa perde o chão, não alcança mais a areia sobre seus pés e aos poucos se percebe sendo arrastada pela correnteza. As ondas batem cada vez mais fortes, por mais que se tente nadar não se consegue sequer subir a tona para respirar. A respiração a cada onda que passa, deixa de ser controlada pela pessoa, ao contrário, a sensação é de que o mar tomou posse de toda nossa liberdade, nos restando apenas o medo, o pânico, a certeza de que dependemos na verdade de algo além de nossas forças, além de nossa capacidade, até mesmo para respirar. 

Lutar contra a maré nos cansa cada vez mais, até que vamos como que desistindo de lutar, mas mesmo assim, isso não quer dizer que desistimos da vida. No meio do mar, sem tocar o chão, sem amparo algum, sem nada, absolutamente nada para que pudessmos nos agarrar e assim conseguir respirar, apenas nos entragmos às ondas, clamando misericórdia e que a morte chegue o mais rápido possível. Mais uma vez, clamar pela morte não significa desistir e tentar suicídio, significa apenas que não estamos mais conseguindo fazer absolutamente nada por vontade própria e que de alguma forma, outra coisa tomou conta de nós, a certeza da morte.

Pode parecer assustador esta descrição comparativa do que é uma sensação de angústia, acreditem, é muito pior, pois tudo isso parece acontecer a cada segundo, a cada respiração, a cada batida de coração. É como se estivéssemos em em constante estado de Pânico, em constante estado de alerta, e quando passamos pelos exames clínicos, bateria de exames de sangue, dosagem de lítio, entre muitos outros exames, não se encontra nada de errado no corpo. O corpo está na verdade possuído, verdadeiramente por alguma coisa, mas não necessariamente uma coisa ruim, embora o sentimento seja este.

No começo do texto disse que era uma tentativa de nossa mente dizer-nos algumas verdades, por exemplo, que por mais que tentemos ser magros, belos, jovens, honestos, trabalhadores, a vida pode acabar num segundo e que nós não temos TODO o controle. A sensação é que o único controle TALVEZ seria o do momento da morte, de findar o sofrimento.

A Angústia descrita por Freud e por Lacan diz de uma outra coisa que não da morte e do desejo pela morte, ou da tentativa de suicídio. Diz, ao contrário da vida, do desejo pela vida, por uma nova vida, diferente da que a pessoa está levando e que, de alguma forma, o homem velho tem que perecer. É como se em determinado momento, a existência dissesse:

- Pronto, já viveu como você achou que deveria, agora, está na hora de ser você, de ser feliz.

O processo entre o "achar ser o que se deve ser" e o "ser" de fato o que se é, é complicado, doloroso, leva tempo, mas depois de toda tempestade vem a calmaria, e porque não pensar em paz?

Quem está vivendo este estado, não quer ser feliz, não quer nada além de paz, de fim, de uma outra coisa que não o sofrimento. Acreditem, só quem passou por isso sabe que qualquer coisa, até mesmo a aniquilação total é melhor que continuar assim.

Aniquilação, é esta a sensação que se tem. Parece que nossa cabeça vai derreter, o corpo não responde mais às nossas vontades. Ir ao cinema, a um velório, a um circo, trabalho, férias, tudo passa a ser mais e mais do mesmo. As coisas perdem verdadeiramente o sentido que tinham até então. A pessoa perde o gosto por aquilo que antes era-lhe extremamente prazeiroso. A comida para de alimentar e passa a ser apenas algo entrando pela boca e deixando uma marca ruim ali no estômago, uma sensação de nutrição, de algum prazer que outrora existia, passou a ser a sensaçao de adiar o inevitável, apenas isso.

O amparo e o apoio dos familiares neste processo, principalmente a busca por um psicólogo / psicanalista de confiança é de suma importância. A família deve estar lá presente e suportar o sem sentido do desanimo, do cansaço, das falas desconexas. O analista vai estar lá para ouvir estas falas e aos poucos permitir a emergência daquele outro que quer nascer, que está já pronto para a vida e que não consegue mais esperar as mentirar que criamos para responder ao social.

Aos poucos como um parto, o trabalho analítico vai permitindo que o sujeito do desejo possa emergir e com isso, uma postura ética frente a seus desejos, seus atos, suas vontades. A pessoa em análise vai descobrindo e remotando sua história, dando novos sentidos, na verdade recobrando o sentido original que as coisas tinha, e deixando os sentidos criados até então de lado.

A análise permite às pessoas a encontrarem-se com tudo aquilo que antes lhes eram "boas" e que agora passaram a ser sinônimos de mal-estar. A análise permite ao sujeito ter esta oportunidade de surgir e de aparecer em um ambiente fictício (como diria Lacan), em uma experiência fabricada e não natural, pois não é uma experiência que a vida permite acontecer naturalmente. Não dizemos de um ambiente controlado, mas dizemos de uma regularidade que o horário, o tempo, o custo, o analista e o local, permitem que a pessoa tenha um espaço para aos poucos ir se reorganizando em sua vida e ali dentro, olhar para todo o caos, para todo o "non-sense" e simplesmente apreciar,  admirar e até mesmo sorrir frente a tudo isso, mas desta vez, em paz.

A análise permite que a angústia que antes era vista como pânico frente a morte, transforme-se em desejo irremediável pela vida.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Não se fabricam mais escrivaninhas.


Estou terminando de montar a Clínica. Já tenho poltronas, tapetes, quadros, um armário, um vaso de plantas, as paredes estão pintadas, ventilador de teto... Falta a escrivaninha.

Fui atrás da escrivaninha, na verdade estou atrás dela desde o dia 5 de novembro, quando decidi que ia abrir a clínica. 

Depois de muito caminhar cheguei a constatação de que além dos móveis de madeira, não se fazem mais escrivaninhas. Estranho, muito estranho. 

Gosto de ler livros, estudar, rabiscar o que escrevo e depois reescrever do lado no papel. Gosto de ter um espaço para minha bagunça de livros e mais luvros abertos, mesmo que eu nem utilize deles. Acho que é meu TOC. Ter coisas demais e apenas deixar ali para criar um clima de intelectualidade e um ar de "nossa como sou estudioso". Mesmo que lá no fundo saiba que estou lendo mais uma vez um texto do Freud, ou que ainda nem terminei o primeiro capítulo da maioria dos livros que se encontram por ali.

Tudo bem, mas o importante é que não se fazem mais escrivaninhas. Hoje nas lojas você encontra os mais diversos tipos de Rack para computadores. Tem em varaias cores, em varios tamanhos, com suporte para impressora, com espaço para teclados, para mouse, para até mesmo (pasmem) alguns livros. É a tecnologia meus amigos.

Quero uma escrivaninha. Não uso computador, apenas meu notebook. Meu paciente estes dias me chamou de palyboyzinho, só porqeu ando de avião. Mas não me considero um playboy porque tenho um notebook, ao contrário, me considero ultrapassado daquele tipo de quem usa escrivaninhas.

Procurei, procurei, procurei, e nada da escrivaninha. Fui nas casas bahia, moveis brasilia, magazine luiza, e em muitos outros lugares. A única que achei foi sem gavetas, olhando melhor para aquela coisa na cor rosa e com espelho, me veio o insight. Não era escrivaninha, era muito mais um penteadeira. A mulher tadinha, novinha, nos seus 18/19 anos, acho que nem sabe o que era uma escrivaninha, não era culpa dela.

Na verdade eu tinha uma escrivaninha quando era pequeno, mas não usava. Ia estudar na frente da tv, no sofá da sala, no chão do meu quarto. Mas agora, com o notebook, e o consultório quase sem clientes, achei que seria um lugar interessante para trabalhar. Quero minha escrivaninha.

No rack, mal cabe o notebook. E quando cabe, não cabem os livros abertos, não cabe muita coisa. Cada coisa tem seu lugar, não posso colocar o que quero onde quero. Já na escrivaninha não, é diferente. Os livros estarão fechados, em cima dela, com o note fachado, alguns papéis nas gavetas, grampeador, cadernos, canetas. Uma coisa de escritório, sem a formalidade de um escritório. Quero uma escrivaninha e logo... 

Em uma loja quando cheguei e perguntei da escrivaninha ouvi então o cara dizer:

- Não se fabrica mais, só que temos um rack aqui muito melhor, cabe tudo que você quiser.

Não quero tudo, quero apenas uma escrivaninha, com meus livros, cadernos, e meu notebook.

Semana que vem vou aos móveis usados. Talvez, já que não se fabriquem mais, eu encontre alguma fabricada faz um tempinho...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Agradecimentos, novas possibilidades, até breve e outras coisas mais...

Quero aqui agradecer a todos os usuários do Blog pela presença, carinho e comentários. Chegou o momento de minha vida que é necessário ir para outros lados, outros desafios, outros caminhos.

Este fim de ano está realmente MUITO corrido. 

Organizando a Clínica para começar os atendimentos no ano que vem, quase sempre paro para pensar no que escrever para o blog.

Acho que estou vivendo uma ressaca de escrever pré-mestrado.

Dizem que a vida é outra nesta fase. Dizem que uma vez no mestrado não há vida alguma, há, no entanto um texto, livros, poeiras, e o único sinal de vida que podemos encontrar nestes momentos é a alergia aos ácaros que insistem em estar presentes.

Bom, ano que vem, como sempre, é um novo ano, mais uma vez um ano novo. Só que diferente dos outros, estarei no mestrado na UEM. Minha vida estará bipartida entre Maringá e Londrina. Meu coração, no entanto, estará onde minha noiva estiver.

Por favor, não pensem que irei desativar o Blog. Isto nem de longe, nem de inconsciente, e muito menos de pertinho tem passado por minha cabeça. Ao contrério, irei manter isso aqui sem culpa alguma. Virou um prazer escrever aqui. Não penso mais o blog como divulgação do meu trabalho, ou como propaganda, ou como ferramenta para ganhar dinheiro (ganhei 50 centavos em 3 anos de blog rsrsrsrs). Isto aqui virou uma parte de mim.

Gosto de escrever desde criancinha. Quando não podia escrever, ditava e minha mãe escrevia por mim. As vezes ainda me lembro de tudo aquilo, e fico pensando, será que não posso ditar minha tese e ela escrever? Acho que não.

É hora de assumir as consequencias de minhas atitudes, de meus desejos, e acima de tudo, de minha vida. Querida mamãe, querido papai, obrigado por me trazerem até aqui. Depois de algum tempo na terapia, um grande abraço a quem me atendeu, compreendeu, e acima de tudo, fez com que eu me estranhasse e assim, entrasse em contato com minhas entranhas psíquicas e descobrisse um mundo de possibilidades a minha frente.

Algumas possibilidades no entanto ficarão para sempre em potencia. Não ganharei na loteria tao cedo, afinal não jogo. Não serei jogador famoso de futebol, afinal também não jogo. Não serei um homem pássaro, pois não tenho asas. Nunca vou conseguir voar como os pássaros, nunca poderei ir morar embaixo do mar, nunca, nunca, não, não... O processo de castração que a gente passa na análise pode parecer ridículo para quem esta fora, mas é muito sofrido perceber que sou humano e que minhas possibilidades enquanto ser humano são ridiculamentes pequenas, limitadas, mas acima de tudo muito, muito, muito interessantes.

Uma das possibilidades é o mestrado, o atendimento clínico, família, casamento, família ainda maior, depois quem sabe, ser professor. As possibilidades do humano pela primeira vez começam a me atrair, justo no momento em que minhas possibilidades imaginárias infantis começaram a ceder.

A vida meus amigos não se reiventa, porém ela NOS reinventa a cada momento.

Neste momento de reiventar-me, de bancar minha existencia diante de meus desejos, quero deixar um grande abraço a todos que me acolheram, que entraram no blog e que me deram força até agora. Porém mais um pedido, gostaria de continuar contando com cada um de vocês, afinal de conta, enquanto houver vida, há possibilidades, e quero que nestas diversas possibilidades que a condição humana nos proporciona, vocês continuem comigo, para sempre, ou até quando o tempo nos permitir.

Um grande abraço a todos, peço paciencia a quem lia com frequencia o blog e não encontra mais textos tão "meus" quanto antigamente, mas como já havia dito anteriormente, o blog está de cara nova. Muito menos meu e muito mais nosso. 

Até breve.

domingo, 27 de novembro de 2011

MAL-ESTAR E CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA NA CONTEMPORANEIDADE.

"O Terapeuta" por Magritte.
RESUMO APRESENTADO À VI JORNADA DE SAÚDE MENTAL E PSICANÁLISE DA PUC-PR:

Este ensaio buscou aprofundar o conhecimento referente aos desdobramentos decorrentes da nova configuração da sociedade, no sentido de verificar, quais as conseqüências dessas mudanças na constituição e desenvolvimento do psiquismo humano. Focando principalmente nas relações humanas da contemporaneidade, o trabalho tenta compreender com maior profundidade, como estão às relações das pessoas consigo mesmas, com seus familiares e com a sociedade em geral. Também busca um esclarecimento sobre o que mudou nos papéis desempenhados pelos membros da família, e se, estas mudanças tem sua parcela de responsabilidade pelo mal-estar contemporâneo, a saber: fragilidade das relações interpessoais, despreparo frente à vida e também um profundo desamparo que tem levado cada vez mais pessoas para a medicalização excessiva em uma busca de um alívio que nunca se realiza. A escolha da relação familiar para esta empreender esta jornada de pesquisa com leitura e análise de casos clínicos, está embasada na teoria psicanalítica que compreende que a família é o centro da construção dos sujeitos humanos. Em primeiro lugar o bojo familiar deseja o bebê e depois é a própria família quem irá bordeá-lo, marcá-lo e constituí-lo como sujeito de determinada forma independente, porém, tudo isso ocorre em uma sociedade e a instituição familiar, como parte do social, não é um ambiente imutável e estagnado, pelo contrário, ela representa os efeitos das mudanças sociais de cada período histórico. A pesquisa foi realizada com a leitura e análise de obras de alguns autores que descrevem tanto a sociedade contemporânea quanto as relações dos sujeitos nesta sociedade. Como resultado da pesquisa, pode-se compreender que justamente as características sociais da contemporaneidade, na medida em que infiltram-se na família, ocorre uma constituição de pessoas cada vez mais desamparadas frente à vida, onde a angústia está entre o próprio desejo e o papel que elas desempenham e devem desempenhar para a sociedade. A conclusão que se chegou até agora, pois a pesquisa segue em andamento, é que parece que a sociedade está construindo sujeitos neuróticos, porém, revestidos de uma "capa" perversa para poder suportar o trabalho, os estudos e também a vida. Esta capa perversa, da realização do desejo a qualquer custo, traz a impressão de que o sujeito está sozinho, o que faz com que ele ainda busque, nas relações familiares, alguém para ampará-lo e sustentá-lo, dando uma idéia de que as relações humanas, na medida em que os vínculos vão estreitando-se, o bordeamento entre o eu e o outro vai enfraquecendo, aprisionando o sujeito em relações simbióticas seja com outra pessoa, com medicamentos, ou com objetos que permitem a ele um amparo frente ao sem sentido da existência. 

Este trabalho foi apresentado na mesa de discussão sobre o mal-estar na contemporaneidade. No dia 26 de novembro de 2011 na PUC-PR.

Agradeço a todos os presentes em minha apresentação pelo apoio, e pela participação no evento. Posso dizer que sai de Curitiba satisfeito e muito surpreso com a organização, com os temas, e também com o nível dos debates durante as apresentações. Toda a equipe está de parabéns pelo excelentíssimo nível alcançado.

Para quem se interessar pela temática, ou quiser receber o trabalho completo, favor entrar em contato clicando AQUI.
Grande abraço a todos.

domingo, 20 de novembro de 2011

Sobre a Psicanálise Clínica e na Comunidade: Entrevista com Judith Miller

Entrevista de Judith Miller para Revista O GLOBO- Jornal O GLOBO- Rio de Janeiro - Brasil *
*Matéria extraída da Revista O Globo .Ano 3 n. 158 . 5 de agosto de 2007
Isabel de Luca editora da revista O Globo

Coordenação: Gisèle Gonin pela comissão de divulgação e imprensa do 3 Encontro Americano



Dois anos antes de sua morte, em 1937, o inventor da psicanálise , Sigmund Freud, já idoso e doente, demonstrou no ensaio “Análise terminável e interminável” a preocupação com a longa duração do tratamento das doenças mentais. (...)

No acelerado século XXI, eis que surge um movimento da Associação Mundial da Psicanálise, de orientação lacaniana, com questões semeadas naqueles textos e que ganham força nos dias de hoje. Em meio a tantas alternativas de terapias breves, psicanalistas encaram o desafio de modificar a ligação da psicanálise a algo lento e caro e mostrar que o tratamento pode ser curto e surtir efeito, sim.

Foram criados há quatro anos na França, berço de Jacques Lacan, o grande leitor de Freud, centros de tratamento gratuito com quatro meses de duração. A boa notícia para quem foge do divã pelos motivos citados acima é que eles já desembarcaram por aqui, em consultórios instalados no Rio, em Belo Horizonte e na Bahia.

Psicanalistas brasileiros iniciaram as pesquisas em torno do tema logo após a inauguração do primeiro CPTC (Centre Psychanalytique de Consultations et de Traitement), fundado por Jacques-Alain Miller, difusor e genro de Lacan, em Paris. Na prática, desde o início do ano, alguns profissionais brasileiros atendem com a nova proposta. Neste fim de semana, o XV Encontro Internacional e III Encontro Americano do Campo Freudiano, que acontece em Belo Horizonte com a presença de Judith Miller, filha de Lacan e espécie de madrinha dos novos centros, discutirá os (bons) resultados.

-A preocupação é não deixar a psicanálise à margem do que acontece na contemporaneidade. Será que ela pode responder às urgências da nossa época? Os primeiros meses de tratamento são fundamentais, porque é quando o paciente faz uma pausa para pensar nas suas queixas e vê seus problemas acolhidos, o que produz alívio. Portanto, quatro meses podem ter ótimo efeito – diz Heloisa Caldas, diretora da Escola Brasileira de Psicanálise no Rio.

As urgências mais comuns do nosso tempo, segundo os psicanalistas, são depressão, distúrbios alimentares, crianças hiperativas e angústias causadas por desemprego ou excesso de trabalho. É o perfil da maioria dos pacientes que batem à porta desses centros, espalhados também por Espanha, Itália, Bélgica e Argentina.

Na França, 1,9 mil de pessoas já receberam o tratamento gratuito e de curta duração nos nove consultórios montados. No Brasil a última novidade foi à abertura de um novo centro chamado a-tempo, há um mês, na capital mineira. No Rio, esses espaços ganharam um caráter social, com os centros Digaí Maré, na favela da Maré, e Clac, em Botafogo, que atende a comunidade do Morro Santa Marta – uma forma de reagir ás críticas de que a psicanálise é elitista. Duzentas pessoas deitam no divã dos dois centros no momento.

-O fundamento: análise para todos. E o tempo pode ser prorrogado para até oito meses, dependendo do caso. Mas mesmo em períodos curtos é a psicanálise engajada com seus princípios, só que em menos tempo. Ou seja, o método é fazer o analisando falar, sempre interrogando e tratando as particularidades de cada um – esclarece Elisa Alvarenga, presidente da Escola Brasileira de Psicanálise, ressaltando as diferenças da psicanálise para as terapias breves.

Seria início do fim da tradicional psicanálise a longo prazo? De jeito nenhum, garantem os psicanalistas. Os novos centros representam pesquisa clínica, instrumento adorado pela psicanálise, que nasceu de um incansável pesquisador, Freud.

O grande objetivo desse trabalho é fazer com que as pessoas saibam que na hora que a corda apertar, elas podem recorrer e, assim, valorizar a psicanálise- finaliza Heloisa Caldas.

Reflexões psicanalíticas
Com a filha de Lacan

Seu pai é Jacques Lacan e seu marido, Jacques-Alain Miller, o criador dos cen­tros psicanalíticos com tratamentos de curto prazo. A francesa Judith Miller, presidente da Fundação do Campo Freudiano, cresceu e vive até hoje cercada pela psicanálise. Antes de em­barcar para o Brasil para o congresso que acontece neste fim de semana em Belo Horizonte, ela conversou por email com a “Revista O GLOBO”.

O que a senhora acha da iniciativa brasileira de seguir o exemplo dos analistas lacanianos franceses que atendem pessoas em situações de emergência, em um tratamento de curto prazo?

JUDITH MILLER: Com direção do psica­nalista Hugo Freda, o Centro Psica­nalítico de Consulta e Tratamento vem dando provas do seu valor. Demons­tramos que todo cidadão pode exercer seu direito de tomar conhecimento da dimensão do seu inconsciente. Desse modo, ele tem a possibilidade de se aliviar de alguns sofrimentos e de sair do impasse no qual se via acuado. Eu só posso me alegrar com o fato de os colegas brasileiros declararem seu de­sejo de pôr em prática essa idéia.

De que outras maneiras a psicanálise pode ajudar, já que apenas poucas pessoas podem pagar por um tratamento desse tipo?

JUDITH: Quando a psicanálise se aplica à terapêutica, ela não é uma ortopedia. Freud sempre o disse, e, depois dele, Lacan. Aplicada à terapêutica, a psi­canálise permite àquele que se dirige a um psicanalista encontrar outras so­luções diferentes daquela constituída pelos sintomas de que padece. A psi­canálise não se propõe a “ajudar”, como vocês dizem. E hoje, um século depois de publicada a “Interpretação dos so­nhos”, ela está em condições de fazer reconhecer o direito de cada um de se inscrever no laço social particular.

A senhora acredita que a modernização da linguagem freudiana feita por Lacan permitiu o progresso da psicanálise tratar das novas doenças psíquicas como a depressão e os distúrbios alimentares, duas das mais encontradas entre os brasileiros?

JUDITH: Jacques Lacan não “moderni­zou” a linguagem freudiana. lnicialmente­, ele leu Freud e restabeleceu o fio condutor da disciplina da qual Freud é o inventor. Não se deixem enganar. A anorexia, a bulimia e a depressão não são “novas doenças psíquicas”! Os la­boratórios fabricam antidepressivos. Alguns deles gostariam de nos con­vencer dos benefícios dessas drogas no enfrentamento desse novo mal. E mais responsável estarmos suficientemente formados a fim de podermos distinguir de qual estrutura decorre um sujeito deprimido, um sujeito anoréxico ou um sujeito bulímico para, então, intervir­mos de modo conseqüente. Essa es­trutura com freqüência é psicótica, mas nem sempre. Também é verdade que a psicose é cada vez mais freqüente, não apenas no Brasil.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Maiêutica - O parto do Sujeito na Psicanálise.



"O método da arte maiêutica - método socrático - consiste em levar o interlocutor à descoberta da verdade mediante uma série de perguntas e mediante às perplexidades à que as respostas vão dando origem." Dicionário de Filosofia 3 (K-P) Volume 3 ISBN: 8515020068.




Na clínica psicanalítica podemos encontrar muits acontecimentos subjetivos. Desde a mudança de pontos vista, até mesmo uma mudança total no estilo de vida do analisante. Para que a última chegue a acontecer no entanto, é necessário justamente um parto de um homem novo.

Seja com os ensinamentos de Cristo, em que uma nova criatura pode nascer do batismo, ou de Freud, quando diz que a psicanálise possibilita uma mudança radical na vida de alguém que vivia cheio de sintomas, doenças e dificuldades, e depois da análise chega ao tão esperado ponto de poder amar e trabalhar, suportando a vida cotidiana e seus desprazeres sem maiores consequências.

O que ocorre é o que Platão havia aprendido de Sócrates, um parto de um novo sujeito. 

Enquanto a Filosofia Clássica preocupava-se com a verdade, com o conhecimento de uma verdade universal, ou ainda um princípio universal (Arché), a psicanálise descobre que há uma verdade em cada pessoa. Cada pessoa com sua história, suas dores, dificuldades, sofrimentos, perdas, alegrias, sucessos, vitalidade, ou seja, cada um com sua existência tem uma verdade sobre si mesmo e sobre o mundo a sua volta.

Uma sacada genial que encontramos no método psicanalítico é justamente de que, a teoria psicanalítica revelou que há sempre 3 pessoas dentro de nós e o método possibilita uma coexistencia destas pessoas. Calma, vou explicar.

Primeiro a pessoa que gostaríamos de ser. 

Temos em nós um modelo de pessoa, de bondade, de virtudes e que perseguimos. Podemos jocosamente dizer que existe dentro de nós um "Filhinho da mamãe e do papai". Obediente, honesto, seguro, feliz, ou seja, uma pessoa ideal que de alguma forma nos força sempre a ser melhor. É como se houvesse um modelo que busco ser para a sociedade e que isso supostamente me faria bem - SUPOSTAMENTE.

A segunda pessoa, ou aquela que faz tudo o que eu não queria ter feito.

Freud coloca esta "persona non grata" como alguém dentro de nós, ou ainda, alguém que se manifesta indepedentemente de nossa vontade. Alguém que na hora que nos damos conta do que fizemos a sensasação é de raiva de si mesmo, de ódio, de vergonha, de fracasso, ou simplesmente de embaraço.

Em um de seus textos  Feud coloca que havia um homem importante que abriria uma assembléia. Quando ele deveria ter dito: "Declaro aberta a sessão" ele simplesmente disse: "Declaro encerrada a sessão". Um lapso talvez, mas aí é que mora esta 2º pessoa, nos lapsos, nos esquecimentos, nos brancos na hora da prova, ou ainda (principalmente hoje em dia) na procrastinação dos afazeres.

Esta segunda pessoa parece que age por si só. Independente do que a socidade pensa ou espera de nós, é ela quem dorme até perder o horário, é ela quem come demais da conta até não conseguir mais, é ela quem gasta todo o dinheiro do mês em apenas um sábado. É esta pessoa quem nos impulsiona a fazer coisas as quais NEM SEMPRE concordamos.

A terceira pessoa é o resultado histórico dos outros dois.

Devido às diferenças existentes entre as duas formas de agir. Podemos até dizer que são paradoxais como por exemplo, alguém que quer a solidão para fazer o que quiser, mas também quer casar, pois pensa que não pode ser feliz sem uma mulher ao seu lado. Ou ainda, enquanto a primeira pessoa quer ir trabalhar e chegar cedo no serviço, fazer tudo direitinho, ser recompensado com elogios, aumento de salário e acima de tudo reconhecimento, a segunda pessoa só quer farrear, tomar todas no bar a noite e depois durante a manhã daquela reunião com o chefe simplesmente faz com que o trabalhador se apresente de ressaca, mal estar e um mau-humor que lhe custa a promoção e também deixa ele em uma posição embaraçosa na empresa onde trabalha.

Em meio aos conflitos das vontades (desejos) das duas pessoas paradoxias em nós surge alguém. Ou ainda melhor dizendo, surge a instância que Freud irá nomear de EU.

Fruto de uma série de adaptações sucessivas entre as incompatibilidades desejadas pelas pessoas, quem paga a conta é justamente este EU.

Sim meus amigos, quem gasta bebendo todas é a segunda pessoa, podemos dizer que quem gasta as energias estudando ou trabalhando mais do que consegue é a primeira pessoa. Ambas gastam e quem paga é a terceira pessoa, é o eu, é o indivíduo.

Até aqui falamos de teoria da psiché. Claro que muito resumidamente, muito superficialmente, mas que fosse acessível a todos os leitores do Blog.

Bom, agora vem a parte da clínica analítica, ou ainda o método psicanalítico.

A análise possibilita o eu de tomar consciência do quanto se gasta com as duas outras pessoas. Do quanto são incompatíveis as suas escolhas, mas que mesmo assim acontecem. Do quanto estava alheio e provavelmente, ainda será alheio à maioria das suas escolhas.

Mas de alguma forma a psicanálise clínica possibilita justamente uma forma de acolher estas discrepancias do eu e a partir daí a pessoa começa a responder por suas escolhas. Responsabilizar-se não é culpar-se, mas saber que quem agiu (eu) estava presente como atuante e não apenas como observador, como visitante da própria vida.

Se pensarmos na vida como um teatro, a clínica psicanalítica nem sempre fará com que você tenha as rédeas em mãos, mas ao menos, te dará condições de aproveitar o passeio e sentir o vento da cavalgada sem rumo, com menos medo, menos incertezas e ainda por cima com a segurança de saber que quem soltou as rédias foi você, e assim como você soltou, você tem toda a força para pegar de volta...


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Carta-Convite - Seminário com Dr. Aurélio Souza em Londrina.



Meus caros,

Escrevo para agradecer a todos pelo apoio na divulgação e, em especial, àqueles que já se inscreveram e confirmaram suas presenças no evento Sobre os nomes-do-Pai com o psicanalista Aurélio de Souza nos próximos dias 11 e 12 de novembro aqui em Londrina.

Aos que ainda não realizaram a inscrição, reitero o convite e solicito que, na medida do possível, antecipem a realização das mesmas (por e-mail e depósito em conta) para que possamos ser pontuais no início do trabalho e para facilitar a confecção antecipada dos certificados.

De qualquer forma, se a opção for pela inscrição no local, peço a gentileza de chegarem mais cedo.

Mais uma vez, solicito que repassem a mensagem aos seus contatos, compartilhando a divulgação.
Certamente teremos um momento de trabalho muito agradável e enriquecedor, até breve!

Atenciosamente,
Zeila Facci Torezan
Psicanalista - Londrina
(43) 3322-2866
www.realinguagem.blogspot.com.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ELISABETH ROUDINESCO: NEUROCIÊNCIAS E PSICANÁLISE

Seguindo no mesmo sentido do Post sobre as "Terapias: Dos Medicamentos à Cura". Esta sequência com dois vídeos nos mostra com certa simplicade o pensamento de Elisabeth Roudinesco. Uma das grandes cientistas de nossa época, além, é claro de ser também historiadora e grande psicanalista.

Com certeza vale a pena dar uma olhada em cada um destes dois vídeos, pois muito mais que uma separação entre um corpo e uma psiquê, ou ainda, entre o que é do corpo e o que é da alma, deveríamos pensar sempre em uma conjugação entre corpo e alma que funcionam juntos e é por isso que ao pensar o ser humano, devemos ter em mente sempre a condição de um tratamento tanto do corpo quanto da alma (Psiquê em grego, ou "mente" em português) .



PRIMEIRA PARTE: 

 


SEGUNDA PARTE:
 

Terapias: Dos Medicamentos à Cura (Parte Final)

Primeiramente gostaria de dizer que esta Terceira e Última parte do texto pode ser considerada como independente, embora a leitura das outras duas partes seja um adendo importante a este texto.



Bom, no primeiro texto foi apresentado um pouco dos efeitos dos medicamentos sobre determinada pessoa, onde uma pessoa toma um remédio e ele faz ou não o efeito esperado, mas também existe o efeito placebo que contribui tanto para a cura quanto para o não funcionamento do mesmo.

Na segunda parte desta trilogia, pudemos ver um pouco do sujeito que toma o medicamento. Somos constituídos para além de um físico, para além de uma superfície corporal que necessita de um ou outro medicamento, e que, busca a cura de seu mal-estar independentemente de seu corpo. Como são os casos apresentados da criança que com certeza seria muito melhor (certeza para nós) e mais seguro viver sem a necessidade da bolsa, e também do Tiba, que afirmava que a "pira" estava em abrir um buraco em sua pele.

O que buscam as pessoas que independentemente da ordem física, podem estar psiquicamente saudáveis ou não?

Vamos explorar o luto para vermos se temos alguma resposta.

Bom, primeiro, precisamos compreender o luto como a perda do objeto amado. Ainda mais profundo, podemos compreender o luto como "a perda do amor da pessoa amada". 

Edvard Munch "A mãe morta e a criança"

Freud escreve em "O Mal-estar na Civilização" que nunca o ser humano está tão desamparado quando coloca o sentido de sua vida no amor. O amor foge ao controle do ser humano pois é indiferente às nossas atitudes conscientes. Um dia se ama, e outro dia pode simplesmente perceber-se não amando mais e perder aquilo que foi tão importante até então. A vida foi contruída de sonhos com a pessoa amada, foi uma construção imaginária de comphania, carinho, alegrias, sucessos, amizade, cumplicidade, ou seja, uma vida de muiuto amor e dedicação para com este outro.

Perceber a instabilidade e a fragilidade das relações humanas, levam as pessoas a uma situação de tomada de decisão. Claro meus amigos, tudo isto é um processo muito mais inconsciente do que se possa imaginar. Inconsciente, porém capaz de consciência.

As pessoas vão e vem como as ondas na maré.
Seja por qual motivo for, viagem, morte, mudança, trabalho, brigas, desentendimentos, mas elas se vão, isso é certo. E como ficamos nós com esta certeza de que nosso objeto de amor está pendurado na verdade pelo destino? Saber do destino (salvo quem crê que é possível) é impossível. Podemos planejar, repensar nossas vidas, fazer cronogramas, agendar encontros, mas no fundo sabemos que tudo isto não passa de mera tentativa de contornar o acaso, de dar uma volta sobre o abismo que é a alma do outro e o grande mistério que é a vida e a morte.

Bauman em seu livro "Amor Líquido" diz das relações artificiais que as pessoas estão tendo ultimamente. Podemos pensar nossa sociedade contemporânea como uma sociedade das relações pragmáticas como diria o filósofo Di Matteo. As pessoas se unem pelo que elas podem se dar em troca, não pelo mistério que são, mas pelo que conheço delas. Se as pessoas me surpreendem fazendo o que eu não gostaria de saber, a abandono pois aquele ou aquela não serve para o que planejei para minha vida, para o que eu esperava de um amigo, amiga, pai, mãe, etc. 

Poderíamos até pensar em uma sociedade do consumo e do descarte. Consumo o outro como meu objeto, como um brinquedo, até extrair dele, ou dela tudo o que eu puder, depois apenas descarto porque já integrei em mim aquilo que mais queria do outro, já sou tão bom quanto ele ou ela, e já consigo viver independentemente. Vou para outra loja de pessoas e compro com minha comphania, minhas piadas, meu dinheiro, minha presença, meu charme, meu sexo, outra pessoa. Compro com aquilo que eu puder pagar, até mesmo com o dinheiro.

Vemos também uma sociedade de controle. Um controle absurdo onde poderíamos dizer em qualquer lugar que formos, assim como o livro de minha querida professora Sonia Mansano : "Sorria, você está sendo controlado". A vida virou um Big Brother onde vídeos de tempestades, desastres, sequestros, explosões, nascimentos, aniversários, entre outros podem ser imediatamente vinculados a qualquer rede social e todos se apropriam dos fatos.

Vivemos sem controle, sem segurança alguma, vivemos em busca de um norte, de um amparo de um socorro. Os filhos vivem tentando agradar seus pais, os pais, tentando agradar seus filhos, um medo terrível de ser um mau menino, ou serem pais ruins. Até em nosa própria família a imagem de "eu" que se construiu é de altíssima dependência de alguém que sabidamente um dia irá falhar, irá faltar, irá ser desprezado, irá morrer. A idéia então que podemos ter é a de pessoas cada vez mais se preparando para gerir-se independente do outro. Porém esta independência tem um preço altíssimo que se paga, a solidão.

A solidão não é apenas ficar sozinho, mas é ver-se e reconhecer-se no espelho, reconhecer aquele que está a sua frente no espelho e ver que aquele ali também vai falhar, vai sofrer, vai faltar, e um dia também vai morrer. Pânico? Sim, para os mentalmente saudáveis sim. Pânico, loucura, doenças físicas e mentais na busca de um eixo, de algo que possa me dar um amparo, uma segurança de que aquele ser a minha frente tem condições de suportar a vida, a existência, com todas as suas características, com todas as suas faltas.

Na existência humana, a falta é a grande marca da vida. Falta controle, faltam regras, faltam amigos, faltam amparos, falta segurança, falta estabilidade, falta ar, faltam idéias, falta emprego, falta dinheiro, falta mãe, falta pai, falta tempo, falta vida.

Como no Filme "Não me abandone jamais" a definição dada para ser humano é basicamente essa: "Falta tempo para viver tudo aquilo que queríamos viver".
Buscar então em um padrão de comportamentos, dando idéia de uma segurança para estas faltas, nos levam a um mundo ainda pior. Medicar-se quanto à falta de ar com bombinhas para asma, não tira o sujeito da posição de alguém sufocado pela própria vida e pelo pânico que desencadeia de tempos em tempos a asma. Claro que a medicação age no corpo, socorrendo o doente no momento de crise asmática. Falta mãe, falta pai, faltam pessoas, o que não faltam são medicamentos para dar continuidade a uma situação que, de tão insuportável, faz-se necessário utilizar estimulantes para que a vida passe a ter alguma "graça". Falta consolo no luto, na dor da perda, na angústia frente a morte, mas não faltam antidepressivos para fazer com que a pessoa levante da cama e, ao invés de pensar sobre suas dores e o que se foi, continue a tocar a vida.

Bom, claro que os medicamentos ajudam, mas existe outra coisa também possível. 

No meio disso tudo uma mudança faz-se necessário. Muito mais do que tomar medicamentos e fazer uma terapia com psicólogo, psicanalista, ou quem quer que seja para ter um apoio. O ideal seria o contrário. O efeito do medicamento de analgesiar o indivíduo frente às intempéries da existência, e às dores e dificuldades da vida pode ser justamente o que precisa ser retirado.

Ao invés de uma posição passiva frente a vida, tomando medicamentos para continuar engolindo sapos, a terapia vem em forma de modificar toda a posição de um sujeito que começa a se dar conta de que só os remédios, por incrível que pareça não estão dando conta do recado. Ao contrário, ainda sim algo mais urge, como uma necessidade, como algo que pulsa internamente e que não para de dizer: "Olha, do jeito que está não vai dar mais". Justamente quem diz isso é aquele que está a nossa frente no espelho e que marca nossa vida nos trazendo sempre problemas, dificuldades, repetindo situações embaraçosas.

E a nós, cabe a escolha, continuar na escola clássica de tomar medicamentos, cada vez um a mais, sempre indo e vindo nos postos, em médicos diversos, e sempre rezando a Deus para a descoberta de um medicamento suficientemente bom para resolver tudo isso, ou podemos dar voz àquele frente ao espelho, que não pode falar, mas que nos mostra um duplo em nós que no final das contas só quer nos ajudar.

Dar voz ao espelho é em outras palavras, recorrer a um especialista (Psicólogo, Psicanalista, Psiquiatra - Alguém que nos ouça) que faça esta função, a função de falar sobre você por suas próprias palavras, a função de um analista que te mostra não aquilo que você quis mostrar, mas aquilo que você até então não foi capaz de enxergar em si mesmo. Pode ter certeza, para existir, para sobreviver, para viver de verdade, de algum modo é necessário você. É este você que deve ser encontrado, e não o que você tem enxergado até antão.




 
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