sexta-feira, 11 de março de 2011

Coisas que movem-se

        Na casa do meu pai, reza a lenda que existe um duente. Este duende come as coisas que estão dando sopa, pega alguns objetos e some com eles (o último foi um dvd). Simplesmente ele atua na surdina da noite. Quando todos estão dormindo ele costuma fazer suas traquinagens.

       Aqui em casa é bem diferente. Não existe duende coisa nenhuma, as coisas andam e desaparecem po si memas. Alguns objetos tem vida própria, e estou começando a achar que não é esta vidinha de Toy-Story coisa nenhuma. A vida que os objetos tem aqui é muito mais parecido com "A Bela e a Fera". 

       Um dos objetos que mais desaparecem por aqui é o controle remoto. Ele move-se na cara dura enquanto ainda estamos acordados. Vez ou outra até mesmo quando estamos com ele nas mãos, é só dar uma distraidinha que ele desaparce e aparece novamente na cozinha, no banheiro, nos quartos... 

       Pior ainda são os celulares. Estes, embora possam ser localizados com uma ligação para eles, costumam sumir quando estão desligados. Aí é que não compreendo. Estão sem bateria para funcionar, mas para sumir, eles tem energia suficiente.

       Tênis, roupas e afins eu nem vou comentar. Não vale dar ibope para essas coisas, afinal, elas são assim  mesmo. Esses dias encontrei um par do tênis seco e o outro na lavanderia todo molhado. Impressionante que a gente imagina que eles tem vida tipo "Gêmeos siameses", mas não meus caros, este é um erro fatal. Caso você encontre um de seus pares de Tenis em baixo do sofá, o outro deve estar na cozinha, quase nunca somem e escondem-se no mesmo lugar.

       Quadros também tem lá sua personalidade por aqui. Tem um quadro que acho que é de um pintor espanhol. É teimoso em demasia, lembra muito um primo meu, se bem que meu primo não faz por maldade, só quer compreender as coisas. Agora aquele quadro não. Para vocês terem uma idéia, um dia resolvi colar ele com cola quente, passei em todas as bordas e no dia seguinte, lá estava ele sorrindo pra mim com aquela ponta de sua quina levemente apontando para cima. Sei que ele se moveu e estava diferente simplesmente porque eu havia marcado obsessivamente um quadrado ao redor dele. No outro dia, ele era um quadro fora do enquandre. Acho que de tão teimoso que é, se você pregálo em suas 4 quinas ele dá um jeito de mover a parede, só para não ficar alinhado.

       Pois é, aqui em casa não existem duendes, as coisas têm vida própria. E o pior é quando contamiam com vida (tipo fadinha com pirilimpimpim) as outras coisas que vem de fora. Esses dias meu amigo perdeu um livro aqui em casa. Havia deixado em cima da mesa e depois de estudarmos estava dentro da mochila dele. Acho que ele ficou acanhado com outros livros de Lacan que eu tinha aqui. Afinal, colocar um livro de Skinner perto de dois de Freud e um de Lacan é covardia.

     

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ciência como religião.

       A ciência é colocada por muitas pessoas em um lugar de destaque, para alguns como a grande potência, como a grande salvadora do humano. Há até mesmo alguns adeptos (supostamente cientistas) que divulguem em suas idéias que não há ouro conhecimento ao não ser aquele que é o científico, ou seja, aquele conhecimento que é rigorosomente comprovado por uma metodologia e uma observação livres de qualquer tipo de subjetividade.

       Segue logo abaixo um fragmento do artigo de Boaventura de Souza Santos: "Um discurso sobre as ciências na trasição para uma ciência pós-moderna" 

"No seu célebre Discours sur les Sciences et les Arts (1750) Rousseau formula várias questões enquanto responde à que, também razoavelmente infantil, lhe fora posta pela Academia de Dijon1. Esta última questão rezava assim: o progresso das ciências e das artes contribuirá para purificar ou para corromper os nossos costumes? Trata-se de uma pergunta elementar, ao mesmo tempo profunda e fácil de entender. Para lhe dar resposta -do modo eloqüente que lhe mereceu o primeiro prêmio e algumas inimizades -Rousseau fez as seguintes perguntas não menos elementares: há alguma relação entre a ciência e a virtude? Há alguma razão de peso para substituirmos o conhecimento vulgar que temos da natureza e da vida e que partilhamos com os homens e mulheres de nossa sociedade pelo conhecimento científico produzido por poucos e inacessível à maioria? Contribuirá a ciência para diminuir o fosso crescente na nossa sociedade entre o que se é e o que se aparenta ser, o saber dizer e o saber fazer, entre a teoria e a prática? Perguntas simples a que Rousseau responde, de modo igualmente simples, com um redondo não."

       Estou mais inclinado a pensar a ciência como um método do que como um fim. A ciência pode ser boa ou pode ser má? Não acredito que possamos dar a uma atitude humana (a atitude científica) uma face, uma qualidade que podemos encontrar apenas nos seres humanos.
       Sim, apenas nos seres humanos porque nós podemos mesmo diante de um campo de concentração, destruídos pela fome, cansaço e sede, ainda sim sermos bons e partilhar um sorriso, um pedadaço de pão ou uma esperança, como afirmam os casos relatados por Frankl. Os animais não tem estas características, são antes de tudo instinto, como que calculando automaticamente as suas probabilidades e suas chances de matar ou morrer, eles irão atacar e comer ou deixar um outro comer.

       A ciência é somente um caminho a mais para que o humano faça com ela o que pode fazer com o que ela lhe permite. Uma bomba atômica ou um Raio X para diagnosticar doenças. Uma câmara de gás ou um cilindro de Oxigênio para mergulhadores se divertirem. Quem manda na ciência é quem a utiliza. É em ultima instância um homem, soberano sobre ela e sobre o poder que ela lhe confere.

       O conhecimento adquirido não científicamente não pode ser considerado não científico somente porque não fora adquirido em uma universidade. Isso me parece muito mais um positivismo mascarado (que a ciência julga ser contrária a este tipo de visão pois não deve ter visão alguma a priori, ao não ser o que é observavel sistematicamente) onde alguém que possui melhores ferramentas, ao menos alega que as possui, na sociedade contemporânea se diz uma pessoa melhor. Estudada como diziam antigamente.

       Bobagem. É quase uma balela. Lembro-me muito bem de um Peão de idade que ensinava-me a ver se iria chover apenas olhando se as formigas estavam ou não trabalhando. Acho que ele nunca errou. Já a previsão do tempo erra a todo momento.

       Os avisos e alertas de Tsunamis (hoje parece que teve outro) nunca foram capaz de prever um Tsunami real. O ultimo que teve passou desapercebido e matou muitas pessoas mesmo depois da tragédia no Haiti. Os moradores disseram que os animais estavam muito ativos, os pássaros todos sairam voando. E o alerta não veio. 

       A ciência é uma característica de uma época, de um período histórico. Assim como outras coisas humanas, as vezes falha. E é exatamente por que não da conta de tudo que não é eterna, mas ao contrário, é sempre desamparadora pois a cada novo humano que surge com pensamentos "científicamente corretos" surge uma nova perspectiva, surge uma nova ciência.

       Basta vermos os medicamentos. Sempre correndo atrás das infecções. Não podemos criar um medicamento que seja específico para uma patologia específica que ainda não existe. Assim é a ciência. Em cada período histórico ela traz uma, ou até várias, respostas para um determinado problema. Este problema é sempre demasiado humano. 

       Por isso acho que a ciência tal qual se apresenta, seja pelo discurso ou pelo método é característica humana, é apenas uma ferramenta que utilizamos para explicarmos a nós mesmos aquilo que os animais (e até nós mesmos) já sabem por instinto, mas não pode ser aceito este conhecimento instintivo porque simplesmente não vem da razão, não vêm de uma oservação acadêmica e muitas vezes carece de método.

Logo do Blog

O Blog além de cara também tem uma Logo agora.

Só não sei como colocá-la aqui neste espaço. rsrsrs

Bom gente, digam o que acham, o que poderia mudar, onde gostariam de ver a logo... essas coisas...


Créditos ao meu primo Ramon Mendiela Ventura Jr., se alguém quiser uma logo ou alguma coisa parecida me avisem que ele cobra baratinho. rs

Abraços e feliz ano novo.

GRUPO DE ESTUDOS EM PSICANÁLISE - Universidade Estadual de Londrina



       O Grupo de Estudos em Psicanálise  realizado em Londrina, segue para seu segundo ano de estudos com o Prof. Dr. Daniel Omar Perez.


    O Grupo de Estudos (seminários) ministrado pelo Prof.  segue aos sábados, na freqüência de uma vez por mês no HU/UEL. Serão realizados também Encontros Temáticos às sextas à tarde que antecedem o Grupo de Estudos. Esses Encontros serão à parte, abertos ao público em geral, acontecerão no campus da UEL e serão fornecidos certificados (de eventos de extensão pela PROEX/UEL) de maneira isolada. Já o Grupo de Estudos terá participantes pré definidos e o certificado (de curso de extensão pela PROEX/UEL) será fornecido no final do ano.

     No primeiro mês teremos a participação especial do Prof. Dr. Jorge Sesarino e nos meses seguintes O Prof. Dr. Daniel Omar Perez será o ministrante, podendo trazer outros convidados.

    O grupo de estudos tem como objetivo apresentar os elementos fundamentais da possibilidade de um percurso analítico como experiência subjetiva. Diante do mal-estar do sujeito (inibições, sintomas, angústias) a experiência analítica se constitui como um percurso que vai da implicação subjetiva à des-subjetivação. Isso significa localizar o nosso mal-estar, no seio das nossas fantasias, do imaginário da nossa vida, da posição que ocupamos como sujeitos, das nossas relações simbólicas e do Real que, como o ex-tranho, habita no mais íntimo e não cessa de insistir não se inscrevendo. Certamente, estaremos tratando de uma teoria do sujeito e de elementos clínicos.
      O estudo se apoiará em elementos teórico-práticos tornando utilizável a linguagem freudiana-lacaniana. Serão utilizados como referência textos de Freud e Lacan, mas também da tradição filosófica, dos debates da filosofia contemporânea (ou seja, do que hoje se discute entre os principais grupos de pesquisa em filosofia e psicanálise), do cinema e da televisão.

INSCRIÇÕES CLIQUE AQUI:   http://www.uel.br/eventos/proex/index.php?content=inscricoes/seleciona_evento.php&cod_evento=86
CLIQUE NAS IMAGENS A SEGUIR PARA MELHOR DEFINIÇÃO E MAIORES INFORMAÇÕES: 

terça-feira, 8 de março de 2011

Metaforizando o Humano.

     Já repararam o quanto nos comparamos com animais, coisas, outras pessoas, sempre buscando encontrar adjetivos exteriores para nos denominar? 

     É naquele momento em que precisamos nos encontrar, nos descrever, afirmar para nós mesmos ou para um outro quem somos nós que o ser humano busca em vão categorizar-se e ficar paradinho ali por um momento como se tivesse de uma vez por toda sido descrito, descoberto, catalogado e enfim, compreendido.

     O bonito no humano é justamente a capacidade de infinitar-se através das metáforas que acompanham seu discurso. Por exemplo as crianças que querem ser fortes como um leão, grande como um touro, rápidos como uma cobra. Sem nenhuma consideração do monstro que seriam, não, elas imaginam que podem continuar crianças, podem continuar como são, mas apenas tendo características de outro. as características escolhidas não as definem enquanto pessoas, pelo contrarário, marcam apenas um ponto do que são.

     Infelizmente a gente cresce e acha que agora, depois "de grande" não somos mais fortes como um leão, grandes como um touro, aliás, sabemos exatemente o quanto medimos, o quanto pesamos, e em alguns casos, o quanto de gordurinha em cm3 temos em cada parte arredondada de nossos corpos. Definimo-nos, ou melhor, depois que crescemos ganhamos a capacidade de ver-nos na realidade, de estancar a fantasia e a partir daí, morremos.

     Não é muito diferente uma criança acreditar que é um urso e um adulto pensar que tem sucesso. Acho que vou reformular, é muuuuuito diferente sim. A criança sabe que não é um urso. 

     Gosto da teoria de Einstein em alguns momentos. Este momento, para este post em especial ela me é formidável. Um adulto que tem sucesso, tem um sucesso relativo, sempre unido a uma característica que ele atingiu, que ele alcançou, deixando muitas habilidades, qualidades e defeitos para trás. Quem diz o que é qualidade ou defeito é a cultura, ele mesmo, muito pouco sabe sobre o que ele acha, ou quando quer algo que é diferente do que quer a sociedade entra em angústia. Ele não pode ser um urso, só de querer e deixar este desejo, ou vontade mesmo, transparecer para alguém já é taxado de louco.

     Já as crianças não. Elas sabem de sua força (até certo ponto - já tentei voar quando era criancinha) e não são ursos, mas sabem que podem criar-se a cada piscar de olhos, e que não importa tanto o que digam delas, elas sofrem sim com isso, mas muito além do sofrer, há um gozo particular em poder fechar os olhos e mesmo que em sonho poder voar pela janela a fora.
     Gostaria de deixar isso aqui no blog em forma de protesto. Não permita que as pessoas te digam o que é certo ou errado se você não concorda com elas. Argumente sem querer vencer uma batalha, apenas para ver o outro ponto de vista. Argumente como faz as crianças que mesmo ouvindo de seus pais que ele não é um touro, ao acabar a conversa, desce do colo do papai ou da mamãe  e volta a chifrar os móveis (ou o travesseiro se for mais espertinho).

     Freud havia compreendido muito bem esta característica de metaforizar-se para tentar encontrar algo de comum, algo que definisse quem somos nós. 

     Freud compreendeu melhor ainda que não há algo que nos defina, que somos indefiníveis ao não ser que permitamos que outros os façam por nós. Não somos nem amarelos, nem brancos, nem negros. Cada pessoa tem o seu tom de pele, mas de alguma forma o documento vem dizendo a cor. Então perguntei para o policial porque era necessário aquilo, ao que ele muito solícito respondeu, apenas para identificar você, ou seu corpo.

     É isso mesmo, ao ser identificado morremos, só podemos ser categorizados e ter o futuro 100% previsto depois de mortos. É disso que trata-se este post, pessoas que esquecem-se de suas épocas de infância em que tudo podiam e tudo faziam (mesmo que na imaginação) e em nome de uma categoria, de um documento (que é papel) se deixam morrer.

     E então quando percebemos que por mais metáforas que possamos incorporar não necessariamente conseguiremos nos definir, fica aquela sensação de vazio, de que alguma coisa deveria ser feita. Sim, deveria, mas não necessariamente este é um dever real, pelo contrário, continue com as metáforas, porém, simplesmente não permita devido a uma metáfora já incorporada ao seu ser, outras relativamente incongruentes não possam ajustar-se em você.

    

Encontros Temáticos em Psicanálise

segunda-feira, 7 de março de 2011

Esposa de Mentirinha: um filme supreendente

     A gente sente desde o começo do filme como ele vai terminar. Sim, não é um filme de grandes surpresas, mas é um filme sensacional onde podemos perceber a verdadeira graça da vida, o caminho que é feito para chegar ao final, ao objetivo, ao grande momento da trama.

     Surpreende pelos detalhes e pelos des-encontros no discurso de cada um. Quando na verdade conta a história de um amor, de um carinho, que está construído para além do sexo, uma amizade que simplesmente de tão íntima, nos faz refletir que tamanha dependencia não poderia ser outra coisa, é o amor.

     Em tese, ele nunca precisou dela, ela era apenas mais uma que poderia ser trocada a qualquer momento, e ela também, embora dependesse por causa de seu emprego, não passava disso. Os dois eram simplesmente o que eles eram, independentes um do outro.

     E por acaso esta é uma das características do amor, a independência do objeto amado. O objeto de desejo é simplesmente objeto de desejo para quem deseja, mas enquanto outro, ele é livre, e nisso reside o mistério da independência, afinal, depende daquele que é livre e não do que foi aprisionado no relacionamento.

     Sabem aquele famoso discurso que duas pessoas encontram-se apaixonam-se e mudam-se mutualmente? Depois de um tempo fica aquele mal-estar porque a paixão estava no outro livre e não no outro que acabou se tornando ao estar próximo demais. Ao ser aprisionado pelo amor.

     Este é um segredo que os casais bem sucedidos conseguem guardar (mesmo porque é inconsciente na maioria das vezes) o jeito de uma pessoa com todos, como ela fala, o tom de sua voz, seu perfume, sua forma de compreender e agir no mundo. Estas características pessoais é aquilo que fica evidente em determinada parte do filme. E são exatamente essas caracteríticas que fazem com que um possa desejar o outro. Desejo aqui tanto de tesão sexual, por possuir, mas também porque já foi possuído(a) por quem percebe-se amando.

     É minha gente, o filme retrata que em alguns dias (se não me engano são 4 dias) pode sim iniciar uma paixão, mas ela só dura porque houve toda uma caminhada anterior entre duas pessoas singulares que se desejam como são, e não como uma tentativa de consertar um ou outro (caso clássico dos amores adolescentes).

     Fica a sensação de que esse filme mostra todo um percurso que já ocorreu e que de repente só precisava de um catalisador para que pudesse chegar ao seu desfecho.

     Embora sintamos o que acontecerá no começo do filme, e antes da metade já tenhamos a certeza disso, vale boas gargalhadas e em especial uma reflexão sobre como o amor é percebido e encarnado. Muito diferente do que alguns dizem por aí, alardeando que o amor deve surgir. Creio que fica aquela sensação de que o amor já está sempre muito mais presente do que imaginamos e que de alguma forma, em algum momento, simplesmente nos damos conta de que ele está lá.

     O amor fica diferente da paixão. Enquanto um é abrir os olhos e ver o céu todo estrelado e deslumbrar-se com tantas estrelas e com sua imensidão. O amor é simplesmente perceber o céu desde o pôr do sol até o nascer do sol. É o tempo que passa. É a sensação de que nesse tempo algo muito bom está acontecendo, a certeza de que o objeto de nosso desejo, não é o deslumbramento do céu estrelado, nem a força do sol, nem a visão da estrela d´alva pela manha, mas é aquele(a) que está ali conosco em todos estes momentos.

     E para finalizar, a sensação durante todo o filme é simplesmente aquela de que uma risada atrás da outra nos permite ter:  "Que delícia, valeu meu ingresso"

sexta-feira, 4 de março de 2011

O trabalho Psicanalítico: Respondendo a perguntas

Respondendo a uma pergunta feita por um amigo:

Com o que de concreto trabalha a psicanálise?

Como ele não é muito afim de ler Lacan e compreende um pouco da base psicanalítica, respondi que era basicamente com 3 ferramentas principais (não que sejam as únicas): Relação entre analista e paciente; Discurso; Interpretação

1 º - Trabalha com a relação existente entre sujeito e analista. Será a partir desta relação que é possível o surgimento do diálogo, espera-se que seja o mais franco possível, espera-se que o diálogo seja uma espécie de monólogo onde os dois participem, os dois falem, mas o que quer que seja dito venha apeas de uma pessoa, o analisando.

2 º - Discurso. A Psicanálise trabalha utilizando-se da ferramenta, principalmente, do discurso daquele que fala. Lacan Dizia que quem fala, está falando com alguém, esta falando para um outro. É exatamente aqui que entra a interpretação que é suficientemente boa. Quando o analisando fala é para alguém que ele fala, mas este alguém nunca é o analista, é a ele mesmo que deve escutar-se. Então pra que interpretar se quem fala é quem ouve?

3 º - Quem fala é o analisando, mas fala do que lhe é inconsciente. É exatamente aqui que entra a interpretação. Através do discurso com o analista que coloca-se na posição de "morto" (sem desejos, sem vontades) permite-se que o analista como alguém que está "fora" pontuar o que escapou e não foi compreendido, ou escutado pelo cliente. Este que escapa, que foge, onde a palavra de certa forma não chega, quando interpretado (no momento oportuno) gera o religamento entre o discurso e a sensação do que foi dito. É neste meio, entre uma palavra e outra que pode reside o sujeito, aquele que fala o que o falante não quer, ou não pode, ouvir.

Estes 3 pontos são as chaves de uma análise que repetem-se seguidamente, e é desta forma que podemos fazer com que o incosciente torne-se consciente.

Aí veio a clássica afirmação:

- Mas Marco, então se eu ficar falando simplesmente deitado sem ninguém ali é a mesma coisa já que eu falo pra que eu mesmo ouça o que eu falo.

Respondi com cara de malandro que não era bem assim.

Na análise a gente fala repetidas vezes sem se dar conta do que estamos falando, falar sozinho é a mesma experiência de repetir uma fala e pronto. É necessário uma interpretação de um outro para que você perceba de outra forma aquilo que você mesmo fala. Através de uma metáfora por exemplo, na hora que é escutado o que diz o analista, aquela metáfora possibilita uma quebra, um corte com as defesas do "não escutar-se" (defesas inconscientes) e a partir daquilo fica mais facil de compreender o que se diz.

Claro que existem muito mais coisas, mas acho que no momento, por enquanto, respondi ao seu desejo de saber um pouco mais do fazer do psicanalista como algo real, uma função exercida por alguém que existe e que realmente faz algo de fato. Contrariamente ao que ele imaginava o que era a psicanálise (muito mais ligado a uma conversa filosófica) ele percebeu que a psicanálise é algo um tanto quanto mais interessante do que ele podia imaginar.

Em resumo, tivemos um ótimo bate papo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Livro a ser escrito:

     Procurando por alguns documentos, organizando os papéis de quase uma breve vida toda de 26 anos (sem contar outros papéis agregados na mesma pasta que não pertecem a estes 26 anos) percebi que em um momento bem oportuno meu nariz começou a coçar e meus olhos começaram a lacrimejar.

     Pronto, com tanta coisa ainda por achar na papelada, a rinite alérgica ameaçou a surgir. Só pode ser alergia da poeira, ou ainda, dos ácaros, ou quem sabe é do pozinho que a baratinha morta (encontrada no fundo de outra pasta) está soltando - vingando-se de ter sido assassinada pelo pó que ali estava acumulado por no minimo 7 anos.

     Encontrei os documentos, fui tomar banho, abri todas as janelas da casa e assim como minha frustração, raiva, ansiedade e ódio que eu tive antes de encontrar os documentos, o vento que entrava pela casa levava tudo isso embora junto com o cheiro de antigo, de guardado, de baratinhas...

     E junto com o vento foi-se também meu estresse, e com ele a coriza, a coceira e também até mesmo as lágrimas de meus olhos que estavam se confundindo em um misto de alergia à poeira, raiva, alergia à raiva...

     Pois é pessoal, cada dia mais descubro que sou alérgico mesmo a essa coisa chamada raiva, frustração, ódio. Cansa-me demais essas coisas, muito mais do que a poeira irrita meus olhos e meu nariz.

     Então fica aqui a primeira parte do meu futuro livro que chamar-se-á (eu adoro usar mesóclise)  " Minha rinite alérgica psicossomática desencadeada pela raiva de sentir o cheiro da poeira de coisas guardas."

    Desculpas aos meus leitores, queria apenas dizer que a do muito corrido com os prazos apertadíssimos para entrega dos documentos, projetos e outras leituras agora nesse começo de ano. Em breve (espero que logo depois do carnaval) o Blog voltará ao normal.

terça-feira, 1 de março de 2011

Sociedade de Leis

     Trabalhar com menores infratores tem sido um grande desafio ao mesmo tempo que tem dado-me muitas alegrias de novas perspectivas teóricas e também práticas.

     Algumas pessoas (acho que vendo por uma perpesctiva positivista) insistem em dizer que eles vivem outra realidade, que nas favelas existe um outro tipo de sujeito, uma outra sociedade. Ainda não me convenceram disso. Não creio que há diferença entre a sociedade do tráfico e a nossa. Não creio em duas sociedades paralelas (ainda). O que existe é que, de certa forma, algumas leis são diferentes, ou no mínimo a interpretação delas.

     Pensar em um mundo do crime sem leis é estupidamente ingenuo. O crime tem suas leis e pune com maior rigor e quase que imediatamente quem as descumpre. "Treta do crime nunca morre" este é o jargão utilizado pela maioria para mostrar que uma vez que ocorre a transgressão de uma lei, esta terá as suas consequências.

     A lei "normal" está pautada no direito Romano, é a lei, teoricamente, do respeito ao outro e à propriedade do outro (bem simplificado). Dentro do crime há a mesma lei. É respeitado o outro e também a propriedade dele.

     A diferença que podemos encontrar é na pessoa que está envolvida com o crime. A maioria dos adolescentes tem no discurso uma sociedade perversa onde o outro não importa. A lei não existe incorporada como para defender os outros, mas apenas para utiliza-la da forma como lhe aprouver, Em outras palavras cada um tem a sua lei, cada menino é a sua própria lei.

     Quando discuti com um dos menores atendidos sobre a possibilidade da mãe abandonar alguém ele disse que isso era impossível, a mãe nunca abandonaria seu filho. Depois de arregalar os olhos como que tentando compreender da onde eu tirava aquelas idéias disse-me com uma voz mais elevada: "se abandonou ou esqueceu do filho é porque não é mãe."
     A lei estava impressa e podia ser percebida pela fala de que a mãe não pode abandonar, não pode faltar, não pode falhar. É uma regra, é uma forma de diferenciar a mãe dos animais (princípio das leis humanas que tentam dar conta da ordem da civilização), se acaso a mãe faltar, ela deixa de ser mãe, então passa a ser qualquer outra coisa, talvez até um animal.

     Na verdade quando eles dizem suas infrações com a maior naturalidade possível - estelionato, latrocínio, sequestro, tráfico, entre outros - eles estão realizando algo que transgrida a lei social, mas não estão transgredindo nenhuma lei para a compreensão deles. Na tentativa de justificar seus atos infracionais ainda nos jogam contra a parede perguntando se nunca viramos o carro sem dar a seta apropriadamente. A lei está sim (pelo menos parece) interiorizada mas, todavia, falta a compreensão de que o outro também tem direitos, de que o outro também é gente, de que o outro é um outro assim como o menor é para este outro.

     Para finalizar, coloco aqui o barulho insurdecedor de uma impressão que tive do filme "Cidade de Deus" onde na hora de rezarem o "Pai Nosso" um dos grupos diz em alto e bom som "Seja feita a NOSSA vontade". Somente por este trecho podemos compreender que o outro é alguém que, talvez, somente por existir, já está transgredindo a lei do criminoso. 

     A perversão é por este caminho, alienar-se da existência do outro ao ponto de ser o único que supostamente deve gozar, autosuficientemente.

     Por estes e outros motivos, não creio que sejam sociedades diferentes, mas apenas sujeitos que não se enquadram em nossas normas sociais. Lembrando que muitos traficantes, assaltantes e até mesmo, porque não, assassínos, talvez sintam culpa, mas não perimitimos que possam expressar-se, ou quando o fazem, trazemos eles para nossa lei perversa imaginando que não tem culpa sincera, culpa verdadeira ou arrependimento.

     Acho que o filme "O Leitor" (penso que é este mesmo) frisa muito bem isso tudo, a mulher é condenada por um crime que de certa forma "não cometeu" e arrepende-se, mas em nome de uma Lei, condenam a pobre inocente e quase todos ficam satisfeitos no final, exceto quem sabia da verdade.

     Fica aí a dica de filme para esta quarta-feira para quem não curte futebol "O Leitor" um ótimo filme.

 
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