segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Reuniões Clínicas: Às Quartas-Feiras na Uel - Aberto a TODOS

O Departamento de Psicologia e Psicanálise promove: 


 Às Quartas-Feiras na Uel  -  Reuniões Clínicas.

O Departamento de Psicologia e Psicanálise promove um ciclo de palestras, ao longo do ano de 2011, direcionado ao estudante e profissional de psicologia e área afins interessado em discutir temas atuais sob a perspectiva psicanalítica. Contaremos com a participação de Professores do Departamento e Profissionais convidados.

PALESTRANTE: Valdemir Leonarde
TEMA: Um mundo sem limites. O mal estar na contemporaneidade e a sua consequência na clínica Psicanalítica.
DIA: 31/08/2011
HORÁRIO:19:00 às 21:00
LOCAL:Sala 201 (Piniquinho)
Evento gratuito e aberto a todos os interessados em Psicanálise

Escrever é bem diferente de falar.

A escrita é como uma carta a alguém, muitas vezes por mais emocionados que estejamos as lágrimas escorrem, mas de alguma forma conseguimos escrever aquilo que nos incomoda, nos machuca, nos ajuda, nos forma.

Falar é muito diferente. A gente sente o nó na garganta, a gente sente que as lágrimas, o calar, o rubor, o corpo, pode dizer muito mais do que a própria vocalização do som. É algo muito interessante, e ao mesmo tempo muito doído a experiência de não poder, de não conseguir falar.

Este ano na clínica tive experiências interessantes, desde sintomas como pânico, desamparo, solidão, paranóia, até início de depressão e ainda por cima em minha própria vida o maior de todos os sintomas, a culpa e a vergonha que impedem que a palavra seja dita. Diferente dos outros sintomas, a culpa barra a fala, caminha com a vergonha e impede que seja dito, que seja colocado para fora e que a pessoa consiga explorar o fato de outra forma. Já os outros sintomas, como a depressão, o pânico, a paranóia, ou qualquer outro sintoma, se fala do sintoma sem problema algum (na maioria dos casos), e aos poucos vai se chegando ao ponto do problema, retirando na medida em que a pessoa e o analista conseguem aguentar, no tempo certo que a relação estabelece, o sintoma, a queixa até que se chega na raiz da dificuldade.

É de suma importância o trabalho na clínica, pois lá é onde as pessoas se achegam, e quando se sentem acolhidas, ultimamente tenho ouvido delas: "quero um lugar que eu possa falar, preciso de alguém que me escute". 

Que lugar é este, e quem é este alguém?

Seria muito fácil se pudéssemos todos escrever nossa história, nosso "contos de fadas" particular, ou nas palavras de Freud, nosso "mito individual". Acho que encontraríamos best sellers de qualquer pessoa que resolvesse por no papel sua história, sua vida, seu passado, seus sonhos e anseios.

Mas quando começamos a escrever, as lágrimas correm, as dores nos trucidam, mas aos poucos vai passando e aquela história parece voltar a ser monótona, parece que vai se re-encaixando no tédio rotineiro do cotidiano. Aos poucos conforme o sentimento vai se esvanecendo, a escrita vai perdendo o sentido, e vai cessando também a letra colocada no papel. Assim, sem necessariamente ter um ponto final.
Quando falamos, no entanto, a história é outra. 

Alguém está lá escutando, mesmo que não seja necessário este alguém ajudar, acima de tudo está ouvindo e de alguma forma somos forçados a ter um começo, um meio e um fim. Não podemos simplesmente deixar de perder a fala, conforme o sentimento que impulsionou o primeiro som acabe cessando. Temos que continuar, e é exatamente isso que vai fazer a diferença depois. O analista de certa forma é este ouvinte que ocupa o lugar de alguém que ouve, e se está ali ouvindo, o analisante tem que falar.

Alguém para escutar é alguém que está disposto a "ler" esta vida falada e que nos move a continuar falando. Alguém que se coloca naquele lugar de leitor, de analista própriamente dito, e que pontue, marque e grife, cada frase, cada palavra, cada sentença, até mesmo o silêncio que sentencia não o final, mas alguma coisa outra que ou não pode ser falado ainda, pois o enredo não está preparado, ou porque perdeu o sentido de ser dito.

No papel como escrevemos o silêncio? Como colocamos a angústia nas letras?

Isso é trabalho para os poetas, mas na clínica, todos esperimentamos um pouco este momento de poetas de nossa própria vida.

Este lugar de falantes, onde encontramos alguém que esteja disposto a nos ouvir e acima de tudo, a nos fazer ouvir a nós mesmos. A importância de alguém que escute e nos traga de volta o que falamos, no sentido de nos levar ao incomodo e à realidade daquelas palavras, pode ser entendida também como um exercício ético, um exercício de ter que se haver com a própria palavra dita, o que ultimamente está muito em baixa na sociedade contemporanea.

O segredo do analista é conseguir, de algum jeito, fazer com que o cliente, paciente, analisante, pessoa, passe a ouvir-se e a se implicar com aquilo que fala. Passe a dizer de si, para se dizer, para se construir e reconstuir aos poucos, a cada palavra, mas também a cada hiato da voz que a experiência da escrita não pode dar. 

Entre um parágrafo e outro há uma lacuna, mas não necessariamente um silêncio. Na escrita damos ponto final e passamos para outra coisa, ou alguma coisa que se ligue ainda que de alguma forma, ao que foi escrito anteriormente.

As idéias para para serem escritas já estão de certa forma organizadas, mas para falar não precisa de organização alguma, é nesta não ordem que trabalha-se com a construção do sujeito. A pessoa vai se identificando com algumas palavras, algumas letras, e até mesmo com certos sons, que significam algo para ela. Esta significação toda a leva a se identificar consigo mesma, perceber-se uma pessoa que carrega desde a mais tenra idade os mesmos desejos, sonhos, e medos. Em suma, percebe-se que até então é a mesma pessoa, a mesma "criança habitando um envólucro grande" como disse uma vez Di Loretto.

É acima de tudo do lugar de falante que as pessoas tem buscado ocupar na clínica. Ao menos meus pacientes aos poucos vão percebendo (isso quando não digo diretamente) que não sou eu quem dou as respostas, mas apenas os instigo a relembrá-las porque de alguma maneira, elas estão perdidas, desorganizadas e em algum lugar que eles não puderam encontrar até então.

A diferença é que quando escrevemos no papel, as palavras já estão tudo muito bem organizadas, mas não temos as respostas que o momento de silêncio, que a angústia do não conseguir, não poder falar, pode propiciar.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Justo eu que pensava guardar tantas coisas.

Justo eu que achava que tinha tanta coisa...

Uma vara de pesca, uma mochila com coisas de pesca...

Um colchão...

Uma toalha...

Livros e mais livros. Quem ve pensa que sou intelectual, ou no mínimo um grande leitor de alguma coisa...

Duas malas de roupas...

Pronto...

Justo eu que achava que tinha tanta coisa, acabei percebendo que na verdade muito pouco era realmente meu. 

O quarto, insisto em demorar para limpá-lo, parece que a cada roupa retirada do guarda roupa guardava uma história, um momento naquela casa. A casa de muitos lutos, muitas lutas, um retorno a um antigo sonho se concretizou ali. Mas também perdas inesquecíveis e irreparáveis ocorreram neste lugar.

Impressiono-me cada dia mais ao saber que cada coisa tem um outra história. Além da história real vista e contada, tem também a invisível, a sentida, a história que cada um tem no mais profundo de seu ser. 

O relógio que trouxe dos Estados Unidos apareceu na gaveta, ao lado de um outro que ganhara de presente de uma ex-namorada. Um sem pilha, outro sem pilha e sem pulseiras. Ambos sem pulso algum para serem utilizados, entretanto, guardados.

Um pedaço de uma pulseira de um outro relógio apareceu. Junto com papéis de orações, de cartas e um sentimento de Deus que não imaginava ainda possuir. Um sentimento de mais profunda saudade de um tempo que tanto tive problemas, mas de alguma forma fui feliz. 

Um chinelo de meu avô que conquistei depois de seu enterro. Uma lupa que era dele. Uma bandana que havia comprado com meu irmão em uma boate (Bali-Hai). Uma camisa do corinthians que era dele e sempre quis fazer um quadro. Faz 6 anos já, e ainda é apenas uma camisa. 

Documentos, e mais documentos. Certidão de nascimento com certidão de óbito.

É isso a mudança. 

Um óbito, um luto, mas também uma novidade, um nascimento para algo além da imaginação.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

E o bom de novos caminhos, de novidades, da vida cotidiana que se transforma com cada novidade, com cada nascer do sol, a cada manhã, é aquele friozinho na barriga. Uma sensação de novas possibilidades se abre, como uma porta que ao ser aberta aponta para o infinito horizonte.

Onde antes eu me sentava, me sentia a vontade, hoje já não é bem assim, já não me sinto bem na mesma posição que ocupava antigamente, essa é a verdade. Se eu respondesse um questionário de Ansiedade e depressividade com certeza eu estaria ali classificado como Bi-Polar.

Sim, na maioria dos dias tenho acordado mais triste que antes. Não porque estou deprimido, ou ainda porque estou triste. É que o fim de meus dias tem sido muito felizes. Chegar em casa com a sensação de dever cumprido, com o prazer do trabalho, com o sorriso nos lábios que denunciam o sucesso do dia que passou, isso não tem preço.

Poderiam me classificar como Bi-Polar de ciclo ultra rápido. Acordo triste, meio que de luto pela vida que se foi na noite de ontem, e aos poucos, com o passar das horas, dos encontros e desencontros, dos sorrisos, abraços e beijos, das ligações, leituras e um mundaréu de coisas que acontecem muito além de minha agenda, acabo ficando feliz imaginando que este dia que está passando foi muito melhor que o excelente dia que tive ontem.
Acordo com uma sensação triste de ter deixado o dia anterior, e com um friozinho na barriga porque não tenho nem idéia do que me espera.

Claro que tenho uma rotina, uma agenda, um caminho.

Segunda feira - estagio na parte da manhã, estudos a tarde.
Terça feira - Supervisão de manhã, atendimentos clínicos a tarde. Uma vez por mes grupo de estudos.
Quarta feira - estagio pela manhã novamente. Na parte da tarde vou resolver coisas minhas. A noite faço analise.
Quinta-feira- estagio de manhã. Na parte da tarde fico "livre" para o outro estágio.
Sexta feira- Ah a sexta feira. Igual a segunda feira... rsrsrsrs... Com excessão de que algumas delas eu tenho grupo de estudos...
Chegou enfim o sabado. Em um deles tenho grupo, que continua o trabalho da Sexta -Feira. Em outro tenho o cartel deste grupo. Muito desejo, muito estudo, muita alegria e felicidade nestes sábados.

Domingo. Ah, Domingo é dia do Senhor, é Domingo né gente.

Tudo bem, minha rotina, descrita, meu dia a dia.

Não, não está nada bem. Ao contrário, não sei nada dos dias que surgem um após o outro. A gente tenta se iludir fazendo um calendário e ageitando-se em um pedaço de papel. Não é bem assim que a vida funciona, pelo contrário, assim a gente funciona. A vida não tem nada a ver com isso.

A vida não tem nada a ver mesmo. Ela não tem olhos para olhar e ver nossa agenda, não tem mãos para nos colocar onde quer que ela queira que estejamos. Não tem boca para falar o que quer da gente, e nem ouvidos para escutar nossos planos futuros, nossos planos para o hoje.

A vida é outra coisa, não é como a gente é. A gente "tenta" se adaptar a esse negócio chamado vida, mas por alguma razão ela escapa, ela foge. 
Enquanto a gente vive do presente, a vida é o que está dentro da caixa, é o próprio presente imprevisível que aparece quando abrimos a porta e enchergamos que existe muito mais além da porta de nossa casa, além do horizonte, além da nossa própria vida.


Quero arriscar-me a dizer que a Vida é Viva. Viva a Vida.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Seminário com o psicanalista Aurélio Souza: Sobre os nomes-do-Pai

Seminário: 

  "Sobre os nomes-do-Pai"

Aurélio Souza - espaço Moebius Salvador






O psiquiatra e psicanalista Aurélio Souza (CREMEB 2195), membro fundador do Espaço Moebius – Salvador, estará em Londrina abordando a pluralização do nome-do-Pai na teoria lacaniana. O tema será apresentado de forma introdutória em uma conferência no dia 11/11/2011. No dia seguinte, Aurélio Souza propõe, a partir do Seminário XXI de Jacques Lacan, o desdobramento desta temática em sua articulação à cadeia borromeana.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

STOP DSM: Manifesto de São João del Rei Em prol de uma Psicopatologia Clínica

STOP DSM: Manifesto de São João del Rei Em prol de uma Psicopatologia Clínica

Prezados colegas,

Encaminho manifesto que ganha corpo internacionalmente, somando-se ao movimento “STOP DSM”.


Aproveitando a ocasião da publicação próxima do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais V (DSM-V), nós, do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Psicanálise da Universidade Federal de São João del Rei, em parceria com o Laboratório Interunidades de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da Universidade de São Paulo, com o PSILACS Grupo de Pesquisa “Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo” do CNPq e com o Laboratório de Psicopatologia e Psicanálise da Universidade Federal de Minas Gerais, aderimos à Campanha Internacional ‘Stop DSM’, idealizada pelo Espai Freud (Barcelona) e pelo ForumADD (Buenos Aires). Esta campanha é a favor de uma psicopatologia em que o sujeito seja contemplado e, por essa razão, lançamos aqui  nosso manifesto.

O DSM - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - foi responsável por tentar impor, a partir de sua terceira versão em 1980 (DSM-III), uma tábula rasa na história da psicopatologia, por conseguir, segundo seus promotores, ultrapassar a falta de acordo entre diversos teóricos do campo do sofrimento psíquico. Tal acontecimento, com forte impacto político, favoreceu a volta da psiquiatria biológica ao centro da cena clínica de diagnóstico e tratamento de transtornos mentais. O surgimento do DSM-III e de suas edições subseqüentes foi saudado por seus promotores como uma revolução científica que seria amparada em dois princípios básicosl: transformar a psicopatologia em um descritivismo de sinais e sintomas; e evitar pronunciar-se sobre a etiologia dos transtornos mentais. E um método explícito de pesquisa é indicado: a estatística. Podemos reduzir estes princípios a uma única proposição: o a-teorismo. Mas como pode uma revolução científica ser a-teórica?

Ora, uma revolução científica depende do papel de uma teoria; esta, ao contrário do que acreditam os promotores dos DSM’s, não é uma mera abstração. Os DSM’s não são uma unanimidade epistêmica, apesar de sua pretensão de serem hegemônicos. E o uso que fazem da estatística - avaliação da freqüência de um sintoma por um período de tempo - acompanha o seu propalado descritivismo. No entanto, o uso científico da matemática não é descritivo: sua função não é descrever um fenômeno, mas explicá-lo. Os promotores dos DSM’s confundem quantificação com inteligibilidade científica.

O a-teorismo dos promotores dos DSM’s também é questionável no que concerne ao ensino da psicopatologia. A intromissão dos DSM’s nas universidades torna o quadro da formação profissional cada vez mais dramático. Temos hoje o ensino da psicopatologia reduzido a preenchimento de um check list. Se tivéssemos no lugar do DSM’s um ensino que valorizasse o debate amplo em torno dos modos de proceder o diagnóstico, teríamos a formação de um profissional com espírito crítico que não teria como ferramenta de trabalho somente a medicação do sujeito e a remissão dos sintomas, e que poderia, desse modo, discutir com subsídios as diversas políticas de saúde mental.

Os DSM’s, em seu esforço de serem ciência, deixam de lado também uma metodologia importante no trabalho do campo do sofrimento psíquico: o método clínico. Um sintoma é uma queixa de um sujeito. Não há clínica sem essa queixa. A queixa aponta para a dimensão primordial de atuação no campo do sofrimento psíquico: o que Jacques Lacan chamou de campo da fala e da linguagem. Deste modo, o sintoma psíquico não pode ser considerado como um déficit; ao contrário: aponta para um laço, uma tentativa de solução de ocupação entre o sujeito e seu mundo. No entanto, quando estamos às voltas com a definição de sintomas como déficits e do sujeito como um transtornado, temos uma prática em que a fala do sujeito se reduz a respostas a um questionário, tornando-o uma cifra a entrar numa estatística ou um índice a classificar genericamente uma experiência singular.

A consequência de um manual que não se ampara no método clínico e que se restringe a catalogar os fenômenos sem preocupação em saber como surgem, por que surgem, como se articulam entre si, e principalmente, que função esses fenômenos podem desempenhar para determinado sujeito é a criação de verdadeiras epidemias psíquicas. O que pode se agravar com a quinta versão do DSM: este não quer ser mais apenas um manual de diagnóstico de patologias já deflagradas, mas pretende predizer a possibilidade de surgimento de transtornos em sujeito. Com o novo projeto de um DSM preditivo, temos a expansão do que podemos chamar de patologização da existência: que qualquer evento da vida de um sujeito pode ser considerado um transtorno ou um potencial desarranjo. Consequentemente, deve ser tratado – via medicação – para a não perturbação da ordem pública, tentando prevenir o sempre inevitável mal-estar na civilização através do controle contemporâneo das populações. Essa patologização da existência revela o novo imperativo da psiquiatria estatística atual: todos transtornados. E se o tratamento privilegiado torna-se farmacológico, que grande negócio para a indústria farmacêutica!

Alias, não é recente e nem desconhecida a relação intrínseca entre os DSM’s e a indústria farmacêutica. Hoje temos as companhias farmacêuticas como motor da revisão dos DSM’s, uma vez que temos laboratórios financiando os “profissionais” responsáveis pela revisão dos transtornos.

    Deste modo defendemos uma psicopatologia que:

●    tenha por referência maior o sujeito e seus modos singulares de se haver com o sintoma e com o mundo que o cerca;
●    uma psicopatologia que se situe inteiramente na clínica, pois este é seu método por excelência;
●    uma psicopatologia que conheça sua história, suas correntes, suas controvérsias e suas diferenças sócio-históricas.
●    que, por conseqüência, possibilite um ensino e uma formação críticos de profissionais do sofrimento psíquico;
●    que não esteja submetida aos lucros da indústria farmacêutica, mas que tenha por política a “economia” subjetiva do sintoma;
●    que não esteja amparada em um ideal imaginário de ciência mas em uma ciência moderna, cuja matemática inclui um esforço de demonstração de impossibilidades lógicas, antes que a afirmação de sistemas totais fechados;
●    que não promova a patologização da existência, a ilusão da prevenção e a padronização dos sujeitos.

Para ler a íntegra do Manifesto de São João del Rei: Em prol de uma Psicopatologia Clínica, clique aqui.

Para apoiar nosso Manifesto, clique aqui. As assinaturas serão encaminhadas para Organização Mundial de Saúde ao final de 2012



Fonte:
http://stopdsm.blogspot.com/

domingo, 7 de agosto de 2011

Vem cá, me diz porque vale a pena viver se a vida, a própria vida não tem sentido e não se pode senti-la de outra forma que não o vazio, a falta, a angústia?

Simplesmente esta pergunta é um dos pontos que procura-se ultrapassar na terapia.

O que é a brincadeira senão sentir todas as emoções estando de alguma forma protegido pela realidade de que tudo aquilo não passa de uma fantasia?

A psicanálise (principalmente a análise de Lacan) estabelece a angústia da percepção do real, do sem sentido da vida, como um primeiro passo para que a pessoa possa chegar a ser. Ela primeiro tem que perceber que não é, e que é justamente esta "falta-a-ser" que dará uma possibilidade de ser.

A brincadeira das crianças é mais ou menos isso. Nenhuma criança brinca de ser criança e de viver uma vida que ela já vive. Ao contrário, ela brinca com os elementos que lhe faltam. Algumas com os poderes que desejariam ter, como super visão, raios lasers, força sobrenatural. Tudo exageradamente para que elas encontrem um sentimento muito familiar, o da proteção, o sentimento do ser acolhido e poder acolher.

Vejam que as meninas brincam com a realidade quando brincam de casinha. Os meninos com seus bonecos brincam de guerra, de espadas. Por trás de toda brincadeira existe um motivo muito real, motivo este que faz com que eles tenham que escapar da realidade para poderem viverem uma experiência de satisfação que não é (ainda) possível.

Assim também é na análise. 

Diante daquele que fala, a vida vai se desestruturando, deixando de ter uma forma, a pessoa acaba encontrando uma vida sem fôrma alguma, sem linhas, sem marcas, sem destinos, sem início e sem fim. UMA vida, a própria vida.

A análise faz com que as pessoas encontrem-se em suas próprias vidas e isso meus amigos, nada mais é do que o próprio efeito do brincar. As crianças encontram-se a todo tempo com sua própria incapacidade e imaginam (brincando) algo que supra essa falta. Em um processo de análise fazemos a mesma coisa. só que de forma inversa. Na análise nós vamos descobrindo o que colocamos no lugar da falta para depois perceber que aquilo ali não pertence àquele lugar exato, mas que está apenas como que emprestado para se poder viver.

Assim é o amor, aqueles que vivem por estarem apaixonados, mas também aqueles que vivem em função de uma doença. A vida é movida, de um lado pelo amor, e do outro pela doença, mas é movida, é vivida, é sentida.

Claro que além do amor e da doença existem outros "motores" da vida. Uma busca pelo sucesso, o trabalho, os estudos, uma viagem daqui a um ano. Porém tudo isto está ligado com o desejo.

Reconhecer o desejo é o ponto que leva a pessoa a encontrar seu motor. Encontrar-se com a realidade do sem sentido e também que aquilo que é desejado nunca poderá ser encontrado de fato. Afinal de contas uma vez encontrado deixará de ser desejado, passará a ser concreto, real, e uma vez realidade presentificada, materializada perde-se todo o movimento que antes era realizado para se obter o que tanto se desejava. É meus amigos, é aquela velha história que quando perdemos algo, não adianta procurar. Quanto mais procuramos, parece que perdemos ainda mais a chance de encontrar.

Lembro-me de um ditado que dizia que o amor não pode ser encotrado, é ele quem nos encontra. Realmente, o amor desejado não é amor, é outra coisa, é ilusão. E mais uma vez, se é ilusão, esta ilusão serve apenas para ficar no lugar do amor real, e uma vez neste lugar, tampa, mesmo que por um período curto de tempo, a falta que o amor nos faz.

terça-feira, 26 de julho de 2011

No consultório psiquiatriaco - Dr. Bacamarte


No consultório:

O psiquiatra entra em sua sala e encontra um homem que se arrasta de quatro no chão com algo na boca.O  médico indaga:
- Ah! Olha quem veio aqui hoje! É um gatinho?
O homem rasteja para outro canto.
O médico o segue:
- Um cachorro?
O homem rasteja para baixo da mesa, coloca a mão sobre o computador e começa a puxar um fio de um buraquinho no chão.
O médico então senta-se na sua poltrona e diz:
- Ok... Acho que realmente é um gato. Quer conversar sobre isso?
O cara tira da boca um rolo de fita isolante e diz:
- Olha, doutor, ou o senhor me deixa em paz ou não vou mais instalar essa porra dessa internet aqui...

Comunicação não existe - Lacan no cotidiano

Comunicação não existe...

Deu novamente Lacan a favor na empresa onde trabalho.

O cliente ligou para a responsável pelos orçamentos e ela estava ocupada, a ligação foi transferida para a supervisora que também pode fazer orçamentos (uma dica, se ficar muito complicado vai desenhando que ajuda, :D). A ligação transferida era apenas de um cliente novo, que desejava um orçamento de um serviço em sua casa. A supervisora como não encontrou os dados do histórico, colocou a mão sobre o telefone e perguntou quanto ficava para a responsável "mor" pelos orçamentos. A responsável então disse que ficava a partir de 200 reais para ir na casa e realizar o orçamento junto com o serviço, pois para ir até o problema haveria de deslocar equipe técnica e mais um supervisor para ver o que deveria ser feito. 

Até aqui tudo bem, tudo corretíssimo, a informação foi passada corretamente, mas, lembremos sempre que trabalhamos com pessoas, e cada um com sua história, compreende, ou seja, apreende o que ouviu sempre relacionado com sua história de vida.

A supervisora então tira a mão do telefone e diz que o valor seria aproximadamente 200 reais e que poderia encaminhar uma equipe naquele exato momento. Dito e feito, quando ouvi este "aproximadamente", já imaginei que logo logo teríamos um problema.

Meia hora depois, a equipe liga do local informando que havia ficado em 350 reais e que o cliente só iria pagar 200 reais pois falaram para ele que ficaria até 200 reais o serviço.

Vamos aos fatos:

A responsável pelo orçamento cotou um valor mínimo para deslocamento dos funcionários. Lembrando que este valor mínimo poderia ser ainda menor, mas para não perder a oportunidade fez um preço intermediário.

A supervisora compreendendo que era um preço intermidiário, ao invés de passar um valor mínimo e máximo, apenas disse que seria aproximadamento 200 reais, sem repassar ao cliente uma provável variação que todo serviço comumente tem. 

O cliente ouvindo os 200 reais, como ele que iria que pagar compreendeu que seria este o valor máximo do serviço, afinal, ele estava interessado no serviço e precisava urgentemente de uma solução. 

Os três estavam corretos em sua maneira de falar, de pensar e, ainda por cima, de compreender, mas no final as contas simplesmente não batia.

Aí entra a especificidade do psicólogo do trabalho para intervir em uma comunicação que existe mas que nunca "com (un) ica", ou seja, nunca deixa em comum uma notícia. Para ser mais realista possível, inexiste enquanto sua qualidade de transmitir uma informação na qual todos os ouvintes entendam objetivamente o que foi passado, objetivamente e com uma união tal, na qual se fosse necessário, qualquer pesosa ali poderia reproduzir o mesmo discurso sem qualquer erro, ou falha e todos os outros que ouvissem poderiam enteder da mesma forma.

Para simplificar, basta lembrar do conto do Livro de Areia, onde cada pagina se escrevia quando a pessoa ia lendo. Quando fechado e aberto na mesma pagina é uma nova história que se lê. Cada vez que lemos um livro, demos enfase sempre a uma novidade, a um ponto específico que outrora passou despercebido, ou ainda, que não era importante. Assim, temos o mesmo livro, mas sempre que é lido, é significado de forma diferente.

Cada vez que uma pessoa proferia então sua desculpa na empresa, nunca encontrávamos um culpado. Eu apenas sorria pois sabia que todos estavam certos em sua forma de pensar e raciocinar. Todos estavam corretíssimos em sua forma de compreender, apenas haviam se esquecido de um elemento ímpar.

Esqueceram-se que diante deles, e do outro lado do telefone, havia um outro, uma outra pessoa, um outro mundo, um outro livro de areia.

O grito.

Acho que quero mudar daqui...

O barulho das sirenes anunciando o perigo a cada passada de ambulância na rua em frente ao meu apartamento, há muito tempo deixou de ser natural.

A sensação de que alguém está precisando de socorro, alguém está gritando muito mais de dor do que as sirenes que alardeiam a passagem das viaturas no meio dos carros, esta sensação me causa por demais sofrimento.

Dias atrás, estava me arrumando para ir trabalhar, lá pelas 7:00 da manhã. Quase saindo de casa, quando de repente escuto um barulho ensurdecedor de acidente. Imaginei que alguém mais uma vez havia errado a curva, acertado o poste, ou batido em um carro parado na esquina. Imaginei aquilo que sou permitido imaginar, que de alguma forma me protege da realidade crua da dor e da morte. Não fosse aquele grito ecoando nas ruas desertas e subindo como aranhas pelas paredes de meu prédio até alcançar minha janela.

O grito que era um parou, depois veio outro ainda mais alto, e depois um último. 

Rezei para que a pessoa  continuasse gritando, muito melhor ouvir sua presença sofrida do que o silêncio fúnebre que se seguiu. Mil vezes preferível o sofrimento dos sofrimentos do que a inexistencia, do que o fim, do que o término. Havia acabado o grito.

Em mim o grito continuou ecoando por cerca de mais 5 minutos. Tempo que demorou para o socorro chegar, e com isso, a coragem apareceu para que eu me movimentasse e fosse continuar com minhas atividades.

Depois de algumas horas fiquei pensando. Não é possível que aquele homem gritou por 5 minutos seguidos. Apenas três gritos não dariam nem um minuto. Não é possível que ouvi o inaudível apenas por meu egoísmo de querer imaginar que alguém ainda estava ali. Que aquele homem (pelos gritos era um homem) ainda estava vivo, ainda estava consciente e ficaria bem. Não, me recusei de imediato a aceitar minha incapacidade de aceitar os fatos, de aceitar e mais do que isso, de acatar o silêncio como outra coisa que não a morte.

Rezei novamente como há muito tempo não rezara, pedindo a Deus e aos anjos para que aquela pessoa esteja bem, esteja tranquila e que de tudo certo para ela ainda aqui na vida, porque depois desta vida, o amanhã a Deus pertence.

Fui angustiado frente a uma segunda feira que se estandeu gritante por minha semana. Na hora que tive um pequeno tempo, liguei para minha namorada que estava atendendo na Ortopedia do HU.

Havia imaginado que alguém naquele estado de grito, e depois que vi a motocicleta embaixo do carro, presa, agarrada, como se uma coisa fosse parte da outra, teria ido para o hospital para ser tratado, deveria ter algum membro quebrado. Não havia sinais de sangue, não havia aquele saco plástico por perto, quando a pessoa morre no local. Tudo o que havia era o grito, o grito que ainda unia a pessoa acidentada com aquela engrenagem louca construída por um acidente. O grito, o angustiante sinal de que alguém estava ali, onde não se conseguia mais encaixar peça alguma, havia alguém ali que fora desencaixado daquele local.

É meus amigos, as sirenes não anunciam gatos presos em galhos de árvores, anunciam, ao menos para mim, pessoas presas em arvores de metal. Anunciam o socorro, anunciam o medo, a angústia da morte.

É sempre o anúncio.

Mas como todo anúncio, anuncia também coisas muito belas e lindas. Como uma mãe que está prestes a ter o seu bebê. Anuncia a emergência de um parto, de uma dor lascinante de onde virá a vida. Anuncia a própria vida, seja aqui ou na próxima vida, anuncia sempre a chegada de alguém, da novidade.

Não é apenas o angustiante sinal de morte, ou de vida que toma conta de mim. É o medo da sirene, o medo do que ela anuncia, o medo de ficar parado e me sentir desamparado, sem saber o que fazer, sem saber como fazer, sem saber.

É o sentimento de incomodo diante do barulho da sirene que toca o mais profundo de minha história, acusando em minha memória uma lembrança inexistente, um desejo que nunca foi realizado e que jamais poderá ser, porque o tempo dele já passou. É o pavor de ter que me haver com o que aconteceu e não poder fazer nada, apenas imaginar formas diferentes de compreender a mesma coisa.

Será que quando minha hora chegar eu terei a oportunidade de gritar ou serei abençoado com o silêncio, angustiante silêncio para quem fica.

 
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