terça-feira, 18 de outubro de 2011

Dra Marcia Angell e o "excesso de prescrições na área da psiquiatria".

CLÁUDIA COLLUCCI
DE WASHINGTON

Primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe no bicentenário "New England Journal of Medicine", a médica Marcia Angell já foi considerada pela revista "Time" uma das 25 personalidades mais influentes nos EUA.
Desde 2004, Angell, 72, é conhecida como a mulher que tirou o sossego da indústria farmacêutica e de muitos médicos e pesquisadores que trabalham na área.
Naquele ano, ela publicou a explosiva obra "A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos", que desnuda o mercado de medicamentos.
Usando da experiência de duas décadas de trabalho no "NEJM", ela conta, por exemplo, como os laboratórios se afastaram de sua missão original de descobrir e fabricar remédios úteis para se transformar em gigantescas máquinas de marketing.
Professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Harvard, Angell é autora de vários artigos e livros que questionam a ética na prática e na pesquisa clínica. Tornou-se também uma crítica ferrenha do sistema de saúde americano.
Tem se dedicado a escrever artigos alertando sobre o excesso de prescrição de drogas antipsicóticas, especialmente entre crianças. "Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade", diz ela.
Mãe de duas filhas e avó de gêmeos de oito meses, ela diz que recebe muitos convites para vir ao Brasil, mas se vê obrigada a recusá-los. "Não suporto a ideia de passar horas e horas dentro de um avião." A seguir, trechos da entrevista exclusiva que ela concedeu à Folha.


 

Folha - Houve alguma mudança no cenário dos conflitos de interesses entre médicos e indústria farmacêutica desde a publicação do seu livro?
Marcia Angell - Não. Os fatos continuam os mesmos. Talvez as pessoas estejam mais atentas. Há mais discussão, reportagens, livros, artigos acadêmicos sobre esses conflitos, então eles parecem estar mais sutis do que eram no passado. Mas é claro que as companhias farmacêuticas sempre encontram uma forma de manter o lucro.

E os pacientes? Algumas pesquisas mostram eles parecem não se importar muito com essas questões.
Em geral, os pacientes confiam cegamente nos seus médicos. Eles não querem ver esses problemas.
Além disso, as pessoas sempre acreditam que os medicamentos sejam muito mais eficazes do que eles realmente são. Até porque somente estudos positivos são projetados e publicados.
A mídia, os pacientes e mesmo muitos médicos acreditam no que esses estudos publicam. As pessoas creem que as drogas sejam mágicas. Para todas as doenças, para toda infelicidade, existe uma droga. A pessoa vai ao médico e o médico diz: "Você precisa perder peso, fazer mais exercícios". E a pessoa diz: "Eu prefiro o remédio".
E os médicos andam tão ocupados, as consultas são tão rápidas, que ele faz a prescrição. Os pacientes acham o médico sério, confiável, quando ele faz isso.
Pacientes têm de ser educados para o fato de que não existem soluções mágicas para os seus problemas. Drogas têm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do que o problema de base.

A sra. tem escrito artigos sobre o excesso de prescrições na área da psiquiatria. Essa seria hoje uma das especialidades médicas mais conflituosas?
Penso que sim. Há hoje um evidente abuso na prescrição de drogas psiquiátricas, especialmente para crianças.
Crianças que têm problemas de comportamento ou problemas familiares vão até o médico e saem de lá com diagnóstico de transtorno bipolar, ou TDAH [transtorno de déficit de atenção e hiperatividade]. E é claro que tem o dedo da indústria estimulando os médicos a fazer mais e mais diagnósticos.
Às vezes, a criança chega a usar quatro, seis drogas diferentes porque uma dá muitos efeitos colaterais, a outra não reduz os sintomas e outras as deixam ainda mais doentes.
Drogas antipsicóticas estão claramente associadas ao diabetes e à síndrome metabólica. Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade.
Pessoas que acham que isso não é assim tão terrível sempre argumentam comigo que essas crianças, em geral, chegaram a um estado tão ruim que algo precisa ser feito. Mas isso não é argumento.

Hoje, fala-se muito em medicina personalizada. Na oncologia, há uma aposta de que drogas desenvolvidas para grupos específicos de pacientes serão uma arma eficaz no combate ao câncer. A sra. acredita nessa possibilidade?
Para mim, isso é só propaganda. Não faz o menor sentido uma companhia farmacêutica desenvolver uma droga para um pequeno número de pessoas. E que sistema de saúde aguentaria pagar preços tão altos?

Algumas escolas de medicina nos EUA começaram a cortar subsídios da indústria farmacêutica e de equipamentos na educação médica continuada. No Brasil, essa dependência é ainda muito forte. É preciso eliminar por completo esse vínculo ou há uma chance de conciliar esses interesses?
Deve ser completamente eliminado. Professores pagam para fazer cursos de educação continuada, advogados fazem o mesmo, por que os médicos não podem? A diferença é que você não precisa ir a um resort no Havaí para ter educação médica continuada. É preciso pensar em modelos de capacitação mais modestos. E, com a internet, todos os países, mesmo os pobres ou em desenvolvimento, podem fazer isso. A educação médica não pode ser financiada por quem tem interesse comercial no conteúdo dessa educação.

Entrevista retirada da FOLHA online...  "Estamos dando veneno para nossas crianças".

Grande abraço a todos os frequentadores do Blog...


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

FECHADO PARA REFORMAS:

Nada é fechado realmente para reparos...

Freud descobriu isso quando atendia seus pacientes e lhes pedia abstinência de qualquer tipo de decisão, ou qualquer movimento de mudança, porque tudo deveria ser exaustivamente levado para analise e somente depois do processo dar-se por completo, após 6 meses a 3 anos, é que a pessoa poderia enfim, tomar uma decisão segura de que estava fazendo o que era "certo".

Bom, a vida se passa e podemos dizer que eram quase 3 anos "parados" em terapia?

Não, muito pelo contrário, são nesses momentos em que a gente mais tende a fazer coisas, a querer mudar, a resistir a outras mudanças que achamos essenciais. Achamos, isso deve ficar bem claro.

Quando vamos reparar qualquer coisa que seja, normalmente devemos cavuvar na obra até encontrar o problema, ou ainda a viga mestra. Mas ao contrário do dizer neste título de post, nada se fecha para reformas, a gente se abre a novidades.

São outros públicos quem vem nos visitar, na reforma, entra pedreiro, marceneiro, carregadores, ajudantes, umas duas ou tres pessoas a mais, carteiros, engenheiros. Até mesmo restauradores, arquitetos, encanadores.

Bom, acho que deu pra ter uma idéia, entra coisa nova.

Todos vão cavucando, escavando, retirando o excesso, limpando, organizando, fazendo a maior bagunça. A única coisa que "estorva" é a porta. Bendita porta que está ali, escancarada desde as 7 da manha até as 7 da noite. Todos passam, olham, observam, dão seus palpites, a porta só se fecha a noite, tranca-se a porta pois a noite pertence às criaturas das trevas. Sempre tem um bebum que passa por ali e acha que a obra é banheiro.

No outro dia lá estamos nós de novo, reformando e a vida acontecendo a milhão por hora do lado de fora da reforma.

Se pensamos em outras coisas, como um aparelho eletrônico por exemplo, é a mesma coisa. A rotina de um toca cd´s quando vai para o concerto é totalmente alterada. Nada de por na tomada (algumas pessoas nem lembram que a tomada existe) e apertar um botão pro disco rodar. Ali no concerto tomada só na hora que estiver pra sair. O aparelho é aberto, é explorado é descoberto, é revisado, é minuciosamente analisado. Mas de forma alguma se fecha o aparelho enquanto não estiver funcionando perfeitamente bem.

Fechado para reformas é na verdade uma forma de dizer "olha agora não, estou dando um tempo pra mim". Um pensamento egoísta eu acho. Deveríamos aprender mais com as coisas, abrirmos nossas portas e esquecermos um pouco das "auto-ajudas" que prometem todas as respostas a partir de si mesmo. 

Mesmo quando estamos em análise em um consultório e o analista repete apenas nossas palavras, estas palavras vieram de alguém, vieram de fora, em um momento que estavamos abertos ao outro, em um momento em que o outro conseguiu tocar em nossas profundezas e fez uma marca, uma importante marca em nós.

Sim, falamos o que ouvimos dos outros, porque justamente neste momento da reforma de si mesmo vamos nos encasular como a lagarta e depois surgir como borboleta?

Por acaso Freud quase deixou escapar que antes de virar casulo, a lagarta tinha muito o que comer, comia muitas plantas, antes de virar borboleta, depois sim se enclausurava. As vezes achamos que isolar-se do mundo, ou das idéias e conceitos que os outros tem de nós mesmos, é a melhor saída para crescer. 

Não somos insetos.

Somos pessoas e como tais, acredito muito em Freud, Lacan, Jesus Cristo, Winnicott, Gandhi, e tantos outros que sempre disseram a mesma coisa com palavras diferentes: A palavra tem poder.

Se estamos em reforma, vamos nos abrir ao novo, seja esta novidade boa ou ruim, esperemos e vejamos os frutos disso tudo. O andar da carroça acaba ajeitando todas as abóboras, as boas ou as ruins. De nada adianta querer colocar somente as boas por cima, as ruins irão uma hora ceder, serão esmagadas e vão sujar as boas que até então estavam perfeitas.

Abrir-se para reforma é colocar tudo a vista, como fazemos em análise, sem a pretenção de tirar isso ou aquilo, mas perceber que tudo aquilo foi colocado ali por algum motivo e que simplesmente, talvez agora, possa ser diferente.

Coragem, pode ser diferente sim, mas não feche as portas para uma reforma, ao contrário, abra-as para o novo, e você irá perceber que a novidade não é tão nova assim. Aposto que no fim da mudança aparecerá uma obra de arte junto com a sensação de estranheza e também de familiriadade, porque afinal de contas, isso tudo foi reformado, mas a viga mestra, continou em seu lugar.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Serei na verdade o que sempre fui, e não o que queria ter sido

"Não sabia que era precisamente esse fracasso que me levaria ao lugar que desejava. As correntes do rio profundo foram mais generosas que o meu remar contra elas. Não cheguei aonde planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse." [Rubem Alves]
Deveríamos ter sempre em mente que algo dentro de nós pulsa, algo em nós vive e quer ser visto, olhado, tocado, ouvido, e até mesmo falado. Algo, não, melhor ainda, alguém. 

Deveríamos sempre levar em conta que talvez, aquelas fábulas que dizem que somos muito mais do que imaginamos sejam verdade, que podemos muito mais quando queremos algo, que somos diferente quando estamos felizes, quando estamos tristes, ou simplesmente, quando somos.

Deveríamos repensar não nossas atitudes, muito menos os porques, deveríamos apenas repensar sobre o que foi feito, que eu imaginava conseguir o que queria, e que, por algum motivo não senti no final, o prazer esperado no início.

Deveríamos lembrar que na verdade o mais gosotoso talvez tenha sido imaginar, sonhar, criar em pensamento toda uma expectativa que, de fato, nunca se realizou, mas que foi bom, por alguns momentos.

Deveríamos nos compreender melhor, e descobrir que dentro de nós, alguém quer continuar sonhando, como uma criança, e tem medo de chegar ao fim e descobrir que não era tudo aquilo. Tem medo de ouvir "eu avisei" e depois disso nunca mais tentar de novo.

Deveríamos deixar falar aquele que está em nós e devido às regras da vida acaba se calando, sendo recalcado e tendo que retornar apenas em sonhos, em atos falhos, ou em sintomas. 

Deveríamos ver que o sintoma é talvez a procrastinação mais bela do momento, do agora. Talvez muitas pessoas reclamem, e de fato deveriam, pois o sintoma atrapalha suas vidas. As dores impedem o trabalho, as mentiras encobrem verdades que deveriam ser ditas, as traições contra os entes queridos, seja por palavras, pensamentos, imaginações ou até em atos, fazem as pessoas sofrerem, fazem-nas se esconderem, por vezes, fazem as pessoas desaparecerem e até mesmo, um dia, morrerem.

Morre-se muito de desgosto, de tristeza, de medo, pânico, pavor, mas poucos são os que morrem de alegria, de prazer, de gozo. Morre-se de inveja, de dor, de cansaço, de trabalhar, mas poucos conseguem morrer de sorrir, de tanto gargalhar, de tanto viver.
Deveríamos morrer é de tanto viver e não por falta de vida, ou de alegria, ou de planos, ou de sonhos, ou por ideais mais nobres do que a própria pessoa, chegando ao ponto, como podemos observar nos mártires e em Cristo, de entregar-se com amor ao flagelo, apenas porque os que amamos continuamos a amar e os que nos amam, continuam a nos amar.

Morre-se de medo de ficar sem amor, morre-se em busca de um amor, mas pouquíssimos são os que morrem por amor. 

Talvez seja isso que o mestre nos ensina em Romeu e Julieta. Qual fim queremos para nossa história?

No meio do ódio mortal entre duas famílias e inúmeras gerações, mata-se exatamente quem ama. E não mata-se para que acabe o mal estar e as brigas, não, de forma alguma. Os amados se suicidam. Morrem por amor.

Uma experiência única é a de permitir a este outro em nós falar. Aos poucos vamos descobrir que o outro não está la dentro, como o Alien que Zizek coloca, sendo um sujeito do inconsciente, aos poucos, bem devagarinho, vamos percebendo que quem está lá dentro somos nós mesmos.

Falso Self, diria Winnicott.

Objeto do Outro, diria Lacan.

Alienação de si mesmo, diriam tantos outros.
Na verdade acredito que é simplesmente medo. Porque no fundo, temos medo do que nós podemos fazer com nossas vidas. No fundo temos medo daquele desejo de morte, que é o mesmo de Romeu e Julieta, dos mártires, de Cristo, e por que não, de toda a humanidade. Temos medo é de morrer de tanto viver, de tanto amar, de tanto rir e com isso contradizer o senso criado de que a morte é ruim.

Temos medo de desejar o fim, não porque nos falta, mas porque se percebe completo e se acabasse exatamente hoje, seríamos felizes, morreríamos como muitos santos, completos em sua falta, mas tranquilos, por que não dizer, satisfeitos com sua vida, com suas verdades.

Algumas pessoas devem estar pensando, mas como isso de santo aqui em um blog de psicanálise e saúde mental?

É simples meus caros. A Igreja Primitiva, longe de renegar os aspectos da natureza humana, colocava sempre o homem com seus próprios desejos. Mostrava os caminhos e permitia as pessoas que seguissem seus caminhos. Não existia uma repressão moral ou ética, mas uma compreensão baseada no amor. Está aí a história do filho pródigo, depois de se tornar alguém (objeto do outro) volta para casa para ser filho do pai. O que era em essência. 

Imagino depois de muitos anos este moço feliz, com sua família, desfrutando de sua própria terra e tendo uma atitude totalmente diferente do que ele havia imaginado em sua juventude. Cercado de amigos verdadeiros, com riquezas pelo seu trabalho e esforço. Com riquezas maiores ainda que seria sua família e seus entes queridos.

É, as vezes precisamos deixar este outro trabalhar em nós... lembrando que este outro, é na verdade você mesmo...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"La única diferencia entre un loco y yo, es que yo no estoy loco..." Salvador Dalí

Porque não???

Porque os barcos não podem ter velas de flores?

Porque conspiraram contra a imaginação e agora conspiram contra a infãncia?

Temos jovens aprendizes, jovens infratores, jovens administratores, jovens adoradores, jovens lutadores, jovens empreendedores, jovens, tantos jonens, mas onde estão os sonhadores?

Será que a vida destruiu toda a infância?

Li uma obra interessante de uma garotinha que era estuprada por seu padrasto, ela desenvolveu personalidades multiplas. Dizia que era outra pessoa ali deitada na cama, e que ela mesma ia para outro lugar. 

Quisemos proteger as crianças e sinto que cada vez mais, colocamos elas em outro lugar. 

Protegemos tanto a infância que ela foi parar onde ninguém mais a encontra. No coração dos jovens adultos. Os útlimos que brincaram de verdade, que aprenderam a contar separando burquinhas, bolinhas de gude ou tatuzinhos de jardim. Separando e dividindo.

Protegemos tanto a infância que destruímos as crianças...

Não se aprende mais biologia e ética, respeito com a própria vida, com o dia a dia.

Aprendi que os passarinhos eram bons e não me machucariam quando uma pombinha quebrou as asa e eu meus amigos de infância, lá por volta de meus 8 anos cuidamos dela, aprendemos a dar agua, e descobrimos que os passaros não piavam por causa do bico, o som vinha da gargantinha que tremulava. 

Aprendiamos com a infância, na infância, com nosso jeito de ser criança. Imaginávamos, pulávamos brincavamos. 

Em um dia de chuvas, em uma fazenda que eu estava visitando com meus pais, fomos eu e o filho caseiro na represa que haviam secado. Lá só tinha lama e umas poucas poças d'agua por causa da chuva. Fizemos grandes castelos de barro, no melhor estilo barroco, rsrsrs.

Hoje o que as crianças precisam para imaginar? 

Lembro-me que sonhava com a soltura do passarinho, quando ele melhorasse a asinha... Nunca o soltamos, ele simplesmente desapareceu. O que importa se um gato comeu, ou se alguém fez a pombinha a passarinho? O que importava é que a gente continuava imaginando que ela estava bem, voando por ai, tomando agua e cantarolando como fazia em nossas mãos.

Poxa, uma garotinha que foi abusada por um padrasto conseguiu sair de si para sobrevier. Resguardados as devidas proporções, as crianças hoje nada sabem sequer sobre si, não sobrevivem, ao contrário, a impressão que se tem é a de que justamente, precisam morrer para entrar na verdadeira vida de adulto.

Nada, absolutamente nada justifica o que estamos fazendo com nossas crianças. De uns tempos pra ca temos contato com TDAH, e agora pra piorar tudo existe um diagnóstico precoce de BIPOLARIDADE. O que aconteceu com a fantasia?

Crianças recebem diagnósticos, até mesmo de bons psicólogos, psiquiatras, médicos, que querem fazer para o bem estar da criança, mas acabam retirando delas toda a expontaneidade, toda infância, todo perigo, aventura, desventuras, e tudo o mais que era ser criança.

Retiram o pânico de ficar sem papai ou sem mamãe, utilizando-se de medicamentos, ou de terapias que de nada valhem apenas servem para ganhar tempo. Claro que eles tem um efeito, mas sou a favor de um outro tipo de efeito. Winnicott em suas consultas terapeuticas, tinha resultados riquíssimos, mesmo com pouco tempo de atendimento. Bastava ouvir a criança, contar uma historinha e mostrar aos pais o que podia ser feito. 

Hoje as crianças são levadas aos médicos como gado ao matadouro. Uma a uma vão sendo diagnosticadas e os pais não se dão conta de que diagnóstico psi, nem sempre quer dizer loucura, ao contrário, sempre quer dizer de uma relação desta criança com os adultos e sua dificuldade de entender, de fazer igual.

Dalí, parece que já nos apontava uma saída, façamos o contrário, ensinemos as nossas crianças a imaginar, a sonhar, coloquemos uma boa música, na qual as crianças possam imaginar, fechar os olhos e sonhar.

Por favor, façamos alguma coisa o quanto ainda temos tempo.

Aqui em Londrina em uma escola tradicional já existe até os pequenos empreendedores. Isto de empreendedor é coisa para adultos, o ofício da criança é sonhar, imaginar brincar, seu trabalho é ser criança.

Desde Arriès, há uma vertente histórica que considera a infância como criação, como construção, como um produto histórico. Tudo bem, não vou negar, ou contradizer este pesnamento, nem pensar em outra coisa, mas gostaria apenas de nos perguntar, será que esta na hora de abandonarmos este nosso produto?

Será que o trabalho dos "gente grande" para garantir a infância, os estudos, um mundo melhor, para os "gente pequenas" quando eles crescerem deixou simplesmente de fazer sentido?

Chega, é preciso voltarmos um pouco como Dalí e permitir que nossa criança volte a sonhar, a acreditar que o relógio se derrete como o tempo. Não é o relógio que tem o tempo, mas o tempo quem o tem. 

Precisamos ver o sol nascer e se por mais vezes, e as vezes, acreditar que ele entrará no mar para banhar-se e voltará apenas amanha de manha. Precisamos deixar um pouco a loucura tomar conta de vez enquando.

Claro que não digo de um surto de loucura, mas uma loucura onde a imaginação possa fluir, sem narcóticos, bebidas, rezas, ou quaisquer outras coisas que não o som do sol sendo ouvindo à distância encostando nas águas e indo repousar.

Porque não?



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Medo e Desejo, duas faces de um transtorno do Pânico.

Os Retirantes - Portinari
Medo e Desejo, dois opostos que levam para um mesmo fim.

Não é raro ouvirmos uma explicação simplista de que quando temos muito medo de alguma coisa, a palavra proferida "chama" e acaba acontecendo exatamente aquilo que se temia. O resultado muitas vezes é extremante desagradável, e as pessoas costumam dizer "eu avisei".

Na verdade parece que tudo o que ouvimos uma vez que "o universo conspira a nosso favor" ou as palavras bíblicas de que "tudo concorre para o bem daqueles que temem a Deus", ou muitos outros ditados populares parece que não passam de ilusão, e até mesmo, porque não dizer, uma anedota, uma piada que de nada serve ao não ser para enganar os "trouxas". O problema é que não é tão simples assim. 

Estes dias fui interrogado a respeito de um senhor que faleceu há pouquíssimo tempo. Ele estava apresentando "transtorno do pânico". Sempre fora muito alegre, muito festeiro, muito sério em seus negócios e também com a vida. Só tinha uma dificuldade, a bebida alcólica.

Era um grande Doutor, nefrologista, uma pessoa muito querida e especial. Para mim, um grande homem, o conheci há muitos anos, amigo da família, e tenho um grande carinho por sua família e também por sua memória.

Poderíamos pensar que ele estava "prevendo" que algo iria acontecer, um sentido de premonição de que logo logo estaria deixando seus familiares e amigos. Deixaria muita saudade, e não queria isso, por isso começou a ficar estranho. Um pânico terrível começou a acompanhá-lo, já não era mais o mesmo. Ainda bebia, pelo visto para tentar abafar o sentimento da presença do indesejável medo da morte.

Curiosamente não foi a bebida que o levou. Um dia, supostamente embriagado, suas pernas simplesmente pararam de funcionar. Caiu no chão e bateu a cabeça, entrou em coma, e depois de uma semana faleceu.

Algumas pessoas tendem a interpretar sua morte como prevista, chamada pelo medo, desejada pelo Dr.. Eu gostaria de ir para outro caminho.

Um Doutor de sua idade, pouco mais de 60 anos, nefrologista, que ingeria alcool desde sua juventude podia negar conscientemente que estava caminhando para a morte, mas sabia muito mais do que qualquer um que iria morrer e que uma hora seus hábitos testemunhariam contra ele em seu corpo. Já estava com problemas de diabetes, e sobrepeso muito grande. Alia-se tudo isso a um problema cardíaco e o que é esperado é justamente o inevitável. Mesmo que não falado, que ocultamente inconsciente, a morte estava presente com seus sinais, doenças, sintomas, e a cada dia ela aparentava estar mais próxima.

Como o tique taque de um relógio de parede que ele tinha em sua casa, ao dar meio dia, todos naquela casa ouviam o lindo som grave que marcava a passagem da manhã para a tarde. A partir daquele momento o sol estava começando a se por. Já chegara em seu ápice, e o relógio marcava bem esta passagem. Já a vida de meu caríssimo amigo também estava indo pelo mesmo caminho.

Somos como o ponteiro dos segundos, vivemos alheios ao passar das horas até que em um determinado instante algo marca a passagem do amanhecer para o entardecer, e depois disso a evidência do fim do dia começa a se instalar.

Pode ser uma doença, uma aposentadoria, um exame médico que aponta pela primeira vez para algo que sempre esteve ali, mas que nunca se manifestou. Como o relógio, o som sempre esteve presente no Tic Tac dos segundos, mas somente desta vez começou a fazer sentido de fim do dia.

A morte estava dando indícios de sua chegada e o pânico se instalou frente a um desamparo da vida. Mesmo que se quebrem todos os relógios que marquem a hora já avançada, mesmo assim o sol continua a se por. Por mais que se faça, chega um momento que a espera fica evidente. Algumas pessoas conseguem esperar mais do que outras. Dizem que Freud em uma de suas entrevistas disse que a vida é boa com a gente, pois chega um momento que ela deixa de ser tão querida e desejada e a morte passa a ser esperada com certa vontade de que venha mais depressa.

É isso que estava acontecendo com meu amigo. O Dr. não resistiu ao badalar do relógio, teve um avc, quisera que o relógio do corpo parasse para não se haver com o por do sol.

Tentou acabar de vez com a angústia, com o medo, com o pânico, com o desamparo frente ao derradeiro momento da morte, ou daquele momento de sua vida.

Não é facil ver e saber que estamos morrendo. Na verdade negamos isso em nossos sonhos, em nossa forma de viver, em nossa forma de amar. Sempre buscamos nos distrair e deixar pra lá estas coisas que tem a ver com o aDeus. A nós que estamos aqui só nos resta o pó "do pó ao pó".

O desejo de terminar de vez com a angústia só mostra uma saída, exterminar aquele que porta a moléstia da existência humana, acabar de vez com a própria vida. Entrar em contato de vez com o que, embora seja o causador da angústia, acaba se tornando, graças aos sintomas do pânico, muito menos temido do que o próprio estado de desamparo, e porque não, de desespero, que a pessoa está vivendo.

Porém existe outra saída.

Analisar elemento por elemento da vida do paciente e aos poucos encontrar outras coisas que o distraiam, caminhar com alguém neste "vale das sombras" é o que Lacan ensina sobre a dificuldade e resistência do analista ao invés de, como pensava Freud, ser uma resitência unicamente do analisante. O paciente já está, na maioria dos casos, caminhando por este caminho, só falta o analista caminhar junto com ele. Uma caminhada que, embora acompanhada, ainda assim é muito solitária, penosa e dolorosa. São dois cegos caminhando vagarosamente neste caminho que não se sabe onde vai dar, diferentemente de um cego guiando outro, os dois vão caminhando juntos, porém um deles, já passou por estes momentos (por isso a importância da análise para um analista) e sabe que tudo aquilo vai ter um fim, embora não se saiba qual.

As vezes faz-se necessário percorrer todo um caminho por toda a vida que se passou, até chegar no agora, no momento determinante que o paciente relata: "antes disso acontecer eu era assim, agora sou isso". A descrição de "isso" que o paciente traz é um ponto muito importante, pois não é mais alguém, identifica-se apenas com a angústia e com o conjunto dos sintomas, mostrando a gravidade do momento.

Retirar um paciente da angústia é muito fácil. Na verdade a retirada do sintoma é quase que natural. Basta que o paciente diga sobre este sintoma. É aquilo que Freud diz sobre um efeito catártico. Falar sobre aquilo alivia a tensão, traz um pouco de paz, mas depois de um tempo o sintoma reaparece, e normalmente muito mais forte tornando-se insuportável. Falar sobre algo é retirar a gravidade daquele ponto, e como que sem gravidade, encontrar outro ponto para gravitacionar ao redor.

Este conhecimento é tão antigo que podemos encontrar na bíblia quando Jesus Cristo diz sobre alguns tipos de demônios. Ele diz que quando se tira um demônio de uma pessoa e esta pessoa não se cuida, outros sete vem habitar novamente aquele corpo. Em outras palavras, a mudança do estado de humor de uma pessoa pode durar enquanto dura o efeito catártico. Pode ser uma vida inteira, ou pode ser que dure apenas alguns minutos. De qualquer forma, é um alívio que pressupõe uma certa sobrevivência.

A análise permite que a pessoa tenha a possibilidade de experimentar tudo isso de outra forma. Reconhecer por si mesmo em sua própria vida as mudanças, os processos que aconteceram em sua vida e que até então passaram-se como despercebidos. Reconhecer os desejos que o levaram para o caminho mais temido até então, e perceber que o pânico na verdade era apenas um sinal e não o problema. 

O Pânico passa ter um outro sentido, o sentido de que algo sinaliza o futuro daquelas atitudes e ações, e que um desejo de mudança está presente, muito mais forte do que a pessoa pode imaginar, mas que por alguma razão ainda não pode ser efetuada. A mudança é como se estivesse imperrada em um conflito entre a vida que se está levando agora, que leva para a morte, e a vida que se poderia levar, uma vida nova, diferente, na qual faz-se necessário primeiro o luto da vida velha. A morte do homem velho.

Para finalizar, tanto o medo quanto o desejo levam a uma morte, a um único fim, a morte. Porém, embora com o mesmo nome, são fins que se diferenciam por um simples detalhe. A dificuldade está em perceber este detalhe que faz toda a diferença.

Enquanto o pânico traz a morte como fim, o desejo traz a morte como possibilidade de um novo começo, de um novo caminho, de uma nova vida, de um homem novo.

Coragem meus queridos leitores, existe vida após a angústia, após o pânico, após a depressão, por que não dizer também, existe vida após a morte. Pode não ser aquela que esperávamos, nem aquela que conhecemos, ou sequer imaginamos, mas posso lhes garantir enquanto pessoa que já passou por tudo isso, ela vale a pena.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

TCC Por Fabrício Carpinejar:

Direto do Blog do Mestre Fabrício Carpinejar:

Se você já foi um universitário ou tem um filho na universidade, entende o valor da temida sigla TCC.

TCC é tudo. O resto é nada. Você é nada, uma ameba, um protozoário perto de um TCC.

O Trabalho de Conclusão do Curso é a greve de existir do jovem. Faz o vestibular parecer um feriado.

O TCC é a TPM do Ensino Superior, a cadeira derretida do inferno, a desculpa para não realizar mais nada.

Não se vive com um TCC. A monografia final da graduação é a fita azul que enrola o canudo, é a provação derradeira para emoldurar o diploma, é o que separa o capelo do céu.

Na teoria, a tarefa se exibe fácil. Arrumar um tema, depois juntar material de pesquisa, atender aos conselhos de um professor orientador e, por fim, escrever 60 páginas. O fim nunca se encerra. No momento de pôr as ideias na tela, o último semestre demora mais três e o pânico devora as letras do teclado como um vírus.

O TCC é o Gulag do adolescente, o exílio solar, a solidão noturna. É o bilhete de suicídio prolongado em livro. É o mesmo que receber simultaneamente a notícia de gravidez e esterilidade.

Não se é humano com o TCC. É um crime se divertir, arejar a cabeça, brincar durante o período. A expectativa de solucionar um problema da carreira a partir de um texto acadêmico torna-se o problema. O futuro ganha o sinônimo de PRAZO ESGOTADO. A esperança tem o subtítulo ANOTAR ALGUMA COISA, QUALQUER COISA, POR FAVOR, ME AJUDA. O sujeito não tem mais passado, mas BIBLIOGRAFIA. Não existe lembrança, e sim FONTE.

Muito fácil reconhecer o graduando na rua. Andará vagaroso, vidrado nos cadarços soltos do próprio tênis, rosto maltratado, remela nos olhos, roupas sobrepostas de quem se acordou agora e pegou as primeiras peças pela frente. Demonstrará irritação e uma dificuldade de entender a lógica do idioma. É um poço de culpa, ou porque não dormiu para estudar, ou porque dormiu e não estudou.

Algumas respostas básicas de um universitário redigindo o TCC:

Você namora? – Não posso agora, estou preocupado com o TCC.

Vamos tomar um café no fim de tarde e pôr o papo em dia? – Não dá, tenho que fazer o TCC.

Que tal Green Valley no domingo? – Nem pensar, estou com o TCC parado.

Topa churrasco de noite? – Nunca, não avancei no TCC.

Um cineminha hoje, para descontrair um pouco? – Desculpa, estou atrasado para o meu TCC.

Onde você está? – Tentando achar uma posição confortável para escrever meu TCC.

Você leu a crônica de Carpinejar em Zero Hora? – Não, só leio o que interessa ao meu TCC.

Um grande abraço ao Mestre Carpinejar



sábado, 24 de setembro de 2011

Resumo: A importância da clínica psicanalítica no atendimento a adolescentes"

Pablo Picasso - Mulher ao Espelho

Segue abaixo um resumo da apresentação feita no Simpósio Winnicott Londrina:

A Clínica Psicanalítica teve muitas mudanças com o passar dos tempos, porém, a condição que permaneceu imutável para uma análise foi o vínculo de confiança entre analista e paciente. O setting proposto por Freud foi readequado para atender às demandas de cada paciente e também de cada período histórico. Antes era uma exigência "sine qua nom" atender o paciente deitado no divã sem que os olhares pudessem se cruzar. Hoje, dependendo do paciente, o olhar deve estar presente, dando um sentimento de segurança e amparo onde o paciente sinta-se acolhido para falar. A partir de Winnicott, a relação estabelecida na clínica psicanalítica passa a ser de proporcionar um ambiente facilitador, nos moldes da primeira relação mãe-bebê, para o cliente. Podemos pensar que a relação estabelecida na clínica pode ser um protótipo, um simulacro, de todas as outras relações que se seguirão, e que, quando é suficientemente boa, traz uma relação de confiança que permanece na adolescência e na vida adulta. Tais relações criam um diálogo e uma escuta do outro que passa a ser seu fundamento; mas quando não é adequada pode trazer alguns sofrimentos psíquicos. Pensando sobre a adolescência, esta fase pode ser vista como um indicador de mudança de setting. O presente trabalho traz uma perspectiva clínica de uma paciente de 15 anos que não conseguia falar com as pessoas, que não tinha um lugar para falar, que não tinha quem a escutasse. O atendimento para ela passou a ser o ambiente facilitador para que ela pudesse, pela primeira vez, experimentar falar de si e assim ser vista.

Bom, este foi o resumo que foi para o congresso, porém na apresentação, claro que abordei muito mais coisas e também outros autores...
O que a clínica psicanalítica pode oferecer de diferente das outras conversas cotidianas? Porque se faz necessário hoje o atendimento clínico com adolescentes? O que a clínica pode trazer de positivo para essas pessoas que buscam a análise?

Estas perguntas me levaram a escrever o resumo e apresentar o trabalho relacionado a um dos projetos de pesquisa que estou participando atualmente. 

Diferente (ou ao menso pensamos que seja diferente em uma primeira análise) do atendimento com adultos, o adolescente não é ainda um ser humano formado, concreto, com uma identidade, ou ainda, uma noção de si mesmo, que abarque boa parte do "eu".

Somente neste parágrafo acima poderíamos ter problemas teóricos com as mais diferentes vertentes dentro da própria psicanálise. Por exemplo, Winnicott irá dizer de um processo de desenvolvimento que o adolescente está bem no auge, antes de se tornar um adulto, portanto, ainda não tem uma identidade estabelecida. Lacan irá trabalhar com uma estrutura psíquica que já esta muito bem formatada, pois aqui já se sabe como o sujeito reage à castração, em outras palavras, como é a relação do sujeito com a Lei. Há também uma terceira teoria, a da esquizoanálise que trabalha um sujeito sempre em "devir", que não necessariamente terá uma identidade fixa, muito menos uma estruturação fixa.

Mas o que quero trabalhar é de uma outra coisa. Seja adolescente ou adulto, ou ainda uma criança que começa a ter uma relação consigo mesma e com os outros, todos estes estão presos em processos de identificações com os outros. Não quero dizer aqui apenas de uma identificação que aliene a pessoa dela mesma. Como por exemplo os adolescentes com os grupos que participam, ou as crianças que são alienadas de si mesmas e "apenas" conseguem corresponder ao desejo dos pais. Vou tentar ir por outra via, a via da clínica psicanalítica.

O conceito de identidade deve estar ligado com uma identificação a alguém. Uma pessoa que se identifica como trabalhador, como estudante, como marido, como mulher, como filho, na realidade apenas consegue se identificar em uma relação com um outro. Compreendo este outro, muito mais que alguém, muito mais que uma pessoa, como alguma coisa que diga sobre o sujeito, por exemplo, uma pessoa que tem muito dinheiro pode identificar-se como rica sem precisar de pessoas pobres para que possa identificar-se com esta posição que acaba ocupando. Outro então deixa de ser uma pessoa, um sujeito, e passa ter valor de objeto.

Identidade passa a ser um conceito de identificação objetal baseado na relação que uma pessoa tem com este objeto.

A experiência clínica mostra então, em uma última análise, que o conceito de identidade na verdade mora na relação de uma pessoa consigo mesma. O objeto último de comparação nunca é outro que não o próprio sujeito.

A adolescência é marcada então por alguém que não tem outras formas de relação consigo mesma, que não aquelas que lhe foram apresentadas até então. Podemos pensar que não há uma identidade no adolescente porque ele ainda não estabeleceu uma relação consigo mesmo que seja própria dele.

Vou tentar deixar mais claro.

Uma criança está sempre respondendo ao desejo dos pais. Ainda que sua resposta seja "inadequada", ou seja, mesmo que ela faça o que ela quer, corre o risco de ouvir de seus pais "não faz isso que mamãe fica triste", "não faz aquilo porque papai não gosta". Há aqui um sujeito na posição de objeto de um outro que vem de fora.

Os adultos tem a capacidade de serem diferentes. Conseguem manifestar o desejo por alguma coisa e fazer o que desejam, realizar seus sonhos, eles, diferentemente das crianças tem em suas mãos, tem em si mesmos a chave para realizar o que querem. As crianças ainda dependem dos pais para que possam executar alguma coisa.

Para que um adulto faça um bolo, basta trabalhar, ter dinheiro, ir no mercado, comprar os ingredientes e fazer o bolo. A criança depende que um adulto faça tudo isso por ela.

Mas e o adolescente?

O adolescente está entre uma coisa e outra.

Ainda não sabe de suas possibilidades porque até então fazim tudo por ele, inclusive desejavam, falavam, nomeavam tudo em sua vida. Mas de alguma forma eles encontram nos grupos um simulacro onde podem realizar o que pela primeira vez parecia impossível até então, serem uma outra pessoa que não filhos pertecentes a tal pai ou tal mãe.

Aí entra a importância da clínica psicanalítica. Independete de estruturação psíquica, conceito de identidade ou identificação, dentro da relação entre analista e analisante, nasce uma possibilidade de nascimento e desenvolvimento de um sujeito diferente, mas dessa vez mediado por ninguém mais, ninguém menos que o próprio (algumas pessoas pensariam que a palavra aqui seria analista, mas não) analisante. Ou seja, na clínica psicanalítica o adolescente tem a oportunidade de aprender sobre si, entrando em contato consigo mesmo. 

No caso clínico que apresentei no Simpósio, depois que o rapaz me falou de seu irmão, seu pai, sua mãe, e mais ainda de quase todas as relações que ele teve em sua vida. Eu apenas pontuei que embora ele falasse de muitas pessoas, parecia-me que ele na verdade estava falando dele mesmo. Claro que para os analistas isto é óbvio, mas o impressionante foi a resposta que tive "É que tem muito deles em mim". Aí perguntei depois de um momento de silêncio:

- E quem é você?

A resposta a esta pergunta marca a diferença entre a criança, o adulto e o adolescente. Enquanto um é o filho(a) de seus pais, o adulto é alguém, o adolescente simplesmente não sabe nada de si mesmo.

Acho que poderíamos pensar diferente também. O Adulto sabe sobre si mas tem algumas lacunas, algumas dúvidas, uma impressão de ser algo mais do que é (um saber que não se sabe) e busca no analista que este lhe mostre, lhe aponte o que sabe sobre o analisante. A criança por outro lado tem a certeza do que é, mesmo que não seja absolutamente nada além de criança, mesmo que não seja nada além de seu nome, ela sabe e pronto. Sabe também, a criança, que para ela o ser não é tão importante quanto o que ela será. Já o adolescente mora na etapa do deixar de ser criança, deixar o "será" de lado para ser de fato aquilo que ele aspira para ele mesmo. Neste momento cria-se o conflito de interesses entre o desejo dos pais, e o próprio desejo. O conflito entre o desejo dos outros para ele e o perigo de bancar seu próprio desejo até as últimas consequências. O conflito na verdade entre deixar de ser para quem até então ele era filho, para se tornar alguém para ele mesmo, um sujeito, um adulto.

Em uma última observação a clínica psicanalítica possibilita uma trajetória, através da fala, onde o adolescente se engaja dele mesmo, se descobre, se analisa e aos poucos vai escolhendo como e o que ele quer ser. Não é o trabalho de associação livre, mas o de escutar e devolver ao adolescente as suas própias palavras, como em um jogo, uma brincadeira de palavras, onde o que o analista devolve é a palavra do próprio adolescente, mas dessa vez com o peso de um outro, de alguém de fora, que nesta etapa da vida ainda é muito importante e tem grande relevância. A clínica psicanalítica, em última análise, é a mesma com adultos e adolescentes, ambos brincam com as palavras, ambos descobrem-se no discurso de alguém que ocupa um lugar de "suposto saber". Tanto adultos quanto adolescentes, através do trabalho analítico entram, enfim, em contato com alguém dentro deles mesmos, e porque não dizer de outra forma: ambos entram em contato com quem eles são de verdade e descobrem que idenpendente de quem são, sempre haverá outras possibilidades de ser.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Conversando com um taxista no Alabama, ele me disse em alto e bom tom "O dinheiro é meu e eu faço o que eu quero com ele. Tenho família para sustentar, filhos que quando precisam de médicos eu mesmo pago, eu mesmo levo, não vejo necessidade de dar mais dinheiro ao governo para algo no qual eu não serei beneficiado".

Ele estava muito enfurecido com relação à criação de um imposto para a saúde nos Estados Unidos. Ele havia nascido na Lousiana e começou a trabalhar de taxista naquele estado. Passou sua vida inteira como motorista de táxi, vivendo "independente" do governo até quando se acidentou no trabalho. Uma das políticas que aquela companhia de taxi tinha é que uma vez que o motorista fosse acidentado, ele deveria pagar pelos danos físicos ou materiais e depois seria restituído se houvesse prova de que ele não era o culpado. Foi obrigado a mudar-se para o Alabama pois não pagou à companhia de táxi o que devia para eles.

Com um ar de uma "quase arrogância" me dizia que não havia sido culpado, acima de tudo, não tinha dinheiro para arcar com as despesas todas, desde a conta no hospital (ficou 1 semana internado até poder ir para casa). Dizia com um tom de voz ambargada que foi como se tivesse perdido tudo naquele acidente, nunca havia guardado dinheiro antes, mas a lição serviu pelo menos para uma coisa boa, conheceu sua mulher naqueles momentos de dor e angústia. Ela era recém formada em Nursing (um tipo de enfermagem com um trabalho muito mais operacional do que costumamos ter no Brasil). Eles se conheceram quando teve de ir para o Alabama, ficar na casa de um irmão seu e ela trabalhou cuidando dele. 

Nunca mais pode retornar para Lousiana. Havia contas a serem pagas por lá e a "máfia dos taxistas" não iria permitir que ele retornasse sem antes quitar sua dívida hospitalar.

Fiquei intrigado e perguntei a ele se por acaso um imposto não seria muito útil naquele momento de desamparo, pois afinal de contas, as contas médicas seriam quitadas, e ele poderia continuar trabalhando sem sofrer toda a violência de perseguição e ter seu nome sujo no estado. Disse-me que não, pois se alguém tivesse pago ele jamais teria conhecido sua mulher.

Longe de pensar nas políticas públicas dos Estados Unidos, logo me veio à cabeça que nós realmente deixamos o todo para vivermos no particular em inúmeras ocasiões.

Será que o amor fez ele superar tudo o que ele passou? Provavelmente não, mas o ajudou, o deu forças para continuar mesmo quando em outras ocasiões seria necessário a ajuda do governo, a ajuda de alguém.

Quando entramos no terreno do amor, saímos do coletivo e entramos no território do individual, do indivíduo, da posse, do ciúmes. Foi somente devido à oportunidade de sentir-se desamparado e ter de ir para outro lugar que ele pode conhecer a mulher de sua vida. 

Arrisco-me a dizer com todas as letras que o amor procede ao desamparo. Seja o desamparo do governo, seja o desamparo físico, seja o desamparo emocional.

O que faz Hugo Chávez com seu povo ao não ser, representar, colocar-se no papel de uma grande mãe que fornece aos seus filhos (súditos leais) o que eles precisam e o que eles reinvidicam? A população ama seu líder com uma plenitude avassaladora (não digo todos, mas uma grande maioria que cai no conto do vigário).

Nos Estados Unidos a população não precisava mais de uma mãe. Queria caminhar com suas próprias pernas, queria escolher a quem amar. E foi o que fez aquele taxista quando me disse bem assim:

"The USA Government is´t my mom, neither my dad, is just my government. Obama should think about it before give something to someone who don´t want it. The people should have the opportunity to chose"
É pois isso que acontece nos regimes totalitários, o povo não tem a opção de escolher. É isso que ocorre nas relaões amorosas devoradoras, uma vez escolhido o governante (amante) a entrega deve ser total.

Mas é justamente o contrário que ocorre no amor "maduro" (se é que existe isso). A pessoa escolhe o amado, e ama, fica com o amado na posição de amante e não de entregue, mas de entregar-se a cada dia mais e mais.

Saímos do conto de fadas de um amor de felizes para sempre, uma única escolha, um único beijo, um único fim. Saímos da posição pré edípica onde há um só objeto (a grande mãe) para entrar na posição de um amor responsável, onde não há um fim, e por ventura, talvez, nem houve um começo, apenas um dia se percebeu assim. Um amor "maduro" onde os atos importam, onde as escolhas podem ser diferentes sem necessariamente acabar com o outro, engolir o outro, amar menos o outro.

A escolha passa a ser a cada momento e desde a manhã até a noite nos sonhos, é possível continuar amando, exercendo a atividade de amar. Muito diferente da posição de poder falar:

"já sou amado, agora não preciso mais amar".



segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Apostar na consciência para uma vida melhor?

Auto-conhecimento realmente faz uma diferença efetiva na hora de pensarmos em qualidade de vida?

Nem sempre.

Muitas pessoas procuram testes, livros, terapias ou ainda inúmeros outros métodos para alcançar um auto-conhecimento, um conhecimento sobre si mesmo.

Algumas pessoas consegum depois de um tempo descobrir como funcionam, o que realmente gostam, o que realmente sentem e pensam. Isso é de fato muito produtivo no plano da consciência. Quando pensamos em um ser humano "ideal" que faz realmente apenas o que gosta e o que quer e ainda por cima consegue viver bem consigo mesmo, com suas escolhas, sucessos, decisões e também fracassos, acho que apenas o auto-conhecimento é suficiente e até mesmo muito salutar.

Este tipo de ser humano "ideal" e "feliz" nunca conheci. 

Há porém outro tipo de ser humano. É como se habitasse alguém dentro da gente, um outro eu, ou ainda como diria São Paulo, alguém que me leva a "fazer o mal, quando quero fazer o bem". Há uma parte em nós que não deve ser deixada de lado, a parte que nos faz sofrer com nossas escolhas, mesmo que elas estejam corretas. A parte que nos leva a pensar e repensar coisas simples da vida, como aceitar ou não um outro emprego, ir viajar para a praia ou outro lugar, ficar em casa no fim de semana ou ir ao cinema, coisas simples, do cotidiano, mas que geram algum desconforto, algum mal-estar.

Podemos pensar na radicalidade do pensamento de São Paulo e dizer de uma parte em nós pecaminosa, "degradada" e que nos leva a praticar o mal e até mesmo nos orgulhar de fazer algo que não queríamos de fato fazer.

Porém podemos pensar em outra coisa.

Freud contribui muito com o auto-connecimento dizendo que há uma parte em nós que não sabemos, não compreendemos e acima de tudo, não podemos pensar esta parte. É o inconsciente.

O inconsciente que nos move a realizar várias coisas que nunca imaginamos sermos capazes de fazer. Sejam elas boas ou ruins, ao contrário de nossa consciência que se move pela vontade pautada em certo/errado, pautada em uma moral constuída e que passa a ser constituinte de uma pessoa, o inconsciente se move na razão do desejo, pura e simplesmente buscando a sua satisfação.

É como se realmente houvesse um outro dsentro de nós que pulsa, que busca uma satisfação para além do que é certo ou errado, do que é prazeiroso ou desprazeroso a nível de consciência. Alguém dentro de nós que não pensa em puro ou impuro, mas que busca apenas aquilo que ele sabe fazer, que é satisfazer-se independente de como, ou com o que.

Não podemos pensar esta parte nossa, este "inconsciente" (não sabido) como algo mal, ou ruim. Na verdade o incosciente é bom por natureza, afinal de contas ele é apenas natureza. Seria como (mas não é somente isso) nossa parte corpórea com os buracos de nosso corpo que pulsam, buscando uma satisfação.

Sejam o alimento que passa pela boca, uma chupeta, uma mamadeira, um dedo, uma goma de mascar, uma bala, um cigarro, uma cerveja, ou até mesmo falar. Tudo isso satisfaz, o que chamamos em psicanálise, a pulsão oral. Podems extrapolar para várias outrras coisas mas o mais importante de saber é que a satisfação está relacionada não com aquilo que é ingerido, mas com o movimento da mucosa, da boca, bo buraco que é tamponado, mesmo que parcialmente e por pouco tempo.

Devido a esta característica do inconsciente de satisfazer-se com qualquer coisa, temos então uma infinita possibilidade para os seres humanos de dar um destino a esta energia, que nos move em busca de satisfação.

Aí é que mora o maior de todos os problemas.

Diferentemente dos animais, saber o que sacia a fome deixa de ser saber o nome de uma comida, de um prato, de uma refeição, mas passa a ser algo totalmente distinto do que realmente nosso organismo precisa. Os animais quando precisam de ferro, ou outros minerais, acabam comendo terra, ou grama. Nós vamos direto no sorvete, ou na macarronada. Nosso corpo muitas vezes padece justamente porque nossa "vontade" vai absolutamente contra tudo aquilo que ele necessita. Comemos demais, andamos demais, falamos demais, comemos de menos, comemos de mais e não andamos quase nada, os resultados quase sempre são muito prejudiciais ao nosso "bem estar".

Entramos em conflito quanto a uma coisa que realmente precisamos (como tomar uma injeção) e aquilo que queremos, que desejamos. Este é o ser humano "não-ideal", mas real.

Embora conheça sobre sí, mesmo assim ainda se pega de surpresa realizando coisas que nunca tinha imaginado fazer, ainda sim, consegue se surprender com pequenos prazeres, como olhar uma bela paisagem, ou ainda ver a mesma paisagem e de repente se admirar de algo que sempre foi tão comum. Ainda sim temos em nós alguém que não conhecemos e talvez conhecer este alguém só nos possa revelar uma única coisa: somos muito mais do que podemos sonhar em saber. 

No fundo, sabemos que somos o que por tanto tempo não nos sabemos, somos muito mais do que nossa consciência pode imaginar. Em outras palavras, "criados à imagem e semelhança de Deus", somos na verdade, inimagináveis, somos humanos.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sobre os nomes-do-Pai
por: Aurélio Souza


"A leitura que Lacan realizou de Freud abriu diferentes caminhos para a psicanálise. Num primeiro momento, quando esteve próximo ao estruturalismo desenvolveu a tese de que o “inconsciente se estruturava como uma linguagem”. Mais tarde, ao conceber a estrutura da linguagem a partir de uma função do Real, apresentou para a psicanálise a topologia da cadeia borromeana, que enriquecida pela fonologia se tornava um envelope sonoro capaz de produzir seus efeitos sobre o sujeito, antes mesmo que o vivente que passaria a sustentá-lo tivesse nascido; ou ainda, antes mesmo que ele tivesse sido engendrado. A estrutura da cadeia borromeana modificou os fundamentos da análise a partir do momento que Lacan pôde enunciar que o “inconsciente se inventa”. Quanto ao analista em sua prática, não só deve considerar um avanço em relação ao Tempo, onde o Momento de Concluir interfere no Tempo de Compreender e determinava o Instante de Ver, como deve procurar intervir com tolerância e prudência para que o analisante sob a função sujeito possa se servir dos nomes-do-Pai para se desembaraçar de seu sintoma. O analisante deve se fazer um artífice, deve fibrar diferentes “sementes do real” que passam a afetá-lo para que possa se-fazer-ser por suas obras, por seus adornos, por seus amores, deve se fazer um nome para que possa se distanciar desse gozo devastador que lhe é prometido por um Outro, que nem mesmo existe. Assim, o sujeito ao se-fazer-ser sai da apatia e da sonolência de um gozo do corpo que o deixa sempre preguiçoso e inserido na cena social sob a ilusão de uma normalidade. Uma condição que vem ser auxiliada na contemporaneidade pelos neurolépticos, ansiolíticos e antidepressivos, ou mesmo dessa acomodação produzida pela oferta maciça de gadjets, do consumo de drogas e, ainda, de um auxílio que pode ser dado pela magia e pelas religiões. A análise não se propõe a curar o sujeito de seu sintoma e de seu sofrimento, mas de retificá-lo, de recolocá-lo numa posição em que possa se proteger contra os efeitos do Real, possibilitando-o encontrar outra forma de se rehystoricizar, colocando limites no Real que causa seu sofrimento. Essa é a proposição de colocar a psicanálise como uma estética, diferente da erótica elaborada por Freud. Temas que deveremos discutir juntos."
O Psicanalista Aurélio Souza estará em Londrina e realizará um Seminário para a discussão do tema: "Os nomes-do-Pai:

Maiores Informações: mclmarco@hotmail.com

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Grants For Single Moms