sábado, 10 de dezembro de 2011

Não se fabricam mais escrivaninhas.


Estou terminando de montar a Clínica. Já tenho poltronas, tapetes, quadros, um armário, um vaso de plantas, as paredes estão pintadas, ventilador de teto... Falta a escrivaninha.

Fui atrás da escrivaninha, na verdade estou atrás dela desde o dia 5 de novembro, quando decidi que ia abrir a clínica. 

Depois de muito caminhar cheguei a constatação de que além dos móveis de madeira, não se fazem mais escrivaninhas. Estranho, muito estranho. 

Gosto de ler livros, estudar, rabiscar o que escrevo e depois reescrever do lado no papel. Gosto de ter um espaço para minha bagunça de livros e mais luvros abertos, mesmo que eu nem utilize deles. Acho que é meu TOC. Ter coisas demais e apenas deixar ali para criar um clima de intelectualidade e um ar de "nossa como sou estudioso". Mesmo que lá no fundo saiba que estou lendo mais uma vez um texto do Freud, ou que ainda nem terminei o primeiro capítulo da maioria dos livros que se encontram por ali.

Tudo bem, mas o importante é que não se fazem mais escrivaninhas. Hoje nas lojas você encontra os mais diversos tipos de Rack para computadores. Tem em varaias cores, em varios tamanhos, com suporte para impressora, com espaço para teclados, para mouse, para até mesmo (pasmem) alguns livros. É a tecnologia meus amigos.

Quero uma escrivaninha. Não uso computador, apenas meu notebook. Meu paciente estes dias me chamou de palyboyzinho, só porqeu ando de avião. Mas não me considero um playboy porque tenho um notebook, ao contrário, me considero ultrapassado daquele tipo de quem usa escrivaninhas.

Procurei, procurei, procurei, e nada da escrivaninha. Fui nas casas bahia, moveis brasilia, magazine luiza, e em muitos outros lugares. A única que achei foi sem gavetas, olhando melhor para aquela coisa na cor rosa e com espelho, me veio o insight. Não era escrivaninha, era muito mais um penteadeira. A mulher tadinha, novinha, nos seus 18/19 anos, acho que nem sabe o que era uma escrivaninha, não era culpa dela.

Na verdade eu tinha uma escrivaninha quando era pequeno, mas não usava. Ia estudar na frente da tv, no sofá da sala, no chão do meu quarto. Mas agora, com o notebook, e o consultório quase sem clientes, achei que seria um lugar interessante para trabalhar. Quero minha escrivaninha.

No rack, mal cabe o notebook. E quando cabe, não cabem os livros abertos, não cabe muita coisa. Cada coisa tem seu lugar, não posso colocar o que quero onde quero. Já na escrivaninha não, é diferente. Os livros estarão fechados, em cima dela, com o note fachado, alguns papéis nas gavetas, grampeador, cadernos, canetas. Uma coisa de escritório, sem a formalidade de um escritório. Quero uma escrivaninha e logo... 

Em uma loja quando cheguei e perguntei da escrivaninha ouvi então o cara dizer:

- Não se fabrica mais, só que temos um rack aqui muito melhor, cabe tudo que você quiser.

Não quero tudo, quero apenas uma escrivaninha, com meus livros, cadernos, e meu notebook.

Semana que vem vou aos móveis usados. Talvez, já que não se fabriquem mais, eu encontre alguma fabricada faz um tempinho...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Agradecimentos, novas possibilidades, até breve e outras coisas mais...

Quero aqui agradecer a todos os usuários do Blog pela presença, carinho e comentários. Chegou o momento de minha vida que é necessário ir para outros lados, outros desafios, outros caminhos.

Este fim de ano está realmente MUITO corrido. 

Organizando a Clínica para começar os atendimentos no ano que vem, quase sempre paro para pensar no que escrever para o blog.

Acho que estou vivendo uma ressaca de escrever pré-mestrado.

Dizem que a vida é outra nesta fase. Dizem que uma vez no mestrado não há vida alguma, há, no entanto um texto, livros, poeiras, e o único sinal de vida que podemos encontrar nestes momentos é a alergia aos ácaros que insistem em estar presentes.

Bom, ano que vem, como sempre, é um novo ano, mais uma vez um ano novo. Só que diferente dos outros, estarei no mestrado na UEM. Minha vida estará bipartida entre Maringá e Londrina. Meu coração, no entanto, estará onde minha noiva estiver.

Por favor, não pensem que irei desativar o Blog. Isto nem de longe, nem de inconsciente, e muito menos de pertinho tem passado por minha cabeça. Ao contrério, irei manter isso aqui sem culpa alguma. Virou um prazer escrever aqui. Não penso mais o blog como divulgação do meu trabalho, ou como propaganda, ou como ferramenta para ganhar dinheiro (ganhei 50 centavos em 3 anos de blog rsrsrsrs). Isto aqui virou uma parte de mim.

Gosto de escrever desde criancinha. Quando não podia escrever, ditava e minha mãe escrevia por mim. As vezes ainda me lembro de tudo aquilo, e fico pensando, será que não posso ditar minha tese e ela escrever? Acho que não.

É hora de assumir as consequencias de minhas atitudes, de meus desejos, e acima de tudo, de minha vida. Querida mamãe, querido papai, obrigado por me trazerem até aqui. Depois de algum tempo na terapia, um grande abraço a quem me atendeu, compreendeu, e acima de tudo, fez com que eu me estranhasse e assim, entrasse em contato com minhas entranhas psíquicas e descobrisse um mundo de possibilidades a minha frente.

Algumas possibilidades no entanto ficarão para sempre em potencia. Não ganharei na loteria tao cedo, afinal não jogo. Não serei jogador famoso de futebol, afinal também não jogo. Não serei um homem pássaro, pois não tenho asas. Nunca vou conseguir voar como os pássaros, nunca poderei ir morar embaixo do mar, nunca, nunca, não, não... O processo de castração que a gente passa na análise pode parecer ridículo para quem esta fora, mas é muito sofrido perceber que sou humano e que minhas possibilidades enquanto ser humano são ridiculamentes pequenas, limitadas, mas acima de tudo muito, muito, muito interessantes.

Uma das possibilidades é o mestrado, o atendimento clínico, família, casamento, família ainda maior, depois quem sabe, ser professor. As possibilidades do humano pela primeira vez começam a me atrair, justo no momento em que minhas possibilidades imaginárias infantis começaram a ceder.

A vida meus amigos não se reiventa, porém ela NOS reinventa a cada momento.

Neste momento de reiventar-me, de bancar minha existencia diante de meus desejos, quero deixar um grande abraço a todos que me acolheram, que entraram no blog e que me deram força até agora. Porém mais um pedido, gostaria de continuar contando com cada um de vocês, afinal de conta, enquanto houver vida, há possibilidades, e quero que nestas diversas possibilidades que a condição humana nos proporciona, vocês continuem comigo, para sempre, ou até quando o tempo nos permitir.

Um grande abraço a todos, peço paciencia a quem lia com frequencia o blog e não encontra mais textos tão "meus" quanto antigamente, mas como já havia dito anteriormente, o blog está de cara nova. Muito menos meu e muito mais nosso. 

Até breve.

domingo, 27 de novembro de 2011

MAL-ESTAR E CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA NA CONTEMPORANEIDADE.

"O Terapeuta" por Magritte.
RESUMO APRESENTADO À VI JORNADA DE SAÚDE MENTAL E PSICANÁLISE DA PUC-PR:

Este ensaio buscou aprofundar o conhecimento referente aos desdobramentos decorrentes da nova configuração da sociedade, no sentido de verificar, quais as conseqüências dessas mudanças na constituição e desenvolvimento do psiquismo humano. Focando principalmente nas relações humanas da contemporaneidade, o trabalho tenta compreender com maior profundidade, como estão às relações das pessoas consigo mesmas, com seus familiares e com a sociedade em geral. Também busca um esclarecimento sobre o que mudou nos papéis desempenhados pelos membros da família, e se, estas mudanças tem sua parcela de responsabilidade pelo mal-estar contemporâneo, a saber: fragilidade das relações interpessoais, despreparo frente à vida e também um profundo desamparo que tem levado cada vez mais pessoas para a medicalização excessiva em uma busca de um alívio que nunca se realiza. A escolha da relação familiar para esta empreender esta jornada de pesquisa com leitura e análise de casos clínicos, está embasada na teoria psicanalítica que compreende que a família é o centro da construção dos sujeitos humanos. Em primeiro lugar o bojo familiar deseja o bebê e depois é a própria família quem irá bordeá-lo, marcá-lo e constituí-lo como sujeito de determinada forma independente, porém, tudo isso ocorre em uma sociedade e a instituição familiar, como parte do social, não é um ambiente imutável e estagnado, pelo contrário, ela representa os efeitos das mudanças sociais de cada período histórico. A pesquisa foi realizada com a leitura e análise de obras de alguns autores que descrevem tanto a sociedade contemporânea quanto as relações dos sujeitos nesta sociedade. Como resultado da pesquisa, pode-se compreender que justamente as características sociais da contemporaneidade, na medida em que infiltram-se na família, ocorre uma constituição de pessoas cada vez mais desamparadas frente à vida, onde a angústia está entre o próprio desejo e o papel que elas desempenham e devem desempenhar para a sociedade. A conclusão que se chegou até agora, pois a pesquisa segue em andamento, é que parece que a sociedade está construindo sujeitos neuróticos, porém, revestidos de uma "capa" perversa para poder suportar o trabalho, os estudos e também a vida. Esta capa perversa, da realização do desejo a qualquer custo, traz a impressão de que o sujeito está sozinho, o que faz com que ele ainda busque, nas relações familiares, alguém para ampará-lo e sustentá-lo, dando uma idéia de que as relações humanas, na medida em que os vínculos vão estreitando-se, o bordeamento entre o eu e o outro vai enfraquecendo, aprisionando o sujeito em relações simbióticas seja com outra pessoa, com medicamentos, ou com objetos que permitem a ele um amparo frente ao sem sentido da existência. 

Este trabalho foi apresentado na mesa de discussão sobre o mal-estar na contemporaneidade. No dia 26 de novembro de 2011 na PUC-PR.

Agradeço a todos os presentes em minha apresentação pelo apoio, e pela participação no evento. Posso dizer que sai de Curitiba satisfeito e muito surpreso com a organização, com os temas, e também com o nível dos debates durante as apresentações. Toda a equipe está de parabéns pelo excelentíssimo nível alcançado.

Para quem se interessar pela temática, ou quiser receber o trabalho completo, favor entrar em contato clicando AQUI.
Grande abraço a todos.

domingo, 20 de novembro de 2011

Sobre a Psicanálise Clínica e na Comunidade: Entrevista com Judith Miller

Entrevista de Judith Miller para Revista O GLOBO- Jornal O GLOBO- Rio de Janeiro - Brasil *
*Matéria extraída da Revista O Globo .Ano 3 n. 158 . 5 de agosto de 2007
Isabel de Luca editora da revista O Globo

Coordenação: Gisèle Gonin pela comissão de divulgação e imprensa do 3 Encontro Americano



Dois anos antes de sua morte, em 1937, o inventor da psicanálise , Sigmund Freud, já idoso e doente, demonstrou no ensaio “Análise terminável e interminável” a preocupação com a longa duração do tratamento das doenças mentais. (...)

No acelerado século XXI, eis que surge um movimento da Associação Mundial da Psicanálise, de orientação lacaniana, com questões semeadas naqueles textos e que ganham força nos dias de hoje. Em meio a tantas alternativas de terapias breves, psicanalistas encaram o desafio de modificar a ligação da psicanálise a algo lento e caro e mostrar que o tratamento pode ser curto e surtir efeito, sim.

Foram criados há quatro anos na França, berço de Jacques Lacan, o grande leitor de Freud, centros de tratamento gratuito com quatro meses de duração. A boa notícia para quem foge do divã pelos motivos citados acima é que eles já desembarcaram por aqui, em consultórios instalados no Rio, em Belo Horizonte e na Bahia.

Psicanalistas brasileiros iniciaram as pesquisas em torno do tema logo após a inauguração do primeiro CPTC (Centre Psychanalytique de Consultations et de Traitement), fundado por Jacques-Alain Miller, difusor e genro de Lacan, em Paris. Na prática, desde o início do ano, alguns profissionais brasileiros atendem com a nova proposta. Neste fim de semana, o XV Encontro Internacional e III Encontro Americano do Campo Freudiano, que acontece em Belo Horizonte com a presença de Judith Miller, filha de Lacan e espécie de madrinha dos novos centros, discutirá os (bons) resultados.

-A preocupação é não deixar a psicanálise à margem do que acontece na contemporaneidade. Será que ela pode responder às urgências da nossa época? Os primeiros meses de tratamento são fundamentais, porque é quando o paciente faz uma pausa para pensar nas suas queixas e vê seus problemas acolhidos, o que produz alívio. Portanto, quatro meses podem ter ótimo efeito – diz Heloisa Caldas, diretora da Escola Brasileira de Psicanálise no Rio.

As urgências mais comuns do nosso tempo, segundo os psicanalistas, são depressão, distúrbios alimentares, crianças hiperativas e angústias causadas por desemprego ou excesso de trabalho. É o perfil da maioria dos pacientes que batem à porta desses centros, espalhados também por Espanha, Itália, Bélgica e Argentina.

Na França, 1,9 mil de pessoas já receberam o tratamento gratuito e de curta duração nos nove consultórios montados. No Brasil a última novidade foi à abertura de um novo centro chamado a-tempo, há um mês, na capital mineira. No Rio, esses espaços ganharam um caráter social, com os centros Digaí Maré, na favela da Maré, e Clac, em Botafogo, que atende a comunidade do Morro Santa Marta – uma forma de reagir ás críticas de que a psicanálise é elitista. Duzentas pessoas deitam no divã dos dois centros no momento.

-O fundamento: análise para todos. E o tempo pode ser prorrogado para até oito meses, dependendo do caso. Mas mesmo em períodos curtos é a psicanálise engajada com seus princípios, só que em menos tempo. Ou seja, o método é fazer o analisando falar, sempre interrogando e tratando as particularidades de cada um – esclarece Elisa Alvarenga, presidente da Escola Brasileira de Psicanálise, ressaltando as diferenças da psicanálise para as terapias breves.

Seria início do fim da tradicional psicanálise a longo prazo? De jeito nenhum, garantem os psicanalistas. Os novos centros representam pesquisa clínica, instrumento adorado pela psicanálise, que nasceu de um incansável pesquisador, Freud.

O grande objetivo desse trabalho é fazer com que as pessoas saibam que na hora que a corda apertar, elas podem recorrer e, assim, valorizar a psicanálise- finaliza Heloisa Caldas.

Reflexões psicanalíticas
Com a filha de Lacan

Seu pai é Jacques Lacan e seu marido, Jacques-Alain Miller, o criador dos cen­tros psicanalíticos com tratamentos de curto prazo. A francesa Judith Miller, presidente da Fundação do Campo Freudiano, cresceu e vive até hoje cercada pela psicanálise. Antes de em­barcar para o Brasil para o congresso que acontece neste fim de semana em Belo Horizonte, ela conversou por email com a “Revista O GLOBO”.

O que a senhora acha da iniciativa brasileira de seguir o exemplo dos analistas lacanianos franceses que atendem pessoas em situações de emergência, em um tratamento de curto prazo?

JUDITH MILLER: Com direção do psica­nalista Hugo Freda, o Centro Psica­nalítico de Consulta e Tratamento vem dando provas do seu valor. Demons­tramos que todo cidadão pode exercer seu direito de tomar conhecimento da dimensão do seu inconsciente. Desse modo, ele tem a possibilidade de se aliviar de alguns sofrimentos e de sair do impasse no qual se via acuado. Eu só posso me alegrar com o fato de os colegas brasileiros declararem seu de­sejo de pôr em prática essa idéia.

De que outras maneiras a psicanálise pode ajudar, já que apenas poucas pessoas podem pagar por um tratamento desse tipo?

JUDITH: Quando a psicanálise se aplica à terapêutica, ela não é uma ortopedia. Freud sempre o disse, e, depois dele, Lacan. Aplicada à terapêutica, a psi­canálise permite àquele que se dirige a um psicanalista encontrar outras so­luções diferentes daquela constituída pelos sintomas de que padece. A psi­canálise não se propõe a “ajudar”, como vocês dizem. E hoje, um século depois de publicada a “Interpretação dos so­nhos”, ela está em condições de fazer reconhecer o direito de cada um de se inscrever no laço social particular.

A senhora acredita que a modernização da linguagem freudiana feita por Lacan permitiu o progresso da psicanálise tratar das novas doenças psíquicas como a depressão e os distúrbios alimentares, duas das mais encontradas entre os brasileiros?

JUDITH: Jacques Lacan não “moderni­zou” a linguagem freudiana. lnicialmente­, ele leu Freud e restabeleceu o fio condutor da disciplina da qual Freud é o inventor. Não se deixem enganar. A anorexia, a bulimia e a depressão não são “novas doenças psíquicas”! Os la­boratórios fabricam antidepressivos. Alguns deles gostariam de nos con­vencer dos benefícios dessas drogas no enfrentamento desse novo mal. E mais responsável estarmos suficientemente formados a fim de podermos distinguir de qual estrutura decorre um sujeito deprimido, um sujeito anoréxico ou um sujeito bulímico para, então, intervir­mos de modo conseqüente. Essa es­trutura com freqüência é psicótica, mas nem sempre. Também é verdade que a psicose é cada vez mais freqüente, não apenas no Brasil.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Maiêutica - O parto do Sujeito na Psicanálise.



"O método da arte maiêutica - método socrático - consiste em levar o interlocutor à descoberta da verdade mediante uma série de perguntas e mediante às perplexidades à que as respostas vão dando origem." Dicionário de Filosofia 3 (K-P) Volume 3 ISBN: 8515020068.




Na clínica psicanalítica podemos encontrar muits acontecimentos subjetivos. Desde a mudança de pontos vista, até mesmo uma mudança total no estilo de vida do analisante. Para que a última chegue a acontecer no entanto, é necessário justamente um parto de um homem novo.

Seja com os ensinamentos de Cristo, em que uma nova criatura pode nascer do batismo, ou de Freud, quando diz que a psicanálise possibilita uma mudança radical na vida de alguém que vivia cheio de sintomas, doenças e dificuldades, e depois da análise chega ao tão esperado ponto de poder amar e trabalhar, suportando a vida cotidiana e seus desprazeres sem maiores consequências.

O que ocorre é o que Platão havia aprendido de Sócrates, um parto de um novo sujeito. 

Enquanto a Filosofia Clássica preocupava-se com a verdade, com o conhecimento de uma verdade universal, ou ainda um princípio universal (Arché), a psicanálise descobre que há uma verdade em cada pessoa. Cada pessoa com sua história, suas dores, dificuldades, sofrimentos, perdas, alegrias, sucessos, vitalidade, ou seja, cada um com sua existência tem uma verdade sobre si mesmo e sobre o mundo a sua volta.

Uma sacada genial que encontramos no método psicanalítico é justamente de que, a teoria psicanalítica revelou que há sempre 3 pessoas dentro de nós e o método possibilita uma coexistencia destas pessoas. Calma, vou explicar.

Primeiro a pessoa que gostaríamos de ser. 

Temos em nós um modelo de pessoa, de bondade, de virtudes e que perseguimos. Podemos jocosamente dizer que existe dentro de nós um "Filhinho da mamãe e do papai". Obediente, honesto, seguro, feliz, ou seja, uma pessoa ideal que de alguma forma nos força sempre a ser melhor. É como se houvesse um modelo que busco ser para a sociedade e que isso supostamente me faria bem - SUPOSTAMENTE.

A segunda pessoa, ou aquela que faz tudo o que eu não queria ter feito.

Freud coloca esta "persona non grata" como alguém dentro de nós, ou ainda, alguém que se manifesta indepedentemente de nossa vontade. Alguém que na hora que nos damos conta do que fizemos a sensasação é de raiva de si mesmo, de ódio, de vergonha, de fracasso, ou simplesmente de embaraço.

Em um de seus textos  Feud coloca que havia um homem importante que abriria uma assembléia. Quando ele deveria ter dito: "Declaro aberta a sessão" ele simplesmente disse: "Declaro encerrada a sessão". Um lapso talvez, mas aí é que mora esta 2º pessoa, nos lapsos, nos esquecimentos, nos brancos na hora da prova, ou ainda (principalmente hoje em dia) na procrastinação dos afazeres.

Esta segunda pessoa parece que age por si só. Independente do que a socidade pensa ou espera de nós, é ela quem dorme até perder o horário, é ela quem come demais da conta até não conseguir mais, é ela quem gasta todo o dinheiro do mês em apenas um sábado. É esta pessoa quem nos impulsiona a fazer coisas as quais NEM SEMPRE concordamos.

A terceira pessoa é o resultado histórico dos outros dois.

Devido às diferenças existentes entre as duas formas de agir. Podemos até dizer que são paradoxais como por exemplo, alguém que quer a solidão para fazer o que quiser, mas também quer casar, pois pensa que não pode ser feliz sem uma mulher ao seu lado. Ou ainda, enquanto a primeira pessoa quer ir trabalhar e chegar cedo no serviço, fazer tudo direitinho, ser recompensado com elogios, aumento de salário e acima de tudo reconhecimento, a segunda pessoa só quer farrear, tomar todas no bar a noite e depois durante a manhã daquela reunião com o chefe simplesmente faz com que o trabalhador se apresente de ressaca, mal estar e um mau-humor que lhe custa a promoção e também deixa ele em uma posição embaraçosa na empresa onde trabalha.

Em meio aos conflitos das vontades (desejos) das duas pessoas paradoxias em nós surge alguém. Ou ainda melhor dizendo, surge a instância que Freud irá nomear de EU.

Fruto de uma série de adaptações sucessivas entre as incompatibilidades desejadas pelas pessoas, quem paga a conta é justamente este EU.

Sim meus amigos, quem gasta bebendo todas é a segunda pessoa, podemos dizer que quem gasta as energias estudando ou trabalhando mais do que consegue é a primeira pessoa. Ambas gastam e quem paga é a terceira pessoa, é o eu, é o indivíduo.

Até aqui falamos de teoria da psiché. Claro que muito resumidamente, muito superficialmente, mas que fosse acessível a todos os leitores do Blog.

Bom, agora vem a parte da clínica analítica, ou ainda o método psicanalítico.

A análise possibilita o eu de tomar consciência do quanto se gasta com as duas outras pessoas. Do quanto são incompatíveis as suas escolhas, mas que mesmo assim acontecem. Do quanto estava alheio e provavelmente, ainda será alheio à maioria das suas escolhas.

Mas de alguma forma a psicanálise clínica possibilita justamente uma forma de acolher estas discrepancias do eu e a partir daí a pessoa começa a responder por suas escolhas. Responsabilizar-se não é culpar-se, mas saber que quem agiu (eu) estava presente como atuante e não apenas como observador, como visitante da própria vida.

Se pensarmos na vida como um teatro, a clínica psicanalítica nem sempre fará com que você tenha as rédeas em mãos, mas ao menos, te dará condições de aproveitar o passeio e sentir o vento da cavalgada sem rumo, com menos medo, menos incertezas e ainda por cima com a segurança de saber que quem soltou as rédias foi você, e assim como você soltou, você tem toda a força para pegar de volta...


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Carta-Convite - Seminário com Dr. Aurélio Souza em Londrina.



Meus caros,

Escrevo para agradecer a todos pelo apoio na divulgação e, em especial, àqueles que já se inscreveram e confirmaram suas presenças no evento Sobre os nomes-do-Pai com o psicanalista Aurélio de Souza nos próximos dias 11 e 12 de novembro aqui em Londrina.

Aos que ainda não realizaram a inscrição, reitero o convite e solicito que, na medida do possível, antecipem a realização das mesmas (por e-mail e depósito em conta) para que possamos ser pontuais no início do trabalho e para facilitar a confecção antecipada dos certificados.

De qualquer forma, se a opção for pela inscrição no local, peço a gentileza de chegarem mais cedo.

Mais uma vez, solicito que repassem a mensagem aos seus contatos, compartilhando a divulgação.
Certamente teremos um momento de trabalho muito agradável e enriquecedor, até breve!

Atenciosamente,
Zeila Facci Torezan
Psicanalista - Londrina
(43) 3322-2866
www.realinguagem.blogspot.com.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ELISABETH ROUDINESCO: NEUROCIÊNCIAS E PSICANÁLISE

Seguindo no mesmo sentido do Post sobre as "Terapias: Dos Medicamentos à Cura". Esta sequência com dois vídeos nos mostra com certa simplicade o pensamento de Elisabeth Roudinesco. Uma das grandes cientistas de nossa época, além, é claro de ser também historiadora e grande psicanalista.

Com certeza vale a pena dar uma olhada em cada um destes dois vídeos, pois muito mais que uma separação entre um corpo e uma psiquê, ou ainda, entre o que é do corpo e o que é da alma, deveríamos pensar sempre em uma conjugação entre corpo e alma que funcionam juntos e é por isso que ao pensar o ser humano, devemos ter em mente sempre a condição de um tratamento tanto do corpo quanto da alma (Psiquê em grego, ou "mente" em português) .



PRIMEIRA PARTE: 

 


SEGUNDA PARTE:
 

Terapias: Dos Medicamentos à Cura (Parte Final)

Primeiramente gostaria de dizer que esta Terceira e Última parte do texto pode ser considerada como independente, embora a leitura das outras duas partes seja um adendo importante a este texto.



Bom, no primeiro texto foi apresentado um pouco dos efeitos dos medicamentos sobre determinada pessoa, onde uma pessoa toma um remédio e ele faz ou não o efeito esperado, mas também existe o efeito placebo que contribui tanto para a cura quanto para o não funcionamento do mesmo.

Na segunda parte desta trilogia, pudemos ver um pouco do sujeito que toma o medicamento. Somos constituídos para além de um físico, para além de uma superfície corporal que necessita de um ou outro medicamento, e que, busca a cura de seu mal-estar independentemente de seu corpo. Como são os casos apresentados da criança que com certeza seria muito melhor (certeza para nós) e mais seguro viver sem a necessidade da bolsa, e também do Tiba, que afirmava que a "pira" estava em abrir um buraco em sua pele.

O que buscam as pessoas que independentemente da ordem física, podem estar psiquicamente saudáveis ou não?

Vamos explorar o luto para vermos se temos alguma resposta.

Bom, primeiro, precisamos compreender o luto como a perda do objeto amado. Ainda mais profundo, podemos compreender o luto como "a perda do amor da pessoa amada". 

Edvard Munch "A mãe morta e a criança"

Freud escreve em "O Mal-estar na Civilização" que nunca o ser humano está tão desamparado quando coloca o sentido de sua vida no amor. O amor foge ao controle do ser humano pois é indiferente às nossas atitudes conscientes. Um dia se ama, e outro dia pode simplesmente perceber-se não amando mais e perder aquilo que foi tão importante até então. A vida foi contruída de sonhos com a pessoa amada, foi uma construção imaginária de comphania, carinho, alegrias, sucessos, amizade, cumplicidade, ou seja, uma vida de muiuto amor e dedicação para com este outro.

Perceber a instabilidade e a fragilidade das relações humanas, levam as pessoas a uma situação de tomada de decisão. Claro meus amigos, tudo isto é um processo muito mais inconsciente do que se possa imaginar. Inconsciente, porém capaz de consciência.

As pessoas vão e vem como as ondas na maré.
Seja por qual motivo for, viagem, morte, mudança, trabalho, brigas, desentendimentos, mas elas se vão, isso é certo. E como ficamos nós com esta certeza de que nosso objeto de amor está pendurado na verdade pelo destino? Saber do destino (salvo quem crê que é possível) é impossível. Podemos planejar, repensar nossas vidas, fazer cronogramas, agendar encontros, mas no fundo sabemos que tudo isto não passa de mera tentativa de contornar o acaso, de dar uma volta sobre o abismo que é a alma do outro e o grande mistério que é a vida e a morte.

Bauman em seu livro "Amor Líquido" diz das relações artificiais que as pessoas estão tendo ultimamente. Podemos pensar nossa sociedade contemporânea como uma sociedade das relações pragmáticas como diria o filósofo Di Matteo. As pessoas se unem pelo que elas podem se dar em troca, não pelo mistério que são, mas pelo que conheço delas. Se as pessoas me surpreendem fazendo o que eu não gostaria de saber, a abandono pois aquele ou aquela não serve para o que planejei para minha vida, para o que eu esperava de um amigo, amiga, pai, mãe, etc. 

Poderíamos até pensar em uma sociedade do consumo e do descarte. Consumo o outro como meu objeto, como um brinquedo, até extrair dele, ou dela tudo o que eu puder, depois apenas descarto porque já integrei em mim aquilo que mais queria do outro, já sou tão bom quanto ele ou ela, e já consigo viver independentemente. Vou para outra loja de pessoas e compro com minha comphania, minhas piadas, meu dinheiro, minha presença, meu charme, meu sexo, outra pessoa. Compro com aquilo que eu puder pagar, até mesmo com o dinheiro.

Vemos também uma sociedade de controle. Um controle absurdo onde poderíamos dizer em qualquer lugar que formos, assim como o livro de minha querida professora Sonia Mansano : "Sorria, você está sendo controlado". A vida virou um Big Brother onde vídeos de tempestades, desastres, sequestros, explosões, nascimentos, aniversários, entre outros podem ser imediatamente vinculados a qualquer rede social e todos se apropriam dos fatos.

Vivemos sem controle, sem segurança alguma, vivemos em busca de um norte, de um amparo de um socorro. Os filhos vivem tentando agradar seus pais, os pais, tentando agradar seus filhos, um medo terrível de ser um mau menino, ou serem pais ruins. Até em nosa própria família a imagem de "eu" que se construiu é de altíssima dependência de alguém que sabidamente um dia irá falhar, irá faltar, irá ser desprezado, irá morrer. A idéia então que podemos ter é a de pessoas cada vez mais se preparando para gerir-se independente do outro. Porém esta independência tem um preço altíssimo que se paga, a solidão.

A solidão não é apenas ficar sozinho, mas é ver-se e reconhecer-se no espelho, reconhecer aquele que está a sua frente no espelho e ver que aquele ali também vai falhar, vai sofrer, vai faltar, e um dia também vai morrer. Pânico? Sim, para os mentalmente saudáveis sim. Pânico, loucura, doenças físicas e mentais na busca de um eixo, de algo que possa me dar um amparo, uma segurança de que aquele ser a minha frente tem condições de suportar a vida, a existência, com todas as suas características, com todas as suas faltas.

Na existência humana, a falta é a grande marca da vida. Falta controle, faltam regras, faltam amigos, faltam amparos, falta segurança, falta estabilidade, falta ar, faltam idéias, falta emprego, falta dinheiro, falta mãe, falta pai, falta tempo, falta vida.

Como no Filme "Não me abandone jamais" a definição dada para ser humano é basicamente essa: "Falta tempo para viver tudo aquilo que queríamos viver".
Buscar então em um padrão de comportamentos, dando idéia de uma segurança para estas faltas, nos levam a um mundo ainda pior. Medicar-se quanto à falta de ar com bombinhas para asma, não tira o sujeito da posição de alguém sufocado pela própria vida e pelo pânico que desencadeia de tempos em tempos a asma. Claro que a medicação age no corpo, socorrendo o doente no momento de crise asmática. Falta mãe, falta pai, faltam pessoas, o que não faltam são medicamentos para dar continuidade a uma situação que, de tão insuportável, faz-se necessário utilizar estimulantes para que a vida passe a ter alguma "graça". Falta consolo no luto, na dor da perda, na angústia frente a morte, mas não faltam antidepressivos para fazer com que a pessoa levante da cama e, ao invés de pensar sobre suas dores e o que se foi, continue a tocar a vida.

Bom, claro que os medicamentos ajudam, mas existe outra coisa também possível. 

No meio disso tudo uma mudança faz-se necessário. Muito mais do que tomar medicamentos e fazer uma terapia com psicólogo, psicanalista, ou quem quer que seja para ter um apoio. O ideal seria o contrário. O efeito do medicamento de analgesiar o indivíduo frente às intempéries da existência, e às dores e dificuldades da vida pode ser justamente o que precisa ser retirado.

Ao invés de uma posição passiva frente a vida, tomando medicamentos para continuar engolindo sapos, a terapia vem em forma de modificar toda a posição de um sujeito que começa a se dar conta de que só os remédios, por incrível que pareça não estão dando conta do recado. Ao contrário, ainda sim algo mais urge, como uma necessidade, como algo que pulsa internamente e que não para de dizer: "Olha, do jeito que está não vai dar mais". Justamente quem diz isso é aquele que está a nossa frente no espelho e que marca nossa vida nos trazendo sempre problemas, dificuldades, repetindo situações embaraçosas.

E a nós, cabe a escolha, continuar na escola clássica de tomar medicamentos, cada vez um a mais, sempre indo e vindo nos postos, em médicos diversos, e sempre rezando a Deus para a descoberta de um medicamento suficientemente bom para resolver tudo isso, ou podemos dar voz àquele frente ao espelho, que não pode falar, mas que nos mostra um duplo em nós que no final das contas só quer nos ajudar.

Dar voz ao espelho é em outras palavras, recorrer a um especialista (Psicólogo, Psicanalista, Psiquiatra - Alguém que nos ouça) que faça esta função, a função de falar sobre você por suas próprias palavras, a função de um analista que te mostra não aquilo que você quis mostrar, mas aquilo que você até então não foi capaz de enxergar em si mesmo. Pode ter certeza, para existir, para sobreviver, para viver de verdade, de algum modo é necessário você. É este você que deve ser encontrado, e não o que você tem enxergado até antão.




sábado, 29 de outubro de 2011

Terapias: Dos Medicamentos à Cura (Parte II)

Continuando o Post Anterior, especialmente neste post, alguns casos encontrados no COTIDIANO (CLIQUE AQUI SE AINDA NÃO LEU A PRIMEIRA PARTE):

Bom, então partimos do pressuposto de que por trás do padecimento de um corpo, existe alguém. Este alguém é quem procura o tratamento, quem acolhe (ou não) a terapia medicamentosa. É exatamente quando falamos de um alguém que os medicamentos tendem a sair de cena. 

O Conceito de sujeito, de pessoa, está um pouco para além do corpo físico. Precisamos no entanto repensar alguns transtornos e distúrbios para compreender melhor esta parte. Mas continuemos com as explanações.

Primeiro gostaria de apresentar alguns casos nem tão comuns assim.

Podemos encontrar na bibliografia médica alguns transtornos onde depois de um acidente, ou algum problema fisiológico, uma doença, ou outra eventualidade, alguns pacientes deixam de reconhecer partes de seu corpo. Bom, até aí tudo bem, mas por outro lado, aqui no HU de Londrina, houve um caso um pouco mais interessante. Uma criança que havia nascido com uma deficiência no intestino cresceu com uma bolsa de colostomia até aproximadamente seus 3 anos. Sua vida era muito mais hospitalar do que fora dele, e no entanto era muito saudável fisica e psiquicamente, com um único problema de uma anomalia congênita mas que seria operado depois de um tempo para a correção.

O que se sucedeu no entanto foi surpreendente.

Após a criança ser notificada pelos médicos que a bolsa seria retirada e enfim a criança não precisaria mais andar com aquilo tudo, o desespero tomou conta da criança. O serviço de psicologia foi acionado e o que partilha-se do caso foi que simplesmente a criança sentia que aquele ato de retirada da bolsa era na verdade como uma amputação de um membro dela.

Bom, uma coisa é não reconhcer-se frente ao seu próprio corpo, ou ainda não reconhecer-se no espelho e ter uma sensação de estranhamento. Freud relata em sua obra um momento em que isso aconteceu com ele. Estava no trem e ao ver um senhor na janela, deu lugar para o senhor passar, quando ele percebeu que estava frente a um espelho. Este estranhamento momentâneo de si mesmo, ou de partes de si, podemos dizer que acontece com determinada frequência, mas integrar coisas exógenas (de fora) e perceber como parte de sí aí a coisa complica um pouco.

Muito mais do que prolongamentos nervosos, como explica a medicina nos casos de dores fantasmas dos membros amputados, este caso da criança evidenciava alguma coisa a mais do que simplesmente uma imagem representada no cérebro. Algumas pessoas devem estar achando que não foi assim tão complicado explicar para a criança, acreditem, quando me relataram o ocorrido, a psicóloga que atendeu a criança dizia que a expressão da criança era de pânico e passava uma idéia de um desespero e um luto como se ela mesma fosse morrer.

Bom, agora que os casos já foram devidamente explicitados (por ser um blog aguardo maiores perguntas depois, rs) posso continuar.

Não temos simplesmente uma imagem "cerebral" de nosso corpo. Ao contrário, temos antes, uma imagem mental que representa nosso corpo, mas que não é ele. Em 1923, Freud escreveu sobre o "Eu" em "O Ego e o Id" dizendo que basicamente o eu é uma superfície corporal, ou seja, está representado enquanto um corpo em nossa psique. No entanto nossa psíque não é apenas corporal, muito menos nosso eu. Existem outras "partes" em nossa psíque que também influenciam este "eu" e por consequência, este corpo imaginado.


No texto sobre o estádio do espelho, Lacan diz de uma criança que ainda não tem a plena capacidade motora, ao se ver no espelho, presentificado pelo outro, cria um corpo integrado em sua psiquê, mas que ainda não pode controlar. É mais ou menos como ter uma perna, mas vê-la mover-se sozinha, como uma parte alheia a sua própria vontade e no fundo saber que ela pertence a você. O Infans (termo que designa a criança que ainda não aderiu à linguagem), na realidade ainda não da conta de si, mas sabe que aquilo tudo lhe pertence. Começa então um jogo de desenvolvimento motor e psíquico para capacitar-se fisicamente para controlar os movimentos e membros do corpo.

Bom, podemos compreender então que anteriormente ao controle do corpo foi necessário a criação de uma imagem mental, ou ainda, para falarmos mais corretamente, uma representação mental deste corpo que está presente.

Agora, voltando ao assunto do post anterior, sobre a medicação, até que ponto os medicamentos influem nesta "representação mental"? Muito simples, até o ponto em que os medicamentos representam para nós uma cura, ou no mínimo um alívio do sofrimento.

Lembro-me de meu pai dizendo que quando foi operar o dedinho do pé, ficou totalmente imobilizado, mas sentiu a dor de toda a operação. Fiquei em pânico quando entrei na sala de cirurgia para uma operação que eu precisava fazer. Fiquei imaginando toda a cirurgia, a dor, e tudo mais, foi quando de repente acordei e me dei conta de que já estava no quarto novamente, operado e que por mais que eu tentasse me lembrar, só lembrava do enfermeiro me dando um comprimidinho e eu rindo dizendo que compridos não funcionavam comigo.

Opa, mas aí parece que estou fugindo do "efeito mental" do medicamento. Não é por aí minha gente, estou dizendo que o efeito do medicamento tem dois fatores, o fator real, e o fator psíquico. O problema surge quando o fator psíquico impede o funcionamento deste fator real. E isso acontece muitas e muitas vezes. Mas o contrário também pode ser verdadeiro. O fator psíquico pode determinar a validade de uma medicação que até então mostrara-se inócua. Como é o caso dos testes com placebos onde algumas pessoas tem até as reações adversas tomando o comprimido de farinha.

De alguma forma temos um corpo representado psíquicamente que irá também ser tratado quando tomamos uma medicação. Em Londrina tive a oportunidade de conversar com um portador do vírus de HIV que adquiriu a imunodeficiência através do compartilhamento de seringas. Hoje ele se diz um homem feliz, com mais de 20 anos sendo portador do vírus e com mais de 10 anos manifestando a síndrome (AIDS). Quando perguntei a ele mais sobre a relação das picadas (Heroína que utilizava) com os exames de sangue que ele fazia regularmente fui surpreendido com seu dizer:

 - "O que eu gostava mesmo, era da agulha fazendo um buraco na minha pele, sentir a picada mesmo, isso era muito melhor que a viagem porque a viagem tinha suas consequências depois, mas a picada da agulha eu continuo tendo até hoje". (Tiba*)

São dizeres como estes que nos remetem às perguntas de como este cara consegue ter prazer com uma agulha em seu braço, e ainda por cima ser feliz como portador de uma doença como o HIV???

Continua...


  • Para esclarecer: o Tiba é um ex usúario de Drogas Injetáveis que permitiu a divulgação de sua história. Ele mesmo quem a divulga em seu trabalho no Núcleo de Redução de Danos de Londrina.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Terapias: dos Medicamentos à Cura (Primeira Parte)

Retirado do Blog: http://psicologiadospsicologos.blogspot.com/


Recentemente algumas pesquisas vem apontando que os medicamentos tem um efeito, placebo, sobre nosso organismo que está alheio à eficácia real do medicamento no combate aos sintomas e à doença organica.

Nos últimos dias tenho publicado no Blog algumas entrevistas e matérias interessantes sobre a cultura da medicalização. Por um tempo, no entanto, venho publicando posts contra a medicalização excessiva de uma maneira geral. Desde um post sobre o TDAH, onde faço um link com o Dr. Jerusalinsky sobre o diagnóstico dos transtornos atualmente em evidência, trago aos leitores do blog uma outra perspectiva, a de que talvez exista uma outra possibilidade além daquela alardeada pelo mundo a fora.

Por muitas vezes entrei em assuntos polêmicos sobre a ciência, seus frutos (medicamentos) e a importância exagerada que eles tem na área da saúde mental. Mas hoje gostaria de extrapolar um pouco esta particularidade da saúde mental e partir para caminhos ainda não pisados por aqui.

Existe em nosso meio pessoas que tomam medicamentos para alergias incuráveis. Existe pessoas em nosso meio que utilizam a famosa "bombinha" para asma, bronquite, e outras doenças pulmonares crônicas. Existe pessoas em nosso meio que vira e meche estão com alguma infecção e precisam de antibióticos para sanar as infecções. Existe também um amplo espectro de pessoas com problemas de pressão alta, tomam medicamentos religiosamente todos os dias para não perder o controle da pressão. 

Bom, longe de dizer que estas doenças são "psicossomáticas", embora algumas manifestações possam ser, existe um fator real de um sintoma que se manifesta, um fenômeno real de uma infecção, de uma asma, de uma alergía respiratória, de uma alergía de pele, de uma pressão alta, e por que não colocarmos aqui também a dor da fibromialgia, as enxaquecas, as cólicas renais, entre tantas outras doenças psicossomáticas que dependem de medicação para a manutenção de um nível da dor, ou do sofrimento, em que seja possível ainda um mínimo de bem estar? Todas estas doenças embora diferentes em suas manifestações, incluindo muitas outras não citadas, tem um componente que a medicação seguramente deixa de lado. 

Quem toma os medicamentos? 

A resposta só poderia ser uma e única: VOCÊ.

Claro que é necessário, e quero deixar isso bem claro, a medicalização em muitos casos, mas dificilmente o médico irá olhar para sua história de vida e enxergar alguém por trás deste movimento de idas e vindas a lugares e mais lugares em busca de um alívio do sofrimento do corpo.

Escapa dos testes e pesquisas, em minha opinião, o principal componente do corpo, o próprio sujeito. A própria pessoa que com dois remédios idênticos, por exemplo os similares, um da resultado e o outro não chega nem a fazer "cosquinha", como costumo dizer. 

Bom, há um componente por aí que por algum motivo atrapalha ao medicamento de realizar seu efeito esperado. Inúmeras pesquisas (após Freud) tem apontado que a eficácia do tratamento medicamentoso dependente inclusive de uma boa relação do médico com o paciente. Um médico que não conversa, não explica, não dá atenção ao paciente seguramente verá seu paciente retornar ao consultório, ou ainda, ao pronto socorro. Um médico, ou qualquer curandeiro que não investe algum tempo para amparar aquele sofre, poderá curar as enfermidades, mas o sofrimento do doente, seguramente, não vai passar. 

Em alguns consultórios é normal a fala do médico de que, quando não encontra nada de errado com um paciente "poliqueixoso" (para utilizar o jargão da medicina) depois de um extenso check-up, eles dão uma receita de ansiolítico, ou antidepressivo, o que costuma resolver estes problemas.

Não foi feito no entanto nenhum diagnóstico PSI no paciente para saber se era ou não depressão. A medicação foi dada, o paciente sai do consultório "amparado" porque encontraram o problema e agora pode ir tranquilo porque aquilo tudo irá passar. 

No entanto, assim como na suposta depressão não houve um diagnóstico psi, apenas uma suspeita baseada nos sintomas, nos fenômenos apresentados pelas pessoas que procuraram o serviço, nas recorrentes alergias, nas recorrentes enxaquecas, nas recorrentes cólicas renais, nas recorrentes infecções, aí também poderiam ter pensado que por detrás de um corpo existe alguém que recorre aos serviços tradicionais para uma "cura", ou melhor dizendo, para um amparo frente aos dessabores da vida.

É sabido também, além da relação médico-paciente, que muitas pessoas que sofrem de determinadas enfermidades repetidamente, ao iniciarem o tratamento com psicotrópicos tem uma "abstinência" de doenças. Aparece na história da pessoa uma lacuna na repetição de sintomas e fenômenos que antes o fazia buscar outros tipos de tratamento, por exemplo, além dos Halpáticos (medicamentos tradicionais) a homeopatia, chás, terapias corporais, entre muitos outros que auxiliam na redução do sintoma. (Em novembro na PUC-PR estarei discutindo o assunto na VI Jornada de Saúde Mental e Psicanálise).

Existe então um paciente que ao ser "analgesiado" (ficou feio, mas não encontrei outra forma, visto que anestesiado tem a ver com anestesia, com o não seentir, e analgesia tem a ver com "retirar" a dor) pelo psicotrópico tem uma outra vida, diferente do que era antes, com caixas e mais caixas de medicamentos, o único que permanece consigo é o psicotrópico, que acaba ganhando propriedade para ser utilizado nas mais diversas situações.

Vamos pensar um pouco. Em uma situação de sofrimento intenso para a pessoa, o corpo reage. A pessoa sofre e o corpo padece. Durante todo o post algumas pessoas já devem ter percebido a ligação com o famoso ditado "Mente Sã, Corpo São". Sim caros leitores é bem por aí mesmo. Em uma situação em que há um sofrimento psíquico o corpo padece tanto quando o psíquico. Impressionante ver que pessoas com diabetes, transplantados, pacientes renais crônicos que precisam de diálise, portadores da AIDS (já manifestando a síndrome) costumam ter outra vida depois que encontram amparo seja no tratamento, seja na família, seja na relação médico-paciente, mas acima de tudo quando enfrenatm cara  a cara a possibilidade da morte iminente e reestruturam sua relação consigo mesmo. Outra vida porque são outras pessoas.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Antidepressivos: Um pouco sobre a terapia medicamentosa...

MATÉRIA PUBLICADA NO JORNAL GAZETA DO POVO - PR.

Antidepressivos trazem mais prejuízos do que benefícios, dizem médicos:

Estudo mostra que só 25% dos benefícios do tratamento se deve às drogas; 50% se deve ao efeito placebo. Entre os efeitos colaterais está a disfunção sexual.




Recentemente, a médica Marcia Angell (Confira aqui um trecho da entrevista à autora) publicou um artigo no "The New York Review of Books" sobre a crise da psiquiatria e a ineficácia dos antidepressivos que fez muitos pacientes pararem imediatamente de tomar medicamentos deste tipo. O artigo pôs em dúvida a eficácia dos antidepressivos nos tratamentos convencionais. Segundo a médica, o índice de resposta dos pacientes a antidepressivos é pouquíssimo superior ao de placebos. E, além de poucos benefícios terapêuticos, há graves efeitos colaterais. Cerca de 70% das pessoas que tomam antidepressivos, por exemplo, têm disfunção sexual. E, em alguns casos, mesmo quando param de tomar as pílulas, a disfunção continua.

A teoria do desequilíbrio químico como uma causa da depressão é uma hipótese que não está comprovada, mas os médicos prescrevem medicamentos, principalmente por causa do "rolo compressor da promoção farmacêutica". É o que diz o psiquiatra Daniel Carlat. E não é surpreendente que haja um furor de mídia nos EUA em torno dos medicamentos. Cerca de 10% dos americanos com mais de seis anos de idade tomam antidepressivos. No Reino Unido, as prescrições para as drogas subiram 43% nos últimos quatro anos e chegaram a 23 milhões de receitas por ano.

O professor Irving Kirsch, diretor associado do programa de estudos de placebos da Harvard Medical School e autor de um livro intitulado "As novas drogas do imperador: explodindo o mito antidepressivo", explica a teoria do desequilíbrio químico. Segundo esta teoria, não há serotonina, norepinefrina ou dopamina em níveis suficientes nas sinapses do cérebro de pessoas deprimidas. Mas isto não se ajusta aos dados de pesquisas clínicas, uma vez que reduzir os níveis de serotonina em pacientes saudáveis não tem impacto sobre o humor que eles apresentam. Por isto, há quem acredite que a teria está equivocada.

"Esta teoria do desequilíbrio químico é um mito", diz ele. A idéia de que os antidepressivos podem curar a depressão de forma química é simplesmente errada.

A meta-análise de 38 estudos clínicos - sendo que 40% dos quais tinham sido retirados da linha de de publicação porque as empresas farmacêuticas não gostaram dos resultados - que envolveram mais de 3.000 pacientes com depressão mostra que apenas 25% dos benefícios do tratamento antidepressivo foi devido às drogas e que 50% foi simplesmente efeito placebo.

"Em outras palavras, o efeito placebo foi duas vezes maior que o efeito de drogas, embora a resposta ao placebo tenha sido menor nos pacientes severamente deprimidos. Placebos são extraordinariamente poderosos e podem ser 'tão fortes quanto medicamentos potentes'. A resposta ao placebo é específica: a morfina placebo alivia a dor, antidepressivos placebo aliviam a depressão", diz Irving Kirsch. "É uma questão de expectativa e condicionamento: se você espera se sentir melhor, você se sente melhor, mesmo se tiver efeitos colaterais negativos, pois os efeitos colaterais convencem as pessoas de que elas tomaram uma droga poderosa".

Segundo o médico, a psicoterapia aumenta o efeito placebo e é significativamente mais eficaz que a medicação para todos os níveis de depressão. "Antidepressivos só devem ser utilizados como último recurso e apenas para os mais severamente deprimidos", avalia Kirsch.

Nem todos concordam. Ian Anderson, professor de psiquiatria da Universidade de Manchester, acredita que os antidepressivos são úteis no tratamento de depressão e vai debater com Kirsch em uma conferência na Turquia no próximo mês. Ele diz que corremos o risco de "jogar fora o bebé junto com a água do banho".

"Isto ocorre quando dizemos que os antidepressivos são lixo. Os antidepressivos são parte da caixa de ferramentas de um médico, embora, provavelmente, sejam mais úteis para os pacientes mais deprimidos. Há pessoas que não respondem a terapias da fala. E neste caso não há escolha", comenta Anderson.
O professor Allan Young, presidente de psiquiatria da Imperial College London, concorda. "A depressão é uma doença de classificação ampla. Há vários tipos de depressão, e cada tipo responde de forma diferente", diz Young. "É claro que cérebro e corpo são indissociáveis e os efeitos placebo são maiores nos pacientes que sofrem da doença com menos severidade.

Mas Kirsch levanta outro ponto: "Para tornar as coisas mais complicadas, há o 'efeito nocebo': se você espera se sentir mal quando você sair antidepressivos, você vai sentir-se mal, porque nós tendemos a notar pequenas mudanças aleatórias negativas e interpretá-las como prova de que estamos, na verdade, piorando".

Ele cita o exemplo de uma paciente chamada Lucy, que tinha tendências suicidas. Ela tomou antidepressivos por fora por 10 anos. Ela costumava dizer o seguinte: "A droga deu-me de volta a mim mesma, era como um raio de luz que brilha através da névoa". Mas os efeitos colaterais eram náuseas e a perda da libido, e isto a levou a abandonar o medicamento. Ela também descreveu o que sentia sem o medicamento: "Era como um relógio. Sentia uma contração muscular na parte de trás da minha mente. E vivia com medo da depressão voltar. A única coisa que me manteve viva foi saber que as pílulas estavam lá e que a qualquer momento poderia recorrer a elas".

Para Judy, um outro antidepressivo funcionou bem. "O primeiro que me foi dado produziu em mim enorme ansiedade, como uma viagem ruim, e fez-me terrivelmente ciente de todas as minhas terminações nervosas. Mas a segundo fez efeito desde o primeiro dia. Quando tomava de manhã, eu sabia que ficaria com a química equilibrada. Era como um interruptor sendo ligado: sentia uma corrida fabulosa na direção da alegria".

Ela parou de tomar o medicamento depois de seis meses. E meses depois, ela se sentia fraca, mas não deprimida. "Eu me sinto a depressão como uma pedra no meu plexo solar. E não era mais assim Então, eu ainda pensei que seria agradável ter aquele atalho para a felicidade. E tomei o segundo antidepressivo. Não teve efeito algum porque eu não estava realmente deprimida. E, para mim, a teoria do placebo não faz sentido".

Daniel Carlat, psiquiatra em Boston e autor de "Unhinged: The Trouble with Psychiatry (Revelações de um doutor sobre uma Profissão em Crise) - diz que a prescrição de antidepressivo é um caso de "hit-and-miss". "Infelizmente, sabemos um bocado menos sobre o que estamos fazendo do que você imagina. Quando eu me vejo usando expressões como 'desequilíbrio químico' e 'deficiência de serotonina', geralmente é porque estou tentando convencer um paciente relutante em tomar medicação. Usar essas palavras faz com que a doença parece mais biológica. A maioria dos leigos não percebe como interessa pouco saber sobre a base de doença mental".

Carlat não está tão convicto quanto Kirsch sobre o efeito placebo. Os pacientes que aparecem em seu gabinete são diferentes daqueles recrutados para ensaios clínicos porque as empresas farmacêuticas, desesperadas para fazer os seus produtos superarem um placebo, são muito seletivas sobre quem escolherem.

"Você tem que ter depressão "pura", imaculada por uso de álcool, problemas de ansiedade, transtorno bipolar, pensamentos suicidas, depressão leve ou a longo prazo e isto exclui a maioria dos pacientes)", diz Carlat.

No entanto, como diz Marcia Angell, autora de "A verdade sobre as companhias farmacêuticas: como elas nos enganam e o que fazer sobre isso", é verdade que a indústria faz muita propaganda enganosa, mas os medicamentos antidepressivos ainda são uma alternativa quando nada mais funciona.

Uma coisa é clara: o cérebro permanece misterioso. Como Carlat diz: "Sem dúvida, existem causas neurobiológicas e genéticas para todos os transtornos mentais, mas eles ainda estão além da nossa compreensão. Tudo o que realmente sabemos é que a depressão existe e, por vezes, as drogas parecem funcionar, mesmo que seja efeito placebo".

Para antidepressivos, os médicos têm uma diretriz básica, que todos concordam: nunca pare de tomar antidepressivos sem o discutir com seu médico, porque a interrupção abrupta de medicamentos pode causar sintomas de abstinência, tanto física como mental.

 
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