terça-feira, 14 de junho de 2011

É que é dificíl ser diferente....

"Não sei não, é que as vezes é tão difícil ser diferente, ser eu mesmo, que sempre que tenho a idéia de mudar eu acabo desistindo..."

Essa é sentença de uma pessoa condenada a mesmice. Sentenciada e condenada por ela mesma, sempre a repetir um padrão esperado por ela mesma e pelos outros, sem nunca se arriscar a abrir a janela da vida e ficar sempre imaginando que ela é apenas mais um quadro na parede.

Essa sentença que damos a nós mesmos quando temos medo e não nos permitimos o sabor do arriscar. Muito mais do que conseguir uma mudança verdadeira nas atitudes e no fim ser totalmente diferente, como um objetivo a ser cumprido, arriscar uma chance, uma oportunidade e apaixonar-se pela chance, e não pelo resultado, acaba fazendo toda a diferença.

Não é o objetivo (como já foi visto aqui no Blog), que tem que mudar, e muitas vezes tentamos mudar nossa forma de existir, de ser, quando pensamos que existe uma essência para isso, quando pensamos que a existência está fadada a uma utilidade, a um destino natural, a um destino final. 

Parece que algumas pessoas, por suas histórias, suas filosofias de vida, seus encontros e desencontros, seus amores e desamores, acabaram perdendo esta característica de poder fazer diferente, de poder arriscar. 

Não é o ar que entra pela janela que é tão bom assim, mas é a chance de poder abrir a janela, fazer alguma coisa, e deixar a novidade fluir. É como a criança que busca esconder-se da mãe para experimentar a liberdade, não é o esconder-se objetivamente, mas é o sentimento de tentar e mesmo que no fracasso, saber que é possível, saber que ela pode.

Ontem assisti ao filme "Sobrevivendo com Lobos" ("Survrive avec les loups") e mostrava de forma um tanto quanto bela esta onipotência infantil. É o contar até 30 que a pequena Misha faz para que seu pai retorne de onde quer que ele esteja e venha buscá-la. Quando ela esconde-se para testar sua teoria e seu pai vai atrás dela aparecendo do nada e subindo as escadas ao seu encontro. 

É a possibilidade de fazer diferente, mas mesmo assim, alcançando o mesmo fim, que dá uma certa graça a nossa vida e nos faz com que a vida ainda tenha e nos traga muitas surpresas.

É justamente o poder fazer diferente e chegar ao mesmo resultado que poderíamos chamar de criatividade o que deveria ser o que temos de mais natural enquanto pessoas, enquanto seres vivos.

É poder contar até 30 e imaginar que seus pais chegarão sorridentes e estarão sempre ali, ou ainda, sair do trabalho e imaginar que a família estará em casa feliz e com saudade, podemos também pensar na comida em que nos deliciaremos num farto almoço ou jantar, tudo isso como objetivo. Mas cada um faz seu caminho para casa, uns contam até 30, outros até 40, outros contam em minutos, outros em horas dentro de um avião, ônibus ou carro. Alguns preferem o feijão, outros o arroz, mas todos comem satisfeitos quando tem o que comer.

É bom sermos diferentes dos outros, termos gostos diferentes, caminharmos diferentes e isso não impede que tenhamos o mesmo objetivo de sermos felizes

Aceitar a diferença do método, do caminho e compartilhar da mesma vitória ou derrota é que é por demais complicado. As vezes pensamos que só existe um caminho, uma forma, uma trilha. E quando caminhamos caminhamos sozinhos pela penosa trilha da vida e encontramos no destino outros tão felizes como nós, ou ainda amargurados com os mesmos problemas, ficamos nos perguntamos, onde estavam todos estes, afinal eu estive sozinho, parece que só eu quem seguia o caminho certo?

Acho que o medo da mudança muitas vezes vem daí, deste ponto específico. O medo de mudar não é o da mudança em sí, mas de que se der errado a escolha foi errada, o caminho escolhido deveria ter sido outro, o medo do arrependimento, do ter que se haver com suas escolhas, com suas diferenças e ter que bancar isso para si mesmo e também para todo o mundo.

E se o objetivo for a mudança? Aí a história muda, se pensarmos independentes do objetivo (imaginando que ele será alcançado) poderemos experimentar um pouco de fantasia ao abrir a janela da vida e deixar a novidade entrar.

Poderemos gozar do sucesso a cada passo dado e concretizado com muita alegria, porque afinal, o fim importa tanto quanto os meios e quanto mais diversos os meios, mais seguros eu posso estar de que dará certo, de que no final, serei feliz, basta que eu caminhe.

Caminhando e cantando e seguindo a canção, não importa o caminho, não importa o final dele, mas o que importa é a brisa no rosto promovida pelo movimento de cada passo, um atrás do outro, com sabor de sucesso, mesmo que o medo apareça, que nossas pernas cheguem a tremer, que nós precisemos em alguns momentos parar e descansar, mesmo que vacilemos quanto ao objetivo final, o objetivo de cada passo estará sendo alcançado, e a mudança já se tornara real.
No fim do caminho ao olhar pra trás, não veremos uma, ou muitas trilhas, mas um campo, em que o caminho escolhido apenas marcou a grama abaixo de nossos pés.

Se nosso objetivo é chegar lá em cima, então só temos que subir, seja de carro, de moto, de bicicleta ou a pé, seja correndo, andando, arrastando ou dando voltas. Pode ser de uma vez, parando, sozinho, descansando, ou em grupos com paradas até para um piquenique, ou apenas para apreciar a vista, o que importa é subir e uma hora a gente chega lá.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Além da Clínica - Psicologia Hospitalar: humanizando o serviço.

Psicologia Hospitalar : a mesma escuta, o mesmo cuidado, em um lugar diferente, de uma forma diferente, mas ainda sim, é possível o trabalho do psicólogo / analista.


II Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar    
Londrina - Pr 

O que faz do homem psiquicamente diferente dos outros seres vivos que conhecemos, entre outras coisas, é o conhecimento de si mesmo, planejamento do futuro e também a percepção da finitude, da morte. Embora eu saiba que esta é uma concepção que todos temos, mesmo assim carregamos em nós, ainda que de forma inconsciente,

 uma dúvida quanto a nossa mortalidade. Durante a maior parte de nossas vidas agimos e fazemos planejamentos como se fossemos imortais, imutáveis, inabaláveis. Esta característica humana de viver como se sempre houvesse um amanhã, é fundamental para que possamos viver e constituir-nos como sujeitos.

 Freqüentando o Curso de Psicologia Hospitalar, no ano de 2009, do Hospital Universitário/Universidade Estadual de Londrina, pude compreender que esta distância que o ego insiste em ter da certeza do fim, é mais que necessária. Arrisco-me a dizer que sem essa distância, muitos de nós não conseguiríamos levar a maior parte de nossas tarefas a cabo. A compreensão racional de nosso fim é sim importante, mas muito mais importante que esta, é a sublimação da certeza da morte pessoal, para que seja possível um projeto de vida. Em um dos casos que atendi, durante o curso no hospital, pude ouvir de um de meus pacientes: “depois que eu morrer, deixarei tudo pra minha filha”. Nesse discurso, o sujeito que foi atendido por mim e que não tinha muitos recursos financeiros, deixava sua herança ainda em vida para sua filha. Essa e muitas outras falas me levaram a compreender que, embora saibamos do fim, sublimamos essa certeza de nosso fim último, esta sublimação é uma estratégia que permite a pessoa continuar vivendo com o sentimento de que mesmo depois de morta continuará viva no outro.

Sobre essa particularidade do ser humano, de uma suposta tomada de consciência com relação à transitoriedade da própria vida, Freud (2009/1915) afirmou que essa consciência na verdade nada mais é do que a vivência de um luto.

Na experiência do luto, de acordo com o autor, a capacidade de amar determinado objeto (libido) se encontra sem o objeto específico onde o amor encontraria repouso. Sem o local do repouso, esta energia estaria enfim livre para qualquer outro objeto. O problema, como afirma Freud (2009/1915) em seu texto intitulado “Sobre a Transitoriedade” é que a energia não encontra de imediato outro objeto ao qual se fixar e isso causa uma tristeza pelo objeto que se foi e uma angústia pela energia que fica sem repouso na psique humana.

Segundo Freud (2009/1915), essa energia psíquica tende a voltar para o próprio sujeito por um momento até que o ego encontre outro objeto de amor. Mas como voltar a libido para si mesmo, sendo um sujeito que sabidamente irá morrer?

De acordo com o autor, “Se os objetos forem destruídos ou se forem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (libido) será mais uma vez liberada e poderá então ou substituí-los por outros objetos ou retornar ao temporariamente ao ego” (Freud, 2009/1915, p.318). Diante do dia a dia hospitalar percebemos ambos os movimentos psíquicos, porém os que mais precisam de ajuda para se restabelecer são aqueles que voltam à energia para si.  

O que ocorre no hospital muitas vezes é exatamente o movimento de uma aniquilação do ego para que o corpo continue vivo. Uma pessoa que está com um diagnóstico de uma doença grave recebe um golpe diante da suposta imortalidade do ser. Esta notícia da eminente perda de um membro, ou de si mesmo, leva o individuo a uma regressão e às vezes a uma cisão com a realidade, pois ele nada pode fazer com relação à sua doença. Uma vez se percebendo impotente diante da sua situação o ego se retrai para poder lidar com a internação e o tratamento.

Em outras palavras, no que se refere ao atendimento psicológico, por vezes não atendia o sujeito, mas é como se houvesse uma cisão tão profunda que o atendimento era do doente apenas e não do sujeito como um todo.

Freud (2009/1915) escrevendo sobre a transitoriedade, afirmou que o ser humano direciona a libido ao que sobra para ele amar e que de certa forma dá um sentido à sua vida. Dentro do hospital, no entanto, quando encontramos pessoas em sofrimento, porque já percebem que tudo o que eles amam conseguem viver em sua ausência há a necessidade de um trabalho para retirar o sujeito da posição subjetiva que ele vem ocupando de identificação com seu estado de saúde, sua dor, seu sofrimento.

Nas enfermarias a maioria dos casos que atendi não eram de pacientes com prognóstico fechado. Entende-se como um prognóstico fechado uma pessoa que tem uma determinada doença sem possibilidade de cura. Embora os pacientes não estivessem diante de uma doença terminal que os levaria a óbito, curiosamente muitos deles estavam morrendo em vida. Dentro do hospital alguns pacientes já estavam cansados de si mesmos, de suas dores, de suas vidas. É especialmente sobre estes pacientes que irei discorrer.

Definir o que é ser humano é uma tarefa muito complicada e até mesmo de alguma forma impossível se levarmos em conta que somos “uma metamorfose ambulante” (Raul Seixas). Procurei encontrar um ponto em comum para facilitar o trabalho de humanização dentro das enfermarias do HU.

Humano é o ser que vive, que ama, que sofre, que sabe de seu fim, que mente, que engana, que faz mal, que faz bem, que se contradiz em suas certezas, humano é uma espécie rara de ser que encontramos dentro das enfermarias, mas que logo perde sua identidade para se tornar paciente, doente, número, trabalho, cansaço.

Quando se está no espaço hospitalar de alguma maneira se perde um pouco da energia psíquica responsável pela negação em relação à transitoriedade da vida. A realidade diante da hospitalização traz à tona uma noção de finitude, uma noção de que a morte é real. Diante de determinados momentos de dor muito intensa e de sofrimentos inesperados e muitas vezes eternos no momento da dor, percebe-se sem grande dificuldade uma apatia, uma regressão ou ainda uma desistência em relação à cura ou ao tratamento. O que ocorre em outras palavras é o rompimento egóico diante da dor e do sofrimento. Onde havia certamente uma catexia pela pulsão de vida, há agora uma catexização pela pulsão de morte. O sujeito deseja que acabe o sofrimento mesmo que isso signifique sua morte, seu fim.

Claro que não digo isso diante de uma situação x ou y, mas diante dos sujeitos x ou y e da forma como eles encontram para lidar com a hospitalização e com os sofrimentos inerentes a essa situação.

A psicanálise dentro deste contexto de sofrimento biológico pode proporcionar ao paciente enfermo, uma elaboração de seus conflitos no exato momento em que eles estão mais evidentes. Dentro da teoria psicanalítica os sintomas são sempre elucidatórios e estão remetidos às situações psíquicas. Embora não pudéssemos dizer com absoluta certeza que uma doença tal seja resultado de um conflito específico, aos poucos, com o trabalho da escuta analítica, era evidente que os pacientes traziam, escondidos nas suas doenças, os conflitos inconscientes. 

No hospital geral a psicanálise tem a chance de promover uma reedição da percepção do ambiente e da experiência de internação hospitalar. A escuta analítica proporciona aos pacientes e a seus familiares, e até mesmo à equipe de saúde, outra forma de compreender o ser humano e seu sofrimento. Talvez se possa pensar em um hospital mais humanizado na medida em que houver uma melhor compreensão da inter-relação entre as patologias e o psiquismo de cada paciente e/ou sua família; entre as atitudes da equipe de saúde e a história de vida dos pacientes e entre cada paciente, submetido ao ambiente hospitalar, consigo mesmo.



quarta-feira, 8 de junho de 2011

Além da Clínica - O trabalho do psicólogo em outro lugar.

Um pouco do trabalho do psicólogo na Central de Acompanhamento de Penas e Medidas Alternativas de Londrina-PR - CEAPA/NUMOPA (Futuramente ACAJ):





"Não há possibilidade de nenhuma tarefa profissional correta em psicologia se não é, ao mesmo tempo, uma investigação do que está ocorrendo e do que está se fazendo. A prática não é uma derivação subalterna da ciência, mas sim seu núcleo ou centro vital". (Bleger, p.31)




O trabalho do psicólogo tem alguns pressupostos básicos, seja onde ele estiver, em uma clínica, em uma escola, em uma empresa, em uma organização, em uma empresa privada, ou até mesmo dentro do serviço público.

O que irá diferenciar o trabalho do psicólogo não é tanto aonde ele irá executar seu saber/fazer, mas sim, o público alvo de seu trabalho. Por exemplo, em uma clínica, trabalhando com uma pessoa apenas, o diagnóstico será do indivíduo, caso seja em uma organização, o diagnóstico será um diagnóstico da instituição. Porém, sempre haverá um diagnóstico situacional a ser elaborado.

Como psicólogos, não compreendemos o diagnóstico como a medicina a compreende. Independente da linha que se trabalhe na psicologia, o diagnóstico será na verdade como que o alvo do trabalho do psicólogo. Por exemplo, um diagnóstico organizacional poderá esclarecer desde o porquê de o mal-estar na organização e trabalhar em cima deste mal-estar para solucionar os problemas, até mesmo o porquê determinada empresa, ou setor de uma empresa se sobressai positivamente e trabalhar as potencialidades deste setor ou da empresa para que eles fiquem ainda melhores, para atingir objetivos superiores aos já alcançados.

Com o atendimento individual podemos diagnosticar desde um mal-estar psíquico e trabalhar este mal-estar para uma solução, em que a pessoa se comprometa com sua vida e sua própria decisão, até mesmo com orientações vocacionais para levar a pessoa a um curso, ou um objetivo de vida.

O que realmente é diferente para o psicólogo é o objetivo proposto para ele nos seus determinados atendimentos e suas intervenções dependerão tanto da possibilidade que o outro permite a ele realizar. Seja este outro uma organização (no termo de Spink, 2004, qualquer grupo de pessoas que tenham um objetivo em comum pode ser considerado uma organização), ou seja ele um outro indivíduo qualquer que procure o serviço na clínica.

Uma característica fundamental para o trabalho do psicólogo é sempre o de saber/fazer. Esta dupla de palavras significa que o saber do psicólogo estará sempre atrelado ao fazer do profissional em uma relação dialética, onde fica quase impossível uma estagnação tanto do fazer quanto do saber.  Cada situação é trabalhada sempre como uma nova situação, claro que levando em conta a teoria que embasa o profissional, mas diante de cada movimento, nasce uma nova forma de ver as coisas, uma ampliação do conhecimento e também uma nova possibilidade de atuação.

A palavra que mais irá identificar o profissional da psicologia é a palavra “movimento”, a atuação do psicólogo remete a um movimento, a um fazer diferente em que a pessoa ou organização possa se identificar com isso, e também construir a partir de sua história de vida.

Partindo destes pressupostos podemos ter uma idéia do trabalho do psicólogo inserido na CEAPA/ACAJ.

Realizar um diagnóstico do perfil tanto da instituição quanto dos beneficiários para que o encaminhamento seja proveitoso para ambos. Levantar as necessidades das instituições e verificar o que seria importante para a instituição quanto a um tipo específico de pessoa, quanto ao número de pessoas que poderiam ser encaminhadas para determinada instituição, qual o tipo de pena que não se encaixaria em uma ou outra instituição (como pessoas apenadas pelo artigo 28 da lei 11343/2006 em que não encaminhamos para escolas).

Seria muito fácil apenas receber as pessoas e encaminhá-las para determinada instituição para prestar qualquer tipo de serviço em que a instituição propõe, mas sempre buscamos levar em conta qual o que pode ser construído para que haja um bem-estar tanto a instituição quanto o beneficiário. Um dos casos atendidos ainda este ano foi de um senhor que desistiu de um curso superior por timidez. Ao realizarmos um diagnóstico do perfil deste beneficiário, ele foi encaminhado a uma biblioteca onde teria oportunidade de ler e estudar, o que ele gostava muito, e também de ter uma forma de contato com pessoas em que ele pudesse suportar, sem que estes contatos se tornem aversivos para ele. Com esta forma de trabalho fica tudo mais fácil, pois adequamos as necessidades e interesses da instituição com os dos beneficiários.

A cada contato com as instituições e também com os beneficiários, acabamos tendo que nos reorganizar na práxis da escuta para que, em aparecendo algum tipo de problema a equipe possa mobilizar-se não apenas para apagar o fogo, mas também para auxiliar os dois nos momentos de dificuldades. Lembrando sempre que o psicólogo chega até aonde ele é permitido chegar, nunca invadindo, acusando ou culpabilizando, mas ao contrário, escutando, e nesta escuta, identificando pontos em comum para trabalhar na função de permitir que se chegue a um consenso e com isso dando oportunidades para que o conflito seja resolvido.

Os projetos de intervenção são elaborados sempre amparados por um saber/fazer que se reedita a cada grupo, ou ainda, a cada encontro realizado. Amparados pela teoria que auxilia na construção de cada encontro para os grupos, não podemos deixar de lado as demandas e a forma de caminhar de cada um deles. É na individualidade de cada beneficiário, e também do grupo como um todo, que o saber vai sendo moldado ao fazer e que, o fazer, vai construindo uma nova forma de saber, de compreender a realidade daquele grupo. Um encontro tem sempre um objetivo e um método para que este objetivo seja alcançado, mas não necessariamente este método é cristalizado ao ponto do grupo tornar-se "engessado", ao contrário, de acordo com a dinâmica dos indivíduos e do grupo como um todo, cabe ao psicólogo reconhecê-la e trabalhar de acordo com esta dinâmica, para um maior aproveitamento de todos. Com isso podemos dizer que cada grupo é diferente do outro, mesmo que sejam os mesmos temas e conte com os mesmos objetivos.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Culpa, o pior castigo.

Muitas vezes a gente pensa que um castigo deve ser proporcional ao dolo, ou seja, um castigo deve ser tão sofrido quanto foi o ferimento causado pelo autor do pecado. Não acredito nisso, pelo contrário, por maior que sejam os castigos imputados externnamente, o pior deles sempre será aquele em nós mesmo, a culpa, mãe da vergonha e precursora da virtude.

Se pensarmos em uma árvore genealógica para a culpa, poderíamos colocar ela como a mãe da vergonha, mas ao mesmo tempo, alguém que traz consigo a virtude que foi danificada pelo ato, pelo dolo, pelo pecado.

Não é brincadeira quando dizemos que a culpa pode acabar, destruir com a vida de uma pessoa. A culpa é natural, nos leva a pensarmos que somos normais, temos uma organização psíquica neurótica, um funcionamento neurótico (penso aqui no termo psicanalítico e não no patológico do senso comum) que nos permite tentar uma reparação, que nos permite e nos move para buscar algo além do que foi feito e construir algo novo, na qual possa ser pago o que foi feito e nos tranforme de devedores a credores.

A escola psicanálitica explica que a culpa funciona em nós como uma dique, como um estanque às nossas intenções mais primitivas, mas nem sempre ela vem primeiro do que o ato em si. Quando crianças sentimos a culpa imaginariamente, fantasmaticamente, pela destruição das coisas que tanto amamos. Seja por morder a mãe, o pai, ou quebrar nossos brinquedos, acabamos aprendendo que algumas de nossas atitudes nos privam daquilo que buscamos ter eternamente, a presença deste outro tão importante para nós, em última análise, seu amor.

A culpa sentida pelo afastamento do outro, pela perda "imaginária" do amor do outro, nos é sentida na carne quando crianças. É muito fácil verificar como isto funciona, é só vermos uma mãe, um pai, ou uma outra pessoa importante para a criança dizer a ela, "não faz isso que mamãe não gosta", "não faz isso que papai vai embora"...

A criança para de fazer "o mau" e ao menor sinal de ausência (pode ser verificado nas crianças de até 5 anos, ou até maiores esta fala) elas sentem-se culpadas e expressam-se da forma mais pura esta culpa dizendo que "papai foi embora porque eu não quiz escovar os dentes..." por exemplo.

É interessante ver o quanto nos dói perder as pessoas queridas e amadas e que a culpa depois torna-se uma barreira, para que cultivemos em nós pensamentos e sentimentos, além é claro das atitudes, sempre positivas. 

Podemos então pensar que nem sempre é por causa da culpa, mas também é a vergonha. Bom, só sente vergonha quem reconhece que foi o responsável pelo ato, ou de alguma forma, que reconhece-se como o culpado do praticado.

No texto do Freud "Totem e Tabu" temos uma descrição sobre a culpa como organizadora da sociedade humana. O texto parte de um pressuposto muito mais antropológico, dialogando com Levi-strauss sem deixar de lado o darwinismo característico de muitos escritos de Freud.

É na culpa, como castigo auto infligido, que surge a nossa sociedade.

E a vergonha?

Diante da culpa o primeiro sentimento que se segue é a vergonha, ao menos costuma ser. Enquanto a culpa é algo mais primitivo, que muitas vezes demora a aparecer, como nas depressões tradicionais, como no luto por exemplo, a vergonha aparece como um sinal, um sinal de que fiz algo e alguém viu, mais especificamente alguém que não deveria ter visto.

A vergonha leva-nos a nos esconder tanto de quem não deveria ter visto (como Adão e Eva no paraíso) como, tentar esconder o que foi que aconteceu. As vezes escondemos tão bem, que o acontecido fica recalcado, reprimido, inconscientemente e somente com uma análise profunda conseguimos nos libertar do peso da vergonha e da culpa adjacente.

A vergonha aparece e neste movimento de esconde-esconde, nossas energias ficam mobilizadas para um ideal de auto preservação que nos levam a morte. Como uma bola de neve, as coisas vão sendo encobertas e chega um momento que toda nossa vida acaba girando em torno de uma mentira, descobrimos então que não podemos ser nós mesmos, ou senão algo de muito ruim pode acontecer. Ao menos esta é a sensação.

O problema é que o "algo ruim" é na verdade o reconhecimento da culpa. Este responsabilizar-se pelo ocorrido é o primeiro passo para a uma mudança efetiva e então, de acordo com esta atitude, não apenas o receonhecimento da culpa, mas também de muitos sentimentos ruins que estão atrelados a ela. É como abrir a caixa de pandora onde primeiro saem as pestes, as guerras, os sentimentos mais podres da humanidade que habitam em nós, o desespero, o desamparo, o medo e até mesmo a morte, para que depois de tudo, a esperança possa surgir triunfante como a última coisa que da ao homem a chance de viver e ser feliz.

Seja no mito grego da caixa de pandora, ou no cristianismo com o reconhecimento de sermos pecadores, ou ainda na psicanálise com a consciência da culpa, tudo isso na verdade quer dizer apenas uma coisa. 

Um pouco mais além existe a esperaça, um pouco mais ao fundo é possível uma mudança, depois de sentida a culpa ela não é rechassada, mas assim que é aceita, ela nos traz a possibilidade de nova vida, de partir de um princípio de seres culpados, para um outro fim que não o de culpados.

A culpa é a sentença de morte de alguém, mas reconhecê-la é o início da ressureição, porque simplesmente a partir dela podemos pensar em uma reparação do que foi danificado, uma reparação não de um objeto externo, mas de nós mesmos que fomos destruídos pela vergonha.

Saímos então da morte da vergonha, para a vida de culpados, mas uma vida em que, de alguma forma, sentimo-nos aptos a pagar a pena em que nós mesmos fomos os juízes. Em outras palavras, este pagamento nada mais é do que permitir a virtude florescer.

E como sabemos, as virtudes são o que de mais sublime podemos fazer, podemos ser. Sem nunca deixarmos de lado a lembrança da culpa, mas indo além, indo em direção a uma forma diferente de existir que coexista com a culpa, porque de alguma forma ela sempre estará lá, nos lembrando de nossas fraquezas, mas ao mesmo tempo nos mostrando que é exatamente ali, naquele esterco onde pode florescer o jardim mais belo e perfumado, onde pode haver o encontro consigo mesmo, onde pode existir o encontro com Deus.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Entra e fica um pouco mais...

No coração temos sempre que guardar um lugar para as visitas. 

Existem vários tipos de visitas que podemos de alguma forma "catalogar".







Visita de estranhos:

Aquele tipo de visita que temos no trabalho, no ônibus, no elevador. Com um garçom, com um pedinte, com uma criança, com alguém que não conhecemos, mas que de alguma forma passa por nós. Um sorriso, um bom dia, um olá, um trocadinho, um doce, um beijo, um aperto de mão, essas coisas da cordialidade costumam dar conta destes visitantes.

Neste caso, não temos muita expectativa, as vezes nenhuma, e costumamos nos surpreender com um sorriso, um olhar mais doce, ou até mesmo lágrimas. São o que mais me surpreendem pela espontaneidade, pela transitoriedade do momento, do contato.

Visita de pessoas queridas:

Esta visita é muito importante para nós. Não temos muito o que dizer a estas pessoas, mas parece que em nosso coração de alguma forma guardamos um sofazinho especial. Um jeito de ser um pouco diferente, onde do sofá estas pessoas conseguem ver partes da casa e ter acesso à cozinha, à varanda, à piscina (porque não?). Conseguem passar um tempo maior conosco e ficamos com a impressão de que sempre que passam deixam queremos que retornem em breve. 

Seja por discussões mal resolvidas, por brigas que não acabam, ou ainda e principalmente porque assim como nós os queremos bem, eles também nos colocam no sofazinho especial.

Não importa muito, falarmos de nós para estas pessoas, queremos na verdade é saber delas. Descobrir que estão bem, felizes, e saudáveis nos fazem com que fiquemos bem, tranqüilos. 

Este tipo de visita costuma demorar o tempo necessário, as pessoas costumam incomodar-se um pouco com a presença um do outro e logo logo se despedem, na esperança de aquele seja apenas mais um de muitos outros no futuro.

É na verdade a ausência que faz com que a presença seja sentida, e especialmente essas pessoas sempre demarcar qual lugar em nossas vidas elas ocupam. Deixam nossa existência mais leve, mais interessante e também muitas vezes, dão um outro sentido, nos possibilitando uma forma diferente de olhar as coisas, pessoas e tudo o que nos acontece. 

São presenças importantes de tempos em tempos, fazem falta no dia a dia e sempre que possível costumamos dar alô, seja por e-mail, telefone ou uma visitinha inesperada.

Agora vamos falar sério.

Visita dos que amamos e nos amam:

Se eu pudesse resumir em poucas palavras estas visitas, resumiria como casa da vovó.

Pelo menos para mim, não tem lugar melhor.

É de uma forma simples e sem muita importância que essas pessoas passam em nossos corações até, muitas vezes, desapercebidos. São nossos familiares, nossos amores, nossos melhores e mais queridos amigos. Passam desapercebidos porque sempre estão por perto, não nos deixam em paz, trazem movimento em nossas vidas e nos ajudam sempre a construir nossa rotina.

São essas pessoas que dão um significado em nossas vidas e custam em permitir que nós mesmos damos nosso significado. É impossível dizer que isso é bom, mas é exatamente o sentido que eles dão para nossa vida que nos faz viver e um dia, nos permite ao menos uma vez repensar nossos valores, nosso ser, nosso próprio sentido.

São essas pessoas que costumamos dizer, entra aqui e fica um pouco mais.

São essas pessoas que quando partem sofremos desesperadamente, mesmo sabendo que com elas não existe um adeus. Mesmo compreendendo no coração e na razão, que sempre, onde quer que estivermos eles estarão lá, em nós e conosco, seja com corpo e alma, seja apenas com a alma, seja com as orações, mas sempre presentes.

São essas pessoas que queremos partilhar as boas e também as nem tão boas notícias da vida.

Com estas pessoas as surpresas não são tão comuns, na verdade são raras. Sabemos sua forma de sorrir, de chorar, de lamentar, de agradecer, de desculpar, sabemos mais um menos sua forma de ser. E é gostoso que seja assim. É gostoso não porque é fácil, nem porque é cômodo, mas é justamente porque assim como na casa da vovó, é o único lugar que temos como referência e que não importa aonde formos e por onde passamos, com essas pessoas sempre encontraremos um quarto com a cama arrumada para repousar.





segunda-feira, 30 de maio de 2011

O futuro que nos pertence...

Ter um desejo e mantê-lo, mas até quando?

Até quando um desejo é prazeroso e nos mantém em um reto caminho para que ao final nós enfim conseguimos conquistá-lo?

Até que ponto nossas atitudes, no presente, realmente irão nos garantir com alguma segurança um futuro no qual iremos gozar de nossa árdua labuta diária?

Qual é o método de segurança, cientificamente falando, que nos permita ter alguma segurança de que o que fazemos hoje realmente está sendo contado e no fim, validará nossos esforços com o prêmio almejado?

Essas perguntas permeiam nosso cotidiano de uma forma até que absurda. São tão fortes nos nossos afazeres diários, no nosso cotidiano, que se não estão em evidência, ao menos aparecem em alguns momentos de lapsos, quando as defesas caem, e no mercado, compramos dois pacotes de macarrão, um para hoje e outro para amanhã.

Nada me garante que estarei vivo amanha, como diz a Sagrada Escritura, mas não quero partir para este extremo. Quero antes de tudo deixar claro uma e tão somente única coisa. A única "coisa" que me garante algo é justamente a inexistência de garantias.

É na inexistência de garantias de um futuro que estudo, que trabalho, que me alimento um pouquinho mais e acabo engordando. Sempre engordamos pois nunca sabemos quando irá faltar. Este pensamento, mesmo que inconsciente, move nossa vida de alguma forma como uma marionete é movida. Compro um, dois livros, até três, pois preciso engordar as idéias, vai que um dia me falte. Compro duas lasanhas de caixinha, uma de cada sabor, vai que amanha me falte para comer.Vou na oficina arrumar o carro, limpa aqui, limpa ali, troca isso, aquilo, dá uma olhdinha ali também, nunca sei quando vou precisar/poder voltar.

Uma hora falta comida, outra hora falta informação, falta maiores explicações, nunca estarei 100% garantido, 100% sabido, 100% compreendido, sempre faltará alguma coisa, sempre haverá um espcinho para ser tamponado por alguma coisa. Sempre faltará, nunca completo, nunca finito, nunca satisfeito, nunca garantido.

Movemo-nos na construção de um futuro, baseando nosso presente em uma falta. Este movimento do desejo, da busca por uma completude, por uma suficiência é interessante e até que de certa forma muito necessário, porém existe um outro caminho.

Escrevo isso, caros leitores, como uma carta para mim, para você, para quem precisar sair um pouco da rotina do falta-me por isso busco, por isso faço, por isso e em função disso vivo.

Apresento um outro caminho, o caminho monástico das pedras.

Uma inversão radical, mas possível na forma como me compreendo e como desejo viver. Um ideal, e por isso mesmo uma constante busca, compreendendo que, como escrito anteriormete, só busco porque me falta esta forma de ser, esta forna de viver.

Vivo, por isso falta-me, por isso busco, por isso desejo.

Vivo, por isso faço de minha falta um desejo de caminhar. Não caminho porque me falta algo, ao contrário, me falta, por isso caminho.

Reconhecer que falta-me ser, que falta-me existir um pouco mais, que falta-me tentar outra vez, reconhecer em meu cotidiano, no presente que faço isso não em nome de um futuro, mas em nome de uma falta que busco com as minhas condições, não tamponar, mas de alguma forma suportá-la faz toda a diferença.

Suportar a falta, o buraco vazio, o sem sentido do sentido da vida, e com isso elaborar uma nova e radical forma de viver.

Parece simples tudo isso, mas não é.


Nos mosteiros beneditinos há uma forma serena de levar a vida. Não porque é fácil, mas porque lhes falta sempre alguma coisa, e nestas faltas há um movimento, não para conseguir algo, mas para reconhecê-la e aceitá-la com todo amor. A falta de Deus e esta falta eles buscam não completá-la com outras coisas, e nem com o próprio Deus, pois Ele está em outro plano, como no labirinto, em que a proximidade de seu fim ultimo e desejo, é na verdade o reconhecimento de um longo caminho ainda a percorrer.


Reconhecer a falta e poder estar em paz com ela, pois ela não é preenchida com coisas, e muitas vezes, muito menos com sentimentos, com afetos, é de uma falta real, falta de sentido, vazio.

Reconhecer que entre eu e meu desejo mais profundo, o de um futuro no qual eu esteja seguro na verdade não é um futuro possível, a segurança de ter nosso objeto de desejo só nos deixa em duas posições, a primeira como eu desejo e corro atrás para satifazer-me com o que posso. A segunda é a forma de vida mais filosoficamente ligada ao monges, aos cristãos primitivos. Existe uma falta, que eu não posso suprir, existem coisas outras que eu não posso dar conta, e aceitá-las é, de uma forma ou de outra, apenas viver o luto de uma ideologia em que eu poderia de certa forma ter tudo, de ser tudo, de ser todo.

Passo então de construidor de um futuro "enlatado" em meu desejo e correndo muitos riscos de frustrações desnecessárias para um luto de uma idéia, de uma forma de vida, de mim mesmo como alguém que quer construir algo em torno de uma falta, de um desejo, para uma outra pessoa, uma outra posição.

Esta nova posição me permite ver a falta, senti-la, e de alguma forma, construir não sobre ela, mas de um jeito independente dela. Ser faltante e compreender isso, mas não dar valor ao que falta, que por sinal é "invalorável" mas apenas ser um faltante a mais, e construir ao lado da falta, até mesmo com a falta uma nova vida.

E por acaso não é isso que fazemos quando nos damos conta que não temo dinheiro para pagar um Iate ou um Jatinho particular?


sexta-feira, 27 de maio de 2011

Ser ou não ser (TEORIA) - Eis a Questão (prática)

Continuação do post anterior - Ser ou não ser (teoria):

Recebemos então um nome ao nascer e com este nome todo um desejo de pessoas que nos geraram, ou ainda, que nos deram este nome.

É muito interessante saber da onde veio o nome de cada pessoa. Acho que ainda mais interessante é descobrir as lendas e mitos que explicam o porque, a história de nossos pais terem colocado este nome na gente. É no mínimo muito engraçado.

Alguns casais por exemplo, escolhem o nome muito antes de seus filhos sequer aparecerem enquanto zigoto. Antes mesmo de qualquer vontade de engravidar, o casal já vai escolhendo o nome dos filhos. Mesmo que os filhos demores mais de 10 anos para poderem existir. ´

O nome das pessoas ainda remete ao seu passado, mas também ao que é esperado dele para o futuro. Colocamos no nome um desejo e, a partir deste desejo, esperamos que tudo se realize. Como nos casos em que o casal escolhe o nome de Felipe porque lembra um amigo muito engraçado, ou espera que a criança seja sapeca.

A coisa do nome realmente me intriga e intriga muito. Na falta de um objeto real e da permissão para que aquela pessoa possa se desenvolver como sujeito, antes mesmo de qualquer indício de existência já existe um nome, já existe um desejo. Isso na teoria lacaniana chamamos de desejo materno, função materna, que é o desejo pela existência de um não existente ainda. Isto é extremamente importante para o início, para o desenvolvimento de cada pessoa, mas pode ficar complicado...

Responder sempre ao desejo do outro, ser exatamente sempre aquilo que esperam de você é destruidor da existência humana. Arrisco-me até mesmo a comparar esta total devoção e entrega ao que o outro quer de mim à inexistência de um sujeito, de alguém, de um ser.

Muitas pessoas reclamam que são isso ou aquilo, mas nada fazem para mudar. Ficam sempre na mesma posição, como se seu nome atingisse tal grau de identificação com as coisas que a pessoa representa, que poderíamos dizer que o nome de determinada pessoa virou até mesmo adjetivo, qualidade.

Perde-se justamente a dimensão do sujeito, da pessoa, para ser apenas aquilo que a pessoa é, e não tudo aquilo que ela também pode ser.

De alguma maneira a posição adotada pela pessoa em relação ao seu nome (aquilo que a representa) pode ser boa ou ruim. Podemos criar super heróis, como o Batman, que seu nome torna-se muito além da pessoa que ele é, assim como o homem torta (personagem do homer simpson) onde o herói acaba tornando-se alguém outro, o nome não pode ser identificado com ninguém. Mas temos também o lado dos vilões, como em Harry Potter em que o nome não pode nem ser pronunciado.

A questão real é que, ligado ao nome, existe toda uma história, todo um jogo de relações já estabelecidas e que não desaparecem simplesmente porque fulano mudou, ou porque fulano morreu. Justamente assim como as transformações pessoais demoram, levam tempo, não são fáceis, assim também são as mudanças que devem ocorrer diante dos outros. Algumas coisas mudam, outras não, até que um belo dia, depois de muito penar, muitos mal-estares e novas percepções, as pessoas percebem que algo mudou, está diferente e começam a verem uma nova pessoa para além do nome.

Na prática, "ser" está muito mais ligado com o outro do que consigo mesmo. O ser construído através do desejo do outro pode se concretizar, eliminando todo o sujeito (como na paixão), assim como pode abrir novas perspectivas de relações, de existência (como é o caso do amor). O que importa na verdade acaba sendo que entre o ser e o não ser ocorre um movimento, como que um vai e volta, como uma relação dialética e que, caso a pessoa esteja presa no ser, será aquilo, cristalizada, morta para sempre no desejo dela, ou de outra pessoa.

É apenas no não ser que se dá o movimento de ser algo a mais, de poder ser diferente do que se é, mesmo que seja parodoxal este pensamento, é apenas ainda não sendo o que tanto busco, que tenho o prazer de buscar, a possibilidade dde um dia ser o que tanto quero. Uma vez que se é, se é e pronto, mas devemos sempre lembrar que existem outras possibilidades de ser, existe sempre um algo a mais que nos movimenta para frente.

E então? Quem, ou o que, você quer ser? Não importa, simplesmente seja, exista, viva!!!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ser ou não ser (TEORIA):

"To be or not to be" em Hamlet do mestre Shakspeare.


As pessoas buscam tantas coisas nessa vida que acabam se perdendo dentro de si mesmas. As vezes buscamos explicações, buscamos razões, buscamos tanta coisa que nos indique quem somos nós que acabamos deixando de lado nossa definição mais trivial e também aquilo que mais fala sobre quem sou eu. Nosso próprio nome.


Nosso nome não diz muito da gente, mas diz sobre quem sou eu. Diz que há alguém que existe para um outro e que neste existir para alguém espera-se algo dele, tanto de quem existe, quanto do outro que me permite existir.

É interessante ver como dizer o nome de alguém pode mudar toda a história de um objeto, animal, ou mesmo e principalmente, de uma pessoa. É interessante saber que as pessoas que mais marcam nossas vidas são aquelas que de uma forma ou de outra, jamais esqueceremos seus nomes. Podemos esquecer quem são, o que fizeram, ou ainda nem sequer lembrar da voz, da fisionomia, ou do porque que ela foi um dia importante, mas seu nome, é muito mais díficil de ser esquecido.

Lembro-me do nome de duas professoras que tive. Uma delas pegava muito no meu pé e eu a odiava. Era professora de português e como eu odiava aquela mulher que todo dia brigava comigo porque eu não fazia a tarefa. Final do ano lembrei-me de estar feliz porque ganhei uma estrelinha por uma "redação" que eu havia escrito. E hoje meus amigos, só lembro-me do nome dela, Patrícia.

Seu nome me remete a uma parte de minha história. Claro que o nome não quer dizer que seja ela, mas por alguma razão o nome dela condensa todo o ser que ela foi pra mim naquele momento.

É o nome que procuramos desesperadamente lembrar quando encontramos alguém na rua.

Quando alguém não lembra nosso nome, ficamos sentidos, parece que não significamos nada, ou que fizemos muito pouco na vida do outro. É sempre ao nome que estão ligados uma série de sentimentos bons e ou ruins que guardamos. Alguns dizem "Não quero nem ouvir o nome de fulano".

É esta parte de nós, parte falada, que nos define enquanto pedaço de história na vida do outro, enquanto alguém que é, que existe e que também ocupa um espaço, mais ou menos bem difinido, na linha do tempo.

É legal pensarmos o nome como uma continuidade genética. Passada de pai para filho, diferente do DNA este é visível. É o nome que nos identifica com uma causa, por exemplo quando estamos em um grupo e damos um nome ao grupo, muitas vezes nos identificamos tanto com a causa que aquele grupo passa a ser nosso sobrenome. Assim era feito na idade média com Dom Luíz de Bragança, por exemplo, ele é o Luiz que veio de bragança, pronto, tá aí o nome definindo quem é e da onde veio, e o que faz (dono de bragança).

Mas o nome é só um conjunto de letras que produz um som ao ser enunciado.

"O significante (nome) é apenas o som da palavra esvaziado de sentido, como uma palavra estrangeira desconhecida ou o nome próprio que, embora designe, nada significa. Se não se conhece ninguém que responda por aquele nome próprio..." (Quinet, A. "A descoberta do inconsciente")

É isso mesmo, assim como os nomes nos designam, nos colam a uma representação gráfica e também a uma representação de um som, eles nada significam, nada falam de quem o possui, ao não ser que quem o possui chama-se fulano ou beltrano.

O nome pode falar, pode representar, mas acima de tudo diz de alguma coisa, de alguém, mas sempre ligado a minha história, ao que eu compreendo por aquele significante, por aquele nome.

Isso faz uma diferença danada quando quando pensamos sobre a identificação e a dificuldade das pessoas serem de forma diferente, de mudarem, de serem alguma outra coisa diferente daquilo em que estão acostumadas a ser.

Aguardem para o prosseguimento deste texto: Ser ou não ser (Prática).

sábado, 21 de maio de 2011

A banda mais bonita da cidade:



Gente, um ótimo fim de semana a todos... Fiquem com esta banda maravilhosa, um som muito gostoso de ouvir e uma qualidade na produção do vídeo, na criatividade e no entrosamento que eu ainda não havia visto por aqui...

Abraços, fiquem com Deus e Lembrem-se que depois de Domingo sempre chega a Segunda-Feira, rs.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobrou muita coisa depois de perder...


É gente, os sonhos são assim mesmo, a gente os têm e depois dá um trabalho danado para des-sonhá-los...




Estava fazendo o balanço e comecei a riscar uma por uma minhas vontades. Toma nota e vai riscando: 

Óculos de sol ferrari ou da rayban 
Barquinho para pescar com motor
viagem ao paraguay
filmadora hd da sony
pedir a namorada em casamento
comprar um carro
comprar coisas novas
comprar novos livros
viagem no fim do ano
viagem no começo do ano
pagar contas
ver apartamento para morar
voltar para terapia

Bom gente, tem muito mais coisas que não conseguirei mais tão cedo, mas tudo bem, pelo menos por enquanto. Agora eu estava percebendo neste movimento de riscar sonhos que todos eles se resumem a uma única coisa: Dinheiro.

As pessoas ao lerem este post podem estar pensando: "mas como assim? Eu não achava ele tão materialista como esse cara deste post riscado." É que percebi que o que foi riscado, os sonhos que me foram postergados, não era O sonho real. Este continua imutável, idealizado para um futuro incerto do qual talvez eu nem me de conta de sua inexistência. 

De fato, o que restou foi a essência de uma possibilidade que estava guardada por trás de todos estes bens de consumo. O sonho de passar no mestrado e continuar minha vida acadêmica escondia por trás um certo orgulho, mas também uma paixão, um tesão (não tão recalcado assim) de estudar mais e mais, de poder ganhar dinheiro com os estudos ao invés de apenas gastar, e também, lá no fundo, de ser uma pessoa melhor.

Vejam que parece que está intimamente associado o mestrado com todas essas condições que eu coloquei ali em cima. Mas por favor, não caiam no mesmo engano que eu. 

Não tem nada a ver isso tudo com passar ou não no mestrado, o que tem a ver, e ainda por cima porque eu quis que assim fosse, é simplesmente que eu colei estes meus ideais pessoais a um outro ideal social: o título acadêmico. 

Não é fácil reconhecer que errei. Não é fácil olhar-se no espelho e pensar que este lambari estava caminhando perigosamente no meio de tubarões. É que tubarões não comem lambaris, mas a arrogância do lambari, assim que fosse a um rio menor e encontrasse piranhas, iria passar pensando que é tubarão, não sobraria nada de mim.

É minha gente, não foi um erro tentar, mas pensando bem, foi erro achar que eu estava pronto para este desafio, este tão grande sonho que ficou para depois. Adiado indefinidamente, mas para um momento no qual eu de conta ao menos de mim mesmo.

É impressionante saber que mesmo com análise, amigos, espelhos em nossas casas, ainda colocamo-nos em um lugar que não diz de nós mesmos no hoje. Parece-me que quando se trata de sonhos, não saímos ainda do "estagio do espelho" como diria Lacan. Olhamos para o espelho e já nos vemos inteiros, nos percebemos dentro do sonho, mesmo sem ser aquilo tudo ainda.

Quebrar o espelho e ver-se em cacos, em pedaços, ver-se faltante, ver-se real, é aterrorizante para alguns. Para mim já foi muito mais do que é hoje. Afinal de contas, se me falta é porque ainda tenho muito para conquistar, muito para crescer, muitas coisas para fazer. E como gosto desta posição de não todo, de faltante de buscante (esse termo é meu hein gente, rsrsrsrs). 

Resumo da ópera, ao contrário do que algumas pessoas podem estar pensando, não estou triste, passei na prova, no mais difícil, mas não posso dizer que estou feliz por ter sido desclassificado, apenas estou olhando para o chão, revendo os pedaços que quero que fiquem e tentando de alguma forma reconstruir com os cacos um lindo mural, sem separar sonhos de realidade, mas montar dessa vez da forma como eu quiser, da forma como eu me vejo, ou ainda, como eu gostaria de ser.

Fazer arte, nos dois sentidos, porque afinal de contas o sonho não acabou e o artista de minha própria história e vida, com a ajuda de Deus, sou eu...

Daniel Toledo e o Homem Espelho

 
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