Quando a mudança perde o sentido
(justamente por estar resultando em novidades demais) a pessoa pode, diante de
qualquer trauma (pensando que os traumas são normalmente subseqüentes, o que
explicaria uma pessoa reagir muito mal no luto de alguém que não conhece, mas
quanto ao luto de membros familiares ela simplesmente conseguir lidar com maior
serenidade), se desestruturar e retornar às antigas formas de ser.
Este post a pedido da Luh do Blog Metamorfoses da Alma, será apenas uma
explicação do parágrafo anterior. Na verdade começarei por escrevê-lo de outras
formas:
Quando a mudança perde o sentido a pessoa
pode, diante de qualquer trauma se desestruturar e retornar às antigas formas
de ser.
Primeiro gostaria de pensar a questão d“O
Trauma” para Freud.
Bem nos primórdios da psicanálise, Freud
pensava em um trauma fundante, em alguma coisa que teria acontecido, e que,
graças a este único acontecimento a pessoa iria depois de algum tempo, adoecer
psíquicamente.
Interessante que no caso Katarina,
descrito por Freud, ele encontra não apenas um, mas vários encontros que de uma
hora para outra tornaram-se, ou ainda, foram percebidos por ela como
traumáticos. O que deveria ser traumático, a cena em que ela vê seu tio (pai)
com sua prima, na verdade estava remetendo ela a uma outra série de “encontros”
com este homem. O que a fez desestruturar-se e com isso surgiram os sintomas
histéricos.
Este caso, embora um dos mais curtos
descritos na obra de Freud, mostra que “um trauma” nunca está só, na verdade,
está ligado a outras situações tão, ou ainda até muito mais traumáticas que o
evento que desencadeou os sintomas.
Bom, estou entrando um pouco na
metapsicologia e no funcionamento do inconsciente aqui, tentarei ser claro e
breve, na medida que minha explicação for insuficiente, peço que os leitores me
completem ou ainda, perguntem novamente, rsrsrs.
Enquanto as situações não tiverem um
sentido, elas não são traumáticas, em si mesma, passam como indiferentes. Até podem vir a se tornar traumáticas, mas de alguma forma elas são alojadas inconscientemente, ou seja, o
que deveria ser sentido fica separado do fato, ou ainda, há uma cisão entre a
memória e o sentimento, até que, em um determinado momento, outro fato ocorra e
consiga ligar a memória com os sentimentos daquele momento. Temos aqui um
representante psíquico inconsciente (a memória que é apagada e chamamos de
inconsciente) que é atraído (como um imã) por outra situação. Esta nova
situação faz com que todo o sentimento que estava deslocado da memória se ligue
novamente a tudo aquilo que foi “esquecido”. Surgindo então o sintoma para
proteger o sujeito consciente de seu próprio sentimento com relação ao que
aconteceu.
Claro que expliquei muito rapidamente o
que nas obras completas podemos encontrar em mais de 4 textos (A repressão, O
inconsciente, O instinto e suas vicissitudes e 3 ensaios...). Na verdade é
muita coisa para pouco espaço, mas mesmo assim acho que da pra entender de
outra forma como:
Não é um trauma, mas são vários resquícios
de momentos, como fragmentos de memórias que estavam até então inconscientes e que,
devido a uma nova situação tudo o que estava desconectado, passa a se conectar,
a ter nexo, a fazer sentido e também a ser sentido. Compreende-se então como
traumática uma situação, quando na verdade são muitas outras coisas
interligadas, mas até então fragmentadas em partículas cifradas, mas sem que o
sujeito consiga, com estas cifras fazer música alguma.
Então, explicado a noção de trauma (ou
traumas), podemos pensar que as mudanças que são subseqüentes, que seguem-se
ininterruptamente, muitas vezes fazem com que a pessoa se perceba de uma outra
forma. Em alguns momentos, esta “outra forma” de perceber-se é exatamente
aquilo que a pessoa tanto evitou, ou ainda, é tudo aquilo em que ela nunca se
reconheceu.
Temos então duas possibilidades distintas.
A primeira delas, é que a mudança
realmente faça algum sentido positivo, normalmente isto ocorre, e é desejado
que ocorre, durante a análise, em uma (umas) sessão clínica.
Perceber-se diferente do que sempre se
imaginou par algumas pessoas é traumatizante, não pelo trauma em si, mas porque
isto mostra que a pessoa é muito mais do que ela podia imaginar. Podia, no
sentido de que antes não havia mesmo condições de se ver de formas distintas,
ou ainda de fazer outra coisa além da repetição contínua que é o cotidiano. É o
trauma, a quebra da mesmice, em que o sujeito se encontra para novas
possibilidades, diria até mesmo infinita, que se encontra a sua frente.

Algumas pessoas diante disso não ficam
bem. É a novidade que afeta todas as seguranças de antes e que força o sujeito
a um movimento diferente, a uma outra forma de pensar e de produzir-se frente
aquilo que agora faz-se sentido, que toca de uma outra forma o sujeito. Em meu
caso, com a mudança do blog, pensei em desistir de escrever, mas não era apenas
a mudança. Muito trabalho, muito cansaço e muito estudo também estavam pesando.
Com a entrada de uma razão, de um sentido (dado por mim), ou seja, quando mudou
tudo no blogger para postar um texto eu simplesmente me vi acuado, querendo
retornar ao modelo antigo, a forma anterior de pensar e de construir os textos.
Todo este meu desejo foi em vão.
Uma vez que há uma nova possibilidade, não
enxergamos mais as coisas rotineiras como antigamente. O sentido dado
anteriormente a uma mudança, o objetivo propriamente dito, parece que desliza
diante dos novos fatos encontrados e com isso podemos ter um novo sentido, até
então obscuro e não percebido, que faz com que a mudança em si mesma perca o
sentido de ser mudança e passe a ser vista apenas como mais um movimento. Este movimento
sim pode levar a pessoa a novas formas de ser, ou pode fazer com que ela
retorne a segurança de suas idéias e de seus ideais anteriores. Irá depender da
forma como a pessoa se reconstruir frente ao trauma das possibilidades
infinitas de ser.
Acho que o Filme: “A garota da capa
vermelha” ilustra muito bem tudo isso. Ou ainda o famoso “De volta a lagoa azul”.
Depois de encontrarem-se com o novo e
perceberem novas situações, era esperado que algo mudasse, mas pelo contrário,
nem o casal d lago azul voltou ao continente e nem a vila, do outro filme,
parou de proteger-se do mal, mesmo após ele ser destruído.
Retorna-se ao seguro, retorna-se a uma
forma anterior de perceber-se, de existir justamente porque os traumas não
foram suportados. Suportados no sentido de suporte, de base. Os traumas foram e
passaram, ficando como que esquecidos pois não encontraram um esteio para
permanecer conscientes. Diferente do que acontece com a garota no filme, que
depois de toda a violência do “inverno mais cruel de minha vida”, como ela bem
coloca, ela sai transformada, diferente, e consciente de suas novas
possibilidades. Podendo enfim responder a pergunta da Pepsi (pode ser?) com uma
sensação de tranqüilidade e um leve sorrido de mona lisa:
- Pode sim. Pode ser.
De menina assustada temos então uma mulher, adolescente, que quer mais vida.