sábado, 30 de abril de 2011

É fim de semana:

Gente, é fim de semana, dias de negar parcialmente as tentativas de sermos gente para sermos um pouco mais bichos preguiças, para fazermos o que realmente nos mibilizou na semana e não deu tempo, para descansar, para festejar, para distrair, para estar com a família...

Bom, é interessante que muitas vezes o fim de semana não é tudo aquilo que as pessoas esperam. Muitas pessoas hoje em dia tem uma dificuldade infinita qundo chega este momento. Alguns ficam na solidão, sentem-se desamparados, ficam em suas casas vendo televisão rezando para que o telefone toque e seja algum amigo convidando para alguma coisa. Não conseguem ligar para os amigos porque não os julga ter, ou ainda, porque realmente não tem. É muito triste o fim de semana para pessoas assim.

Algumas pessoas quando chega este momento de aproveitar (principalmente os adolescentes) acha uma chatice porque fim de semana os leva inevitavelmente a um encontro com a família e consequentemente a um des-encontro consigo mesmo, com seus amigos, com o que desejava fazer. O fim de semana não pode ser bom porque torna-se justamente o contrário do que deveria ser, em vez de um descanso e uma "liberdade" torna-se uma obrigação, um fardo, e com ele as brigas entre marido e mulher, pais e filhos, primos, tios, tias, vira uma bagunça só.

Existe também aqueles que no fim de semana desesperam-se nas contas do mês. Todo fim de semana faz um balanço do que gastou e do que irá ganhar. Alguns não conseguem ficar relaxados porque não estão trabalhando, o trabalho é tão identificador destas pessoas que ficar sem trabalhar é o mesmo que inibir qualquer forma de prazer. O trabalho vem sempre em primeiro, mesmo que não seja no escritório, ele acaba aparecendo na fala daquele que não consegue descansar, fala do serviço, do que foi feito, do que deveria fazer, fala de um momento diferente do agora, de um outro momento que nem mesmo ele tem a capacidade de prever, fala do ontem e do amanha, que fim de semana mais cansativo.

Alguns ainda conseguem aliar seus trabalhos com a diversão, trabalham no fim de semana em bares, boates, ou outros lugares que tenha público. Os "workaaholics" por exemplo podem encontrar uma chacara, um jardim, uma fazenda, apenas para não parar. E a vida vai passando.

É minha gente, a vida vai passando e o fim de semana está aí para comprovar isso. É uma pausa, uma quebra na rotina diária (ao menos deveria ser) para nos alertar que aproveitar alguma coisa, algum momento também é importante. O trabalho pode ser extremamente prazeiroso, mas também há outras coisas por aí, uma piscina, uma rede, um sofá, uma cama, um tapete, algum lugar para ficar mais a vontade que normalmente os dias da semana não permitem.

O que não foi permitido nos dias da semana deveríamos repensar e talvez agir justamante no fim de semana. Um jantar com aqueles amigos que há muito tempo não viamos, uma viagem a algum lugar perto só para aparoveitar o dia, até mesmo assistir faustão com as videos cassetadas.

O fim de semana é este momento em que fazemos alguma coisa só para dizer que não estamos fazendo nada, perder esta oportunidade é o mesmo que não parar nunca, nossa, como isso me cansa...

Bom fim de semana a todos pessoa, a foto é do lugar que eu queria estar, mesmo sem saber onde fica, um lugar para descansar... Abraços e obrigado cada vez mais pelas visitas, comentários, apoio e carinho com que todos vocês tem com o espaço Psicotidiano.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Encontro temático em Psicanálise

Bom, segue abaixo o e-mail da Sandra Turke que organiza tanto o ENCONTRO TEMÁTICO quanto o GRUPO DE ESTUDOS que estamos divulgando aqui no Blog...

Oi Pessoal!

Já está disponível o link para que vocês possam efetuar as suas inscrições no "Segundo Encontro Temático em Psicanálise" deste ano. Será no dia 13 de maio no anfiteatro maior do CCH/UEL das 13:30h às 17:30h e serão (no prazo de até 60 dias) fornecidos certificados de evento de extensão. Estudantes pagam 20,00 e profissionais e demais pessoas da comunidade pagam 40,00. O evento é aberto a todos os interessados e o ministrante será o Prof. Dr. Daniel Omar Perez Filósofo e Psicanalista / Curitiba - PR. com o tema: "As formações de grupos, os projetos e as instituições". É só acessarem a página www.hu.psc.br.

Estamos esperando por vocês!
Um Abraço!
Sandra (3371-2351)

Reuniões de Quarta-Feira

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"O segredo de seus olhos" - Sobre o filme

Um filme surpreendente. Traz a tona sentimentos ímpares em que parece nos afetar com algo que vem de dentro e não de fora. Como se o filme fosse responsável por despertar em nós alguma coisa adormecida, ao invéz de trazer para nós alguma coisa que estava (ao menos supostamente) do lado de fora. Vamos ao cinema, ou assistimos a um filme, de comédia por exemplo, e esperamos que de alguma forma aquele tempo traga até nós um certo sorriso, uma certa distração. Vamos ver um filme de terror quando queremos nos deparar com alguma coisa que nos traga medo, ou para rir justamente diante do medo. Bom, o que quero dizer é que mesmo que em uma análise mais superficial os filmes normalmente nos afetam da tela para nossa psiquê, este filme é um pouco diferente. Não nos afeta de fora para dentro, mas nos traz aos poucos, com uma pitada de humor inteligente, toda a trama se desenvolve de forma quase que aleatória do tema principal do filme.

Acho que se fosse uma redação de vestibular o roteirista seria sumamente reprovado, com chances de ter sua história nos e-mails de pérolas do vestibular. Reprovado no quisito "fuga ao tema", mas é exatamente por causa desta fuga que se descobre no final vários temas que estão sempre se achegando perto, esbarrando, mas nunca chegando ao ponto de fato do tema principal deste romance, a impressão que se tem é de que no máximo os temas adjacentes tangenceiam o tema principal.

Podemos dizer isso de uma análise feita no divã, podemos dizer isso também deste filme, mas sobre tudo, devemos reconhecer que o filme representa com uma estranheza ímpar a vida humana, o cotidiano de um homem que vivie 25 anos distraindo-se para depois reconhecer que o tema de sua vida é um só e sempre será este o grande início e fim de sua vida.

Encerrando com os dizeres "será complicado" mas com um sorriso nos lábios os atores demonstram que viver, que amar, é muito fácil, mas fazer algo com este amor, colocá-lo em prática na realidade do dia a dia, é aí que mora a complicação. A dificuldade está presente em realizar por fim o desejo, o que implica de certa forma passar da posição de desejante para, enfim, completo.

Opa, alguns teóricos lacanianos, freudianos, ou psicanalistas (ou mesmo muitos estudantes) podem estar se arrepiando com este "completo". Mas não podemos negar que enquanto a fantasia funciona, de certa forma, a relação fantasmática que estabelecemos com nosso objeto de desejo nos torna completos, mesmo que imaginariamente. Angustia sim, porque significa morrer frente a uma posição ocupada durante toda uma vida, uma vida de paixão, de busca, de desencontrar-se para não ter que se haver com uma possibilidade de "ser" de outra forma. Mas ao mesmo tempo ao encontrar e possuir o objeto de desejo, morre-se o buscante para dar lugar ao satisfeito, ao pleno, ao amante.

É bem isso que nos desperta o filme todo. Uma estranha sensação de sucessões que se sucedem mas que de alguma forma não dizem nada. O que falta, a letra "a" que segue faltando até o final, mas que possibilita essa reviravolta em toda a trama, é o signficante que liga todo o filme e ao final podemos enfim, como despertar de um sonho que parecia muito mais um pesadelo, perceber que durante todo o filme o roteiro fazia sentido. O tema não era o segredo dos olhos, nem o assassinato, nem a busca, muito menos as formas de amar, de maltratar, de justiça, de vingança, não meus amigos, o segredo do filme é o mesmo segredo da vida, é o segredo do amor.

terça-feira, 19 de abril de 2011

FELIZ PÁSCOA...

FERIADO PESSOAL...

GOSTARIA APENAS DE DEIXAR AQUI MEUS VOTOS SONCEROS DE FELIZ PÁSCOA A TODOS OS VISITANTES E AMIGOS DO BLOG...

ESTOU INDO VIAJAR E PRA DAR UM TEMPO NÀO VOU POSTAR ATÉ MEU RETORNO... MAS FICA AQUI UM POUQUINHO DO QUE VIRÁ LOGO EM SEGUIDA:

INSCRIÇÕES PARA O ENCONTRO TEMÁTICO COM O SEGUNDO TEMA DO ANO.

GRUPO DE DISCUSSÃO EM PSICANÁLISE CLÍNICA GRATUITO NA UEL DIA 27 DE ABRIL.

UM POUCO MAIS SOBRE O IMAGINÁRIO, UM POUCO MENOS SOBRE O REAL.

ENTRE ALGUNS TEXTOS OUTROS JÁ ESCRITOS SOBRE A PSICOPATOLOGIA NA ÓTICA PSICANALISTA...

UM ABRAÇO A TODOS E MAIS UMA VEZ MUITO OBRIGADO PELAS VISITAS, COMENTÁRIOS, APOIO E ACIMA DE TUDO PELO CARINHO DE TODOS VOCÊS. LEMBREM-SE SEMPRE QUE ESTE ESPAÇO TAMBÉM É VOSSO. COMO EU NÃO IREI ESCREVER NADA, SE ALGUÉM QUISER, SINTA-SE LIVRE PARA POSTAR NO BLOG.

domingo, 17 de abril de 2011

Um lugar pra chamar de meu:

Fazia tempo que eu não ficava tão sozinho em um sábado a noite.

Ao invés de namorar, de sair, de jantar com pai ou com mãe, de um filme, de um cinema, de pipoca, de alguma coisa fiquei só. Estranhamente, este momento de estar só foi devido a um desentendimento. Simplesmente para não continuar com uma discussão a qual já dura anos e que eu não tenho perspectivas de vencer ou perder, porque não acabará nunca, resolvi dar um tempo pra mim. 

Fui caminhar pelas ruas da cidade, sem chorar, sem sorrir, sem hora marcada para voltar, sem coisa nenhuma para fazer depois, sem vontade de nada, apenas de continuar caminhando. Meu objetivo era de simplesmente continuar caminhando e de alguma forma, manter-me longe de qualquer diálogo, de qualquer pessoa.

Entrei em uma Paroquia aqui de Londrina e para minha surpresa já er missa de Domingo de ramos. Quantas lembranças, quantas saudades. Revi o Pe Joel, um amigo meu dos tempos de grupo de oração, ele ainda perguntou se eu havia ressucitado. Disse a ele que ressureição é só domingo que vem...

Não fiquei para a missa, apenas passei para descansar um pouco. Ainda estava longe de minha casa cerca de 1km e meio. E ainda por cima tinha uma subida enorme para eu enfrentar. 

No banco da Igreja pude pensar com calma aquilo que tanto eu pensei dolorasamente na terapia e por uns tempos na vida. Cheguei a conclusão de que eu não tenho mais um lugar. Não tenho mais um canto, um pedaço de espaço que é meu. Não participo mais de grupo de oração, me sentia deslocado lá dentro. Não tenho mais casa que eu possa chamar de lar. Tenho a casa de minha mãe, de meu pai, de meus avós, de minha namorada, mas meu não tenho nada.

É meus amigos, poderia ser triste, mas aos poucos a gente se acostuma com a idéia de ser peregrino, de ser um andarilho na vida.

Durante muito tempo eu buscava um lugar para eu poder descansar, fazer minhas traquinagens, cozinhar minhas receitas tão batidas, mas tão saborosas. Ficar sozinho, ficar acompanhado, chamar quem eu quisesse para entrar e ficar um pouco mais. Um lugar para ser feliz.

Lembrei de meus tempos de infancia onde ia para praia, casa de meus avós maternos. Eu podia jurar que lá era esse lugar. Onde as pessoas me amavam, cuidavam de mim na medida certa. Onde eu aprontava e a repreensão vinha em forma de conhecimento, e de nova chance, e de carinho, e não de tapas, de broncas, de dores, de medos. Até o tapa que levei na boca de minha avó (havia falado que ela era uma ...., deixa pra lá) veio em forma de uma picada de abelha, mesmo com a dor, era ela quem fazia o mel. Ensinou-me a respeita-la quando ao me bater chorou, por que não queria ter feito aquilo, mas eu precisava daquilo. Entendi a lição e nunca mais falei palavrão aos meus avós, seja maternos ou paternos...

Lembrei-me que lá era onde eu sempre queria estar. Mas esse lugar nunca existiu de fato.

Não era um lugar realmente físico, um espaço, era um ligar no coração das pessoas que moravam por lá. Esse é o lugar que eu tabto busquei.

Hoje, sem ter um espaço acho até bom, porque aprendi que não importa aonde eu vá trago saudade e deixo saudade. Trago o carinho e deixo o amor. Sabe, é um jeito sofrido e muitas vezes doído de viver, ninguém quer partir, ninguém ficar no desamparo de viver uma juventude sem ter um canto para chorar, sem ter um canto para ficar só, sem um lugar para ter seus segredos.

Foi justamente descobrindo que meu lugar é onde eu estou, no coração das pessoas que amo e que me amam que a minha definição de lugar se alastrou para o mundo inteiro. Hoje, meu lugar é do tamanho de meu desejo de ir e vir, e também de ficar, de ficar um pouquinho aqui, um pouquinho ali, mas sempre de passagem, deixando muitas vezes um gostinho de que eu quero voltar.

É assim na casa de meu pai, sempre que saio quero voltar. É assim na casa de minha avó materna, saio porque ainda sinto que nada vai me tirar do lugar de amado por eles. É assim na casa de meus avós paternos, é assim na casa de meus parentes, amigos, e até mesmo na casa de Deus.

Um lugar para chamar de meu eu não tenho, mas por outro lado, aos poucos fui percebendo que na verdade eu não preciso mesmo disso para ser feliz, preciso de corações, de amar, de ser amado, preciso um lugar para chamar de nosso e esse lugar não é nunca um só, são tantos quantos os corações que cativei em minha vida.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Fragmento do Filme - Ilha do medo

E de repente surge no diálogo sobre a mulher que supostamente havia desaparecido:

"- Ela pensa que todos estamos represantando um papel, um é o leiteiro, outro o carteiro, outro o policial, alguns são vizinhos."

Ela está certa, pensei eu, na vida todos nós atribuímos papeis para as pessoas que nos cercam, o problema é que não podemos cristalizar cada pessoa com uma função pré-definida e imutável, isso é da loucura. Assim como como o amor é a loucura de cristalizar o outro no papel de eternamente amado.

Eu fico com a loucura do amor. 

Amo a todos que amo, cristalizando as pessoas nesta posição de amadas e me permitindo que elas também façam o mesmo comigo. Temos que pensar que as posições ocupadas podem variar, podem mudar, tudo bem, concordava muito com isso, mas agora penso diferente.

As pessoas não precisam mudar, porque simplesmente podem ser carteiras e vizinhos e vigias e amigos e professores e alunos e amados e odiados e tudo isso tudo junto e ainda mais, muito mais do que eu possa imaginar. Podem sim, desde que eu não perca o sentido de que as pessoas são pessoas de verdade e que também representam papéis em suas próprias vidas. 

Um filme legal, mas que é um pouco impossível de ver duas vezes porque uma vez sabendo do final, pareceu-me que toda a trama perde um pouco o interesse, mas talvez seja só minha obessão por novidades... 
Bem, de resumo fica aí a dica, para quem ainda não viu, um filme espetacular. Para quem já assistiu, talvez valha uma pipoquinha num dia frio...

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Memórias - Recordando as lembranças.

Re - Cor - Dar

Definição dada pelo dicionário na web.

Recordar - recordar (re-cor-dar) v.t. Fazer voltar à memória, lembrar. Ter semelhança com, fazer lembrar. Rever, repassar matéria lecionada. v. pr. Lembrar-se.


 

Podemos pensar, ao desmembrar o significante (palavra) em outros significantes (sílabas), em três palavras distintas, ou seja, de um significado, dentro da mesma palavra, só que agora desmembrada, podemos reitirar mais tres significados.

Re - Esta sílaba remete-nos a uma repetição, a um fazer de novo, a uma posição ativa sobre uma outra palavra, um outro fazer que irá aparecer na frente desta sílaba, por exemplo neste caso Re-cordar, podemos ter aqui mais um significado, que é de dar corda novamente. Se pensarmos nossa memória como uma linha, poderíamos utilizar esta metáfora exatamente para descrever que lembrar é justamente dar corda ao processo de lembrança, de leitura da linha da vida, lembrando que existe um RE aí na frente que nos leva à compreensão de que isso é um processo que se repete, que acontece repetidamente.

Cor - Podemos ver esta sílaba como vinda do Latim Core, que significa coração, o lugar onde, no imaginário popular, habitam os sentimentos. Mas também podemos ir simplemente para o português e pensar em Cor como uma cor que dá um colorido. Não creio que uma coisa seja diferente da outra. Na verdade tanto sentimentos quanto as cores são o que dão um gosto especial para a vida. Nos testes prisológicos por exemplo cada cor significa um sentimento ou um conjunto deles. Então se definimos como coração ou como cor, podemos pensar na mesma coisa, no colorido que os sentimentos dão a nossa vida.

Dar - Bom, aqui a coisa pode complicar, dar é um significante que merece certo cuidado. Aos distraídos de plantão podem passar para o próximo paragrafo, aos que querem uma jornada em minha mente podem continuar a leitura daqui. Dar - Tem vários significados, pode ser um presente, um beijo, um abraço, um sorrido, pode ser de coração ou não. Dar de coração como vimos no paragrafo anterior pode ser uma fgorma única de dar em que ao realizar esta ação um colorido se abre frente a quem recebe e a quem dá. Mas também existem as dádivas por obrigação, por regra, por dever. Não há um colorido, não há uma emoção, um sentimento maior em realizar a obrigação, pelo menos não normlemente, mas, podemos pensar que também há quem dê de coração mesmo fazendo a obrigação de ter que dar. Dar também pode ser compreendido como uma forma de desfazer-se, desfazer-se de algo, o que implica um trabalho de despossuir e possuir com um outro outra coisa que não o objeto dado. Por exemplo ao dar um presente a uma criança damos um presente e ganhamos algo em troca, um sorriso, um beijo, um muito obrigado, mas em suma, cria-se um vínculo que está além do presente, que está acima do colorido do que o presente pode dar, ganhamos enfim um pequeno amigo (Acho que descrevo uma criança porque elas são mais fáceis, embora sempre haja uma criança dentro dos adultos). Dar pode ser então compreendido como trocar, como uma via de mão dupla, embora o objeto (coisa, sorriso, amor, carinho) se perca para quem dá, têm-se o retorno de algo maior, algo mais sublime, ou as vezes apenas uns trocados a mais.

Mas...

Quero ficar com a definição que pode ser utilizada na clínica psicanlítica: Dar - na clínica dá-se a um outro algo que não se tem condições de, no momento, possuir, e que será devolvido na medida do possível. Na clínicam, o analisando (cliente, pessoa, paciente), entrega suas lembranças ao analista e aos poucos o analista as devolve na medida em que ele pode suportar o significado que aquilo tudo tem. Então dar para este texto terá simplesmente a finalidade de compreendermos algo que é dado, mas que não foi perdido, ao contrário, que está sendo partilhado.

Juntando tudo isso então temos o RECORDAR - Vamos de trás para frente, seguindo minha forma de ler jornais:

Dar - Partilhar com analista as memórias
Cor - Identificar nessas memórias as cores de cada uma
Re - Repetir o processo

Mas até quando?

Bom, até quando a corrente de memórias e cores fizerem um sentido. As memórias estão "na nossa mente" e de certa forma muitos confusas. Neurológicamente podemos podemos pensar como uma corrente de neurônios que se entrecruzam e se comunicam de forma meio desorganizada, meio embolada, uma palavra ativa este centro, esta bola de neurônios que se comunicam e aparece tudo de uma vez. O processo de análise vai como que desembaralhar tudo isso e mostrar qual o sentido, ou seja, é como desenrolar um novelo de lã e aos poucos o analisando vai percebendo onde é o começo, onde é o fim e o que foi se agregando indevidamente no meio disso tudo. Indevidamente mas que teve um motivo para estar ali.

Recordar pode ser pensado em: Entrar novamente dentro do palco da vida e reviver toda as cenas passadas, mas agora sem a influencia de outros e dando a cor que verdadeiramente aquela lembrança deve ter. É como atuar sozinho onde a pessoa do analista a única coisa que faz, quando muito, é posicionar o canhão de luz para iluminar desta vez o analisando, além de autor este passa a ser o ator principal da peça que é sua vida.


terça-feira, 12 de abril de 2011

Fim da repetição?

       Sim, enfim um fim do especial sobre a repetição. 

       Relembrando um pouco o que foi falado até agora, repetir não é necessariamente fazer as mesmas coisas, mas uma forma de posicionar-se no mundo, uma forma de viver. Assim como os rituais tem várias formas diferentes de serem expressados, assim somos os seres humanos, que embora a cada dia possamos fazer diferente, lá no fundo acabamos repetindo sempre de novo, mesmo que de formas novas.

       Repete-se porque tem-se a sensação de estranhamento, de intimidade com uma situação muito familiar. No texto "O estranho" de Freud podemos pensar um pouco sobre a afirmação de que tudo o que é estranho é ao mesmo tempo muito familiar. Agir de uma forma diferente ante a uma situação não demonstra necessariamente mudança alguma na posição que o sujeito ocupa frente a sua vida, ao contrário, as vezes apenas aprendemos de alguma forma superar nossos erros e fazer coisas diferentes, coisas melhores, coisas "mais bem escolhidas". O cerne do sujeito por exemplo continua a manifestar-se.

       É até engrassado saber que uma pessoa que passou sua vida inteira fugindo de relacionamentos mais íntimos de repente se percebe não mais sendo indesejado, mas agora, não desejando outras pessoas. Parece que há uma mudança quando aparece o discurso de que ao invés de ser dito "As pessoas me abandonam" o discurso apresentado é o oposto (teoricamente) "Eu abandono as pessoas". Embora os comportamentos descritos sejam diferentes, em um primeiro momento o sujeito é abandonado e depois ele torna-se "ativo" e passa a ser "abandonador", mas continua sozinho. 

       Este poderíamos dizer que é o que repete neste sujeito. A posição de solidão, de ser sozinho. É exatamente isso o que ele é em essência: sozinho, um sujeito só.

       Mas nem tudo está perdido. Mesmo compreendendo que esta solidão possa ser sua essência, há varias maneiras de ser só. Estar só, por exemplo, e ler um bom livro e nisso descobrir a companhia de um bom amigo, mesmo que este amigo seja o autor que escreve como alguém que corresponde-se por cartas. Veja que em vez de procurar livrar-se da essência que ele é, agora há uma mudança radical na posição antes ocupada. De solitário ele percebe-se agora carente de uma companhia, de uma relação que descobriu ser possivel através da leitura, ou seja, não está mais só.

       Claro que as pessoas podem achar isso "viagem" demais, então vamos a um caso mais específico.

       No filme V de vingança há exatamente este tipo de solidão em que o vingador aparece como alguém culto, solitário, uma espécie de anti-herói. Há um certo prazer nisso pois ele começa a repensar em toda sua trajetória e contruir-se como aquele que deseja vingança e que vai realmente levar suas idéias até o fim. Após ajudar a Evey a se salvar e a abrir os olhos dela, bem no fim do filme, ele se ve diferente. Continua o grande solitário e desejante da vingança, mas percebe que algo mudou e passa a ela a responsabilidade de realizar seu objetivo.

       É exatamente no momento em que ela tem os poderes de fato de realizar e repetir o que foi lhe passado que ela tem uma subita mudança na posição que ela assumia, de vingadora tal qual seu mestre, para perceber que aquilo que ela estava para realizar vai um pouco além de uma vingança. Ela muda da posição de vingadora e mesmo repetindo o que dela era esperado ela fica em paz, pois algo mudou.

       O que mudou foi basicamente sua percepção de quem era seu mestre, de quem era ela, e em especial, do papel que ela estava representando em toda sua história. Aqui o ponto central é que é dado a ela, depois de muito preparo, a chance de decidir, é concedido a ela o poder sobre sua vida que vai além de seus atos. Mesmo repetindo o que era esperado e desejado por muitos, e que também traria muito mal-estar para outros, ela repete com a consciência de poder dizer que aquilo foi desejo dela, com a consciência (não tão tranquila assim) de que aquele movimento último era ela quem realizava, ela e somente ela.

       A mudança de posição frente a repetição mora exatamente neste ponto, em vez de um pesar sobre a repetição compreende-se e acolhe-se aquilo que tanto machuca, que tanto faz sofrer e que de uma forma ou de outra tão pouco sabe-se sobre este impulso. Ficando a sensação apenas de que a partir daquele momento a escolha é da pessoa que repete, e mesmo que repita, a pessoa agora pode dizer eu.

       E como no filme, para um Gran-Finale, coloco aqi algumas frases ditas por V.:

      
"Estás temeroso de ser o mesmo em teu próprio ato e valor de que em teu desejo? Não terás o que mais estimas , o ornamento da vida , e viverás um covarde em tua própria estima, deixando "Eu não posso" ultrapassar "eu farei", como o pobre gato no adágio?"... És um homem".  - Quando V chama a pessoa a responsabilidade de suas escolhas.

"Eis que me fiz de santo quando na verdade era o demônio"  - Quando V. compreende sua verdadeira essência.

"O que fizerão comigo me criou, é um principio básico do universo, que toda ação cria uma reação igual e oposta!" - Quando diz o mal que fizeram com V.

       É meus caros leitores, um surpreendente filme que mostra não um homem com um objetivo, mas um objetivo que tem um homem, pelo menos até quase o final.

domingo, 10 de abril de 2011

Repetição - Parte 2

       No livro "A vênus das peles" o autor coloca com muita maestria um caso de sado-masoquismo em que o que o sujeito busca é sempre repetir uma cena. Todo o jogo que tem um cunho especificamente sexual é como uma encenação mítica onde vai se buscando cada vez mais chegar ao ponto crucial onde houve a primeira satisfação. Satisfação como um termo psicanalítico em que há a descarga da libido, da energia sexual que ao encontra uma forma de ser descarregada sobre um objeto específico. É justamente a imaginação de que apenas um objeto (objeto "a" para Lacan) irá satisfazer que a pessoa se cristaliza neste jogo de repetição, de busca de um prazer imaginário que o objeto imaginário deve (imaginariamente) dar.

       Tudo muito imaginado, tudo muito do campo do ideal e não do real. A repetição é isto, a busca incansável de um ideal de gozo, de um ideal de prazer fixado em um mesmo caminho, em um mesmo objeto.
       Mas encontrar o que se repete em nós não é tão simples assim. Na verdade essa busca por um  ÚNICO objeto que nos satisfaça é aprendido instintivamente. A gente se engana achando que nossos desejos são frutos de uma experiência com alguma coisa boa. Na verdade é o contrário, o desejo é a falta e é a partir da falta que podemos desejar. A busca então é no sentido de encontrar o que realmente nos falta. O que realmente está por tráz do desejo, ir além do que é aparente. Por exemplo, quando tenho sede posso tomar água, mas as vezes coca cola, e as vezes nem um nem outro me satosfaz, as vezes preciso de um canudinho para ficar mordendo. Mas veja que pegar um canudinho no bar, ou na padaria e não tomar é sem sentido, então apelo para algo que pode ter um significado e assim mascaro o que eu realmente precisava.

       Esse é o nosso processo de esconder de nós mesmos nossos desejos, nossa falta. A repetição mora onde existem as máscaras, onde pensamos que por causa de um trauma, ou porque temos uma história de vida assim ou assado, aquilo nos falta e eu busco, procuro, mas nunca encontro algo que me satisfaça. E é exatamente no caminho sem sentido que podemos encontrar a satisfação. 

       Pessoas com dores crônicas que procuram toda semana um médico de alguma forma procuram mais do que os remédios. As dores são as mesmas, as receitas são as mesmas, mas busca-se sempre ir visitar o médico, ou ir ao hospital para realizar exames. A satisfação não está em tomar os remédios (pode até ser que esteja) mas está em algum ponto do caminho, de toda a trajetória que se repete, está em repetir o ritual, de alguma forma sempre o mais próximo do igual.

       Mas há uma forma de acabar com isso tudo?

       Não sei. Na verdade, acredito que não. Mas podemos assumir outras posições em nossa vida que façam com que, embora faltantes, conseguimos até certo ponto viver um bem-estar. Não que o bem estar seja eterno e perfeito, mas que de alguma forma, uma mudança (não digo de comportamentos, mas de uma posição assumida frente a falta, frente ao desejo) nos faz termos uma opção a mais para viver, para experimentar as coisas nào exatamente como elas são, mas com uma máscara mais suportável para nós.

       É bem isso mesmo. As vezes as pessoas prometem milagres, curas, fim das dores, mas nada disso ocorre e o desespero começa a bater a porta. Viver acaba sendo tão insuportável que tudo e todos vão nos abandonando, piorando ainda mais a situação. Dentro do processo analítico há uma possibilidade de fazer diferente.

       Uma pessoa carente por exemplo mas que sempre precisou do sexo para ter carinho, cuidado e amor, encontra no analista um outro tipo de cuidado, acaba percebendo que existem outras formas de lidar com o desejo de amor que é tão intenso e pode assim, com uma possibilidade a mais, sair da posição em que estava.

       Uma pessoa que vive muitas dores como o Dr. House da série do Universal Channel pode exprimir exatamente o que todo esse post quer dizer. A procura pela medicação por causa de uma dor real, de uma falta real e biológica, depois de um processo de análise acaba sendo revisto. House descobre que o que ele busca é um pouco além de curar suas dores, mas de obter um certo prazer. É incrível que quando ele começa a melhorar, a assumir outras posições, por exemplo sair com a Cuddy e com seus amigos (Wilson), ou seja, quando ele começa a se importar com os outros, a pensar que talvez falte algo além do que ele poderia imaginar, ele várias vezes repensa no que está acontecendo.

       No último episódio que eu vi ele percebe que agora que está "bem" pode ter se tornado mais distraído e até mesmo um médico pior, mas nem por isso tornou-se um médico ruim, ao contrário, podemos ver um médico ainda excelente, mas que de alguma forma tem outros objetos de desejo aos quais se ligar. Tem o Wilson, a sua namorada a Cuddy e até mesmo a filha dela... 

Continua...

 
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