sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Seminário com o psicanalista Aurélio Souza: Sobre os nomes-do-Pai

Seminário: 

  "Sobre os nomes-do-Pai"

Aurélio Souza - espaço Moebius Salvador






O psiquiatra e psicanalista Aurélio Souza (CREMEB 2195), membro fundador do Espaço Moebius – Salvador, estará em Londrina abordando a pluralização do nome-do-Pai na teoria lacaniana. O tema será apresentado de forma introdutória em uma conferência no dia 11/11/2011. No dia seguinte, Aurélio Souza propõe, a partir do Seminário XXI de Jacques Lacan, o desdobramento desta temática em sua articulação à cadeia borromeana.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

STOP DSM: Manifesto de São João del Rei Em prol de uma Psicopatologia Clínica

STOP DSM: Manifesto de São João del Rei Em prol de uma Psicopatologia Clínica

Prezados colegas,

Encaminho manifesto que ganha corpo internacionalmente, somando-se ao movimento “STOP DSM”.


Aproveitando a ocasião da publicação próxima do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais V (DSM-V), nós, do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Psicanálise da Universidade Federal de São João del Rei, em parceria com o Laboratório Interunidades de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da Universidade de São Paulo, com o PSILACS Grupo de Pesquisa “Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo” do CNPq e com o Laboratório de Psicopatologia e Psicanálise da Universidade Federal de Minas Gerais, aderimos à Campanha Internacional ‘Stop DSM’, idealizada pelo Espai Freud (Barcelona) e pelo ForumADD (Buenos Aires). Esta campanha é a favor de uma psicopatologia em que o sujeito seja contemplado e, por essa razão, lançamos aqui  nosso manifesto.

O DSM - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - foi responsável por tentar impor, a partir de sua terceira versão em 1980 (DSM-III), uma tábula rasa na história da psicopatologia, por conseguir, segundo seus promotores, ultrapassar a falta de acordo entre diversos teóricos do campo do sofrimento psíquico. Tal acontecimento, com forte impacto político, favoreceu a volta da psiquiatria biológica ao centro da cena clínica de diagnóstico e tratamento de transtornos mentais. O surgimento do DSM-III e de suas edições subseqüentes foi saudado por seus promotores como uma revolução científica que seria amparada em dois princípios básicosl: transformar a psicopatologia em um descritivismo de sinais e sintomas; e evitar pronunciar-se sobre a etiologia dos transtornos mentais. E um método explícito de pesquisa é indicado: a estatística. Podemos reduzir estes princípios a uma única proposição: o a-teorismo. Mas como pode uma revolução científica ser a-teórica?

Ora, uma revolução científica depende do papel de uma teoria; esta, ao contrário do que acreditam os promotores dos DSM’s, não é uma mera abstração. Os DSM’s não são uma unanimidade epistêmica, apesar de sua pretensão de serem hegemônicos. E o uso que fazem da estatística - avaliação da freqüência de um sintoma por um período de tempo - acompanha o seu propalado descritivismo. No entanto, o uso científico da matemática não é descritivo: sua função não é descrever um fenômeno, mas explicá-lo. Os promotores dos DSM’s confundem quantificação com inteligibilidade científica.

O a-teorismo dos promotores dos DSM’s também é questionável no que concerne ao ensino da psicopatologia. A intromissão dos DSM’s nas universidades torna o quadro da formação profissional cada vez mais dramático. Temos hoje o ensino da psicopatologia reduzido a preenchimento de um check list. Se tivéssemos no lugar do DSM’s um ensino que valorizasse o debate amplo em torno dos modos de proceder o diagnóstico, teríamos a formação de um profissional com espírito crítico que não teria como ferramenta de trabalho somente a medicação do sujeito e a remissão dos sintomas, e que poderia, desse modo, discutir com subsídios as diversas políticas de saúde mental.

Os DSM’s, em seu esforço de serem ciência, deixam de lado também uma metodologia importante no trabalho do campo do sofrimento psíquico: o método clínico. Um sintoma é uma queixa de um sujeito. Não há clínica sem essa queixa. A queixa aponta para a dimensão primordial de atuação no campo do sofrimento psíquico: o que Jacques Lacan chamou de campo da fala e da linguagem. Deste modo, o sintoma psíquico não pode ser considerado como um déficit; ao contrário: aponta para um laço, uma tentativa de solução de ocupação entre o sujeito e seu mundo. No entanto, quando estamos às voltas com a definição de sintomas como déficits e do sujeito como um transtornado, temos uma prática em que a fala do sujeito se reduz a respostas a um questionário, tornando-o uma cifra a entrar numa estatística ou um índice a classificar genericamente uma experiência singular.

A consequência de um manual que não se ampara no método clínico e que se restringe a catalogar os fenômenos sem preocupação em saber como surgem, por que surgem, como se articulam entre si, e principalmente, que função esses fenômenos podem desempenhar para determinado sujeito é a criação de verdadeiras epidemias psíquicas. O que pode se agravar com a quinta versão do DSM: este não quer ser mais apenas um manual de diagnóstico de patologias já deflagradas, mas pretende predizer a possibilidade de surgimento de transtornos em sujeito. Com o novo projeto de um DSM preditivo, temos a expansão do que podemos chamar de patologização da existência: que qualquer evento da vida de um sujeito pode ser considerado um transtorno ou um potencial desarranjo. Consequentemente, deve ser tratado – via medicação – para a não perturbação da ordem pública, tentando prevenir o sempre inevitável mal-estar na civilização através do controle contemporâneo das populações. Essa patologização da existência revela o novo imperativo da psiquiatria estatística atual: todos transtornados. E se o tratamento privilegiado torna-se farmacológico, que grande negócio para a indústria farmacêutica!

Alias, não é recente e nem desconhecida a relação intrínseca entre os DSM’s e a indústria farmacêutica. Hoje temos as companhias farmacêuticas como motor da revisão dos DSM’s, uma vez que temos laboratórios financiando os “profissionais” responsáveis pela revisão dos transtornos.

    Deste modo defendemos uma psicopatologia que:

●    tenha por referência maior o sujeito e seus modos singulares de se haver com o sintoma e com o mundo que o cerca;
●    uma psicopatologia que se situe inteiramente na clínica, pois este é seu método por excelência;
●    uma psicopatologia que conheça sua história, suas correntes, suas controvérsias e suas diferenças sócio-históricas.
●    que, por conseqüência, possibilite um ensino e uma formação críticos de profissionais do sofrimento psíquico;
●    que não esteja submetida aos lucros da indústria farmacêutica, mas que tenha por política a “economia” subjetiva do sintoma;
●    que não esteja amparada em um ideal imaginário de ciência mas em uma ciência moderna, cuja matemática inclui um esforço de demonstração de impossibilidades lógicas, antes que a afirmação de sistemas totais fechados;
●    que não promova a patologização da existência, a ilusão da prevenção e a padronização dos sujeitos.

Para ler a íntegra do Manifesto de São João del Rei: Em prol de uma Psicopatologia Clínica, clique aqui.

Para apoiar nosso Manifesto, clique aqui. As assinaturas serão encaminhadas para Organização Mundial de Saúde ao final de 2012



Fonte:
http://stopdsm.blogspot.com/

domingo, 7 de agosto de 2011

Vem cá, me diz porque vale a pena viver se a vida, a própria vida não tem sentido e não se pode senti-la de outra forma que não o vazio, a falta, a angústia?

Simplesmente esta pergunta é um dos pontos que procura-se ultrapassar na terapia.

O que é a brincadeira senão sentir todas as emoções estando de alguma forma protegido pela realidade de que tudo aquilo não passa de uma fantasia?

A psicanálise (principalmente a análise de Lacan) estabelece a angústia da percepção do real, do sem sentido da vida, como um primeiro passo para que a pessoa possa chegar a ser. Ela primeiro tem que perceber que não é, e que é justamente esta "falta-a-ser" que dará uma possibilidade de ser.

A brincadeira das crianças é mais ou menos isso. Nenhuma criança brinca de ser criança e de viver uma vida que ela já vive. Ao contrário, ela brinca com os elementos que lhe faltam. Algumas com os poderes que desejariam ter, como super visão, raios lasers, força sobrenatural. Tudo exageradamente para que elas encontrem um sentimento muito familiar, o da proteção, o sentimento do ser acolhido e poder acolher.

Vejam que as meninas brincam com a realidade quando brincam de casinha. Os meninos com seus bonecos brincam de guerra, de espadas. Por trás de toda brincadeira existe um motivo muito real, motivo este que faz com que eles tenham que escapar da realidade para poderem viverem uma experiência de satisfação que não é (ainda) possível.

Assim também é na análise. 

Diante daquele que fala, a vida vai se desestruturando, deixando de ter uma forma, a pessoa acaba encontrando uma vida sem fôrma alguma, sem linhas, sem marcas, sem destinos, sem início e sem fim. UMA vida, a própria vida.

A análise faz com que as pessoas encontrem-se em suas próprias vidas e isso meus amigos, nada mais é do que o próprio efeito do brincar. As crianças encontram-se a todo tempo com sua própria incapacidade e imaginam (brincando) algo que supra essa falta. Em um processo de análise fazemos a mesma coisa. só que de forma inversa. Na análise nós vamos descobrindo o que colocamos no lugar da falta para depois perceber que aquilo ali não pertence àquele lugar exato, mas que está apenas como que emprestado para se poder viver.

Assim é o amor, aqueles que vivem por estarem apaixonados, mas também aqueles que vivem em função de uma doença. A vida é movida, de um lado pelo amor, e do outro pela doença, mas é movida, é vivida, é sentida.

Claro que além do amor e da doença existem outros "motores" da vida. Uma busca pelo sucesso, o trabalho, os estudos, uma viagem daqui a um ano. Porém tudo isto está ligado com o desejo.

Reconhecer o desejo é o ponto que leva a pessoa a encontrar seu motor. Encontrar-se com a realidade do sem sentido e também que aquilo que é desejado nunca poderá ser encontrado de fato. Afinal de contas uma vez encontrado deixará de ser desejado, passará a ser concreto, real, e uma vez realidade presentificada, materializada perde-se todo o movimento que antes era realizado para se obter o que tanto se desejava. É meus amigos, é aquela velha história que quando perdemos algo, não adianta procurar. Quanto mais procuramos, parece que perdemos ainda mais a chance de encontrar.

Lembro-me de um ditado que dizia que o amor não pode ser encotrado, é ele quem nos encontra. Realmente, o amor desejado não é amor, é outra coisa, é ilusão. E mais uma vez, se é ilusão, esta ilusão serve apenas para ficar no lugar do amor real, e uma vez neste lugar, tampa, mesmo que por um período curto de tempo, a falta que o amor nos faz.

terça-feira, 26 de julho de 2011

No consultório psiquiatriaco - Dr. Bacamarte


No consultório:

O psiquiatra entra em sua sala e encontra um homem que se arrasta de quatro no chão com algo na boca.O  médico indaga:
- Ah! Olha quem veio aqui hoje! É um gatinho?
O homem rasteja para outro canto.
O médico o segue:
- Um cachorro?
O homem rasteja para baixo da mesa, coloca a mão sobre o computador e começa a puxar um fio de um buraquinho no chão.
O médico então senta-se na sua poltrona e diz:
- Ok... Acho que realmente é um gato. Quer conversar sobre isso?
O cara tira da boca um rolo de fita isolante e diz:
- Olha, doutor, ou o senhor me deixa em paz ou não vou mais instalar essa porra dessa internet aqui...

Comunicação não existe - Lacan no cotidiano

Comunicação não existe...

Deu novamente Lacan a favor na empresa onde trabalho.

O cliente ligou para a responsável pelos orçamentos e ela estava ocupada, a ligação foi transferida para a supervisora que também pode fazer orçamentos (uma dica, se ficar muito complicado vai desenhando que ajuda, :D). A ligação transferida era apenas de um cliente novo, que desejava um orçamento de um serviço em sua casa. A supervisora como não encontrou os dados do histórico, colocou a mão sobre o telefone e perguntou quanto ficava para a responsável "mor" pelos orçamentos. A responsável então disse que ficava a partir de 200 reais para ir na casa e realizar o orçamento junto com o serviço, pois para ir até o problema haveria de deslocar equipe técnica e mais um supervisor para ver o que deveria ser feito. 

Até aqui tudo bem, tudo corretíssimo, a informação foi passada corretamente, mas, lembremos sempre que trabalhamos com pessoas, e cada um com sua história, compreende, ou seja, apreende o que ouviu sempre relacionado com sua história de vida.

A supervisora então tira a mão do telefone e diz que o valor seria aproximadamente 200 reais e que poderia encaminhar uma equipe naquele exato momento. Dito e feito, quando ouvi este "aproximadamente", já imaginei que logo logo teríamos um problema.

Meia hora depois, a equipe liga do local informando que havia ficado em 350 reais e que o cliente só iria pagar 200 reais pois falaram para ele que ficaria até 200 reais o serviço.

Vamos aos fatos:

A responsável pelo orçamento cotou um valor mínimo para deslocamento dos funcionários. Lembrando que este valor mínimo poderia ser ainda menor, mas para não perder a oportunidade fez um preço intermediário.

A supervisora compreendendo que era um preço intermidiário, ao invés de passar um valor mínimo e máximo, apenas disse que seria aproximadamento 200 reais, sem repassar ao cliente uma provável variação que todo serviço comumente tem. 

O cliente ouvindo os 200 reais, como ele que iria que pagar compreendeu que seria este o valor máximo do serviço, afinal, ele estava interessado no serviço e precisava urgentemente de uma solução. 

Os três estavam corretos em sua maneira de falar, de pensar e, ainda por cima, de compreender, mas no final as contas simplesmente não batia.

Aí entra a especificidade do psicólogo do trabalho para intervir em uma comunicação que existe mas que nunca "com (un) ica", ou seja, nunca deixa em comum uma notícia. Para ser mais realista possível, inexiste enquanto sua qualidade de transmitir uma informação na qual todos os ouvintes entendam objetivamente o que foi passado, objetivamente e com uma união tal, na qual se fosse necessário, qualquer pesosa ali poderia reproduzir o mesmo discurso sem qualquer erro, ou falha e todos os outros que ouvissem poderiam enteder da mesma forma.

Para simplificar, basta lembrar do conto do Livro de Areia, onde cada pagina se escrevia quando a pessoa ia lendo. Quando fechado e aberto na mesma pagina é uma nova história que se lê. Cada vez que lemos um livro, demos enfase sempre a uma novidade, a um ponto específico que outrora passou despercebido, ou ainda, que não era importante. Assim, temos o mesmo livro, mas sempre que é lido, é significado de forma diferente.

Cada vez que uma pessoa proferia então sua desculpa na empresa, nunca encontrávamos um culpado. Eu apenas sorria pois sabia que todos estavam certos em sua forma de pensar e raciocinar. Todos estavam corretíssimos em sua forma de compreender, apenas haviam se esquecido de um elemento ímpar.

Esqueceram-se que diante deles, e do outro lado do telefone, havia um outro, uma outra pessoa, um outro mundo, um outro livro de areia.

O grito.

Acho que quero mudar daqui...

O barulho das sirenes anunciando o perigo a cada passada de ambulância na rua em frente ao meu apartamento, há muito tempo deixou de ser natural.

A sensação de que alguém está precisando de socorro, alguém está gritando muito mais de dor do que as sirenes que alardeiam a passagem das viaturas no meio dos carros, esta sensação me causa por demais sofrimento.

Dias atrás, estava me arrumando para ir trabalhar, lá pelas 7:00 da manhã. Quase saindo de casa, quando de repente escuto um barulho ensurdecedor de acidente. Imaginei que alguém mais uma vez havia errado a curva, acertado o poste, ou batido em um carro parado na esquina. Imaginei aquilo que sou permitido imaginar, que de alguma forma me protege da realidade crua da dor e da morte. Não fosse aquele grito ecoando nas ruas desertas e subindo como aranhas pelas paredes de meu prédio até alcançar minha janela.

O grito que era um parou, depois veio outro ainda mais alto, e depois um último. 

Rezei para que a pessoa  continuasse gritando, muito melhor ouvir sua presença sofrida do que o silêncio fúnebre que se seguiu. Mil vezes preferível o sofrimento dos sofrimentos do que a inexistencia, do que o fim, do que o término. Havia acabado o grito.

Em mim o grito continuou ecoando por cerca de mais 5 minutos. Tempo que demorou para o socorro chegar, e com isso, a coragem apareceu para que eu me movimentasse e fosse continuar com minhas atividades.

Depois de algumas horas fiquei pensando. Não é possível que aquele homem gritou por 5 minutos seguidos. Apenas três gritos não dariam nem um minuto. Não é possível que ouvi o inaudível apenas por meu egoísmo de querer imaginar que alguém ainda estava ali. Que aquele homem (pelos gritos era um homem) ainda estava vivo, ainda estava consciente e ficaria bem. Não, me recusei de imediato a aceitar minha incapacidade de aceitar os fatos, de aceitar e mais do que isso, de acatar o silêncio como outra coisa que não a morte.

Rezei novamente como há muito tempo não rezara, pedindo a Deus e aos anjos para que aquela pessoa esteja bem, esteja tranquila e que de tudo certo para ela ainda aqui na vida, porque depois desta vida, o amanhã a Deus pertence.

Fui angustiado frente a uma segunda feira que se estandeu gritante por minha semana. Na hora que tive um pequeno tempo, liguei para minha namorada que estava atendendo na Ortopedia do HU.

Havia imaginado que alguém naquele estado de grito, e depois que vi a motocicleta embaixo do carro, presa, agarrada, como se uma coisa fosse parte da outra, teria ido para o hospital para ser tratado, deveria ter algum membro quebrado. Não havia sinais de sangue, não havia aquele saco plástico por perto, quando a pessoa morre no local. Tudo o que havia era o grito, o grito que ainda unia a pessoa acidentada com aquela engrenagem louca construída por um acidente. O grito, o angustiante sinal de que alguém estava ali, onde não se conseguia mais encaixar peça alguma, havia alguém ali que fora desencaixado daquele local.

É meus amigos, as sirenes não anunciam gatos presos em galhos de árvores, anunciam, ao menos para mim, pessoas presas em arvores de metal. Anunciam o socorro, anunciam o medo, a angústia da morte.

É sempre o anúncio.

Mas como todo anúncio, anuncia também coisas muito belas e lindas. Como uma mãe que está prestes a ter o seu bebê. Anuncia a emergência de um parto, de uma dor lascinante de onde virá a vida. Anuncia a própria vida, seja aqui ou na próxima vida, anuncia sempre a chegada de alguém, da novidade.

Não é apenas o angustiante sinal de morte, ou de vida que toma conta de mim. É o medo da sirene, o medo do que ela anuncia, o medo de ficar parado e me sentir desamparado, sem saber o que fazer, sem saber como fazer, sem saber.

É o sentimento de incomodo diante do barulho da sirene que toca o mais profundo de minha história, acusando em minha memória uma lembrança inexistente, um desejo que nunca foi realizado e que jamais poderá ser, porque o tempo dele já passou. É o pavor de ter que me haver com o que aconteceu e não poder fazer nada, apenas imaginar formas diferentes de compreender a mesma coisa.

Será que quando minha hora chegar eu terei a oportunidade de gritar ou serei abençoado com o silêncio, angustiante silêncio para quem fica.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Loucura e arte

O fascínio das obras dos mais geniais e fantásticos artistas, cientistas, profetas, nos atingem de forma completa. É muito interessante parar em frente a uma escultura, ou a uma pintura, ou diante de um filme no cinema e ficar perplexo, sem respirar. Esta a sensação que a arte cria em nós.

O que tem na arte que nos move a um nível acima de nossa capacidade intelectual, psíquica, ou ainda, nos eleva a um grau acima de nossa existência, nos permite quase que transcender a própria existência e sair absolutamente mudados, pelo menos por alguns segundos após a experiência diante da arte?

Não sei bem o que é.

Alguns dizem que a arte comunica o mais belo, ao mesmo tempo que também nos mostra o mais horrendo da vida. Em alguns casos mostra-nos a vida, simples e pura, com tal clareza que chegamos a enxergar na própria demonstração da vida o desejo pela morte. A arte de Camille Cloudel por exemplo, ela representava a morte, segundo Rodin.

É através da arte viva que nos encontramos com a morte, com a nossa insignificância, com nossas fraquezas e nosso nada. É assim, um misto de inveja absurda, como Saliére ao ouvir Mozart, com uma inefável sensação de ser absorvido pela arte que tenho quando ouço uma música clássica, ou a simples melodia dos pássaros nos campos. Basta que estejamos com o humor certo, basta que estehamos em nós mesmos.

Sim, para compreender a arte e sua verdadeira força temos que estar em nós mesmos. Não é na correria do dia a dia que são feitas as obras mais explêndidas, como Guernica de Picasso, pelo contrário, é nos silêncio obscuro do ser. É naquele momento em que a própria existência se faz nula, aprentemente ficamos ao mesmo tempo que em nós mesmos, muito além de nós. O tempo para, o relógio continua, mas de alguma forma não se sente nem o sol cair pelas colinas, muito menos as necessidas fisiológicas de comer, beber, ou qualquer outra necessidade que, por ventura, um dia esteve presente.

A arte é o retrato mais frio, mais cru, mais carnal de um artista. Até podemos contemplar sua beleza estando a passar diante dela, mas isso meus amigos, é um desperdício do talento do artista. É necessário deixar a arte tocar nas nossas profundezas, ecoar em nosso vazio e nos elevar à dignidade de seres que ouvem a voz de Deus.

É isso mesmo minha gente, a arte da criação, a arte humana, a arte de uma colméia de abelhas, ou apenas uma flor. Tudo isso é tão absurdamente vivo, ao mesmo tempo que transmite a transitoriedade da vida.

Vejam Monaliza por exemplo. Por quanto tempo será que ela conseguiu ficar com aquele sorriso? Será que ela realmente sorriu assim? Será mesmo que La Gioconda, foi retratada, não sua forma, mas sua essência?

A arte é enlouquecedora e nos tira de nós mesmos, nem que seja por um ínfimo segundo. Aí esta sua magía. Para contemplar a arte é preciso esatr em si mesmo, justamente porque ela nos leva para fora. Para além de nós e se já estivermos fora, não há como realizar este percurso.

Loucura e arte, tudo se completa, os dois nos tiram do sério, nos levam além, acho que um é a manifestação do outro. Sim meus amigos, a Loucura é a manifestação da arte da vida.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Tempo e desejo.

Tenho 20 minutos. É tudo que tenho para entrar no blog e postar depois de muito tempo. 

20 minutos para sentar em frente ao computador, pensar em alguma coisa e escrever aqui, apenas para dizer que não morri e que o Blog, embora esteja em baixa, vai continuar.

Estou na verdade querendo explicar-me aos leitores.

Enquanto agumas pessoas estão de férias, consegui outro estágio e nestas últimas 2 semanas estarei trabalhando em dois lugares ao mesmo tempo. A noite estou lendo e trabalhando em uma apresentação para a VI Jornada de Saúde Mental e Psicanálise da PUC-PR em Curitiba. 

Bom gente, na verdade descaso é descaso. Sei bem que uma coisa não justifica outra, afinal de contas, o que conta é o desejo. E mesmo que sem tempo, se houvesse mesmo o desejo eu estaria aqui escrevendo no Blog ao invés de passar o dia inteiro no estagio e depois a noite estudando. Afinal de contas o que são 20 minutos?
Bom, para quem tem desejo é quase nada. Para quem não deseja é uma eternidade.

1 minuto para o time que esta ganhando é a possibilidade de tomar um gol e ser desclassificado do campeonato, é eterno.

1 minuto para o time que está perdendo passa voando. É a possibilidade da derrota que está logo ali e que deve ser evitada a qualquer custo.

Acho que esta proposta de 1 minuto só vale para quem não quer perder. Afinal, 1 minuto para quem quer perder é uma eternidade. Por um acaso é assim a vida na angústia e na depressão. 1 minuto para quem já se sente morto é contar 60 vezes o toque do ponteiro sentindo a cada toque como o badalar de um sino, sorrindo a eternidade daquele momento, daquele segundo de silêncio entre um som e outro, que a pessoa angustiada espera que seja o último para entrar de vez na eternidade, ou melhor dizendo, para simplesmente morrer e não ter mais que esperar o próximo som do clique que faz o relógio da parede.

1 segundo a mais faz toda a diferença também na Fórmula 1. Não minha gente não é o tempo que importa. Nunca foi o segundo ou a hora, mas nossas atitudes frente a vida, frente a morte, frente a nossa existência.

O filme espetacular "Amadeus" mostra com uma particularidade o que é o desejo e sua relação com o tempo.

Em uma cena em que a mulher de Herr Mozart vai encontrar e oferecer-se para Saliére, ela leva consigo uma obra inédita de Mozart. O tempo para ela esta passando de uma forma enquanto ela começa a despir-se. Enquanto que para Saliéri, o tempo é outro. Ele esta perdidamente absorvido na música escrita por Mozart, esquecendo-se completamente da bela jovem que se apresenta a ele quase que totalmente despida.

Para quem ve a cena fica a impressão de dois tempos muito distintos. Ela sem desejo algum naquele momento o tempo passa como que voando. Só tem tempo de mostrar os seios e tirar o chapéu. Para ele, quase que vivendo o momento de um orgasmo musical o tempo para e uma obra de mais de 2 horas consegue ser ouvida, imaginada, experimentada.

É meus amigos, foram-se os vinte minutos.

Um grande abraço e aguardem as novidades do blog muito em breve...


quinta-feira, 14 de julho de 2011

Resignificar ou dar novo sentido???

Continuando o diálogo com a Luh, gostaria de colocar aqui minhas primeiras impressões estudando um pouco sobre o assunto da diferença entre resignificação X dar novo sentido...

Luh, encontrei algumas coisas aqui que são bem interessantes:

“A tarefa do psicanalista aí consiste [...] em oferecer ao sujeito uma
possibilidade de tematizar, ressignificar e elaborar sua ‘miséria’, até onde for
possível, para tomar uma outra posição frente a toda essa desgraça cotidiana [...]” (FIGUEIREDO 2001, p.111)

FIGUEIREDO, Ana Cristina. Os PPPÊS: profissionais "psi" nos serviços de saúde mental. In:
JACÓ-VILELA, Ana Maria; CEREZZO, Antônio Carlos; ROFRIGUES, Heliana B. Conde. CLIOPSYQUE
HOJE: fazeres e dizeres PSI na história do Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará
(FAPERJ), 2001. p. 103-115.

Basicamente a Análise é um processo de separação daquilo que está tudo misturado. Em nosso caso, o conteúdo ideativo recalcado que aparece como sintoma.

Estou particularmente estudando estes temas então tenho as idéias super confusas, mas aos poucos elas vão se clarificando. No texto do Freud "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" na Pag. 153-154, há uma breve explicação do que pode fazer a psicanálise.

Quero me deter a alguns termos nesta página. Peço que quem quiser acompanhar a discussão leiam antes para inteirar-se do aossunto, rsrsrs, pois aqui estarei sendo um pouco teórico demais.

Seguem os termos encontrados:

"Sintomas como substitutos" - sendo estes substitutos uma TRANSCRIÇÃO do que não pode aparecer na consciência.

As idéias inconscientes "Aspiram uma EXPRESSÃO apropriada"

A psicanálise promove uma RETRANSFORMAÇÃO destes conteúdos indecifráveis conscientemente para REPRESENTAÇÕES que podem atingir a consciência.


Lembrando nossa conversa anterior que não é um TRAUMA mas são ELEMENTOS TRAUMÁTICOS de alguma forma INTERLIGADOS que produzem o sintoma, o mal-estar, o adoecimento.


Continuando então...


O sintoma poderia se apresentar como um hieróglifo que apenas o corpo é capaz de ler. Por isso o corpo do histérico e do psicossomático responde diante dos conteúdos ideativos recalcados.


A impressão que tive até o momento (vou ter um grupo de discussão sobre este texto ainda no fim do mês, aí trago com mais certeza uma resposta) é que de alguma forma, essa transcrição, ou seja, a codificação, ou ainda, o sentido, o significado, já está lá no hieróglifo. A escrita já está feita, mas não conseguimos lê-la porque não temos a capacidade para tal.


Quando penso em RESSIGNIFICAR estou pesnando em dar o significado original, ou outro qualquer, a uma coisa, neste caso, à escrita ainda indecifrável. Mas se penso em dar um NOVO SENTIDO estou na verdade me alienando do sentido real, originário do problema. RESSIGNIFICAR então pode confundir no aspecto de que é dar um outro significado qualquer, mas isso é apenas uma jogada de palavras. Explico:


Quando pretendemos na psicanálise ressignificar a vida, ou os sintomas, não procuramos dar, pelo menos ao meu ver, um novo sentido, mas ao contrário, tentamos encontrar o sentido já existente, mas que está inconsciente. Parece ao sujeito que é um novo sentido, mas o sintoma só irá ceder se o sentido original vier a tona e aparecer ligado ao afeto.


Ocorre na verdade um retorno do recalcado, ou seja, o sentido originalmente recalcado retorna à consciência. Lembro-me de uma expressão que diz que o pcte não sabe que sabe. Dar um novo significado que apagaria o sintoma, ao meu ver, não tem nada de novo, mas o que existe é apenas um enfraquecimento da repressão permitindo que o que estava transcrito como uma marca que a consciência não decifrava, possa agora ser resignificada como aquilo que originalmente marcou o sujeito.


Agora, dizem que Lacan disse que na verdade esse objeto primeiro que marcou o sujeito, nunca existiu... Então teríamos novas explicações talvez, ou ainda um aprofundamento que não sou (ainda não) capaz de transmitir.


Espero ter ajudado...


Beijos


Marco Leite

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Vinicius de Moraes - Receita de Mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então Que a mulher se socialize elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os menbros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhavel na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferencia grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher de sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável.

 
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