segunda-feira, 25 de julho de 2011

Loucura e arte

O fascínio das obras dos mais geniais e fantásticos artistas, cientistas, profetas, nos atingem de forma completa. É muito interessante parar em frente a uma escultura, ou a uma pintura, ou diante de um filme no cinema e ficar perplexo, sem respirar. Esta a sensação que a arte cria em nós.

O que tem na arte que nos move a um nível acima de nossa capacidade intelectual, psíquica, ou ainda, nos eleva a um grau acima de nossa existência, nos permite quase que transcender a própria existência e sair absolutamente mudados, pelo menos por alguns segundos após a experiência diante da arte?

Não sei bem o que é.

Alguns dizem que a arte comunica o mais belo, ao mesmo tempo que também nos mostra o mais horrendo da vida. Em alguns casos mostra-nos a vida, simples e pura, com tal clareza que chegamos a enxergar na própria demonstração da vida o desejo pela morte. A arte de Camille Cloudel por exemplo, ela representava a morte, segundo Rodin.

É através da arte viva que nos encontramos com a morte, com a nossa insignificância, com nossas fraquezas e nosso nada. É assim, um misto de inveja absurda, como Saliére ao ouvir Mozart, com uma inefável sensação de ser absorvido pela arte que tenho quando ouço uma música clássica, ou a simples melodia dos pássaros nos campos. Basta que estejamos com o humor certo, basta que estehamos em nós mesmos.

Sim, para compreender a arte e sua verdadeira força temos que estar em nós mesmos. Não é na correria do dia a dia que são feitas as obras mais explêndidas, como Guernica de Picasso, pelo contrário, é nos silêncio obscuro do ser. É naquele momento em que a própria existência se faz nula, aprentemente ficamos ao mesmo tempo que em nós mesmos, muito além de nós. O tempo para, o relógio continua, mas de alguma forma não se sente nem o sol cair pelas colinas, muito menos as necessidas fisiológicas de comer, beber, ou qualquer outra necessidade que, por ventura, um dia esteve presente.

A arte é o retrato mais frio, mais cru, mais carnal de um artista. Até podemos contemplar sua beleza estando a passar diante dela, mas isso meus amigos, é um desperdício do talento do artista. É necessário deixar a arte tocar nas nossas profundezas, ecoar em nosso vazio e nos elevar à dignidade de seres que ouvem a voz de Deus.

É isso mesmo minha gente, a arte da criação, a arte humana, a arte de uma colméia de abelhas, ou apenas uma flor. Tudo isso é tão absurdamente vivo, ao mesmo tempo que transmite a transitoriedade da vida.

Vejam Monaliza por exemplo. Por quanto tempo será que ela conseguiu ficar com aquele sorriso? Será que ela realmente sorriu assim? Será mesmo que La Gioconda, foi retratada, não sua forma, mas sua essência?

A arte é enlouquecedora e nos tira de nós mesmos, nem que seja por um ínfimo segundo. Aí esta sua magía. Para contemplar a arte é preciso esatr em si mesmo, justamente porque ela nos leva para fora. Para além de nós e se já estivermos fora, não há como realizar este percurso.

Loucura e arte, tudo se completa, os dois nos tiram do sério, nos levam além, acho que um é a manifestação do outro. Sim meus amigos, a Loucura é a manifestação da arte da vida.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Tempo e desejo.

Tenho 20 minutos. É tudo que tenho para entrar no blog e postar depois de muito tempo. 

20 minutos para sentar em frente ao computador, pensar em alguma coisa e escrever aqui, apenas para dizer que não morri e que o Blog, embora esteja em baixa, vai continuar.

Estou na verdade querendo explicar-me aos leitores.

Enquanto agumas pessoas estão de férias, consegui outro estágio e nestas últimas 2 semanas estarei trabalhando em dois lugares ao mesmo tempo. A noite estou lendo e trabalhando em uma apresentação para a VI Jornada de Saúde Mental e Psicanálise da PUC-PR em Curitiba. 

Bom gente, na verdade descaso é descaso. Sei bem que uma coisa não justifica outra, afinal de contas, o que conta é o desejo. E mesmo que sem tempo, se houvesse mesmo o desejo eu estaria aqui escrevendo no Blog ao invés de passar o dia inteiro no estagio e depois a noite estudando. Afinal de contas o que são 20 minutos?
Bom, para quem tem desejo é quase nada. Para quem não deseja é uma eternidade.

1 minuto para o time que esta ganhando é a possibilidade de tomar um gol e ser desclassificado do campeonato, é eterno.

1 minuto para o time que está perdendo passa voando. É a possibilidade da derrota que está logo ali e que deve ser evitada a qualquer custo.

Acho que esta proposta de 1 minuto só vale para quem não quer perder. Afinal, 1 minuto para quem quer perder é uma eternidade. Por um acaso é assim a vida na angústia e na depressão. 1 minuto para quem já se sente morto é contar 60 vezes o toque do ponteiro sentindo a cada toque como o badalar de um sino, sorrindo a eternidade daquele momento, daquele segundo de silêncio entre um som e outro, que a pessoa angustiada espera que seja o último para entrar de vez na eternidade, ou melhor dizendo, para simplesmente morrer e não ter mais que esperar o próximo som do clique que faz o relógio da parede.

1 segundo a mais faz toda a diferença também na Fórmula 1. Não minha gente não é o tempo que importa. Nunca foi o segundo ou a hora, mas nossas atitudes frente a vida, frente a morte, frente a nossa existência.

O filme espetacular "Amadeus" mostra com uma particularidade o que é o desejo e sua relação com o tempo.

Em uma cena em que a mulher de Herr Mozart vai encontrar e oferecer-se para Saliére, ela leva consigo uma obra inédita de Mozart. O tempo para ela esta passando de uma forma enquanto ela começa a despir-se. Enquanto que para Saliéri, o tempo é outro. Ele esta perdidamente absorvido na música escrita por Mozart, esquecendo-se completamente da bela jovem que se apresenta a ele quase que totalmente despida.

Para quem ve a cena fica a impressão de dois tempos muito distintos. Ela sem desejo algum naquele momento o tempo passa como que voando. Só tem tempo de mostrar os seios e tirar o chapéu. Para ele, quase que vivendo o momento de um orgasmo musical o tempo para e uma obra de mais de 2 horas consegue ser ouvida, imaginada, experimentada.

É meus amigos, foram-se os vinte minutos.

Um grande abraço e aguardem as novidades do blog muito em breve...


quinta-feira, 14 de julho de 2011

Resignificar ou dar novo sentido???

Continuando o diálogo com a Luh, gostaria de colocar aqui minhas primeiras impressões estudando um pouco sobre o assunto da diferença entre resignificação X dar novo sentido...

Luh, encontrei algumas coisas aqui que são bem interessantes:

“A tarefa do psicanalista aí consiste [...] em oferecer ao sujeito uma
possibilidade de tematizar, ressignificar e elaborar sua ‘miséria’, até onde for
possível, para tomar uma outra posição frente a toda essa desgraça cotidiana [...]” (FIGUEIREDO 2001, p.111)

FIGUEIREDO, Ana Cristina. Os PPPÊS: profissionais "psi" nos serviços de saúde mental. In:
JACÓ-VILELA, Ana Maria; CEREZZO, Antônio Carlos; ROFRIGUES, Heliana B. Conde. CLIOPSYQUE
HOJE: fazeres e dizeres PSI na história do Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará
(FAPERJ), 2001. p. 103-115.

Basicamente a Análise é um processo de separação daquilo que está tudo misturado. Em nosso caso, o conteúdo ideativo recalcado que aparece como sintoma.

Estou particularmente estudando estes temas então tenho as idéias super confusas, mas aos poucos elas vão se clarificando. No texto do Freud "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" na Pag. 153-154, há uma breve explicação do que pode fazer a psicanálise.

Quero me deter a alguns termos nesta página. Peço que quem quiser acompanhar a discussão leiam antes para inteirar-se do aossunto, rsrsrs, pois aqui estarei sendo um pouco teórico demais.

Seguem os termos encontrados:

"Sintomas como substitutos" - sendo estes substitutos uma TRANSCRIÇÃO do que não pode aparecer na consciência.

As idéias inconscientes "Aspiram uma EXPRESSÃO apropriada"

A psicanálise promove uma RETRANSFORMAÇÃO destes conteúdos indecifráveis conscientemente para REPRESENTAÇÕES que podem atingir a consciência.


Lembrando nossa conversa anterior que não é um TRAUMA mas são ELEMENTOS TRAUMÁTICOS de alguma forma INTERLIGADOS que produzem o sintoma, o mal-estar, o adoecimento.


Continuando então...


O sintoma poderia se apresentar como um hieróglifo que apenas o corpo é capaz de ler. Por isso o corpo do histérico e do psicossomático responde diante dos conteúdos ideativos recalcados.


A impressão que tive até o momento (vou ter um grupo de discussão sobre este texto ainda no fim do mês, aí trago com mais certeza uma resposta) é que de alguma forma, essa transcrição, ou seja, a codificação, ou ainda, o sentido, o significado, já está lá no hieróglifo. A escrita já está feita, mas não conseguimos lê-la porque não temos a capacidade para tal.


Quando penso em RESSIGNIFICAR estou pesnando em dar o significado original, ou outro qualquer, a uma coisa, neste caso, à escrita ainda indecifrável. Mas se penso em dar um NOVO SENTIDO estou na verdade me alienando do sentido real, originário do problema. RESSIGNIFICAR então pode confundir no aspecto de que é dar um outro significado qualquer, mas isso é apenas uma jogada de palavras. Explico:


Quando pretendemos na psicanálise ressignificar a vida, ou os sintomas, não procuramos dar, pelo menos ao meu ver, um novo sentido, mas ao contrário, tentamos encontrar o sentido já existente, mas que está inconsciente. Parece ao sujeito que é um novo sentido, mas o sintoma só irá ceder se o sentido original vier a tona e aparecer ligado ao afeto.


Ocorre na verdade um retorno do recalcado, ou seja, o sentido originalmente recalcado retorna à consciência. Lembro-me de uma expressão que diz que o pcte não sabe que sabe. Dar um novo significado que apagaria o sintoma, ao meu ver, não tem nada de novo, mas o que existe é apenas um enfraquecimento da repressão permitindo que o que estava transcrito como uma marca que a consciência não decifrava, possa agora ser resignificada como aquilo que originalmente marcou o sujeito.


Agora, dizem que Lacan disse que na verdade esse objeto primeiro que marcou o sujeito, nunca existiu... Então teríamos novas explicações talvez, ou ainda um aprofundamento que não sou (ainda não) capaz de transmitir.


Espero ter ajudado...


Beijos


Marco Leite

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Vinicius de Moraes - Receita de Mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então Que a mulher se socialize elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os menbros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhavel na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferencia grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher de sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pedido da Luh:


Quando a mudança perde o sentido (justamente por estar resultando em novidades demais) a pessoa pode, diante de qualquer trauma (pensando que os traumas são normalmente subseqüentes, o que explicaria uma pessoa reagir muito mal no luto de alguém que não conhece, mas quanto ao luto de membros familiares ela simplesmente conseguir lidar com maior serenidade), se desestruturar e retornar às antigas formas de ser.

Este post a pedido da Luh do Blog Metamorfoses da Alma, será apenas uma explicação do parágrafo anterior. Na verdade começarei por escrevê-lo de outras formas:

Quando a mudança perde o sentido a pessoa pode, diante de qualquer trauma se desestruturar e retornar às antigas formas de ser.

Primeiro gostaria de pensar a questão d“O Trauma” para Freud.

Bem nos primórdios da psicanálise, Freud pensava em um trauma fundante, em alguma coisa que teria acontecido, e que, graças a este único acontecimento a pessoa iria depois de algum tempo, adoecer psíquicamente.

Interessante que no caso Katarina, descrito por Freud, ele encontra não apenas um, mas vários encontros que de uma hora para outra tornaram-se, ou ainda, foram percebidos por ela como traumáticos. O que deveria ser traumático, a cena em que ela vê seu tio (pai) com sua prima, na verdade estava remetendo ela a uma outra série de “encontros” com este homem. O que a fez desestruturar-se e com isso surgiram os sintomas histéricos.

Este caso, embora um dos mais curtos descritos na obra de Freud, mostra que “um trauma” nunca está só, na verdade, está ligado a outras situações tão, ou ainda até muito mais traumáticas que o evento que desencadeou os sintomas.

Bom, estou entrando um pouco na metapsicologia e no funcionamento do inconsciente aqui, tentarei ser claro e breve, na medida que minha explicação for insuficiente, peço que os leitores me completem ou ainda, perguntem novamente, rsrsrs.

Enquanto as situações não tiverem um sentido, elas não são traumáticas, em si mesma, passam como indiferentes. Até podem vir a se tornar traumáticas, mas de alguma forma elas são alojadas inconscientemente, ou seja, o que deveria ser sentido fica separado do fato, ou ainda, há uma cisão entre a memória e o sentimento, até que, em um determinado momento, outro fato ocorra e consiga ligar a memória com os sentimentos daquele momento. Temos aqui um representante psíquico inconsciente (a memória que é apagada e chamamos de inconsciente) que é atraído (como um imã) por outra situação. Esta nova situação faz com que todo o sentimento que estava deslocado da memória se ligue novamente a tudo aquilo que foi “esquecido”. Surgindo então o sintoma para proteger o sujeito consciente de seu próprio sentimento com relação ao que aconteceu.

Claro que expliquei muito rapidamente o que nas obras completas podemos encontrar em mais de 4 textos (A repressão, O inconsciente, O instinto e suas vicissitudes e 3 ensaios...). Na verdade é muita coisa para pouco espaço, mas mesmo assim acho que da pra entender de outra forma como:

Não é um trauma, mas são vários resquícios de momentos, como fragmentos de memórias que estavam até então inconscientes e que, devido a uma nova situação tudo o que estava desconectado, passa a se conectar, a ter nexo, a fazer sentido e também a ser sentido. Compreende-se então como traumática uma situação, quando na verdade são muitas outras coisas interligadas, mas até então fragmentadas em partículas cifradas, mas sem que o sujeito consiga, com estas cifras fazer música alguma.

Então, explicado a noção de trauma (ou traumas), podemos pensar que as mudanças que são subseqüentes, que seguem-se ininterruptamente, muitas vezes fazem com que a pessoa se perceba de uma outra forma. Em alguns momentos, esta “outra forma” de perceber-se é exatamente aquilo que a pessoa tanto evitou, ou ainda, é tudo aquilo em que ela nunca se reconheceu.

Temos então duas possibilidades distintas.

A primeira delas, é que a mudança realmente faça algum sentido positivo, normalmente isto ocorre, e é desejado que ocorre, durante a análise, em uma (umas) sessão clínica.

Perceber-se diferente do que sempre se imaginou par algumas pessoas é traumatizante, não pelo trauma em si, mas porque isto mostra que a pessoa é muito mais do que ela podia imaginar. Podia, no sentido de que antes não havia mesmo condições de se ver de formas distintas, ou ainda de fazer outra coisa além da repetição contínua que é o cotidiano. É o trauma, a quebra da mesmice, em que o sujeito se encontra para novas possibilidades, diria até mesmo infinita, que se encontra a sua frente.

Algumas pessoas diante disso não ficam bem. É a novidade que afeta todas as seguranças de antes e que força o sujeito a um movimento diferente, a uma outra forma de pensar e de produzir-se frente aquilo que agora faz-se sentido, que toca de uma outra forma o sujeito. Em meu caso, com a mudança do blog, pensei em desistir de escrever, mas não era apenas a mudança. Muito trabalho, muito cansaço e muito estudo também estavam pesando. Com a entrada de uma razão, de um sentido (dado por mim), ou seja, quando mudou tudo no blogger para postar um texto eu simplesmente me vi acuado, querendo retornar ao modelo antigo, a forma anterior de pensar e de construir os textos. Todo este meu desejo foi em vão.

Uma vez que há uma nova possibilidade, não enxergamos mais as coisas rotineiras como antigamente. O sentido dado anteriormente a uma mudança, o objetivo propriamente dito, parece que desliza diante dos novos fatos encontrados e com isso podemos ter um novo sentido, até então obscuro e não percebido, que faz com que a mudança em si mesma perca o sentido de ser mudança e passe a ser vista apenas como mais um movimento. Este movimento sim pode levar a pessoa a novas formas de ser, ou pode fazer com que ela retorne a segurança de suas idéias e de seus ideais anteriores. Irá depender da forma como a pessoa se reconstruir frente ao trauma das possibilidades infinitas de ser.

Acho que o Filme: “A garota da capa vermelha” ilustra muito bem tudo isso. Ou ainda o famoso “De volta a lagoa azul”.

Depois de encontrarem-se com o novo e perceberem novas situações, era esperado que algo mudasse, mas pelo contrário, nem o casal d lago azul voltou ao continente e nem a vila, do outro filme, parou de proteger-se do mal, mesmo após ele ser destruído.
 Luh
Retorna-se ao seguro, retorna-se a uma forma anterior de perceber-se, de existir justamente porque os traumas não foram suportados. Suportados no sentido de suporte, de base. Os traumas foram e passaram, ficando como que esquecidos pois não encontraram um esteio para permanecer conscientes. Diferente do que acontece com a garota no filme, que depois de toda a violência do “inverno mais cruel de minha vida”, como ela bem coloca, ela sai transformada, diferente, e consciente de suas novas possibilidades. Podendo enfim responder a pergunta da Pepsi (pode ser?) com uma sensação de tranqüilidade e um leve sorrido de mona lisa:

- Pode sim. Pode ser.

De menina assustada temos então uma mulher, adolescente, que quer mais vida.


sábado, 9 de julho de 2011

Mudanças e mais mudanças... Pode ser???

Sinceramente esta novidade me pegou desprevinido.

Odiei, para não dizer um belo palavrão o que eu achei desta "novidade".

O que aconteceu foi o seguinte:

Estava eu conferindo as estatísticas aqui no blog, pela página de edição do Blogger, quando dou de cara com alguma coisa nova. 

A primeira impressão que tive foi de alguma coisa foi para algum lugar que não deveria ter ido. Mais ou menos o pensamento de que alguém faz uma bela duma ca..... e este alguém provavelmente (sim, não queria me dar conta no início de que a culpa era mesmo minha) era eu.

Gente, sem brincadeira nenhuma. Dormi uma noite e quando acordei estava tudo diferente aqui, o blogger havia mudado, refeito sua página completamente. Parece que há muito mais recursos que antes. Parece porque eu ainda estou de luto com a forma antiga de postar. Perdi aquela familiaridade em que eu me encontrava e encontrava meus textos, os comentários dos visitantes, as estatísticas, e tudo mais a qual eu já havia me acostumado.

Para piorar as coisas, esta nova versão do blogger, ao menos ao meu ver, deixou tudo mais difícil. É a tecnologia piorando (mais uma vez) minha vida.

Estou vivendo um momento de luto pós-traumático aqui. Sim, algumas pessoas devem estar rindo agora, pensando, que eu sou um histérico, ou ainda um psicótico daqueles mais metódicos que apresentam um TOC com as coisas todas arrumadas, sem nada fora do lugar. Na verdade pelo contrário. A única coisa que esta no lugar, ao menos aqui no meu quarto agora, neste momento é o piso. Sim, o piso, pois minha mãe deixa eu trocar.

Geralmente quando fazemos parte de uma mudança, e nos sentimos responsáveis por ela, acabamos nos acostumamos. É o que acontecia por aqui no blog, quando eu estava mudando o Layout, entre outras coisas. Mas já pararam para pensar que o "pode ser" do post anterior remete a uma posição frente a vida, e não tão somente a uma "escolha"?

Sim queridos leitores (daqui a pouco será apenas Leitor, rsrsrs) as mudanças que insistem em acontecer em nossas vidas são tão naturais quanto nossas idéias que modificam-se depois de um sonho, depois de uma conversa, ou simplesmente porque não queremos mais pensar daquele jeito. Mudanças não necessariamente indicam uma melhora, ou piora no estado geral da vida de uma pessoa, apenas costumo compreender como uma "melhor adequação" ao que está sendo aceito pela pessoa e pela sociedade.


Mudar muitas vezes não significa um grande esforço por parte da pessoa, basta deletar um número e nunca mais ligar para determinada pessoa, ou ainda, jogar fora o cartão de crédito e não passar mais do limite mensal. Ou também, aos mais tímidos, aventurar-se em uma balada sem conhecer ninguém. O que implica é a manutenção desta mudança no sentido de trazer um bem estar para as pessoa, isso sim, é complicado. 

Ao dizer de uma pessoa, espero pelo "desdizer", ele sempre vem, sempre retorna ao antigo, ao cômodo, ao verdadeiro e único momento de segurança que a pessoa pode ter, que é a repetição, o retorno à forma de pensar e ser de outrora.

Assistindo House no último episódio da 6º temporada (peço que os leitores me ajudem, é mesmo este episódio?) onde após a perda de uma paciente, House retorna a sua casa e depois de todo esforço, depois de toda luta contra o medicamento, ele aparece com o "Vicodin" em sua mão. Quando a Cuddy (futura namoradinha) aparece ele apenas diz algo muito parecido com: 

- Só para que você saiba, está bem dificil encontrar uma razão para não utilizar isso aqui.

Quando a mudança perde o sentido (justamente por estar resultando em novidades demais) a pessoa pode, diante de qualquer trauma (pensando que os traumas são normalmente subsequentes, o que explicaria uma pessoa reagir muito mal no luto de alguém que não conhece, mas quanto ao luto de membros familiares ela simplesmente conseguir lidar com maior serenidade), se desestruturar e retornar às antigas formas de ser.

Aquela propaganda do "pode ser" então, podemos pensar como um momento, onde anterior à mudança definitiva dos ideais, um momento onde ainda, talvez, não se tenham claros os objetivos, muito menos os caminhos, momentos estes que precisamos, em certa medida, em nossas vidas, pois é a partir do "pode ser" que conseguimos sair um pouco daquilo que estávamos sendo, planejando e nos encontramos verdadeiramente com outras possibilidades.

Claro que enquanto possibilidade existem melhores e piores. No caso do Blogger, foi para pior, rsrs. 

Mas, como nem tudo na vida depende somente de mim (ainda bem), então, fazer o que né.

Pode ser...

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Não correspondidos - Síndrome do carteiro.

É assim que muitas pessoas tem se sentido ultimamente. Inclusive já passei também por esta fase. Posso dizer então com um pouco de propriedade, como alguém que já escreveu mas ninguém leu, ninguém notou a carta que chegou, não havia nem qualquer alguém para sequer ter esperado aquela carta.

Recebi um texto interessante que dizia de pessoas que tinham um sofrimento interessante por não serem correspondidas. Lógico que não havia nada de correspondência no sentido de receber uma carta pelos correios, mas foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Uma carta escrita, enviada, que talvez até tenha chego, mas nunca houve uma resposta.

Seria isso o nó principal de todo problema?

Uma resposta, uma mínima palavra, letra, pingo no papel, ao menos alguma coisa que faça com que a pessoa importou-se a ponto de mover-se. É meus amigos, muitas vezes este é ponto que chegamos quando pensamos em nossas investidas amorosas, em nossas relações familiares, em nossa comunicação com os amigos. Interessante que eu ainda não consigo achar que é somente isso que causa tanto mal-estar, mas talvez alguma coisa que esteja acompanhada com isso tudo.

Quantos e-mails encaminhamos e não recebemos retorno? Muitos deles não estamos nem aí. Muitas vezes falamos com alguém que simplesmente não nos escuta, ou, ainda que escute, não se move, sentimo-nos falando "com as paredes".

Acho que o que está em jogo é algo mais narcisico, mais egoentrico. É uma ferida na nossa alma ver que fizemos tanto para aquela pessoa que significa tanto para nós, e de repente, percebemos que somos iguais a qualquer outra pessoa para ela. Que nossa opinião vale tanto quanto a de outra pessoa qualquer. no final das contas, entendemos que somos, para aquela pessoa tão especial, uma outra pessoa qualquer.

Há uma sindrome de distribuição de cartas hoje em dia. Ou melhor, de distribuição de e-mails. Envia-se achando que você receberá de novo aquele e-mail e estará entre "os 7 melhores amigos mais especiais que fizeram a vida de alguém valer a pena". Prefiro pensar em cartas.

Porque as cartas me parece muito mais poético.

Muito mais bonito uma "Síndromo do carteiro" do que "Síndrome do e-mail". Pelo menos eu acho.

Então as pessoas distribuem cartas e esperam recebê-las de volta, mas nem sempre voltam, as vezes ficam paradas no meio do caminho, as vezes erra-se o endereço, as vezes o cachorro comeu, as vezes a outra pessoa até recebeu, mas não sabia seu endereço, já que você colocou nos correios como anonimo, e não pode responder. O legal disso tudo é que havia uma enorme quantidade de variáveis envolvidas e nós só imaginamos aquelas que está a nosso alcance mental, e como somos limitados nisso.

Estava eu na 5º série, aula de espanhol. O professor, um argentino tomador de vinho, fã de tango, mas que não fumava charuto, nem cachimbo, resolveu nos mostrar como era a vida de nossos avós. Nós de Londrina estaríamos escrevendo cartas para uma outra escola, na argentina e lá alguém iria escolher e depois manar de volta. Claro que naturalmente quem fazia esta travessia era o próprio professor. As cartas vinham de 15 em 15 dias. Nós escrevíamos em castellano e eles respondiam em Português. Todos aprendiam e eram felizes. Até que o semestre resolveu acabar.

Foram algumas cartas trocadas e na última carta eu lembro-me de ter escrito qualquer coisa como:

Queria que pudéssemos continuar escrevendo. Se você ainda quiser me escrever, deixo o endereço para você me escrever. Por favor envia-me o seu.

Era mais ou menos isso. A chica nunca respondeu nada. A única coisa que eu sabia é que eu havia entregado aquela preciosa carta para o professor Luís. Nunca tive resposta. aquele peso em meu coração de expectativa durou alguns meses, até que acabou-se o ano, mudei de escola e, até hoje de manhã, nunca mais havia me lembrado daquela carta que não voltou.

Na época era triste, depois foi indiferente, hoje, vejo graça nisso tudo, pois afinal de contas uma carta é uma carta e nada mais. Entre o esquecimento total e a paixão pelas palavras da menina (não tenho nem idéia do nome dela) descobrimos que tudo aquilo não passava de um exercício para nos motivar a escrever em espanhol. Sim, aquelas cartas eram na verdade apenas as provinhas que tinhamos que realizar. Não havia ninguém na argentina (embora o professor fosse de lá, isso é verdade). As respostas eram escritas pela filha do prosessor, e o curioso foi saber que a própria filha do professor (isso me lembro perfeitamente) tinha o mesmo nome da menina a quem eu me correspondia.

Enviei uma carta para alguém que não existia, mas tinha a resposta de alguém que existia. 

A sindrome do carteiro é mais ou menos isso que acontece. Enviamos cartas e mais cartas a Deus e o mundo. Mas quando recebemos uma reposta, não nos contentamos com quem está respondendo, ou ainda, a reposta dada é insatisfatória. Queríamos muito mais, queríamos estar naquela lista dos 7 melhores amigos do mundo. Quando na verdade podemos estar na lista dos 7 inesquecíveis da história de alguém que foi marcado por uma carta, um olhar, um gesto de carinho, ou simplesmente um bom dia. Queremos aquilo que imaginamos, mas às vezes, o que o outro nos dá pode ser muito melhor.


terça-feira, 5 de julho de 2011

Livros a Venda: Freud, André Green, entre outros..

Pessoal, estou com alguns exemplares extras aqui em casa que recebi de um amigo que não quer mais saber de psicanálise. Na verdade ele quer apenas lembrar-se dela como um tempo passado, nada de trabalhar e estudar o tema... 

Bom, ele pediu-me auxílio para vender os dois exemplares por aqui (para fazer um teste, se der certo tem mais, rsrsrs).

Obras completas de Freud. Vol.  XVII - R$ 40.00
André Green: Narcisismo de Vida / Narcisismo de Morte  R$ 40.00
Freud: escritos sobre a Psicologia do Incosciente - Atenção este é uma parte das obras completas Standart - R$ 15.00
É uma bagatela para quem tem curiosidade sobre a psicanalise e não quer adquirir TODA a coleção, ou para quem perdeu algum volume, ou ainda (como já foi meu caso com um livro do Lacan) para quem foi usurpado, assaltado, ou roubado, rsrsrs. Espero que este último não seja o caso de vocês.

No caso do livro do André Green, para não conhece, este autor é um dos grandes psicanalistas da contemporaneidade. Com vários livros sobre a psicopatologia contemporânea, formulou a hipótese de uma não introjeção da mãe. Diferente do conceito de M. Klein, em que ou introjetava a mãe boa, ou introjetava a mãe ruim, este autor irá dar uma terceira explicação, a da não introjeção do objeto. Com esta explicação, Green constrói o conceito de "Depressão Branca", uma das mais vistas na clínica atualmente.


Um grande abraço a todos.

 Segue a Imagem:




segunda-feira, 4 de julho de 2011

Crônica da Loucura - Luís Fernando Veríssimo

CRÔNICA DA LOUCURA:
Luis Fernando Veríssimo


O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.
 
Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal.

O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.

Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.

Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a
sala de espera de um 'consultório médico', como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:

Na última quarta-feira, estávamos:
1. Eu
2. Um crioulinho muito bem vestido
3. Um senhor de uns cinqüenta anos
4. Uma velha gorda.

Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles.
Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram
loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e
ensimesmados.

(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para leva-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do 'Harmonia do Samba'? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.

(3)E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos?

Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual?

Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.

(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.

Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.

Conto para ele a minha 'viagem' na sala de espera.

Ele ri, ..... ri muito, o meu psicanalista, e diz:

- O Ditinho é o nosso office-boy.

- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de
remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.

- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.

- E você, não vai ter alta tão cedo...'

Parada Gay: respeitar e ser respeitado.

Por Dom Odilo Pedro Scherer:

Eu não queria escrever sobre esse assunto; mas diante das provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã, durante a Parada Gay deste último domingo, não posso deixar de me manifestar em defesa das pessoas que tiveram seus sentimentos e convicções religiosas, seus símbolos e convicções de fé ultrajados.
 
Ficamos entristecidos quando vemos usados com deboche imagens de santos, deliberadamente associados a práticas que a moral cristã desaprova e que os próprios santos desaprovariam também. Histórias romanceadas ou fantasias criadas para fazer filmes sobre santos e personalidades que honraram a fé cristã não podem servir de base para associá-los a práticas alheias ao seu testemunho de vida. São Sebastião foi um mártir dos inícios do Cristianismo; a tela produzida por um artista cerca de 15 séculos após a vida do santo, não pode ser usada para passar uma suposta identidade homossexual do corajoso mártir. Por que não falar, antes, que ele preferiu heroicamente sofrer as torturas e a morte a ultrajar o bom nome e a dignidade de cristão e filho de Deus?!
 
“Nem santo salva do vírus da AIDS”. Pois é verdade. O que pode salvar mesmo é uma vida sexual regrada e digna. É o que a Igreja defende e convida todos a fazer. O uso desrespeitoso da imagem dos santos populares é uma ofensa aos próprios santos, que viveram dignamente; e ofende também os sentimentos religiosos do povo. Ninguém gosta de ver vilipendiados os símbolos e imagens de sua fé e seus sentimentos e convicções religiosas. Da mesma forma, também é lamentável o uso desrespeitoso da Sagrada Escritura e das palavras de Jesus – “amai-vos uns aos outros” – como se ele justificasse, aprovasse e incentivasse qualquer forma de “amor”; o “mandamento novo” foi instrumentalizado para justificar práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus.
 
A Igreja católica refuta a acusação de “homofóbica”. Investiguem-se os fatos de violência contra homossexuais, para ver se estão relacionados com grupos religiosos católicos. A Igreja Católica desaprova a violência contra quem quer que seja; não apoia, não incentiva e não justifica a violência contra homossexuais. E na história da luta contra o vírus HIV, a Igreja foi pioneira no acolhimento e tratamento de soro-positivos, sem questionar suas opções sexuais; muitos deles são homossexuais e todos são acolhidos com profundo respeito. Grande parte das estruturas de tratamento de aidéticos está ligada à Igreja. Mas ela ensina e defende que a melhor forma de prevenção contra as doenças sexualmente transmissíveis é uma vida sexual regrada e digna.
 
Quem apela para a Constituição Nacional para afirmar e defender seus direitos, não deve esquecer que a mesma Constituição garante o respeito aos direitos dos outros, aos seus símbolos e organizações religiosas. Quem luta por reconhecimento e respeito, deve aprender a respeitar. Como cristãos, respeitamos a livre manifestação de quem pensa diversamente de nós. Mas o respeito às nossas convicções de fé e moral, às organizações religiosas, símbolos e textos sagrados, é a contrapartida que se requer.
 
A Igreja Católica tem suas convicções e fala delas abertamente, usando do direito de liberdade de pensamento e de expressão. Embora respeitando as pessoas homossexuais e procurando acolhê-las e tratá-las com respeito, compreensão e caridade, ela afirma que as práticas homossexuais vão contra a natureza; essa não errou ao moldar o ser humano como homem e mulher. Afirma ainda que a sexualidade não depende de “opção”, mas é um fato de natureza e dom de Deus, com um significado próprio, que precisa ser reconhecido, acolhido e vivido coerentemente pelo homem e pela mulher.
 
Causa preocupação a crescente ambiguidade e confusão em relação à identidade sexual, que vai tomando conta da cultura. Antes de ser um problema moral, é um problema antropológico, que merece uma séria reflexão, em vez de um tratamento superficial e debochado, sob a pressão de organizações interessadas em impor a todos um determinado pensamento sobre a identidade do ser humano. Mais do que nunca, hoje todos concordam que o desrespeito às leis da natureza biológica dos seres introduz neles a desordem e o descontrole nos ecossistemas; produz doenças e desastres ambientais e compromete o futuro e a sustentabilidade da vida. Ora, não seria o caso de fazer semelhante raciocínio, quando se trata das leis inerentes à natureza e à identidade do ser humano? Ignorar e desrespeitar o significado profundo da condição humana não terá consequências? Será sustentável para o futuro da civilização e da humanidade?
 
As ofensas dirigidas não só à Igreja Católica, mas a tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas não são construtivas e não fazem bem aos próprios homossexuais, criando condições para aumentar o fosso da incompreensão e do preconceito contra eles. E não é isso que a Igreja Católica deseja para eles, pois também os ama e tem uma boa nova para eles; e são filhos muito amados pelo Pai do céu, que os chama a viver com dignidade e em paz consigo mesmos e com os outros.

 
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