segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Apostar na consciência para uma vida melhor?

Auto-conhecimento realmente faz uma diferença efetiva na hora de pensarmos em qualidade de vida?

Nem sempre.

Muitas pessoas procuram testes, livros, terapias ou ainda inúmeros outros métodos para alcançar um auto-conhecimento, um conhecimento sobre si mesmo.

Algumas pessoas consegum depois de um tempo descobrir como funcionam, o que realmente gostam, o que realmente sentem e pensam. Isso é de fato muito produtivo no plano da consciência. Quando pensamos em um ser humano "ideal" que faz realmente apenas o que gosta e o que quer e ainda por cima consegue viver bem consigo mesmo, com suas escolhas, sucessos, decisões e também fracassos, acho que apenas o auto-conhecimento é suficiente e até mesmo muito salutar.

Este tipo de ser humano "ideal" e "feliz" nunca conheci. 

Há porém outro tipo de ser humano. É como se habitasse alguém dentro da gente, um outro eu, ou ainda como diria São Paulo, alguém que me leva a "fazer o mal, quando quero fazer o bem". Há uma parte em nós que não deve ser deixada de lado, a parte que nos faz sofrer com nossas escolhas, mesmo que elas estejam corretas. A parte que nos leva a pensar e repensar coisas simples da vida, como aceitar ou não um outro emprego, ir viajar para a praia ou outro lugar, ficar em casa no fim de semana ou ir ao cinema, coisas simples, do cotidiano, mas que geram algum desconforto, algum mal-estar.

Podemos pensar na radicalidade do pensamento de São Paulo e dizer de uma parte em nós pecaminosa, "degradada" e que nos leva a praticar o mal e até mesmo nos orgulhar de fazer algo que não queríamos de fato fazer.

Porém podemos pensar em outra coisa.

Freud contribui muito com o auto-connecimento dizendo que há uma parte em nós que não sabemos, não compreendemos e acima de tudo, não podemos pensar esta parte. É o inconsciente.

O inconsciente que nos move a realizar várias coisas que nunca imaginamos sermos capazes de fazer. Sejam elas boas ou ruins, ao contrário de nossa consciência que se move pela vontade pautada em certo/errado, pautada em uma moral constuída e que passa a ser constituinte de uma pessoa, o inconsciente se move na razão do desejo, pura e simplesmente buscando a sua satisfação.

É como se realmente houvesse um outro dsentro de nós que pulsa, que busca uma satisfação para além do que é certo ou errado, do que é prazeiroso ou desprazeroso a nível de consciência. Alguém dentro de nós que não pensa em puro ou impuro, mas que busca apenas aquilo que ele sabe fazer, que é satisfazer-se independente de como, ou com o que.

Não podemos pensar esta parte nossa, este "inconsciente" (não sabido) como algo mal, ou ruim. Na verdade o incosciente é bom por natureza, afinal de contas ele é apenas natureza. Seria como (mas não é somente isso) nossa parte corpórea com os buracos de nosso corpo que pulsam, buscando uma satisfação.

Sejam o alimento que passa pela boca, uma chupeta, uma mamadeira, um dedo, uma goma de mascar, uma bala, um cigarro, uma cerveja, ou até mesmo falar. Tudo isso satisfaz, o que chamamos em psicanálise, a pulsão oral. Podems extrapolar para várias outrras coisas mas o mais importante de saber é que a satisfação está relacionada não com aquilo que é ingerido, mas com o movimento da mucosa, da boca, bo buraco que é tamponado, mesmo que parcialmente e por pouco tempo.

Devido a esta característica do inconsciente de satisfazer-se com qualquer coisa, temos então uma infinita possibilidade para os seres humanos de dar um destino a esta energia, que nos move em busca de satisfação.

Aí é que mora o maior de todos os problemas.

Diferentemente dos animais, saber o que sacia a fome deixa de ser saber o nome de uma comida, de um prato, de uma refeição, mas passa a ser algo totalmente distinto do que realmente nosso organismo precisa. Os animais quando precisam de ferro, ou outros minerais, acabam comendo terra, ou grama. Nós vamos direto no sorvete, ou na macarronada. Nosso corpo muitas vezes padece justamente porque nossa "vontade" vai absolutamente contra tudo aquilo que ele necessita. Comemos demais, andamos demais, falamos demais, comemos de menos, comemos de mais e não andamos quase nada, os resultados quase sempre são muito prejudiciais ao nosso "bem estar".

Entramos em conflito quanto a uma coisa que realmente precisamos (como tomar uma injeção) e aquilo que queremos, que desejamos. Este é o ser humano "não-ideal", mas real.

Embora conheça sobre sí, mesmo assim ainda se pega de surpresa realizando coisas que nunca tinha imaginado fazer, ainda sim, consegue se surprender com pequenos prazeres, como olhar uma bela paisagem, ou ainda ver a mesma paisagem e de repente se admirar de algo que sempre foi tão comum. Ainda sim temos em nós alguém que não conhecemos e talvez conhecer este alguém só nos possa revelar uma única coisa: somos muito mais do que podemos sonhar em saber. 

No fundo, sabemos que somos o que por tanto tempo não nos sabemos, somos muito mais do que nossa consciência pode imaginar. Em outras palavras, "criados à imagem e semelhança de Deus", somos na verdade, inimagináveis, somos humanos.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sobre os nomes-do-Pai
por: Aurélio Souza


"A leitura que Lacan realizou de Freud abriu diferentes caminhos para a psicanálise. Num primeiro momento, quando esteve próximo ao estruturalismo desenvolveu a tese de que o “inconsciente se estruturava como uma linguagem”. Mais tarde, ao conceber a estrutura da linguagem a partir de uma função do Real, apresentou para a psicanálise a topologia da cadeia borromeana, que enriquecida pela fonologia se tornava um envelope sonoro capaz de produzir seus efeitos sobre o sujeito, antes mesmo que o vivente que passaria a sustentá-lo tivesse nascido; ou ainda, antes mesmo que ele tivesse sido engendrado. A estrutura da cadeia borromeana modificou os fundamentos da análise a partir do momento que Lacan pôde enunciar que o “inconsciente se inventa”. Quanto ao analista em sua prática, não só deve considerar um avanço em relação ao Tempo, onde o Momento de Concluir interfere no Tempo de Compreender e determinava o Instante de Ver, como deve procurar intervir com tolerância e prudência para que o analisante sob a função sujeito possa se servir dos nomes-do-Pai para se desembaraçar de seu sintoma. O analisante deve se fazer um artífice, deve fibrar diferentes “sementes do real” que passam a afetá-lo para que possa se-fazer-ser por suas obras, por seus adornos, por seus amores, deve se fazer um nome para que possa se distanciar desse gozo devastador que lhe é prometido por um Outro, que nem mesmo existe. Assim, o sujeito ao se-fazer-ser sai da apatia e da sonolência de um gozo do corpo que o deixa sempre preguiçoso e inserido na cena social sob a ilusão de uma normalidade. Uma condição que vem ser auxiliada na contemporaneidade pelos neurolépticos, ansiolíticos e antidepressivos, ou mesmo dessa acomodação produzida pela oferta maciça de gadjets, do consumo de drogas e, ainda, de um auxílio que pode ser dado pela magia e pelas religiões. A análise não se propõe a curar o sujeito de seu sintoma e de seu sofrimento, mas de retificá-lo, de recolocá-lo numa posição em que possa se proteger contra os efeitos do Real, possibilitando-o encontrar outra forma de se rehystoricizar, colocando limites no Real que causa seu sofrimento. Essa é a proposição de colocar a psicanálise como uma estética, diferente da erótica elaborada por Freud. Temas que deveremos discutir juntos."
O Psicanalista Aurélio Souza estará em Londrina e realizará um Seminário para a discussão do tema: "Os nomes-do-Pai:

Maiores Informações: mclmarco@hotmail.com

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O que é melhor?

Quem pode dizer o que é melhor ou pior?

Ser "normal" ou ser louco?

Ser neurótico ou psicótico?

Perverso ou melancólico?

Ser branco ou amarelo, azul, preto, bege??

Sol ou chuva?

Noite ou dia?

O que é melhor e o que é pior dentre as doenças mentais?

Doenças mentais?

Elas não existem.

De um tempo pra cá parei de escutar algumas pessoas que tem se agarrado firmemente a um padrão organizador e descritivo de sintomas. Para mim, a vida começou a um grande sintoma. A própria pessoa é um sintoma de várias doenças, a maior delas, sua própria existência.

Sintomas, do grgo Sin = Pedaços e Tomo = Junção. Ou seja, a junção dos pedaços, dos pedaços de uma vida, de uma existência, de uma tentaiva de ser.

A wikipédia traz muitas coisas inmteressantes sobre esta palavra, mas faltava uma coisa. 
Sempre falta, sempre, nunca, as vezes...

No quebra cabeças da vida a gente tem que se organizar de alguma forma. A GENTE e não um psicólogo, terapeuta, médico, adivinho, ou qualquer outra pessoa. Claro que eles podem nos ajudar, mas jamais terão poder supremo para tirar ou colocar peças, cores, ou formas em nossa fôrma de ser.

Não acredito mais em uma doença mental, afinal de contas, quando penso em uma estrutura, em uma organização, não posso sequer me atraver que aquilo ali está errado. Minha amiga Renata me disse várias vezes quando eu estava trabalhando com Penas Altenativas:

- Marco as pessoas são aquilo de melhor que elas conseguem ser.

Essa frase, quase uma oração, me pegava sempre de surpresa. Naquele momento não pude compreender, eu estava cego. Não um cego que se conforma com sua cegueira e procura outras formas de ver, eu estava cego e tantando enxergar. Acho que me encontrava naquela palavra de Cristo quando ele dizia que as pessoas que ouviam não podiam escutar, as que enxergavam não podiam ver...

Hoje já me vejo perdido em uma outra situação. Enfim descobri que sou cego, não posso colocar meu dedo na ferida do outro e depois de cutucar apenas com um sorriso garantir que aquilo tudo irá passar. Não posso, não porque não possa de fato falar, mas porque minha potência se limita a ser humano.

Ser humano e de alguma forma desfrutar da vida assim como eu consigo, da melhor forma possível.

Acho que isso faz uma diferença danada na hora de pensar as questões referentes a constituição dos sujeitos na contemporaneidade. A impressão que temos é que as pessoas estão perdidas e não sabem que estão perdidas. Não porque eu sei que estão perdidas, mas porque procuram em vão coisas que nunca irão encontrar. Buscam por entre caminhos que muitas vezes não levam a lugar nenhum. 

Acho que tudo isso é apenas impressão. As pessoas hoje em dia sabem muito bem o caminho que estão trilhando, o que buscam e o que não vão encontrar. Apenas escolhem a impressão de poderem enxergar quando estão na verdade cegos. Apenas se cobrem com ideais e idéias, sonhos, fantasias, sabem sim, mas preferem não saber.

Algumas pessoas devem estar ligando esta parte do texto com o "saber não sabido" de Freud, ou em outras palavras, um saber que a pessoa insiste em não saber. 

Cegos guiando cegos.

A análise não é e nunca foi uma tentativa de curar os olhos para que deixem de ser cegos. Ao contrário, permitem às pessoas se dar conta de sua cegueira. Nunca ensina a pessoa a tatear, ou tenta treinar a contagem de passos e a memorização. ao contrário disso, apenas permite que a pessoa possa escolher e aprender, da forma como melhor lhe apraz, sua própria forma de caminhar, de sentir, de ver o mundo.

A análise apenas nos lembra que somos muito mais do que enxergamos, e que mesmo de frente ao espelho, há uma costas que não somos capazes de enxergar.

No final das contas, nos damos conta que somos todos retirantes, como no quadro de Portinari. Somos todos iguais, a caminho, buscando um retiro, um descanso, até quem sabe, de nós mesmos.

Buscar o que não se pode ver no espelho é isso, sair um pouco do padrão, da ordem que foi estabelecida por um outro que está ali na minha frente e que por acaso é a minha imagem, sou eu mesmo. É encontrar um refúgio de si mesmo e por um segundo ser feliz.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Reuniões Clínicas: Às Quartas-Feiras na Uel - Aberto a TODOS

O Departamento de Psicologia e Psicanálise promove: 


 Às Quartas-Feiras na Uel  -  Reuniões Clínicas.

O Departamento de Psicologia e Psicanálise promove um ciclo de palestras, ao longo do ano de 2011, direcionado ao estudante e profissional de psicologia e área afins interessado em discutir temas atuais sob a perspectiva psicanalítica. Contaremos com a participação de Professores do Departamento e Profissionais convidados.

PALESTRANTE: Valdemir Leonarde
TEMA: Um mundo sem limites. O mal estar na contemporaneidade e a sua consequência na clínica Psicanalítica.
DIA: 31/08/2011
HORÁRIO:19:00 às 21:00
LOCAL:Sala 201 (Piniquinho)
Evento gratuito e aberto a todos os interessados em Psicanálise

Escrever é bem diferente de falar.

A escrita é como uma carta a alguém, muitas vezes por mais emocionados que estejamos as lágrimas escorrem, mas de alguma forma conseguimos escrever aquilo que nos incomoda, nos machuca, nos ajuda, nos forma.

Falar é muito diferente. A gente sente o nó na garganta, a gente sente que as lágrimas, o calar, o rubor, o corpo, pode dizer muito mais do que a própria vocalização do som. É algo muito interessante, e ao mesmo tempo muito doído a experiência de não poder, de não conseguir falar.

Este ano na clínica tive experiências interessantes, desde sintomas como pânico, desamparo, solidão, paranóia, até início de depressão e ainda por cima em minha própria vida o maior de todos os sintomas, a culpa e a vergonha que impedem que a palavra seja dita. Diferente dos outros sintomas, a culpa barra a fala, caminha com a vergonha e impede que seja dito, que seja colocado para fora e que a pessoa consiga explorar o fato de outra forma. Já os outros sintomas, como a depressão, o pânico, a paranóia, ou qualquer outro sintoma, se fala do sintoma sem problema algum (na maioria dos casos), e aos poucos vai se chegando ao ponto do problema, retirando na medida em que a pessoa e o analista conseguem aguentar, no tempo certo que a relação estabelece, o sintoma, a queixa até que se chega na raiz da dificuldade.

É de suma importância o trabalho na clínica, pois lá é onde as pessoas se achegam, e quando se sentem acolhidas, ultimamente tenho ouvido delas: "quero um lugar que eu possa falar, preciso de alguém que me escute". 

Que lugar é este, e quem é este alguém?

Seria muito fácil se pudéssemos todos escrever nossa história, nosso "contos de fadas" particular, ou nas palavras de Freud, nosso "mito individual". Acho que encontraríamos best sellers de qualquer pessoa que resolvesse por no papel sua história, sua vida, seu passado, seus sonhos e anseios.

Mas quando começamos a escrever, as lágrimas correm, as dores nos trucidam, mas aos poucos vai passando e aquela história parece voltar a ser monótona, parece que vai se re-encaixando no tédio rotineiro do cotidiano. Aos poucos conforme o sentimento vai se esvanecendo, a escrita vai perdendo o sentido, e vai cessando também a letra colocada no papel. Assim, sem necessariamente ter um ponto final.
Quando falamos, no entanto, a história é outra. 

Alguém está lá escutando, mesmo que não seja necessário este alguém ajudar, acima de tudo está ouvindo e de alguma forma somos forçados a ter um começo, um meio e um fim. Não podemos simplesmente deixar de perder a fala, conforme o sentimento que impulsionou o primeiro som acabe cessando. Temos que continuar, e é exatamente isso que vai fazer a diferença depois. O analista de certa forma é este ouvinte que ocupa o lugar de alguém que ouve, e se está ali ouvindo, o analisante tem que falar.

Alguém para escutar é alguém que está disposto a "ler" esta vida falada e que nos move a continuar falando. Alguém que se coloca naquele lugar de leitor, de analista própriamente dito, e que pontue, marque e grife, cada frase, cada palavra, cada sentença, até mesmo o silêncio que sentencia não o final, mas alguma coisa outra que ou não pode ser falado ainda, pois o enredo não está preparado, ou porque perdeu o sentido de ser dito.

No papel como escrevemos o silêncio? Como colocamos a angústia nas letras?

Isso é trabalho para os poetas, mas na clínica, todos esperimentamos um pouco este momento de poetas de nossa própria vida.

Este lugar de falantes, onde encontramos alguém que esteja disposto a nos ouvir e acima de tudo, a nos fazer ouvir a nós mesmos. A importância de alguém que escute e nos traga de volta o que falamos, no sentido de nos levar ao incomodo e à realidade daquelas palavras, pode ser entendida também como um exercício ético, um exercício de ter que se haver com a própria palavra dita, o que ultimamente está muito em baixa na sociedade contemporanea.

O segredo do analista é conseguir, de algum jeito, fazer com que o cliente, paciente, analisante, pessoa, passe a ouvir-se e a se implicar com aquilo que fala. Passe a dizer de si, para se dizer, para se construir e reconstuir aos poucos, a cada palavra, mas também a cada hiato da voz que a experiência da escrita não pode dar. 

Entre um parágrafo e outro há uma lacuna, mas não necessariamente um silêncio. Na escrita damos ponto final e passamos para outra coisa, ou alguma coisa que se ligue ainda que de alguma forma, ao que foi escrito anteriormente.

As idéias para para serem escritas já estão de certa forma organizadas, mas para falar não precisa de organização alguma, é nesta não ordem que trabalha-se com a construção do sujeito. A pessoa vai se identificando com algumas palavras, algumas letras, e até mesmo com certos sons, que significam algo para ela. Esta significação toda a leva a se identificar consigo mesma, perceber-se uma pessoa que carrega desde a mais tenra idade os mesmos desejos, sonhos, e medos. Em suma, percebe-se que até então é a mesma pessoa, a mesma "criança habitando um envólucro grande" como disse uma vez Di Loretto.

É acima de tudo do lugar de falante que as pessoas tem buscado ocupar na clínica. Ao menos meus pacientes aos poucos vão percebendo (isso quando não digo diretamente) que não sou eu quem dou as respostas, mas apenas os instigo a relembrá-las porque de alguma maneira, elas estão perdidas, desorganizadas e em algum lugar que eles não puderam encontrar até então.

A diferença é que quando escrevemos no papel, as palavras já estão tudo muito bem organizadas, mas não temos as respostas que o momento de silêncio, que a angústia do não conseguir, não poder falar, pode propiciar.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Justo eu que pensava guardar tantas coisas.

Justo eu que achava que tinha tanta coisa...

Uma vara de pesca, uma mochila com coisas de pesca...

Um colchão...

Uma toalha...

Livros e mais livros. Quem ve pensa que sou intelectual, ou no mínimo um grande leitor de alguma coisa...

Duas malas de roupas...

Pronto...

Justo eu que achava que tinha tanta coisa, acabei percebendo que na verdade muito pouco era realmente meu. 

O quarto, insisto em demorar para limpá-lo, parece que a cada roupa retirada do guarda roupa guardava uma história, um momento naquela casa. A casa de muitos lutos, muitas lutas, um retorno a um antigo sonho se concretizou ali. Mas também perdas inesquecíveis e irreparáveis ocorreram neste lugar.

Impressiono-me cada dia mais ao saber que cada coisa tem um outra história. Além da história real vista e contada, tem também a invisível, a sentida, a história que cada um tem no mais profundo de seu ser. 

O relógio que trouxe dos Estados Unidos apareceu na gaveta, ao lado de um outro que ganhara de presente de uma ex-namorada. Um sem pilha, outro sem pilha e sem pulseiras. Ambos sem pulso algum para serem utilizados, entretanto, guardados.

Um pedaço de uma pulseira de um outro relógio apareceu. Junto com papéis de orações, de cartas e um sentimento de Deus que não imaginava ainda possuir. Um sentimento de mais profunda saudade de um tempo que tanto tive problemas, mas de alguma forma fui feliz. 

Um chinelo de meu avô que conquistei depois de seu enterro. Uma lupa que era dele. Uma bandana que havia comprado com meu irmão em uma boate (Bali-Hai). Uma camisa do corinthians que era dele e sempre quis fazer um quadro. Faz 6 anos já, e ainda é apenas uma camisa. 

Documentos, e mais documentos. Certidão de nascimento com certidão de óbito.

É isso a mudança. 

Um óbito, um luto, mas também uma novidade, um nascimento para algo além da imaginação.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

E o bom de novos caminhos, de novidades, da vida cotidiana que se transforma com cada novidade, com cada nascer do sol, a cada manhã, é aquele friozinho na barriga. Uma sensação de novas possibilidades se abre, como uma porta que ao ser aberta aponta para o infinito horizonte.

Onde antes eu me sentava, me sentia a vontade, hoje já não é bem assim, já não me sinto bem na mesma posição que ocupava antigamente, essa é a verdade. Se eu respondesse um questionário de Ansiedade e depressividade com certeza eu estaria ali classificado como Bi-Polar.

Sim, na maioria dos dias tenho acordado mais triste que antes. Não porque estou deprimido, ou ainda porque estou triste. É que o fim de meus dias tem sido muito felizes. Chegar em casa com a sensação de dever cumprido, com o prazer do trabalho, com o sorriso nos lábios que denunciam o sucesso do dia que passou, isso não tem preço.

Poderiam me classificar como Bi-Polar de ciclo ultra rápido. Acordo triste, meio que de luto pela vida que se foi na noite de ontem, e aos poucos, com o passar das horas, dos encontros e desencontros, dos sorrisos, abraços e beijos, das ligações, leituras e um mundaréu de coisas que acontecem muito além de minha agenda, acabo ficando feliz imaginando que este dia que está passando foi muito melhor que o excelente dia que tive ontem.
Acordo com uma sensação triste de ter deixado o dia anterior, e com um friozinho na barriga porque não tenho nem idéia do que me espera.

Claro que tenho uma rotina, uma agenda, um caminho.

Segunda feira - estagio na parte da manhã, estudos a tarde.
Terça feira - Supervisão de manhã, atendimentos clínicos a tarde. Uma vez por mes grupo de estudos.
Quarta feira - estagio pela manhã novamente. Na parte da tarde vou resolver coisas minhas. A noite faço analise.
Quinta-feira- estagio de manhã. Na parte da tarde fico "livre" para o outro estágio.
Sexta feira- Ah a sexta feira. Igual a segunda feira... rsrsrsrs... Com excessão de que algumas delas eu tenho grupo de estudos...
Chegou enfim o sabado. Em um deles tenho grupo, que continua o trabalho da Sexta -Feira. Em outro tenho o cartel deste grupo. Muito desejo, muito estudo, muita alegria e felicidade nestes sábados.

Domingo. Ah, Domingo é dia do Senhor, é Domingo né gente.

Tudo bem, minha rotina, descrita, meu dia a dia.

Não, não está nada bem. Ao contrário, não sei nada dos dias que surgem um após o outro. A gente tenta se iludir fazendo um calendário e ageitando-se em um pedaço de papel. Não é bem assim que a vida funciona, pelo contrário, assim a gente funciona. A vida não tem nada a ver com isso.

A vida não tem nada a ver mesmo. Ela não tem olhos para olhar e ver nossa agenda, não tem mãos para nos colocar onde quer que ela queira que estejamos. Não tem boca para falar o que quer da gente, e nem ouvidos para escutar nossos planos futuros, nossos planos para o hoje.

A vida é outra coisa, não é como a gente é. A gente "tenta" se adaptar a esse negócio chamado vida, mas por alguma razão ela escapa, ela foge. 
Enquanto a gente vive do presente, a vida é o que está dentro da caixa, é o próprio presente imprevisível que aparece quando abrimos a porta e enchergamos que existe muito mais além da porta de nossa casa, além do horizonte, além da nossa própria vida.


Quero arriscar-me a dizer que a Vida é Viva. Viva a Vida.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Seminário com o psicanalista Aurélio Souza: Sobre os nomes-do-Pai

Seminário: 

  "Sobre os nomes-do-Pai"

Aurélio Souza - espaço Moebius Salvador






O psiquiatra e psicanalista Aurélio Souza (CREMEB 2195), membro fundador do Espaço Moebius – Salvador, estará em Londrina abordando a pluralização do nome-do-Pai na teoria lacaniana. O tema será apresentado de forma introdutória em uma conferência no dia 11/11/2011. No dia seguinte, Aurélio Souza propõe, a partir do Seminário XXI de Jacques Lacan, o desdobramento desta temática em sua articulação à cadeia borromeana.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

STOP DSM: Manifesto de São João del Rei Em prol de uma Psicopatologia Clínica

STOP DSM: Manifesto de São João del Rei Em prol de uma Psicopatologia Clínica

Prezados colegas,

Encaminho manifesto que ganha corpo internacionalmente, somando-se ao movimento “STOP DSM”.


Aproveitando a ocasião da publicação próxima do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais V (DSM-V), nós, do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Psicanálise da Universidade Federal de São João del Rei, em parceria com o Laboratório Interunidades de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da Universidade de São Paulo, com o PSILACS Grupo de Pesquisa “Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo” do CNPq e com o Laboratório de Psicopatologia e Psicanálise da Universidade Federal de Minas Gerais, aderimos à Campanha Internacional ‘Stop DSM’, idealizada pelo Espai Freud (Barcelona) e pelo ForumADD (Buenos Aires). Esta campanha é a favor de uma psicopatologia em que o sujeito seja contemplado e, por essa razão, lançamos aqui  nosso manifesto.

O DSM - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - foi responsável por tentar impor, a partir de sua terceira versão em 1980 (DSM-III), uma tábula rasa na história da psicopatologia, por conseguir, segundo seus promotores, ultrapassar a falta de acordo entre diversos teóricos do campo do sofrimento psíquico. Tal acontecimento, com forte impacto político, favoreceu a volta da psiquiatria biológica ao centro da cena clínica de diagnóstico e tratamento de transtornos mentais. O surgimento do DSM-III e de suas edições subseqüentes foi saudado por seus promotores como uma revolução científica que seria amparada em dois princípios básicosl: transformar a psicopatologia em um descritivismo de sinais e sintomas; e evitar pronunciar-se sobre a etiologia dos transtornos mentais. E um método explícito de pesquisa é indicado: a estatística. Podemos reduzir estes princípios a uma única proposição: o a-teorismo. Mas como pode uma revolução científica ser a-teórica?

Ora, uma revolução científica depende do papel de uma teoria; esta, ao contrário do que acreditam os promotores dos DSM’s, não é uma mera abstração. Os DSM’s não são uma unanimidade epistêmica, apesar de sua pretensão de serem hegemônicos. E o uso que fazem da estatística - avaliação da freqüência de um sintoma por um período de tempo - acompanha o seu propalado descritivismo. No entanto, o uso científico da matemática não é descritivo: sua função não é descrever um fenômeno, mas explicá-lo. Os promotores dos DSM’s confundem quantificação com inteligibilidade científica.

O a-teorismo dos promotores dos DSM’s também é questionável no que concerne ao ensino da psicopatologia. A intromissão dos DSM’s nas universidades torna o quadro da formação profissional cada vez mais dramático. Temos hoje o ensino da psicopatologia reduzido a preenchimento de um check list. Se tivéssemos no lugar do DSM’s um ensino que valorizasse o debate amplo em torno dos modos de proceder o diagnóstico, teríamos a formação de um profissional com espírito crítico que não teria como ferramenta de trabalho somente a medicação do sujeito e a remissão dos sintomas, e que poderia, desse modo, discutir com subsídios as diversas políticas de saúde mental.

Os DSM’s, em seu esforço de serem ciência, deixam de lado também uma metodologia importante no trabalho do campo do sofrimento psíquico: o método clínico. Um sintoma é uma queixa de um sujeito. Não há clínica sem essa queixa. A queixa aponta para a dimensão primordial de atuação no campo do sofrimento psíquico: o que Jacques Lacan chamou de campo da fala e da linguagem. Deste modo, o sintoma psíquico não pode ser considerado como um déficit; ao contrário: aponta para um laço, uma tentativa de solução de ocupação entre o sujeito e seu mundo. No entanto, quando estamos às voltas com a definição de sintomas como déficits e do sujeito como um transtornado, temos uma prática em que a fala do sujeito se reduz a respostas a um questionário, tornando-o uma cifra a entrar numa estatística ou um índice a classificar genericamente uma experiência singular.

A consequência de um manual que não se ampara no método clínico e que se restringe a catalogar os fenômenos sem preocupação em saber como surgem, por que surgem, como se articulam entre si, e principalmente, que função esses fenômenos podem desempenhar para determinado sujeito é a criação de verdadeiras epidemias psíquicas. O que pode se agravar com a quinta versão do DSM: este não quer ser mais apenas um manual de diagnóstico de patologias já deflagradas, mas pretende predizer a possibilidade de surgimento de transtornos em sujeito. Com o novo projeto de um DSM preditivo, temos a expansão do que podemos chamar de patologização da existência: que qualquer evento da vida de um sujeito pode ser considerado um transtorno ou um potencial desarranjo. Consequentemente, deve ser tratado – via medicação – para a não perturbação da ordem pública, tentando prevenir o sempre inevitável mal-estar na civilização através do controle contemporâneo das populações. Essa patologização da existência revela o novo imperativo da psiquiatria estatística atual: todos transtornados. E se o tratamento privilegiado torna-se farmacológico, que grande negócio para a indústria farmacêutica!

Alias, não é recente e nem desconhecida a relação intrínseca entre os DSM’s e a indústria farmacêutica. Hoje temos as companhias farmacêuticas como motor da revisão dos DSM’s, uma vez que temos laboratórios financiando os “profissionais” responsáveis pela revisão dos transtornos.

    Deste modo defendemos uma psicopatologia que:

●    tenha por referência maior o sujeito e seus modos singulares de se haver com o sintoma e com o mundo que o cerca;
●    uma psicopatologia que se situe inteiramente na clínica, pois este é seu método por excelência;
●    uma psicopatologia que conheça sua história, suas correntes, suas controvérsias e suas diferenças sócio-históricas.
●    que, por conseqüência, possibilite um ensino e uma formação críticos de profissionais do sofrimento psíquico;
●    que não esteja submetida aos lucros da indústria farmacêutica, mas que tenha por política a “economia” subjetiva do sintoma;
●    que não esteja amparada em um ideal imaginário de ciência mas em uma ciência moderna, cuja matemática inclui um esforço de demonstração de impossibilidades lógicas, antes que a afirmação de sistemas totais fechados;
●    que não promova a patologização da existência, a ilusão da prevenção e a padronização dos sujeitos.

Para ler a íntegra do Manifesto de São João del Rei: Em prol de uma Psicopatologia Clínica, clique aqui.

Para apoiar nosso Manifesto, clique aqui. As assinaturas serão encaminhadas para Organização Mundial de Saúde ao final de 2012



Fonte:
http://stopdsm.blogspot.com/

domingo, 7 de agosto de 2011

Vem cá, me diz porque vale a pena viver se a vida, a própria vida não tem sentido e não se pode senti-la de outra forma que não o vazio, a falta, a angústia?

Simplesmente esta pergunta é um dos pontos que procura-se ultrapassar na terapia.

O que é a brincadeira senão sentir todas as emoções estando de alguma forma protegido pela realidade de que tudo aquilo não passa de uma fantasia?

A psicanálise (principalmente a análise de Lacan) estabelece a angústia da percepção do real, do sem sentido da vida, como um primeiro passo para que a pessoa possa chegar a ser. Ela primeiro tem que perceber que não é, e que é justamente esta "falta-a-ser" que dará uma possibilidade de ser.

A brincadeira das crianças é mais ou menos isso. Nenhuma criança brinca de ser criança e de viver uma vida que ela já vive. Ao contrário, ela brinca com os elementos que lhe faltam. Algumas com os poderes que desejariam ter, como super visão, raios lasers, força sobrenatural. Tudo exageradamente para que elas encontrem um sentimento muito familiar, o da proteção, o sentimento do ser acolhido e poder acolher.

Vejam que as meninas brincam com a realidade quando brincam de casinha. Os meninos com seus bonecos brincam de guerra, de espadas. Por trás de toda brincadeira existe um motivo muito real, motivo este que faz com que eles tenham que escapar da realidade para poderem viverem uma experiência de satisfação que não é (ainda) possível.

Assim também é na análise. 

Diante daquele que fala, a vida vai se desestruturando, deixando de ter uma forma, a pessoa acaba encontrando uma vida sem fôrma alguma, sem linhas, sem marcas, sem destinos, sem início e sem fim. UMA vida, a própria vida.

A análise faz com que as pessoas encontrem-se em suas próprias vidas e isso meus amigos, nada mais é do que o próprio efeito do brincar. As crianças encontram-se a todo tempo com sua própria incapacidade e imaginam (brincando) algo que supra essa falta. Em um processo de análise fazemos a mesma coisa. só que de forma inversa. Na análise nós vamos descobrindo o que colocamos no lugar da falta para depois perceber que aquilo ali não pertence àquele lugar exato, mas que está apenas como que emprestado para se poder viver.

Assim é o amor, aqueles que vivem por estarem apaixonados, mas também aqueles que vivem em função de uma doença. A vida é movida, de um lado pelo amor, e do outro pela doença, mas é movida, é vivida, é sentida.

Claro que além do amor e da doença existem outros "motores" da vida. Uma busca pelo sucesso, o trabalho, os estudos, uma viagem daqui a um ano. Porém tudo isto está ligado com o desejo.

Reconhecer o desejo é o ponto que leva a pessoa a encontrar seu motor. Encontrar-se com a realidade do sem sentido e também que aquilo que é desejado nunca poderá ser encontrado de fato. Afinal de contas uma vez encontrado deixará de ser desejado, passará a ser concreto, real, e uma vez realidade presentificada, materializada perde-se todo o movimento que antes era realizado para se obter o que tanto se desejava. É meus amigos, é aquela velha história que quando perdemos algo, não adianta procurar. Quanto mais procuramos, parece que perdemos ainda mais a chance de encontrar.

Lembro-me de um ditado que dizia que o amor não pode ser encotrado, é ele quem nos encontra. Realmente, o amor desejado não é amor, é outra coisa, é ilusão. E mais uma vez, se é ilusão, esta ilusão serve apenas para ficar no lugar do amor real, e uma vez neste lugar, tampa, mesmo que por um período curto de tempo, a falta que o amor nos faz.

 
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