quinta-feira, 31 de março de 2011

O Real para Lacan - O sujeito

Tentei colocoar o Vídeo aqui mas não obtive sucesso, apareceu um outrom do Justin Bieber... Estranho... Então encaminho aqui o Link do Vídeo - http://www.youtube.com/watch?v=GzQNglDv9DA&NR=1 que por acaso, se coloco o link aqui, ele funciona muito bem, mas se tento colocar o vídeo direto do youtube, aparece o do Justin..Bom vamos ao :Post.

Embora o Vídeo seja um pedaço, esteja em francês e ainda por cima a legenda seja em espanhol, se fosse possível gostaria que todos pudessem assistir.

Queria comentar apenas sobre uma parte bem no finalzinho dos longos 1minuto e 30 segundos que tem o vídeo. 

"Porque se dá conta de que alguma se repete em sua vida, e é sempre a mesma, e que essa é sua verdadeira essência. O que é essa coisa que se repete? Uma certa forma de gozar." (tradução livre do blogeiro)

Bom, podemos pensar que TUDO que se repete em nossa vida são aquelas coisas em que nos colocam na posição em que nos encontramos, em que nos REconhecemos. Por exemplo: falar a palavra mãe a uma oura pessoa, me coloca na posição de filho dela. Falar pai, me coloca na posição de filho dele. Sempre que estas palavras são repetidas é que estou falando que eu ocupo este lugar. Também quando digo que sou estudante, me reconheço como tal. Quando digo que sou médico, dentista, mecânico, ou qualquer outra coisa que eu também seja, estou na verdade me reconhecendo nesta posição, repete-se o discurso desde que eu esteja neste lugar sem maiores problemas.

Há um Filme muito interessante onde a moça tem entra na prostituição para pagar seus estudos, por não dar conta das dívidas, ela começa a se prostituir. Mas o interessante é que ela não sustenta o papel de prostituta. Pelo contrário, se qualquer pessoa a chama, a diz, a coloca no lugar em que ela está dizendo que ela é uma prostituta, ela ficava mal. Ela não repetia em seu discurso esta palavra porque não era ela, para a moça, ela estava trabalhando para pagar suas dívidas.

A repetição de uma ou outra forma de viver na verdade, se pensarmos no aparelho psíquico, marca uma posição que a pessoa acredita ocupar dentro de um grupo. Este grupo pode ser tanto a sociedade como um todo, mas também pode ser apenas os membros familiares. A repetição pode ser também um conjunto de comportamentos que façam esta marca de alguma forma a afirmar para si mesmo o que esta pessoa representa se não para o outro, para ela mesma. 

Mas há formas e formas de repetir, o processo terapeutico irá identificar estas repetições que vem causando mal-estares para que a pessoa chegue a um consenso e descubra outrras formas de sentir prazer, de aliviar suas angústias, de gozar. Em outras palavras goza-se de uma posição ocupada para um outro e a terapia busca ressignicar as relações com este outro para encontrar uma outra forma de identificar-se, de compreender-se e assim, neste processo, encontra-se (embora demore e seja muitas vezes um trabalho muito árduo) uma nova forma de ser.

Mas é sempre muito devagar e tem que ser assim. Não se é estudante da noite para o dia, não se é trabalhador da noite para o dia, não se é ser humano da noite para dia. Não se ocupa uma posição psíquica da noite para o dia. Muito pelo contrário. O processo de mudança gera desconforto porque além de retirar aquilo tudo que sobra, é necessáro fazer alguma coisa com aquilo, alguma coisa diferente do que já tenha sido feito. Como se o sujeito fosse uma casa pronta mas os vizinhos sempre trouxessem alguma coisa para enchê-la. Chega um momento em que não se reconhece mais a casa. Não basta apenas desfazer-se dos objetos, das coisa, mas muitas vezes percebe-se que a casa pode ser ampliada, ou modificada.

Quando a forma encontrada de gozar começa a ser sentida como um mal-estar frente a nova posição ocupada pelo sujeito, a saída na psicoterapia é identificar a forma como este sujeito tem prazer e com isso ver outras possibilidades (ampliar a cadeia de significantes - para os lacanianos de plantão). Mas ao final do processo, sem se dar conta, emerge um novo sujeito, uma nova pessoa, um novo jeito de ser, que embora aparentemente seja muito igual ao que era antes, desta vez consegue dar outro sentido tanto ao mal-estar quanto a forma que encontrou para sentir prazer. (para mim é a mesma coisa...)

Bom, Resumindo:

Somos aquilo em nós que se repete simplesmente porque ocupamos aquela posição comoda e muito bem conhecida, sem precisar fazer nada diferente para ser, para existir.

segunda-feira, 28 de março de 2011

PROMOÇÃO - PSICOTIDIANO E LIVRARIA SARAIVA


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Pessoal, estes e muitos outros livros em promoção na Livraria Saraiva

TDAH - Realidade ou Mito?

Bom, para começar mais uma parte das discussões sobre algumas famosas psicopatologias (confira outras psicopatologias ao fim deste post) gostaria de introduzir um pequeno trecho do artigo escrito sobre TDAH pelo psicanalista Alfredo Jerusalinsky com o título de "Diagnóstico de Déficit de Atenção e Hiperatividade. O que pode dizer a Psicanálise?" :

"Então, em que pode contribuir o discurso psicanalítico para esclarecer sobre qual conduta clínica seguir? É certo que encontramos crianças hiperativas. A fenomenologia é verdadeira: existem crianças com problemas de memória, de atenção, de aprendizagem, de linguagem, com problemas psicomotores. No entanto, essa fenomenologia se mostra nas crianças "suspeitosamente" concordantes com o que os investigadores chamam uma "dificuldade social". Trata-se de crianças com dificuldades para representarem-se no campo dos outros. A possibilidade enunciativa que essas crianças possuem costuma estar em questão: têm dificuldades no campo da linguagem, embora possam não tê-las no campo da fala." (Jerusalinsky, A.)

O texto todo mostra uma série de confrontações com a realidade de uma hipótese constatada através do diagnóstico feito pelo "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais" - DSM IV - onde uma série de pesquisas patrocinadas pelo laboratório da Novartis, não comprova nem a eficácia do medicamento (ritalina) e nem a existência da doença organicamente falando. O que se pode constatar apenas, é uma propaganda de amplo espectro para a utilização da medicação.

Mas espere um pouco, quer dizer que não existe essa tal de TDAH? Não, não quer dizer isso, mas com a leitura atenta deste texto, e das pesquisas mencionadas nele, bem como em outras encontradas no banco de dados da Scielo e Lilacs, o TDAH não é tão comum assim como tem sido falado.

Uma coisa é o Transtorno de Déficit de Atenção E Hiperatividade, outra coisa é o déficit de atenção e outra é a hiperatividade. O problema é que em nome de uma objetivação dos sintomas fenomenológicos (comportamentos manifestos) aparentes, tenta-se padronizar em um nome algo que vai um pouco além deste fenomeno.

O diagnóstico de TDAH sempre feito com base nas "reclamações" de pais e professores, parte do pressuposto de utilizar uma ferramenta química para agir no organico quando na verdade, de acordo com os exames clínicos (organicos) não há nada diferente no SNC, ou em outra parte do corpo da criança. O que pode haver, mas tem sido provado que é na minoria dos casos diagnosticados como TDAH é uma alteração no funcionamento, na forma como o SNC trabalha em especial nas regiões do cortex pré-frontal. É importante ficar atento para o dado de que esta alteração pode ser o indício de TDAH e a partir daí o uso do medicamento faria-se necessário. Caso esta alteração do funcionamento (e não da estrutura) fosse detectado, partir deste ponto para um diagnóstico mais preciso e para a objetivação dos sintomas seria um pouco mais "científico" do que convencionar-se de que apenas pelos dados relatados seja necessário a introdução da medicação.

Lembro-me de vários momentos em que pessoas simplemente faltam com a verdade (para não dizer que mentiam) na hora de falarem de seus sintomas para que nesta fala, fossem enquadrados em alguma patologia, e através desta patologia pudessem receber algum benefício, mesmo que seja apenas o benefício da atenção e do cuidado por um outro.

O que acontece é que nos casos relatados de TDAH, parece que há muito mais uma patologia do afeto do que do organico. Explico melhor:

O déficit de atecção muitas vezes é encontrado em crianças que tem uma superestimulação no ambiente e depois é pedido que elas fiquem quietas sem que aquele momento de ficarem paradas e sentadas tenham algum sentido afetivo para elas. Nas escolas primárias por exemplo, é muito comum o discurso das crianças mais estudiosas de que precisam estudar porque a tia fica feliz, porque a tia gosta mais dela quando vai bem nas provas, porque o comportamento de estudar tem sido reforçado pela professora através do vínculo afetivo estabelecido entre o aluno e o professor (esta perta as crianças acho que ainda não falam...rsrsrs... mas é mais ou menos isso que acontece).

Quando minha tia veio me perguntar sobre um suposto diagnóstico de um aluno que ela dava aula, eu devolvi com uma pergunta simples: Ele SEMPRE está ligado no 220 ou com alguém ele para e presta atenção? Ela me respondeu que com ela e com outra professora o aluno ficava quieto e conseguia prestar atenção e estudar. Então eu disse que provavelmente este diagnóstico não fosse de TDAH, mas apenas de alguém que precisa de mais atenção, de mais afeto.

Este é o ponto chave da maioria dos diagnosticados com o transtorno. Não que não exista o transtorno, mas em nome de um bem-estar para familiares e para a criança, opta-se pelo mais simples, pelo mais fácil. É muito mais fácil medicar e ter um filho que obedece, do que um filho pré-adolescente que precisa de mais carinho e afeto com apenas 7 anos.

Tenho saudade quando eu li o Livro "A droga da obediência"  do Pedro Bandeira e era apenas uma ficção. Acho que este é mais um trabalho para os Karas. Fica a leitura de uma boa e divertida leitura para o fim de semana, e para os adolescentes que acessam o Blog. Não que a ritalina seja tudo aquilo, mas que é um pouqinho assim, isso não podemos negar.

sábado, 26 de março de 2011

Aprender a amar.

O amor para ser aprendido é diferente de todo o resto.

Sentimentos de raiva, de ódio, de alegria, de tristeza, de fome, de desejo, de vontades, geralmente aparecem e a gente sabe muito bem que estão ali. Esses sentimentos costumam nos mover e são normalmente de dentro para fora. É como se algo dentro de nós se movesse e nos impelisse para atuar da forma como nos sentimos. Na alegria nós sorrimos, na tristeza choramos, na fome comemos, no desejo nós vamos atráz e fazemos de tudo para conseguir o que queremos, assim é com cada um deles.

Com relação ao amor é um pouco diferente. Ninguém sente o amor, a gente sente a paixão que sem um objeto para que estivéssemos apaixonado poderíamos pensar que a pessoa apaixonada esta muito doente. Algumas pessoas quando apaixonadas perdem o sono, o apetite, acordam já saltando da cama, falam e sorriem sozinhos, entram em um estado de ansiedade quase insuportável só de ouvir o nome do objeto de sua paixão. É, a paixão é mortal, ela mata uma pessoa e a tranforma em outra. Mas este estado de apaixonado tende a passar, digamos que é o primeiro momento para que uma relação de certo. Seja uma relação com outras pessoas ou consigo mesmo.

O amor é em demasia diferente. Normalmente a gente não pensa nele, quando ele aparece ele dá sinais de indiferença com relação aos outros sentimentos. É como se os outros sentimentos fossem indubitavelmente menores e menos importantes que ele. Você pode morrer de ódio da pessoa que está amando que mesmo assim não para de pensar nela. Não consegue ficar longe e quando fica, o "destino" encontra uma forma de fazer você encontrar o objeto de seu amor.

O sentimento vai tomando corpo e aos poucos a gente percebe uma dependencia absurda com relação a um outro. Esta dependencia tende a aparecer frente aos momentos de desamparo. É para aquela pessoa que você precisa ligar para contar algo trágico, ou simplesmente para dizer que está feliz. É aquela pessoa que se tirassem ela da sua vida, racionalmente falando, parece que não faria falta em um primeiro momento, porque existem outras tantas pessoas perto de você, mas que ninguém, absolutamente ninguém ao final das contas consegue tampar o buraco que a ausência dela deixou. Perder uma pessoa amada é enlouquecedor. Já viram uma criança que perde seu animalzinho de estimação? Fica sem comer, sem dormir, chora, entra em m estado de luto bem depressivo, mas como criança é criança, logo logo volta a ser criança, as vezes tem algumas que ficam até doentes. Quando o bichinho está ali no dia a dia é quase invisível, só serve para dar trabalho, para ser companhia nos momentos de solidão, para fazer festa quando chegamos em casa (lembro-me de todos bichinhos que eu tive, era e é muito gostoso chegar na casa de meu pai e encontrar a Baby chorando querendo um cafuné), mas é na ausência que se percebe o quanto nossa rotina fica vazia.

Mas pera aí, estou falando de animal ou de pessoa? Não importa, o amor é uma "energia" pura, quem ama e não interessa o que ama, seja qual for o objeto de amor. Uma árvore em especial, um animal, uma pessoa, uma casa, um jardim, um banco na praça. O amor é algo tão acima dos outros sentimentos que é considerado na Bíblia como divino. São Paulo escreve que "Deus é AMOR". 

A gente não aprende a amar porque o amor não é ensinado, ele também não é sentido, mas se tem uma coisa que podemos dizer do amor é que ele é vivido. O único que pode gerar vida e mantê-la é o amor. Viktor Frankl no seu livro "Men´s Serch For Meaning" diz que o que mantinha as pessoas psiquicamente em condições de sobreviver ao campo de concentração era a lembrança de seus entes queridos. Em outras palavras, mesmo na certeza de que os amados não estavam mais vivos, era o amor por eles que os mantinham firmes e com saúde.

Geralmente a gente não se dá conta de que está amando, é necessário um outro para fazer essa função e dizer isso. Tudo bem, a gente sabe de uma forma ou de outra que ama porque sente falta, porque a vida ganha um novo colorido, porque as coisas mudam de aparência, mas nem tudo são flores. O amor nos mostra o verdadeiro colorido das coisas. Traz consigo a responsabilidade de que o colorido do mundo é pintado a cada dia um pouco você e um pouco o outro. E nem sempre o outro usa cores que você quer. Quase nunca o outro coloca o desenho onde para você deveria estar. Mas é através do amor que compreendemos a beleza da diferença. Não sem antes nos incomodar bastante com aquilo tudo. Enquanto a paixão é tudo pintado de uma cor só, os dois só podem pintar sobre um desenho que já está feito. No amor os dois ganham autonomia para manifestar outros desejos, para desenhar um sol dentro de um carro, em vez de colocá-lo fora, para por a chuva dentro de um copo de água, e por aí vai.

Nem tudo são flores, mas através do amor compreendemos que também os vasos são belos. Que até a terra tem sua beleza, que até mesmo o esterco que vai no adubo cumpre uma função. Eu acho que amor não é poesia, ele é uma narrativa insana da uma história de alguém que ama.

Aprender a amar é olhar para sua própria história e dela pensar com carinho que foi tudo isso que te trouxe até aqui. Foi toda sua vivência que te levou a ler poesias, a conversar com amigos, a ter um bichinho, a gostar de picolé de frutas, a adorar ficar sozinho, ou acompanhado. É necessário sempre amar-se primeiro, compreender-se não psicanalíticamente falando com a história do inconsciente e tal, acho que é uma compreensão mais razoável, mais singela, uma compreensão que as vezes nos escapa.

Claro que uma psicoterapia nos ajuda nisso tudo, mas as vezes um simples olhar no espelho e admirar as conquistas que aquele rosto personificando você inteiro conseguiu realizar é tão proveitoso quanto.

Enfim, é possível aprender a amar? Claro que sim, mesmo porque o amor já está aí, mas como eu disse de tão sublime que ele é, acaba esnobando nossa busca, e fazendo-se de indiferente em tudo. Basta que percebamos em nós mesmos quais são seus movimentos e aonde ele quer nos levar. É este ponto que muitas a gente para e pensa que não consegue nem amar e nem ser amado. Não deixamos o amor tomar seu rumo, seguir seu curso, não permitimos que ele nos mostre onde ele quer chegar porque perdemos muito tempo buscando o que é o amor, quando na verdade, até mesmo essa busca nos mostra que isso de buscar, buscar, buscar, mesmo sem encontrar nada é amar.

Lembrando que lá no fundo o amor "é fogo que arde sem se ver"...

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bem estar - um estado subjetivo.

CONTINUAÇÃO DO POST DE ONTEM: ADOECIMENTO E BEM-ESTAR


    A solução que pude encontrar está na simplicidade das relações interpessoais.

       Solução simples, enquanto resposta a um problema, mas na prática embora a resposta esteja dada, é necessário um fazer diferenciado daquilo que vem sendo feito até agora. Faz-se necessário uma nova forma de experimentar tanto as relações com os outros como compreender e por em prática novas formas de existir, formas esta que estão em potência em todos os sujeitos.

       Falo aqui de sujeitos humanos, Segundo Lacan, para que seja sujeito é necessário um outro, e depois outros outros, e assim por diante. Infelizmente são os primeiros outros que nos marcam mais profundamente e é a partir destas primeiras relações com eles (normalmente os pais ou cuidadores) que iremos ter uma impressão de como fazer nestas relações humanas. Tanto nas relações com os outros quanto com nós mesmos.

       O adoecimento então pode ser uma forma encontrada de repetir a única maneira bem apredida para conseguir uma atenção especial, um cuidado diferenciado. Ninguém fica doente fica doente pelo sucesso, mas o que ocorre, é que diante do sucesso pessoal conquistado com muito esforço, renúncias e lutas, quando não vem o reconhecimento esperado, todo aquele estresse tende a aparecer como uma forma mais primitiva de conseguir a atenção que deveria ter sido conquistada diante do sucesso conseguido anterior ao adoecimento.

       Quando digo sucesso, não estou falando de idéias ou trabalhos mirabolantes, claro que isso também conta, mas de um sucesso mais subjetivo, por exemplo: para um preguiçoso que se considera preguiçoso e que toda a família o coloca nesta posição, um simples acordar cedo e trabalhar o dia inteiro pode ser um grande sucesso. Para uma criança que não fala o reconhecimento e a atenção pode vir através de um balbuciar, nem é necessário uma palavra inteira. Para cada sujeito o reconhecimento do sucesso é na medida em que ele espera e não na medida em que os outros esperam dele.

       Já estou falando novamente dos relacionemantos humanos, tema frequente aqui no Blog.

       Os relacionamentos humanos são exatamente o que possibilita uma pessoa realizar um trabalho que ninguém deseja, mas se há um reconhecimento por isso, o trabalho é realizado até mesmo de forma prazeirosa. Reconhecimento tanto através do capital, mas também da família, dos primeiros outros com quem se tem contato e com quem se aprendeu a ser alguém, a ser sujeito.

       O adoecer é uma forma de reividicar uma atenção que não foi dada, que não é necessariamente uma atenção real, mas uma atenção imaginária que a pessoa achava (inconscientemente ou não) que merecia. 

       Já o bem estar, é um estado de estar bem e o adoecimento pode levar as pessoas a este estado não porque deseja sofrer, mas porque, e exatamente por causa disso, a pessoa deseja uma atenção na qual não teve em seu empreendimento particular, mas que agora pode ter na posição de doente. 

       Estar doente então não necessariamente é oposto ao bem estar. Pode-se estar bem mesmo na doença, isso porque uma coisa é adoecer e outra coisa é estar bem. São planos distintos que embora eles possam se cruzar (organico e mente) mesmo assim tendem a estar cada um exercendo a sua função. E qual é a função de ambos?

     Tanto corpo quanto mente, e ainda o espírito, tendem para a vida, tendem para o prazer da vida. Não para a morte. Um adoecimento pode muito bem salvar a vida de alguém. Há casos e mais casos de pessoas próximas que passam por um longo período de adoecimento e depois que melhoram tornam-se outra pessoa. Tudo porque houve ali uma demanda suprida, a demanda da atenção, a realização de um desejo inconsciente (qualquer que seja este desejo, mas no caso, gostaria de ficar apenas com o desejo de ser percebido, o desejo de existir para o outro que nos permite saber que existimos).

       Não há no entanto uma forma mágica para deicar de adoecer. Na realidade Lacan ensina que os sintomas podem ceder quando a libido encontra outro objeto para se ligar. Quando a pessoa está nesta situação, faz-se necessário encontrar outra forma de existir, outra forma de conseguir a atenção tão desejada pelo doente.

       Acho que o filme que expressa isso muito bem é o filme que conta a história da Camille Claudel, que adoece buscando o reconhecimento de algumas pessoas. Mesmo tendo este reconhecimento em determinado momento do filme seu pai (que a reconhecia como artista) em determinado tira todo este reconhecimento e ela cai no fundo do poço, adoece ao ponto de não encontrar um chão, um amparo para sua existência.

        O que acontece então com Camille é o que acontece com todos que chegam ao desamparo real da existência, é necessário reconhecer-se de outra forma. É necessário uma nova forma de viver, uma nova forma de existir. Mesmo que na dor, encontra-se um suposto bem-estar na medida em que ela simplesmente desiste (não existe mais para) de ser reconhecida. 

       Fica aí a dica de um ótimo filme sobre um adoecer psíquico.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Adoecimento e bem estar.

       Um tema muito interessante que podemos discutir aqui no blog é com relação ao adoecimento e a possibilidade de bem estar que este momento pode trazer para a vida das pessoas. Adoecer segundo a cultura consciente é ruim, é perigoso, gera medo, dores e traz muitos prejuízos e limitações para a pessoa doente.

       Tudo bem, estamos falando de um plano "da consciência" onde a razão diz que se há alguma privação da liberdade de fazer o que se quer, o que se deseja, esta privação é sempre vista como ruim. Por exemplo, nos casos de doenças onde a pessoa fica acamada, mesmo que por um curto período de tempo, racionalmente todo aquele mal estar é uma privação da qualidade do que consideramos como liberdade. Não se pode sair de casa, não pode trabalhar, não pode ter muitos contatos com outras pessoas, fica-se como um bebê, muitas vezes na cama, em uma situação na qual apenas os familiares ou amigos mais íntimos é que tem a possibilida de ficarem por perto.

       Groddeck explicava mais ou menos isso em seu trabalho. O adoecimento nem sempre é ruim, pelo contrário, muitas vezes os benefícios de um adoecimento fazem com que a pessoa não possa fazer "tudo" o que poderiam fazer, mas por outro lado, gozam de um momento em que são tratadas com um carinho e atenção que normalmente não teriam no dia a dia. O adoecer, quando recorrente, pode ser um sinal de uma tentativa de uma reestruturação da afetividade perdida.

       Quando as pessoas passam por momentos de crises e conseguem superar o problema, logo surgem também as doenças provenientes daquilo que chamamos de queda imunológica devido ao estresse. O adoecer muitas vezes não consegue ser explicado por um exame clínico médico. O que aparecem são os sintomas e com eles surge o diagnóstico de uma virose, ou ainda, uma alergia. Em alguns casos mais graves até mesmo um câncer.

       Devido a uma suposta perda da imunidade devido ao estresse excessivo, a pessoa pode regredir a um estado mais frágil, onde os cuidados com ela devem ser redobrados e efetivos. Estes cuidados podem ser encontrados nas famílias, na escuta de um médico, no serviço do posto de saúde, ou em outros lugares. O que importa é que alguém de alguma forma dá atenção, e é exatamente isso que uma pessoa neste estado precisa. Precisa de um outro, alguém que faça esse acolhimento da demanda de atenção e de cuidado.

        É importante ressaltar que não estou falando de um adoecimento consciente, de uma vontdade real de adoecer, mas que talvez, em muitos casos, a doença pode ser um desejo inconsciente. Não que a pessoa queira ficar mal, ficar doente e até em alguns casos chegar perto da morte. Não estou falando aqui de um desejo de sofrer ou de uma espécie de auto punição. Estou querendo apenas clarificar que o adoecimento faz com que a pessoa possa reexperimentar um momento que exige cuidado de um outro. Que exige que um outro olhe para ele e de alguma forma, este perceba-se como existente, como pessoa, mesmo que na posição de doente.

      Talvez eu tenha extrapolado por demais o desejo inconsciente de ser percebido, de ser compreendido como existente por um outro, no parágrafo anterior. Tudo bem, confesso que pode ser que o aodecimento seja apenas uma forma de pedir cuidado. Um pedido de cuidado, de carinho, de atenção que um adulto por exemplo não pode chegar a um outro e pedir (ao menos não em nossa cultura), portanto, a forma que alguns encontram é o do adoecer.

       Mas se pensarmos bem, de acordo com a teoria psicanalítica freudiana, o que é o sintoma senão um mal-estar no qual há uma demanda voltada a um outro. Explico melhor: quando há um sintoma, ele nunca é apenas da pessoa que sofre, mas é um sintoma que está intimamente ligado à uma relação entre o que sofre e um outro, que de certa forma, faz sofrer.

       Por exemplo, nos casos de neuroses, há um conflito entre "o que eu quero" e "o que o outro quer de mim", lembrando que este outro pode ser a sociedade, uma empresa, uma cultura, ou uma pessoa. Este fazer sofrer não é intencional, por exemplo, nos casos atendidos de menores infratores, uma das medidas que o Juiz determina é o retorno aos estudos. O mal estar manifesta-se frente ao desejo de continuar em sua vida de criminalidade e o desejo de realizar a medida e livrar-se do "castigo" dado pelo Juiz. De fato, estudar não faz mal a ninguém, o Juiz até segundo o ECA e a nossa cultura está realizando um "favor" ao adolescente, mas para quem não tem o desejo, realizar uma tarefa até o fim, é quase impossível. Gera um mal-estar porque o desejo não está ligado ao estudo em si mesmo, o estudo é algo profundamente aversivo em alguns casos atendidos, mas é algo que os adolescentes DEVEM passar para realizar o que lhe é imposto por um outro, caso contrário, vem o castigo da internação por motivos de descumprimento de medida.

       Acho que facilitou um pouco a compreensão. Pensando agora no adoecimento como um mal-estar, como um sintoma, o problema é que muitas vezes a pessoa adoecida que demanda carinho e cuidado de uma outra pessoa, muitas vezes não tem a outra pessoa disponível para atendê-lo. Aí o adoecimento pode tonar-se crônico.

       Enquanto o adolescente infrator pode reportar-se e responder ao Juiz causador do mal-estar, muitas vezes a pessoa que adoeceu não encontra um alguém para reportar-se o que torna o adoecimento de certa forma racionalmente "sem sentido". Ainda há os casos relatados na psicanálise (como o do próprio Groddeck) em que não se pode reportar-se ao causador do mal-estar.

       Qual então seria a solução para um bem-estar frente ao aparecimento crônico de uma patologia?

       Ainda nesta semana a resposta... No entanto, as pessoas podem deixar comentários com as possibilidades: passo a bola para os leitores por enquanto...

terça-feira, 22 de março de 2011

O Testamento - Por Rubem Alves

Escrito e publicado na edição ano VI nº 63 da revista Psiquê:
 
"A HERANÇA DA VIDA NÃO SE TRADUZ NOS OBJETOS CONQUISTADOS, MAS EM UMA COISA MAIOR, QUE SÓ PODE SER TRANSMITIDA POR MEIO DA ORATÓRIA."
       " Tempos atrás eu sugeri que se fizesse uma mudança na liturgia que marca a passagem dos anos da vida de uma pessoa, que não mais se apagassem as velinhas, como se a morte dos anos passados fosse uma coisa a ser celebrada, mas que se acendesse uma única vela, na esperança de um futuro semelhante ao da vela, de luz e tranquilidade.

       O tempo passou e chegou a hora de reacender a minha vela. Que pensamentos pensarei? Acho que vou meditar sobre o testamento. É uma idéia da qual não se pode fugir, quando se da conta de que a cera que resta é muito menos do que a cera que já se queimou.

       O testamento é o que restou, depois de feitas todas as somas e subtrações. É aquilo que se passa ãs mãos dos que continuarão a viver depois de nós, com um pedido: "Por favor, na minha ausência, não se esqueça de regar a minha planta..."

       Claro que não estou pensando nas coisas que fui ajuntando no passar dos anos. Elas nào tem a menor importancia. Não tem o poder de nos tornar nem mais sábios e nem mais felizes. Porque sabedoria e felicidade são coisas que crescem por dentro, enquanto as coisas ajuntadas ficam de fora. Pelo contrário: já vi vidas e amizades perturbadas e destruídas por causa de uma herança.

       Mas aí me descubro ansioso. Porque a distribuição de propriedades e objetos é coisa simples - basta que se escreva um testamento. Mas aquilo que eu realmente desejo dar para meus filhos não pode ser dado. É coisa que só pode ser semeada, na esperança de que venha a crescer.

       Acho que a minha situaçào se parece com a de Vinícius de Moraes. Também ele queria deixar um testamento. Não de coisas, como se fosse um ritual eucarístico, em que o que se dá aos outros são pedaços do próprio corpo, na esperança de que eles comerão e gostarão. No fundo, o que se deseja é a imortalidade: continuar vivos naqueles que comem o que lhes oferecemos como herança.

       Mas só existe um jeito de dar ao outro aquilo que é a carne da gente: falando. Vejam só que coisa mais pobre: uma herança cujas coisas deixadas são palavras.

       É o que desejo deixar aos meus filhos como herança: a imagem da vela que queima na solidão silenciosa, sem se deixar perturbar pela loucura barulhenta e apressada dos homens de ação e sucesso; sob a luz da vela, no gozo da tranquilidade solitária, acordar o poeta que dorme em nós. O que não é garantia de felicidade. Mas é garantiad e beleza e de serenidade. E que coisa mais pode alguém desejar receber como herança? "

segunda-feira, 21 de março de 2011

O inferno são os outros - Sartre

Disse Sartre: "O inferno são os outros..."

Sim, é verdade, é infernal saber que existem outros, que existe sempre algo além de minhas capacidades, de minha forma de ver, entender, viver. É infernal (narcisicamente) eu ter que me reportar a um outro que não eu. É infernal eu ter que conviver com outros que vez ou outra me surpreendem, impedindo-me de ter o mínimo controle sobre as contigências de uma ou outra situação.

É infernal saber que eu além de tudo isso dependo destes outros. Que eu sozinho não sou nada, nem ao menos posso ser, é o outro e sempre o outro que me dirá o que sou. É infernal saber que até mesmo quando dizem o que não sou, preciso do outro para me compreender e me reafirmar como eu queria ser e como tenho sido. É infernal depender tanto do outro ao ponto de não existir de fato se não fosse um outro alguém que me colocasse na existência. Seja na existência orgânica, na cultural, social, ou em qualquer outro grupo, sempre, sempre dependerei de um outro.

É infernal ou é celestial?

Aqui começo a discordar do grande Sartre. A mim, é muito mais celestial. Porque é outro quem me da a possibilidade de poder, de existir, de viver, de amar além de mim mesmo. Contrariando a visão nihilista, de que os outros são de fato este inferno, venho aqui deixar um ponto de vista. Os outros não são um inferno, muito menos um céu, um paraíso. Eles são e simplesmente é isso.

A diferença entre céu e inferno estará apenas na forma de me relacionar com os outros. Isto sim pode ser um céu ou um inferno. Não é nem tanto a forma de ver o mundo, de compreender as relações inter-poessoais, ou um jeito de perceber as coisas. São as próprias relações estabelecidas e suas propriedades conscientes e inconscientes que irão dar uma sensação de celestial ou de infernal.

O outro pode ser infernal quando pega no meu pé por erros meus que nunca consegui superar, mas também pode ser celestial quando me dá novas oportunidades de mudança, mostrando-me as vezes ferramentas que tenho, ou que preciso ter, para uma melhora em minhas dificuldades. O outro pode ser infernal quando me critica e me julga sem compreender minha história, minhas dificuldades, minhas lutas interiores (as mais terríveis, diga-se de passagem), e também pode ser igualmente, ou as vezes até mais infernal, quando simplesmente me aplaude, sem ver meus esforços, ou sem ver a minha pessoa, valorizando apenas aquele momento.

Lembro de uma discussão em Análise do Comportamento sobre auto-estima e auto-confiança e como era interessante compreender que é justamente o outro quem me mostra quem eu realmente sou, para além de minhas qualidades e defeitos. Isso é uma relação celestial.

A qualidade do que é bom ou ruim nem sempre é tão visível como imaginamos. Na Igreja Católica os santos costumam ter uma boa ferramenta de diagnóstico para ver se uma relação é boa ou ruim: os frutos do que ocorreu com o passar do tempo.
Isto é evangélico. Uma árvore boa dá bons frutos e uma árvore ruim dá maus frutos. Na passagem do joio e do trigo Jesus ensina que devemos esperar crescer as duas plantas para que depois possamos identificar com precisão o que é joio e o que é trigo. Assim são nas relações humanas, muitas vezes somento com o tempo é que podemos compreender o que de fato foi bom, ou foi ruim. 

Aquele ditado poppular é certeiro neste aspecto: "queria ter o vigor da juventude e a sabedoria da velhice". É somente com o passar do tempo, com as devidas comparações, com um olhar menos carregado afetivamente de uma outra situação ocorrida, é que vamos compreender o que foi bom ou ruim. Outro ditado da sabedoria popular que expressa um pouco é isso tudo é aquele : "conte até dez". Contar até dez significa que você terá um tempo para digerir uma emoção, uma coisa que lhe afetou e que produziu reações químicas a nível celular, estas reações em determinados momentos tendem a controlar-nos nos primeiros 30 segundos, mas depois de passado os efeitos de todas as reações e sensações orgânicas conseguimos aos poucos como que recobrando a consciência, pensar sobre o ocorrido.

Pensar sobre um acontecimento qualquer em nossas vidas provenientes ou não das relações humanas que estabelecemos (contando nossa releção consigo mesmo) não é fácil, mas é possível. A cada segundo que passa iremos pensar de uma forma diferente, as reações fisiológicas irão cedendo, dando espaço para as reações cognitivas, para o "eu" responder. A cada ano que passa a probabilidade de perdão aumenta, a probabilidade de uma nova compreensão aumenta, a probabilidade de paz cresce infinitamente.

Para finalizar, São Padre Pio de Pietralcina, pouco antes de morrer disse a um cardeal que tanto o perseguiu por cerca de 50anos que graças a perseguição ele se tornou uma pessoa melhor, mais santa, mais justa. É isso mesmo, em matéria de relações humanas quem bate o martelo para dizer se foi ou não celestial é você. Lembrando que quanto mais tempo passa, mais celestial se torna.

domingo, 20 de março de 2011

QUARTAS FEIRAS NA UEL:

O Departamento de psicanálise da Universidade Estadual de Londrina, estará promovendo neste ano de 2011, Reuniões Clínicas semanais às Quartas-Feiras. As reuniões terão duração de cerca de 2 horas, onde na primeira hora será apresentado um tema previamente escolhido pelos participantes e depois, na segunda hora, será aberto um espaço para discussão entre os participantes.

O Evento não tem custo algum e em breve aqui no Blog teremos maiores informações.

O público alvo deste evento serão todos que desejarem uma formação maior em psicanálise, alunos de psicologia e outras áreas afins, bem como profissionais e convidados.

Fiquem ligados no Blog para maiores informações ou liguem para o departamento de Psicologia e Psicanálise da UEL : (43) 3371-4397

sábado, 19 de março de 2011

Rituais compulsivos.

Ainda me surpreendo que em todo final de novela, a maioria das noveleiras e noveleiros de plantão assistem na sexta e no sábado, o mesmo capítulo, e ainda por cima leem nas revistas, jornais e assistem outros programas de televisão com comentários sobre o episódio.

A paixão que algumas pessoas conseguem ter por estas novelas é quase que patológico, e eu digo quase porque ultrapassa o limite, a linha da patologia. É mais ou menos isso que eu pude perceber quando ouvi o relato de uma senhora que não perde um capítulo de novela nenhuma. Até aí tudo bem, mas ela tem Alzheimer, ou seja, mesmo assistindo todos os dias, quase não se lembra do que aconteceu no dia anterior.

Sua filha relatou "sabe o que é mais engrassado? Quando ela vê uma novela com alguns atores antigos e você pergunta qual o nome da novela, ela sempre fala o nome de uma novela que até já passou umas 5 vezes no vale a pena ver de novo.".

A rotina ultrapassa o plano do patológico e de certa forma é justamente a passagem do que é patológico para o natural, para o cotidiano é que encontramos ali, naquele sintoma, naquele sinal, a saúde da pessoa.
Retirar esta senhora da frente da sua televisão causa dor, angústia, estresse que não conseguimos compreender o porque. Parece que de certa forma o tempo não é mais medido em horas, mas em novelas. em cada quadro de cada episódio.

Uma amiga minha está parando de fumar e disse-me que conta os cigarros por dia. Tem a intenção de diminuir 2 por semana. Ela fuma atualmente 20 cigarros por dia. Semana que vem serão 18. Entre um cigarro e outro há um período de tempo que não é o cronológico, é o tempo da vontade. A vida dela é medida em cigarros. Disse pra ela como seria o tempo quando estivesse na ultima semana com apenas 2 cigarros por dia. Ela me disse sorrindo que o tempo seria quase uma eternidade, mas ainda daria para separar em noite e dia. 

Compreendi pela primeira vez o que era uma compulsão na explicação dela. É entre uma manifestação e outra que o ego, que a pessoa pode viver. Justamente quando acabar os cigarros ela terá que dar conta de uma vida sem interrupções, ou escolher um outro objeto que a ajude a marcar o tempo. Eu uso o café em meu trabalho...

No trabalho o café é como uma compulsão. Chego as 07:45 e fico até as 8:00 esperando o café ficar pronto. Só bato o ponto se tomar meu cafezinho. Atendo os grupos depois de outro gole de café, e depois dos grupos pego mais um bucadinho. É assim, no serviço o café marca o começo e o fim de uma atividade. É pelo café que posso identificar o quanto eu trabalhei (quantitativamente), afinal, se tomei muitos copos de café é porque fiz muitas coisas, se tomei apenas uma ou duas, é porque não tive mais de uma atividade, a qual me ocupou todo o periodo do serviço.

É assim mesmo, a gente em nome de uma saúde se apega a determinadas "manias" alguns com o café, alguns com a água, alguns com um petisco, outros com o cigarro, com a bebida, com a droga... 

Mas o mais legal disso tudo é que lá no fundo quando a coisa aperta, voltamos sempre para os rituais (fumar, ou tomar café) que disponibilizamos em nosso repertório para vencermos o dia a dia de cada dia. Somos todos compulsivos, alguns mais e outros menos. 

Já viram que tem gente que não consegue deixar de entrar em um ambiente sem dar bom dia? Ou ainda sem dar um sorriso e alegremente balançar a mão dos presentes e dar beijinhos nas presentes? Pois é, essa compulsão me irrita mais que cigarro!!!

Tem uns loucos que a reunião já havia começado há mais de uma hora, quando entra passa um por um, como que dando (ou recebendo) a bença. Não sei se a compulsão é em nome do ritual de pedir perdão ou de ser notado. Neste caso específico de um colega, para mim é apenas para chamar a atenção. 

Mas o mais importante de tudo isso é que indempendente de qual seja o ritual, ou para que ele serve, ele sempre funciona, sempre cumpre sua função. Marca um início de um novo período, de um novo tempo, até que o próximo comportamento esteriotipado seja manifesto, sempre, sempre nos protegendo da eternidade, sempre nos protegendo de uma continuidade infinita.

 
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