terça-feira, 5 de julho de 2011

Livros a Venda: Freud, André Green, entre outros..

Pessoal, estou com alguns exemplares extras aqui em casa que recebi de um amigo que não quer mais saber de psicanálise. Na verdade ele quer apenas lembrar-se dela como um tempo passado, nada de trabalhar e estudar o tema... 

Bom, ele pediu-me auxílio para vender os dois exemplares por aqui (para fazer um teste, se der certo tem mais, rsrsrs).

Obras completas de Freud. Vol.  XVII - R$ 40.00
André Green: Narcisismo de Vida / Narcisismo de Morte  R$ 40.00
Freud: escritos sobre a Psicologia do Incosciente - Atenção este é uma parte das obras completas Standart - R$ 15.00
É uma bagatela para quem tem curiosidade sobre a psicanalise e não quer adquirir TODA a coleção, ou para quem perdeu algum volume, ou ainda (como já foi meu caso com um livro do Lacan) para quem foi usurpado, assaltado, ou roubado, rsrsrs. Espero que este último não seja o caso de vocês.

No caso do livro do André Green, para não conhece, este autor é um dos grandes psicanalistas da contemporaneidade. Com vários livros sobre a psicopatologia contemporânea, formulou a hipótese de uma não introjeção da mãe. Diferente do conceito de M. Klein, em que ou introjetava a mãe boa, ou introjetava a mãe ruim, este autor irá dar uma terceira explicação, a da não introjeção do objeto. Com esta explicação, Green constrói o conceito de "Depressão Branca", uma das mais vistas na clínica atualmente.


Um grande abraço a todos.

 Segue a Imagem:




segunda-feira, 4 de julho de 2011

Crônica da Loucura - Luís Fernando Veríssimo

CRÔNICA DA LOUCURA:
Luis Fernando Veríssimo


O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.
 
Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal.

O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.

Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.

Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a
sala de espera de um 'consultório médico', como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:

Na última quarta-feira, estávamos:
1. Eu
2. Um crioulinho muito bem vestido
3. Um senhor de uns cinqüenta anos
4. Uma velha gorda.

Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles.
Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram
loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e
ensimesmados.

(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para leva-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do 'Harmonia do Samba'? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.

(3)E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos?

Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual?

Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.

(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.

Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.

Conto para ele a minha 'viagem' na sala de espera.

Ele ri, ..... ri muito, o meu psicanalista, e diz:

- O Ditinho é o nosso office-boy.

- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de
remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.

- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.

- E você, não vai ter alta tão cedo...'

Parada Gay: respeitar e ser respeitado.

Por Dom Odilo Pedro Scherer:

Eu não queria escrever sobre esse assunto; mas diante das provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã, durante a Parada Gay deste último domingo, não posso deixar de me manifestar em defesa das pessoas que tiveram seus sentimentos e convicções religiosas, seus símbolos e convicções de fé ultrajados.
 
Ficamos entristecidos quando vemos usados com deboche imagens de santos, deliberadamente associados a práticas que a moral cristã desaprova e que os próprios santos desaprovariam também. Histórias romanceadas ou fantasias criadas para fazer filmes sobre santos e personalidades que honraram a fé cristã não podem servir de base para associá-los a práticas alheias ao seu testemunho de vida. São Sebastião foi um mártir dos inícios do Cristianismo; a tela produzida por um artista cerca de 15 séculos após a vida do santo, não pode ser usada para passar uma suposta identidade homossexual do corajoso mártir. Por que não falar, antes, que ele preferiu heroicamente sofrer as torturas e a morte a ultrajar o bom nome e a dignidade de cristão e filho de Deus?!
 
“Nem santo salva do vírus da AIDS”. Pois é verdade. O que pode salvar mesmo é uma vida sexual regrada e digna. É o que a Igreja defende e convida todos a fazer. O uso desrespeitoso da imagem dos santos populares é uma ofensa aos próprios santos, que viveram dignamente; e ofende também os sentimentos religiosos do povo. Ninguém gosta de ver vilipendiados os símbolos e imagens de sua fé e seus sentimentos e convicções religiosas. Da mesma forma, também é lamentável o uso desrespeitoso da Sagrada Escritura e das palavras de Jesus – “amai-vos uns aos outros” – como se ele justificasse, aprovasse e incentivasse qualquer forma de “amor”; o “mandamento novo” foi instrumentalizado para justificar práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus.
 
A Igreja católica refuta a acusação de “homofóbica”. Investiguem-se os fatos de violência contra homossexuais, para ver se estão relacionados com grupos religiosos católicos. A Igreja Católica desaprova a violência contra quem quer que seja; não apoia, não incentiva e não justifica a violência contra homossexuais. E na história da luta contra o vírus HIV, a Igreja foi pioneira no acolhimento e tratamento de soro-positivos, sem questionar suas opções sexuais; muitos deles são homossexuais e todos são acolhidos com profundo respeito. Grande parte das estruturas de tratamento de aidéticos está ligada à Igreja. Mas ela ensina e defende que a melhor forma de prevenção contra as doenças sexualmente transmissíveis é uma vida sexual regrada e digna.
 
Quem apela para a Constituição Nacional para afirmar e defender seus direitos, não deve esquecer que a mesma Constituição garante o respeito aos direitos dos outros, aos seus símbolos e organizações religiosas. Quem luta por reconhecimento e respeito, deve aprender a respeitar. Como cristãos, respeitamos a livre manifestação de quem pensa diversamente de nós. Mas o respeito às nossas convicções de fé e moral, às organizações religiosas, símbolos e textos sagrados, é a contrapartida que se requer.
 
A Igreja Católica tem suas convicções e fala delas abertamente, usando do direito de liberdade de pensamento e de expressão. Embora respeitando as pessoas homossexuais e procurando acolhê-las e tratá-las com respeito, compreensão e caridade, ela afirma que as práticas homossexuais vão contra a natureza; essa não errou ao moldar o ser humano como homem e mulher. Afirma ainda que a sexualidade não depende de “opção”, mas é um fato de natureza e dom de Deus, com um significado próprio, que precisa ser reconhecido, acolhido e vivido coerentemente pelo homem e pela mulher.
 
Causa preocupação a crescente ambiguidade e confusão em relação à identidade sexual, que vai tomando conta da cultura. Antes de ser um problema moral, é um problema antropológico, que merece uma séria reflexão, em vez de um tratamento superficial e debochado, sob a pressão de organizações interessadas em impor a todos um determinado pensamento sobre a identidade do ser humano. Mais do que nunca, hoje todos concordam que o desrespeito às leis da natureza biológica dos seres introduz neles a desordem e o descontrole nos ecossistemas; produz doenças e desastres ambientais e compromete o futuro e a sustentabilidade da vida. Ora, não seria o caso de fazer semelhante raciocínio, quando se trata das leis inerentes à natureza e à identidade do ser humano? Ignorar e desrespeitar o significado profundo da condição humana não terá consequências? Será sustentável para o futuro da civilização e da humanidade?
 
As ofensas dirigidas não só à Igreja Católica, mas a tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas não são construtivas e não fazem bem aos próprios homossexuais, criando condições para aumentar o fosso da incompreensão e do preconceito contra eles. E não é isso que a Igreja Católica deseja para eles, pois também os ama e tem uma boa nova para eles; e são filhos muito amados pelo Pai do céu, que os chama a viver com dignidade e em paz consigo mesmos e com os outros.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Saúde mental

Proponho enquanto ser humano, deixarmos um pouco de lado as nomenclaturas e viajarmos na maionese. Pelo menos para aproveitarmos alguns momentos a sós, vamos começar:

A proposta de saúde que circula por aí, desde OMS, até constituição brasileira (sim, na constituição temos direito à saúde desde que sejamos brasileiros) é a de uma condição livre de doença, de perfeito estado bio-psico-social

Acredito que enquanto meta, é uma opção muito "saudável" e até louvável tentarmos erradicar as doenças de nosso mundo e sermos saudáveis até morrer, de tanta saúde.

Em minhas crises alérgicas quando meu nariz fica escorrendo por cerca de alguns dias, mesmo com anti-alérgicos, acabo dando valor para algumas coisinhas simples, como por exemplo, a respiração. 

Inalar e expirar sem espirrar. Gente quando isso acontece realmente é um grande acontecimento em minha vida. Ao contrário do que temos em nossa cultura de que TODAS as doenças são ruins, algumas até que vem para nos dar um tempo para nós mesmos, uma gripe que nos derruba por um ou dois dias, até mesmo os casos extremos de AVE, Ataque Cardíaco, Problemas Renais e também de circulação. Estes casos tem em comum algumas coisas, que (claro que nem todos significam isso)  nos remetem a uma tentativa de viver de outra forma.

Uma nova vida está lá fora, e quando a pessoa adoece, passa a desejá-la muito mais do que sua antiga vida. Ou ainda, vou arriscar aqui aqui com vocês, talvez seja exatamente o desejo por uma vida diferente que acabe ocasionando estas moléstias.

Vou ser mais simples ainda. O eterno estressado que tem um infarte e depois disso resolve se aposentar, cuidar das crianças, estar muito mais tempo com a família, com os amigos, uma outra vida daquela levada em seu trabalho de pressão absurda com resultados, prazos e outras coisas estressantes.

Acredito que a saúde mental neste ponto de vista sofre com o mesmo dilema. Uma vez que cessam os sintomas, as patologias, ou ainda todo e qualquer tipo de mal-estar, como é que nós nos rearranjaríamos para sermos de uma outra forma?

Ou pior ainda, sem os sintomas, sem os mal-estares, a partir do que pensaríamos nossa existência? Como a ciência propriamente dita poderia evoluir sem um mal-estar que a levasse a uma busca por um mundo melhor?

Como mundo melhor, compreendo eu, que, para que haja uma busca por algo melhor, signifique que o atual não está tão bom assim. Significa, ao meu ver, um mal-estar diante daquilo que está posto, daquilo que está disposto e que de alguma forma, alguém sentiria melhor com alguma outra proposta, com alguma outra forma de mundo. Inventa-se então o telefone, a luz, o fogo, a roda... 

Não pude parar de rir depois que li "inventa-se" no parágrafo anterior. Na verdade não inventa-se, mas busca descobrir uma outra forma de fazer as mesmas coisas. Vamos ao exemplo do fogo, uma pedra com outra pedra, uma pedra em uma caixinha e uma outra em um palito (fósforo), duas pedras, uma caixinha contendo gás, uma mola, um click  e temos um isqueiro (bem rudimentar inclusive), mas descobre-se e utiliza-se destes novos meios para produzir um mesmo fogo.

Acho que a saúde mental tem que ter menos padrão de normalidade e acatar um pouco mais a a-normalidade. Fugindo um pouco do foco de saúde mental, e permitindo às pessoas se haverem com suas dificuldades, com suas normalidades, com seus defeitos e qualidades. 

Uma outra ótica tem sido proposta na psicanálise: Saúde mental para todos, não sem a loucura de cada um. É proposto aceitar o sintoma de cada indivíduo justamente como uma tentativa de individuar-se, de diferenciar-se dos outros, de existir enquanto pessoa em sua singularidade. Apagar o sintoma, ou seja, aquilo que se repete freneticamente, seja em segundos, horas ou uma vez por ano, mas apagar isto que fala sobre a pessoa em prol de um "estado de perfeição" é na verdade padronizar um estado de ser, uma felicidade que de acordo com meus princípios é irreal, ou melhor ainda, surreal.

Sim, podemos atenuar o sintoma e até mesmo eliminá-lo, mas não em nome de uma saúde sanitizadora da mente, ao contrário, permitindo que a pessoa identifique-se com outra coisa, não necessariamente aquele sintoma que provoca o mal-estar.

O que seria da poesia sem o mal estar?

Existe mal-estar maior que a própria paixão? Podem existir piores, mas que dure tanto tempo, que provoque tantos sintomas no corpo, na mente e também na alma, acho que não. Nem sequer a angústia faz isso. A angústia ainda mantém de certa forma intacta a consciência e a razão. O medo na angústia é de perder-se, de morrer, de ser implodido pelo sentimento que ela traz consigo. Na paixão sente-se tudo isso, mas quando é perguntado se está tudo bem, a resposta é a mais descabida, está tudo ótimo.

Proponho um pensamento de existência baseado no respeito ao outro. Respeito a forma de ser, de falar, de sofrer, mas também respeito na forma de compreender-se enquanto saudável. Isso sim, ao meu ver, seria a saúde mental para todos, abarcando a loucura apaixonada de cada um ser o que é, ou o que deseja ser. Se alguém quer voar, que seja piloto, paraquedista, ou como este homem ao lado, não precisa ser apenas "louco".



quarta-feira, 29 de junho de 2011

Interpretações a serem evitadas:

Dejavú

É meus amigos, o futuro inexiste.

Quando traçamos metas, pensamos em planos e nos permitimos sonhar para além do agora, alguma coisa acontece que nos transporta ao amanhã. É como se pudéssemos estar presentes onde nem sequer estivemos ainda, mas desejamos tanto que orientamos nossa vida para aquele momento da chegada em um lugar novo, sonhado, desconhecido, mas intensamente desejado e familiar.

O texto de Freud "O Inquietante" ("o sinistro" em outras traduções), me levou muito a repensar uma antiga teoria minha. Um pensamento já demasiado surrado pelo tempo, mas que vira e mexe ele retorna, parece até mais um sintoma, do que um pensamento em si.

Já repararam que o Déjà vu é um fenômeno um tanto quanto complexo?

Embora tenhamos a certeza de que já experienciemos aquilo tudo, ao mesmo tempo, temos a certeza de que aquilo ali nunca aconteceu. Racionalizamos (como bons neuróticos) e damos uma explicação bem interessante, costumamos dizer que alguma vez já havíamos sonhado com aquele momento. Somos capazes até mesmo de prever o que o outro irá dizer. 

O problema começa quando tentamos provar que já vivenciamos aquele momento. Por maior que seja nosso esforço só reconhecemos depois que aconteceu, depois que passou. 

Depois que o tempo passa, e os acontecimentos realmente tornam-se ou presentes ou passado, começamos a ter uma leve idéia do que estava acontecendo.

Neurologicamente este fenômeno muito interessante é descrito como uma série de combinações neurológicas, as famosas sinapses, que de repente sofrem como um curto circuito, fazendo que percebamos algo como proveniente de um outro momento, de um outro tempo, misturando sensações de elementos comuns nas duas cenas, a do passado e a do presente, nos trazendo a impressão de que tudo já havia sido vivenciado.

Quero aplicar esta lógica para o que sonhamos e desejamos para nossas vidas. Experimentar algo novo não é um desejo muito comum nos dias de hoje, ao contrário, parece que está cada vez mais difícil, até mesmo impossível, fazer algo diferente do habitual. Sonhamos com o diferente, mas este sonho não passa de uma vaga lembrança das sensações que aquele novo nos trouxe, alegria, prazer, adrenalina...

A novidade em nossas vidas parece ser cada vez mais pura ilusão. Estamos sempre copiando, realizando uma espécie de Déjà vu com nossa história, repetindo algumas cenas, repetindo alguns desejos, sempre em busca de viver algo parecido com alguma coisa que não sei o que é.

Até que um dia conseguimos ter esta sensação de estarmos felizes, de termos feito uma coisa legal, diferente, ou ainda por cima realizado nosso sonho mais profundo. Tudo bem, até pode ser que isso realmente aconteça, mas a sensação não será de surpresa, não será de uma novidade, mas apenas de um reconhecimento íntimo de algo que há muito tempo foi sentido e agora pôde retornar. 

Um Déjà vu em que não reconhecemos a experiência nova como já acontecida anteriormente, mas reconhecemos que as sensações de alegria e bem estar, oriundas da realização do sonho, são na verdade tão íntimas e familiares que podemos até nos expressar com comparações do tipo: "a última vez que me senti tão feliz assim foi..."

Mas existe uma outra expressão: "Não me lembro quando foi que me senti tão bem assim", esta é muito mais interessante, diz de uma suposta novidade, de uma sensação na qual aparentemente não existia até então, ao menos na intensidade dela.

Aqui vem minha teoria que retornou como um bumerangue quando lia um trecho do Inquietante de Freud.

Na verdade não passa de um sonho conquistado, e uma vez sonhado, não é novidade, mas apenas um acontecimento que transpassou da imaginação para a realidade. Esta também já havia sido sentido, mesmo que em sonho, mesmo que em expectativa, mas apenas passou a ser real.

É, no fim das contas, a vida é mesmo este eterno retorno de algo que já experimentamos, que até nos parece estranho em um primeiro momento, mas que na verdade não passa de um Déjà vu. 

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Amores e Saudades



E aquele rapaz cansado de perder tudo (que pensava ser seu) bradou em voz alta:

- Que fique então decretado a partir de hoje que não perco mais nada, ganho saudades.

É meus amigos, ganhar saudades, acumular derrotas, cultivar o que foi perdido as vezes também é uma forma de manter-se vitorioso. Parece que de alguma forma aprendi muito com aquele paciente meu, que não perde a coragem, ganha medo. Também não sente falta, ganha vazios. Outra coisa que me surpreendeu é que ele simplesmente não se lembra de nada ruim, apenas ganha mais memórias corroídas pelos seus sentimentos daquele momento, mas que tem a certeza de que tudo não foi bem daquele jeito. 

Está certo, este paciente não existe.

Mas e se existisse?

Quanta inveja nos levanta uma pessoa que até na derrota consegue sair por cima, vencedora de ter conquistado alguma coisa a mais. Enquanto perdemos e tentamos nos desfazer daquilo que foi tão ruim, ele apenas ganharia mais experiência, ganharia, sempre ganharia.

Enquanto passamos boa parte de nossos lutos chorando o tempo perdido, ele apenas ganharia mais tempo para cultivar outras amizades, outras relações, outros amores. 

É que falo aqui do nosso coração humano. Assim como a sexualidade é elástica e deve comportar-se de acordo com nossos desejos, assim também é nosso coração, o grande desejante.

É na nova tradução dos textos de Freud (Paulo César) que percebi que eu estava certo. Na verdade, eu, meu diretor espiritual (mesmo que na época), a Igreja, Viktor Frankl, e por aí vai. Segue-se uma lista infinita de pessoas que perceberam que a libido nada mais é do que amor.

Objeto de desejo é o mesmo que objeto de amor, só que aquele é na leitura pura, fria, real da carne. Objeto de desejo é um objeto da qual tanto desejo, e o amor refere-se a um amado, a uma amada, a um outro em todas as suas qualidades, características, e em especial mistério. Mistério que foge, que vai além de minhas projeções e me revela um outro, um além de um objeto apenas. Mas isso não desfaz a idéia de que a outra pessoa também é um objeto, é um objeto do meu amor, assim como o polém (suponho eu) é o objeto de desejo da abelha e que dele, com muito trabalho será feito o mel. Assim também são as pessoas, objetos de amor que um dia, depois de muito trabalho, se tornarão pessoas nas quais ultrapassam e muito nosso desejo.

Fica aí a pergunta, e agora o que fazer quando perde-se o objeto de desejo para ganhar o objeto amado?

Angústia suprema.

Não pode ter as duas coisas.

Cristo no calvário não podia ficar mesmo querendo ficar, seu desejo era o sacrifício, mas ficar aqui com seus súditos, seu povo, seus irmãos, estava com certeza sendo considerado por demais naquele momento. Ao contrário, renunciou a tudo o que havia conquistado para ir além, para tornar-se mais do que um objeto de desejo das pessoas e ser, enfim, objeto de amor.

É mais ou menos nesta narrativa que compreendemos o ato sacrifical em nossas vidas. Perder-se por amor, e não apenas porque amo, mas para que na perda, ganhemos algo, ganhemos enfim, nosso objeto de desejo e de alguma forma, com nosso sacrifício ocorre certa transubstanciação (emprestei da palavra litúrgica que significa - mais ou menos -  transformar uma substancia em outra sem acrescentar, sem retirar nada, apenas se transforma, como a Eucaristia) de objeto de desejo a objeto de amor.

Sempre foi a mesma coisa, mas agora quem mudou fui eu. Aquele que olha, não olha mais, e não fica mais nesta posição, de um olhar de alguém que pode usufruir de um objeto, mas agora olha com amor, ganhando assim uma certeza única e irrefutável, existem outras pessoas no mundo.

Sim meus amigos é isso mesmo, apenas na "transubstanciação" de nosso olhar, que passa a ver o outro não como objeto de desejo de nossa carne, de nosso desamparo, de nossos medos, que podemos ver o outro como outro, como objeto de amor.

Enquanto objeto de desejo, o outro serve apenas como mais um objeto, mas enquanto objeto de amor, o outro é de fato mais um outro.

Tentarei explicar de uma forma mais sucinta e simples o que acho por demasia complicado, mas que é gostoso de falar sobre, e ainda mais gostoso é escrever e ler sobre estas coisas:

Somente na posição de amantes é que conseguimos ganhar sempre, pois enquanto insistirmos em ficar apenas na posição de amados, as perdas serão sentidas como perdas e não conseguirão ser transubstanciadas em mais uma saudade.

Ah, o amor!!!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Psicanálise (ainda) é possível? - Por Zeila F. Torezan


Freud elencou a psicanálise como uma das profissões impossíveis, ao lado do educar e do governar. Tal proposição pode soar muito estranha ao ser proferida por aquele que fundou e exerceu a psicanálise até o fim de sua vida, deixando um legado incomparável e essencial, até hoje, aos avanços da teoria e técnica psicanalíticas.

Entretanto, com alguma proximidade do campo psicanalítico é possível compreender a mensagem freudiana: a psicanálise é tarefa que exige compromisso de quem a pratica e de quem a ela se submete e, assim com o educar e o governar, é regida por uma ética, está implicada num contexto e está articulada ao laço social. A Psicanálise reconhece assim a impossibilidade da perfeição, da totalidade e da plenitude em seu exercício e em seus efeitos.

Desde a sua criação muitos proclamaram o fracasso da psicanálise. Não é raro o anúncio da sua extinção.  Alguns consideram ultrapassadofalar de problemas pessoais, explorar idéias e refletir sobre a vida quando existem recursos como medicamentos, que prometem resultados sem esforços. Outros ponderam sobre sua suposta insustentabilidade frente à agitação, à falta de tempo e à necessidade de soluções rápidas que caracterizam o nosso cotidiano.

Então, não seria mais eficaz e/ou mais rápido, pois a modernidade ensinou que tempo é dinheiro, aprender algumas técnicas para solução de problemas ou aperfeiçoar a capacidade cognitiva para uma administração mais racional e lucrativa da própria vida? 

Ou, melhor ainda, buscar alguma opção medicamentosa que possa suprimir todas as dificuldades e sofrimentos que caracterizam a existência humana?

Acredito que as respostas a estas indagações dependem do conceito de eficiência que se utilize e da definição dada à condição de ser humano.

Freud iniciou seus trabalhos e desenvolveu a teoria e o tratamento psicanalíticos a partir do que ele identificou como mal de amor: uma inquietação da falta, vivida como falta de amor. Não parece que a inquietação do homem contemporâneo esteja distante disto, ao contrário, temos nos deparado com sujeitos desamparados, solitários, em busca de laços e do consumo como uma forma de encontrar a plena felicidade.

A psicanálise propõe a possibilidade de tratarmos essevazio, esta condição de sermos seres faltantes, incompletos, buscando encontrar meios menos sofridos de viver e, portanto, de abordar a dor de existir. Assim, o conceito de eficiência distancia-se de uma promessa de felicidade atrelada à abolição de todo e qualquer sofrimento (por umas poucas horas!) e aproxima-se da aposta em um sujeito que se reconheça como desejante e responsável por seus atos e que, portanto, possa obter mais prazer em sua vida.

Mais do que possível, isso me parece bastante desejável e (porque não?) necessário.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Silêncio e solidão: experimentar a existência de outra forma.

 "A consciência enquanto aparelho psíquico (muito mais perceptual do que psíquico) é somente uma fração do que poderíamos objetivar como humano. O que podemos encontrar então que nos diz respeito tanto diante dos "doentes mentais" quanto diante dos "sãos" é simplesmente a liguagem. Esta segue sempre um caminho objetivo, o outro."

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Somos constituídos pela linguagem, pela palavra, utilizando a fala como meio, como forma de manifestar nossa existência. Esta fala diz de alguém que ouviu falar, e que agora, repete a palavra, tentando repetir o que foi falado para ser compreendido. Este alguém só é alguém porque um outro o coloca nesta posição e o remete a ele mesmo com um nome, uma outra palavra que diz sobre ele, mesmo em sua ausência.

Ouvir em uma conversa nosso nome é como ouvir os sinos da catedral chamando os anjos para a oração. Chamando nosso nome, temos a certeza que existimos mesmo sem estar presente naquela conversa, de que de alguma forma, estamos presentes ali.

A solidão nos remete a esta experiência de despersonificação, mas de alguma forma a mentira da existência continua. Nos pensamentos, ou nas palavras ditas a ermo, mentimos nossa existência através da fala. Falamos conosco, falamos e nos escutamos, ou cantamos para alguém que não existe ali naquele momento, nos empurrando ainda mais na mentira das relações humanas, inexistentes, pois não existe um outro para ouvir, ao não ser nós mesmos, e pasmem, na maioria das vezes (inclusive na análise) não estamos ali.

Escutar-me, caro amigo Melvin, remete-me à minha mentira, ao meu imaginado esquema de existir que insisto em chamar de vida. Por isso respondi que não gosto de me escutar, prefiro o angustiante silêncio.

Escutar as lembranças me levam ao passado, a um passado distânte de mim, mesmo que tenha se passado apenas alguns momentos, já não estou mais ali, o que se renova é apenas a sensação, até que não se renove nunca mais, mas seja trocada por outra. Novamente uma mentira, porque o que sinto agora em relação ao fato do passado, não diz nada do que aconteceu, ao contrário diz de mim hoje, e eu não estou por lá há muito tempo.

É mais ou menos aquela sensação de rir depois de uma experiência de quase morte, ou de perigo extremo. Na hora, o sentimento que domina é o pavor, o terror da agonia de enfrentar face a face nosso destino único e real, o último e único fim de tudo, a morte. Depois de um tempo a sensação passa, e tranforma-se em zombaria, em desengano, em vitória, por ter de alguma forma sobrevivido. Uma mentira ao meu ver, que é tão verdadeira que nos engana, nos fazendo, mesmo que por um instante, acreditar realmente que a morte nunca mais chegará.

Prefiro o silêncio que revela-me minha ausência. O silêncio, ao contrário das palavras, não constrói nem destrói, apenas da um tempo na existência, mostrando o que realmente está jogo, que a vida acontece mesmo sem eu.

A palavra que define o ser humano, que contrói sua vida, e que pode passar adiante sua história. A palavra que faz o futuro parecer tão perto dentro de nossos sonhos. A palavra que é utilizada até mesmo quando vemos alguma coisa que me "diz" alguma coisa. Dizer, é falar, é palavra também. Mas meus amigos, a palavras que é nossa tão terna e querida amiga é também aquela que nos trai.

Nos trai nos atos falhos, na verdade nos atrai, nos mostra quem somos de verdade, e nos traz o silêncio. Como a pessoa que ovaciona na hora errada, o silêncio toma conta do espetáculo, e sorrisos indiscretos são ouvidos, demonstrando que mais engraçado que o barulho, foi o ridídiculo do silêncio.

É no silêncio que todos os sentidos fazem sentido, e acima de tudo, no silêncio da palavra, do sentir, do pensar, do lembrar, do sonhar, que a palavra recebe seu significado mais nobre, o de nomear, o de transformar algo em coisa alguma.

Na solidão, ainda podemos nos mentir, nos falando, nos afirmando, mas pra que seria necessario afirmar uma coisa se ela já é real e existe?

É no silêncio caro amigo Melvim, que eu me percebo. É na ausência de mim mesmo que eu me percebo enquanto alguma coisa real, ali, parado, talvez não vivendo como um ser humano, como as pessoas gostariam de viver e chamam de vida, mas apenas existindo de passagem, e na realidade, a vida é isso, passagem por aqui e nada mais.

Na solidão enquanto me minto com minhas palavras parando para me escutar, não escuto nada. Já diante do silêncio escuto o tic tac do relógio que me mostra a existência para um além da temporalidade, para além do ontem, do hoje e do depois. É quando o tic tac deixa de ter o sentido da palavra relógio, da palavra tempo, que eu consigo ouvir minha respiração e com ela imaginar minhas células morrendo a cada expiração. Mas é também em cada inspiração que meus pulmões se enchem e outras células ganham vida, a cada momento.

É isso, a vida e em especial minha existência é um momento e nada mais. Agora quem eu sou, este sim, cheio de explicações, afirmações, negações, contradições... mesmo na solidão, sou uma palavra.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Carta a Freud, sobre o Duplo e a Alma.

"O tema do Duplo foi minuciosamente estudado por Otto Rank, num trabalho com este título. Ali são investigadas as relações do duplo com a imagem no espelho e a sombra, com o espírito protetor , a crença na alma e o temor da morte, mas também é lançada viva luz sobre o a surpreendente evolução do tema. Pois o duplo foi originalmente uma garantia contra o desaparecimento do eu, um ënérgico desmentido ao poder da morte"(Rank), e alma "imortal" foi provavelmente o primeiro duplo do corpo... Mas essas concepções surgiram no terreno ilimitado do narcisismo primário, que domina tanto a vida psíquica da criança como a do homem primitivo, e, com a superação dessa fase, o duplo tem seu papel invertido: de garantia de sobrevivência passa a inquietante mensageiro da morte" (FREUD, S. O Inquietante, 1919 p.351-352)

Querido Freud, está me dizendo que tudo que eu imagino como meu amparo frente a minha destruição revela-me minha fraqueza e meu próprio desamparo?

É, talvez faça sentido. Talvez seja isso que chamamos hoje em dia de dependência química, de relações simbióticas, ou ainda, da relação do asmático com sua bombinha de asma. Lembro-me quando era menor,  eu tinha destes problemas, eu sempre dava um jeito de esquecer a bombinha, mas de repente sentia meus pulmões fecharem, precisava de minha mãe, e de minha bombinha para respirar mais aliviado.

Embora eu quisesse tanto me livrar dela, era ela quem eu tinha como esteio. Embora eu quisesse abandoná-la a qualquer canto, era ela quem eu podia recorrer (minha mãe, e também a bombinha).

Com o tempo fui crescendo, e fui percebendo minhas fraquezas devido a minha dependência aos objetos, por exemplo, minha mãe, meu carro, meu Sorine, para mais tarde depender única e exclusivamente de um comprimido de Efexor por dia.

De alguma maneira essas coisas todas me permitiam viver consideravelmente bem. Mas como toda mentira tem seu fim, um dia tive que lidar com a certeza de que tudo aquilo era criação minha. De que mamãe não estava sempre ali para me buscar, ou me ajudar, de que a bombinha de asma não resolvia minha solidão e meu medo de morrer, de que o sorine não desentopia meu cérebro cheio de pensamentos de morte, e que inevitavelmente o antidepressivo não tirava a sensação de vazio e de sem sentido de minha existência.

É caro Freud, começo a compreender o que o senhor quis dizer. É na utilização destas coisas que eu me denuncio enquanto faltante, enquanto carente de algo que seja ainda maior do que eu, que me sustente, que me ampare, e que, de alguma forma, me deixe vivo, me faça imortal no agora, e não depois.

Olha só, não era bem minha alma que eu buscava para sobreviver, ao contrário, eram coisas que não tocavam minha alma, mas que aliviavam as idéias de insuportável sensação de fraqueza, de debilidade, de morte.

Bom, meu caro amigo Freud, hoje estou melhor, resolvi aceitar que estas coisas passadas falavam sim de um momento onde eu buscava a vida, e que depois que foram anunciando a morte, acabaram sendo trocadas por outras, mas e a alma?

E quando aceitamos a alma não como uma forma de eternidade, de proteção, mas como a certeza da morte? Faço o que com isso? Vivo melhor? Vivo mais despreocupado? Chego a viver de fato?

Acho que não, acho que apenas trocamos uma coisa pela outra. As mães sonham com as filhas realizando o que elas não puderam realizar. Os pais passam seus nomes aos filhos. Os avós contam histórias que ficam gravadas eternamente nas gerações futuras. É, a gente troca, ora uma coisa, ora outra, o importante no final das contas é encontrar alguma forma de viver que me identifique enquanto eterno, seja escrever um livro, plantar uma árvore, ou ter filhos.

Caro amigo, me despeço dizendo que concordo com suas palavras sobre a inquietante função de denúncia da alma, mas também gostaria de fazer aqui minha contribuição.

A alma sempre sobreviverá, desde que você acredite que ela será eterna, afinal, se eu morrer e ela não existir de fato, vou estar morto e não me lembrarei que um dia ela deveria ter existido para me fazer imortal.

 
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