sexta-feira, 4 de março de 2011

O trabalho Psicanalítico: Respondendo a perguntas

Respondendo a uma pergunta feita por um amigo:

Com o que de concreto trabalha a psicanálise?

Como ele não é muito afim de ler Lacan e compreende um pouco da base psicanalítica, respondi que era basicamente com 3 ferramentas principais (não que sejam as únicas): Relação entre analista e paciente; Discurso; Interpretação

1 º - Trabalha com a relação existente entre sujeito e analista. Será a partir desta relação que é possível o surgimento do diálogo, espera-se que seja o mais franco possível, espera-se que o diálogo seja uma espécie de monólogo onde os dois participem, os dois falem, mas o que quer que seja dito venha apeas de uma pessoa, o analisando.

2 º - Discurso. A Psicanálise trabalha utilizando-se da ferramenta, principalmente, do discurso daquele que fala. Lacan Dizia que quem fala, está falando com alguém, esta falando para um outro. É exatamente aqui que entra a interpretação que é suficientemente boa. Quando o analisando fala é para alguém que ele fala, mas este alguém nunca é o analista, é a ele mesmo que deve escutar-se. Então pra que interpretar se quem fala é quem ouve?

3 º - Quem fala é o analisando, mas fala do que lhe é inconsciente. É exatamente aqui que entra a interpretação. Através do discurso com o analista que coloca-se na posição de "morto" (sem desejos, sem vontades) permite-se que o analista como alguém que está "fora" pontuar o que escapou e não foi compreendido, ou escutado pelo cliente. Este que escapa, que foge, onde a palavra de certa forma não chega, quando interpretado (no momento oportuno) gera o religamento entre o discurso e a sensação do que foi dito. É neste meio, entre uma palavra e outra que pode reside o sujeito, aquele que fala o que o falante não quer, ou não pode, ouvir.

Estes 3 pontos são as chaves de uma análise que repetem-se seguidamente, e é desta forma que podemos fazer com que o incosciente torne-se consciente.

Aí veio a clássica afirmação:

- Mas Marco, então se eu ficar falando simplesmente deitado sem ninguém ali é a mesma coisa já que eu falo pra que eu mesmo ouça o que eu falo.

Respondi com cara de malandro que não era bem assim.

Na análise a gente fala repetidas vezes sem se dar conta do que estamos falando, falar sozinho é a mesma experiência de repetir uma fala e pronto. É necessário uma interpretação de um outro para que você perceba de outra forma aquilo que você mesmo fala. Através de uma metáfora por exemplo, na hora que é escutado o que diz o analista, aquela metáfora possibilita uma quebra, um corte com as defesas do "não escutar-se" (defesas inconscientes) e a partir daquilo fica mais facil de compreender o que se diz.

Claro que existem muito mais coisas, mas acho que no momento, por enquanto, respondi ao seu desejo de saber um pouco mais do fazer do psicanalista como algo real, uma função exercida por alguém que existe e que realmente faz algo de fato. Contrariamente ao que ele imaginava o que era a psicanálise (muito mais ligado a uma conversa filosófica) ele percebeu que a psicanálise é algo um tanto quanto mais interessante do que ele podia imaginar.

Em resumo, tivemos um ótimo bate papo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Livro a ser escrito:

     Procurando por alguns documentos, organizando os papéis de quase uma breve vida toda de 26 anos (sem contar outros papéis agregados na mesma pasta que não pertecem a estes 26 anos) percebi que em um momento bem oportuno meu nariz começou a coçar e meus olhos começaram a lacrimejar.

     Pronto, com tanta coisa ainda por achar na papelada, a rinite alérgica ameaçou a surgir. Só pode ser alergia da poeira, ou ainda, dos ácaros, ou quem sabe é do pozinho que a baratinha morta (encontrada no fundo de outra pasta) está soltando - vingando-se de ter sido assassinada pelo pó que ali estava acumulado por no minimo 7 anos.

     Encontrei os documentos, fui tomar banho, abri todas as janelas da casa e assim como minha frustração, raiva, ansiedade e ódio que eu tive antes de encontrar os documentos, o vento que entrava pela casa levava tudo isso embora junto com o cheiro de antigo, de guardado, de baratinhas...

     E junto com o vento foi-se também meu estresse, e com ele a coriza, a coceira e também até mesmo as lágrimas de meus olhos que estavam se confundindo em um misto de alergia à poeira, raiva, alergia à raiva...

     Pois é pessoal, cada dia mais descubro que sou alérgico mesmo a essa coisa chamada raiva, frustração, ódio. Cansa-me demais essas coisas, muito mais do que a poeira irrita meus olhos e meu nariz.

     Então fica aqui a primeira parte do meu futuro livro que chamar-se-á (eu adoro usar mesóclise)  " Minha rinite alérgica psicossomática desencadeada pela raiva de sentir o cheiro da poeira de coisas guardas."

    Desculpas aos meus leitores, queria apenas dizer que a do muito corrido com os prazos apertadíssimos para entrega dos documentos, projetos e outras leituras agora nesse começo de ano. Em breve (espero que logo depois do carnaval) o Blog voltará ao normal.

terça-feira, 1 de março de 2011

Sociedade de Leis

     Trabalhar com menores infratores tem sido um grande desafio ao mesmo tempo que tem dado-me muitas alegrias de novas perspectivas teóricas e também práticas.

     Algumas pessoas (acho que vendo por uma perpesctiva positivista) insistem em dizer que eles vivem outra realidade, que nas favelas existe um outro tipo de sujeito, uma outra sociedade. Ainda não me convenceram disso. Não creio que há diferença entre a sociedade do tráfico e a nossa. Não creio em duas sociedades paralelas (ainda). O que existe é que, de certa forma, algumas leis são diferentes, ou no mínimo a interpretação delas.

     Pensar em um mundo do crime sem leis é estupidamente ingenuo. O crime tem suas leis e pune com maior rigor e quase que imediatamente quem as descumpre. "Treta do crime nunca morre" este é o jargão utilizado pela maioria para mostrar que uma vez que ocorre a transgressão de uma lei, esta terá as suas consequências.

     A lei "normal" está pautada no direito Romano, é a lei, teoricamente, do respeito ao outro e à propriedade do outro (bem simplificado). Dentro do crime há a mesma lei. É respeitado o outro e também a propriedade dele.

     A diferença que podemos encontrar é na pessoa que está envolvida com o crime. A maioria dos adolescentes tem no discurso uma sociedade perversa onde o outro não importa. A lei não existe incorporada como para defender os outros, mas apenas para utiliza-la da forma como lhe aprouver, Em outras palavras cada um tem a sua lei, cada menino é a sua própria lei.

     Quando discuti com um dos menores atendidos sobre a possibilidade da mãe abandonar alguém ele disse que isso era impossível, a mãe nunca abandonaria seu filho. Depois de arregalar os olhos como que tentando compreender da onde eu tirava aquelas idéias disse-me com uma voz mais elevada: "se abandonou ou esqueceu do filho é porque não é mãe."
     A lei estava impressa e podia ser percebida pela fala de que a mãe não pode abandonar, não pode faltar, não pode falhar. É uma regra, é uma forma de diferenciar a mãe dos animais (princípio das leis humanas que tentam dar conta da ordem da civilização), se acaso a mãe faltar, ela deixa de ser mãe, então passa a ser qualquer outra coisa, talvez até um animal.

     Na verdade quando eles dizem suas infrações com a maior naturalidade possível - estelionato, latrocínio, sequestro, tráfico, entre outros - eles estão realizando algo que transgrida a lei social, mas não estão transgredindo nenhuma lei para a compreensão deles. Na tentativa de justificar seus atos infracionais ainda nos jogam contra a parede perguntando se nunca viramos o carro sem dar a seta apropriadamente. A lei está sim (pelo menos parece) interiorizada mas, todavia, falta a compreensão de que o outro também tem direitos, de que o outro também é gente, de que o outro é um outro assim como o menor é para este outro.

     Para finalizar, coloco aqui o barulho insurdecedor de uma impressão que tive do filme "Cidade de Deus" onde na hora de rezarem o "Pai Nosso" um dos grupos diz em alto e bom som "Seja feita a NOSSA vontade". Somente por este trecho podemos compreender que o outro é alguém que, talvez, somente por existir, já está transgredindo a lei do criminoso. 

     A perversão é por este caminho, alienar-se da existência do outro ao ponto de ser o único que supostamente deve gozar, autosuficientemente.

     Por estes e outros motivos, não creio que sejam sociedades diferentes, mas apenas sujeitos que não se enquadram em nossas normas sociais. Lembrando que muitos traficantes, assaltantes e até mesmo, porque não, assassínos, talvez sintam culpa, mas não perimitimos que possam expressar-se, ou quando o fazem, trazemos eles para nossa lei perversa imaginando que não tem culpa sincera, culpa verdadeira ou arrependimento.

     Acho que o filme "O Leitor" (penso que é este mesmo) frisa muito bem isso tudo, a mulher é condenada por um crime que de certa forma "não cometeu" e arrepende-se, mas em nome de uma Lei, condenam a pobre inocente e quase todos ficam satisfeitos no final, exceto quem sabia da verdade.

     Fica aí a dica de filme para esta quarta-feira para quem não curte futebol "O Leitor" um ótimo filme.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Black Swam - Cisne Negro

     Não posso começar sem antes fazer aqui uma analogia ao significado de Black Swan.

     Em Inglês Swan significa Cisne, já uma outra palavra Swamp, significa pântano.

     O que pude perceber neste filme foi a evidência de um cisne negro que emerge das profundezas de algum lugar, sujo, escuro, profundo, como uma fera que estava a muitos anos adormecida. O que me lembra este lugar é o pântano, daqueles encontrados nos filmes de terror que passam-se na Lousiana, ou ainda no Mississipi (o estado e não o rio).

     Se em uma primeira temos a pefeição da técnica, do controle, da beleza, d pureza, do amor, da meiguice, sendo representados pelo Cisne Branco, por outro lado, temos a paixão, o tesão, a energia, a força, a raiva, o medo, o ódio, em outras palavras e para resumir temos aqui todos os representantes do desejo. É claro que também há o desejo na perfeição, no amor, no controle, na beleza, mas nesta forma "cisne branco" parece que o desejo está alienado de Nina - a protagonista do filme. Já na outra parte, ela é toda pulsão, toda Id, toda "animal".

     Entre todo o filme, algumas características são notadas e podem dar luz à teoria psicanalítica. Minha proposta é disorrer um pouco sobre algumas delas, que, entre tantas, eu decidi que poderia escrever. Não que são melhores, ou mais evidentes, mas é que especialmente para essas 3 eu me sinto na capacidade para falar um pouco mais sobre ela.

     1 - Acho que o complexo de édipo, definido principalmente por Lacan - a entrada de um terceiro na relação - pode ser visto claramente quando surge o treinador, que, com o beijo e a sedução retira a criança do laço simbiótico com a mãe, começa um despertar para a vida adolescente, para a sexualidade própria. Começa a despertar-se quando ela começa a perder-se.

     Como um terceiro (outro) que diz que a moça é além daquilo tudo que estava sendo nomeada, e que ela mesma nomeava em si, ele diz: "Loose yourself" (perca-se de si mesma), infelizmente foi traduzido erroneamente nas oportunidades que aparecera a fala, a legenda mostrava outra coisa, abrandando o sentido e a seriedade da autoridade do Nome-do-Pai.

     Ela perde-se de si mesma, sai do controle, passa a ser Cisne Negro não pelo amor (encanto original), mas pelo desejo sexual, por puro tesão e sedução. Na verdade ela simplesmente começa a ser as duas faces da mesma moeda, integra em sua vida a peça encenada, encena com a vida de tal forma que termina da única forma que a peça pode terminar, tanto a peça quanto sua vida seguem o mesmo roteiro.

     2 - Fica imperceptível, em alguns momentos, se o que ela está vivendo é real ou é fantasia. Na verdade imperceptível para nós, expectadores, mas para ela, sempre é real, pois - como em posts anteriores já expliquei um pouco sobre isso - o que passasse-se em nossa imaginação, é o que é real para nós.

     Desde a angústia de ver um outro em si mesma coçando onde o controle não permitia coçar (o gozo, o prazer, o alívio de uma coceira), até mesmo a parte que ela arranca a pele do dedo e depois percebe que não arrancou. Sabem quando batemos a canela em um degrau e parece que saiu a perna inteira de dor? A sensação é que saiu de verdade toda a perna, assim como para ela (toda sensação) ela realmente arrancou a pele do dedo todo.

     3 - Para finalizar (este filme merece uma tese, e não serei eu que me arriscarei nessa jornada) fica uma idéia, uma sensação entre tantas outras que podemos ter como certa. 
    
     Uma vez que atinge-se a perfeição - seja por quais formas ela for atingida - o gozo não possibilita outra coisa que não seja a morte. Lembrou-me dos ditos bíblicos do antigo testamento que ninguém podia olhar para a face do Senhor, pois isso o mataria instantaneamente.

     Afinal, quando buscamos realizar nossos desejos é exatamente a insatisfação que nos remete às novas empreitadas em nossas vidas. Uma vez atingido exatamente aquilo que buscamos, a perfeição completa e nos damos conta disso, só nos resta um caminho, a morte, o fim, porque até mesmo na perfeição do desejo realizado somos insatisfeitos, somos incompletos.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A vida é bela !

A vida é bela, mesmo com seus dissabores, com a feiúra do bocado de sofrimento que ela nos traz.

A vida é maravilhosa, até mesmo quando o acaso, ou a providência, nos trás desafios insuperáveis, indecifráveis, que nos fazem chorar, nos fazem sofrer, nos fazem mudar e corrigir nossa rota.

Corrigir a rota dá um trabalhão danado, parece que a caminhada, aquela jornada toda planejada foi em vão, foi “perda de tempo” quando na verdade, em uma última análise serviu para fortalecer ainda mais nossas pernas, agora podemos ir bem mais longe, escolher um destino mais próximo do céu, mais pertinho da perfeição.

É legal ver as pessoas que estão no colegial, muitos pretendem passar de ano, outros já pensam no vestibular, talvez nenhum pense em uma pós-graduação, agora com certeza, são raríssimos os casos (talvez nenhum) que pensam em um pós-doc com livre docência.
Sim meus amigos, os impropérios da vida nos levam mais longe. Basta não desistir, basta continuar caminhando, mesmo que em outros caminhos. Basta prosseguir, mesmo diante do vazio, do sem sentido, do não sentindo nada, porque um dia você voltará a sentir, e perceberá o sentido que tem este momento, o momento do caminhar.

A vida é bela porque ela é viva.

Viva de interjeição de festa. Viva! De uma alegria que as festas, os aniversários, os casamentos e até mesmo, porque não, os velórios.

Viva, de imperativo, de ordem, de obrigação. Acho que esta obrigação de viver é a mais prazerosa, porque não nos custa nada, apenas viver, apenas aproveitar e transformar tudo o que é sentido em um sentido maior. Esta transformação somente cada um de nós pode fazer, com sua própria vida, som o sentido que você quiser dar.

A vida é bela, é viva, é realidade e como toda realidade, é imaginada, sonhada, sentida, mas também não é nada disso, é simplesmente vida.

Compreendo aqueles que não gostam da vida que levam, mas não podem dizer que não gostam da vida que tem. A vida que levam são as escolhas que fizeram, ou as escolhas que escolheram por você. A vida que tem, essa é diferente, essa é a vida em si mesma, como possibilidade. Possibilidade de fazer diferente, de ser de alguma forma aquilo que um dia você sonhou, de, porque não, correr atrás de seus sonhos, de enfim poder ter a sua vida e com ela dizer viva!

 


É, meus caros amigos e amigas, a vida é bela!

CURSO DE PSICOLOGIA HOSPITALAR 2011 - HU / UEL

Maiores Informações sobre o Curso : psihurnp@uel.br - (43) 3371-2351

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Direto de um e-mail - Imaginário X Real

Como nos enganamos!
 
Pensávamos que era inofensivo. Que nada! 
Estudos europeus revelaram os efeitos do álcool. Existe a evidência de que: 

Vodka + Gelo   =  fode os rins! 
Rum + Gelo      =  fode o fígado!
Whisky + Gelo =  fode o coração!  
Gin + Gelo        =  fode o cérebro!  
Pelo que parece esse filho da puta do gelo é que fode tudo! 


     Não consegui encontrar um exemplo mais simples do que essa equação acima para demonstrar o poder do pensamento, das idéias dos seres humanos.

     Aquela conversa do Leite com manga, também entra no registro do imaginário, dos significados que damos para as coisas que pensamos.

     Existe de fato um algo, um objeto, uma realidade, mas somente pode ser tocada através da utilização de nossos sentidos.

     Acreditar que de fato o gelo faz mal para a saúde como diz a equação acima é pensar cientificamente (culturalmente) utilizando para isso a ciência no plano da lógica. A lógica explica que se um e dois forem verdadeiros, poderíamos então como conclusão, considerar uma terceira premissa como também verdadeira.

    Tá certo, a filosofia da ciência não é exatamente isso, a ciência real baseia-se em fatos (que só ela pode ver pois esta equipada para tal) e através dos fatos elabora uma teoria que aos poucos vai se ajustando até bater com a realidade. Essa é a ciência acadêmica.

     Podemos dizer que a ciência acadêmica trabalha um conhecimento com objetos reais, enquanto as ciências da cultura, o conhecimento adquirido de povos distintos, é uma ciência que irá muito mais pelo lado do imaginário do que do real. Os seres humanos trabalham com o pensamento, fruto de uma série de percepções e que nem sempre são verdades academicamente científicas, mas são verdades culturais, por exemplo, o velho ditado de tomar chuva e ficar resfriado.

     Depende muito mais de outros fatores do que simplesmente da chuva em si mesma. A chuva por sinal, devria ser um ótimo acontecimento quando cai sobre os nossos corpos. Podemos sentir na pele, sentir o cheiro, o sabor, ver, ou seja, tomar chuva envolve todos os sentidos perceptuais, é ótimo para quem está com as defesas do organismo em dia.

     Agora além de uma ciência acadêmica (supostamente universal) e uma ciência cultural (de um grupo específico de pessoas - pode ser até de uma família específica) há também a ciência de cada um.

     A parte mais linda do ser humano é a sua capacidade de imaginar, de criar do nada, do vazio, do ócio, uma poesia, uma música, uma obra prima. Estas obras podemos dizer que fazem parte do imaginário pessoal, por exemplo no clássico livro de Cervantes - Dom Quixote - onde há um imaginário e a partir dele temos toda uma epopéia.

     Outro clássico é o famoso Dom Casmurro, onde é explorado este imaginário, este jogo científico de testes, hipóteses, evidências, em nome de um saber que fica desconhecido, um saber que por via das dúvidas é melhor não sabê-lo todo.

     Passando um pouco pra teoria prática das relações fantasmáticas de Lacan, podemos encontrar examatente aquela equação do gelo também nas relações que as pessoas exercem consigo mesmas e com outras. 

     Através de experiências perceptuais estabelecemos uma certa relação com o mundo, mas nem sempre estas relações de fato como nós a imaginamos, como nós percebemos que elas são. E na verdade, para o "relacionador" elas são daquela forma que ele enxerga sim e acabou.

     A terapia psicanalítica ajuda a compreender estas relações imaginadas, fantasmáticas que não são exatamente como nós as enxergamos, como nossa ciência individual comprova nos levando a um outro patamar. Passamos a ter uma visão quase que como se estivéssemos de fora de nossa vida e aos poucos fossemos revisitando cada cena para compreender melhor. Resignificação, resstruturação e revivência das experiências são de fato uma forma de dar outro sentido - aqui digo do sentir, uma forma de sentir de outro jeito - às relações fantasmáticas que estabelecemos com a gente, com nosso corpo, com as pessoas e até mesmo com a cultura.

     Existe então uma relação real, mas ela não é cientificamente acadêmica, ela é a experiência de cada envolvido e portanto, real para quem a experimenta, mesmo que seja loucura para quem ve de fora.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Direto do Blog - Psicanálise e Poesia -


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011


Etiquetas Psiquiátricas que afogam o Sujeito

Quando vi esse vídeo fiquei quieto e ri de felicidade e lembrei o quão mediócre é o CID, que têm como objetivo ser carregado por um tanque de guerra. Relembrei o quão é limitado o trabalho de um psiquiatra e psicólogos que limita o sujeito a um nome, não havendo um espaço para o discurso. O vídeo fala por si mesmo, uma bela poesia. 


 


 Pessoal, ótimo Vídeo e texto (acima)  postado no Blog Psicanálise e Poesia -

Um abraço a todos...

Marco Leite

Amar é bem estar

"O antigo amor, porém, nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor."
 
Carlos Drummond de Andrade
 
 
Há nas revistas uma propaganda em circulação que acho que o nosso ex-ministro da saúde ficou um pouco aprisionado naquela falsa percepção do anúnico. O anúncio muito simples diz apenas isso: Sexo é vida.
 
Não, sexo não é vida. A vida é outra coisa, o sexdo é parte da vida, parte boa ou ruim, depende de como e com quem ele é exercido. Nunca pensei em discordar tanto de Freud quando ele afirma que tudo é sexo. Mas, em defesa dele, nunca concordei tanto com alguém quando ele afirma que "as vezes um charuto é só um charuto".
 
A vida é muito mais que o sexo, na verdade, sem a vida não há sexo, mas sem sexo existe sim a existência, existe a vida já posta, mas não a vida futura (pelo menos de uma forma natural, a ciência hojhe não precisa mais disso para criar vida).
 
Agora, pensemos na sexualidade, esse sim é principio da vida, o que é uma sexualidade evoluída pode ser condensada em dois pontos:
 
Ter prazer e dar prazer - Ainda melhor é quando a pessoa consegue ter prazer dando prazer ao outro. Isso é amor.
 
O amor enquanto irrealidade, enquanto estado, é tão indefinível quanto a morte, é a própria vida e se manifesta através da sexualidade. Não há um pensamento de um amor verdadeiro, um único amor, mas podemos pensar talvez em um amor melhor, um amor mais puro, mais livre, seria o amor melhor o ter prazer em dar prazer ao outro?
 
Não se resume a isso. O amor melhor é ter prazer percebendo que o outro está também amando, ou seja, é ter prazer porque o outro tem prazer, embora se for comigo, o amante, seria melhor ainda.

As diversas formas de amar, se pegarmos a teoria, são apenas formas de se relacionar com os objetos de desejo, com os objets de amor. Posso definir como objeto de amor aquilo que nos aprisiona de "n" formas e que me permite ser feliz?
Sim, é isso, amar é estar preso em uma liberdade.
 
Amar dá trabalho sim, como diz Carpinejar. Mas é sempre estar preso a liberdade de deixar de amar, de deixar de fazer, de encontrar outro objeto de amor. Lacan vai definir que não existe um único objeto que satisfaça plenamente o ser humano. Não há um único objeto amado que me faça completo, pelo contrário, introduzindo a idéia de satisfação parcial, uma pessoa, um trabalho, uma família, um amigo, uma poesia, etc, tudo isso que me apreende e me da a possibilidade de seguir adiante, sem tirar minha liberdade de movimento, são objetos de meu desejo, são amados por mim.
 
Posso trocar de mulher, de trabalho, de corpo (plásticas e mais plásticas), de casa, de amigos, mas vejam que não o faço porque tudo isso me faz bem.
 
Amar então em sua melhor forma é sentir-se bem.
 
Enquanto a paixão é estar algemado a um outro e perder as chaves da algema, amar é saber onde estão as chaves mas simplesmente não precisar usar.

Sentindo-se bem então, como diz o poeta, quanto mais velho, mais amor, mais amante, mais livre, mais estar bem.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Rubem Alves - Antes que se rompa o fio:

E na correria do dia a dia, deixo a vocês um pouquinho de poesia em forma de prosa, espero que gostem tanto quanto eu. Abraços 
  ANTES QUE SE ROMPA O FIO - RUBEM ALVES - PUBLICADO NA REVISTA PSIQUE Nº 62.
 
    "O telefone chamou e deu a notícia: você ficará diferente de todos nós. Nós, que continuamos automáticos e seguros a andar pela planície, repetindo as mesmas rotinas do dia: o café da manhã, o jornal, o carro precisa ser lavado, o que vamos ter para o almoço?, a correspondência, a lamentação sobre a crise econômica, que faremos no próximo fim de semana? Mas de repente tudo isso cessou para você, pois você está pendurado sobre o abismo, preso por um tênue fio, contemplando a grande escuridão. E a alma se encheu de uma imensa tristeza ante a possibilidade de um adeus. Mas eu não quero lhe dizer adeus, pois a sua presença faz parte da nossa alegria,. E, no entanto, é isto que nós somos, sem que tenhamos coragem para dizê-lo: um adeus. É por isso que precisamos dos poetas. Pois eles são aqueles que tecem suas palavras em volta do frágil fio que nos amarra sobre o abismo. Eles sabem que em nossos corpos mora um adeus. De repente, sem nenhum anúncio."

     "Muitos, muitos anos atrás, quando minha filha Raquel não tinha mais que três anos - eu ainda estava dormindo -, ela me acordou com uma pergunta que eu nunca ouvira, uma pergunta de tal densidade poético-metafísica que tive a impressão de ter ouvido uma voz vinda de séculos de sabedoria e não de uma menininha que começava a viver - é certo que coisa semelhante eu nunca ouviria da boca de um adulto : "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?".

     "Ante o meu espanto sem palavras, ela acrescentou: "Mas não chore não. Eu vou te abraçar..." Ela entendera que a dor da morte não é a dor do medo. É a dor da suadade."

     Fragmento do texto de Rubem Alves na edição nº62 da revista psiquê que insiste em chegar atarsada, sempre atrasada aqui em casa.
 

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Grants For Single Moms