quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Saborear a vida

A gente acha que tem controle
A gente pensa que tem controle
A gente finge que controla
A gente acredita que está com lemes nas mãos
A gente segue nossos caminhos
A gente escolhe e realiza sonhos
A gente finge que é tudo de bom
A gente pensa em fazer outras coisas
A gente acha que escolheu uma só
A gente acha que escolheu outras coisas
A gente acha que vive com o leme na mão
A gente descobre que não
A gente chora
A gente esperneia
A gente tenta retomar o que era ilusão
A gente tenta tanto em vão
E vão
Vão-se os dias pelo buraco
Vão-se os dias pelo vão, pelo chão
A gente percebe que não tem jeito
A gente se dá conta de que não tem controle
A gente sai da imaginação
A gente poe os pés no chão
A gente descobre que dá pra ser feliz
Mesmo sem controle algum nas mãos
A gente reaprende a viver
A gente reaprende a ser feliz
Porque agora a gente não tem mais nada
Apenas a obrigação de curtir a vida e o que ela dá
Um dia, um trabalho, um amigo, um tempo...
Enfim, a vida deixa de ser em vão.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Direto da Folha.com - Gente cansada da arrogância gourmet busca comida sem frescura.

Para você que come caviar e sonha com miojo. Ou que sonha com caviar, mas não aguenta mais ouvir coisas como uma-incrível-técnica-que-um-bistrô-em-Paris usa para servir as ovas. Para você que tem preguiça de discutir a metafísica da abobrinha.

Esta história é para você:

Comida boa, todo mundo gosta. Mas o problema é que, para o gourmet, não basta comer: tem que contar.
"O gourmet nunca esquece o nome do morto. E enquanto o come, faz menção expressa a ele, seja javali ou alcachofra, e lembra de outros assassinatos e devorações anteriores, porque o prazer de comer deve vir acompanhado da memória de festins passados."
A descrição acima foi feita em 1990 pelo escritor espanhol Manuel Vásquez Montalbán (1930-2003), autor de "Contra los Gourmets" (sem tradução para o português).
Ótimo se prazer e palavrório se complementam, o último prolongando o primeiro. Mas, de lá para cá, muitas trufas brancas rolaram, e o pessoal se esqueceu de que o verbo não substitui a carne (ou o peixe ou o frango).
"Com a modernização da culinária e a hipervalorização da alta gastronomia, as pessoas estão ficando cada vez mais 'sofisticadas', mas cada vez mais chatas. Elas discutem o prato em vez de comer", diz André Barcinski, crítico da Folha e assumido "bom garfo"

Nota do blogueiro - Viva o brigadeiro de panela queimadinho no fundo, comido na panela, daqueles que a gente lambuza a mão quando tenta raspar até a última colher do doce.
Sempre fui fã das coisas mais simples, difícil deixar de gostar deste meu gosto generoso com a vida. 
Gosto de chuva, e quase sempre de sol.
Gosto do cheiro das flores e também do cheiro da terra.
Ah, terra molhada, só se compara com o cheiro do asfalto quando está começando a chover!
O aroma da grama sendo cortada, meu Deus! Que delícia.
Cheiro da maresia, do rio, do campo.
Gosto dos gostos mais simples.
Arroz com bife e pra encrementar e não ser muito rebinha, vez ou outra coloco um zóião (ovo frito pra quem não sabe)
Doces e mais doces, pra mim nada é tão doce quanto o mamão com açúcar, o gosto do abacaxi bem maduro cortado na hora, o abacate gelado com açúcar, aliás estou esquecendo do que sempre me salvou nas noites solitarias e sem brigadeiro, a famosa banana com canela e açucar derretida no microondas. A canela é opcional, artigo de luxo, quando tem visita em casa.
O sabor da goiabada daquelas cascão, ou ainda do doce de leite da minha sogra, que delícia!
O sabor da simplicidade da vida é algo que pude adquirir com o tempo, e a cada desgosto em minha história, parece que depois de um tempo as coisas mais simples acabam ratificando ainda mais o gosto gostoso de viver.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

CURSOS E EVENTOS - DIVULGAÇÃO AQUI NO BLOG:

Que tal divulgar seu curso, evento, website, blogg, clínica...

Aqui no Espaço Psicotidiano estamos abrindo um local especial para este fim.

Cursos e eventos na área da Psicanálise e Saúde (entre outros) podem ser divulgados sem custo algum.

Outros tipos de divulgações comerciais terão um custo a ser acertado com o responsável pelo espaço Psicotidiano.

Para divulgações favor entrar com contato com:  mclmarco@hotmail.com , ou pelo Facebook .

A dor de um andarilho silencioso.

“A esfinge com seus enigmas, obrigou-nos a deixar de lado os fatos incertos, para só pensar no que tínhamos diante de nós” (Creonte em Édipo Rei; Sófocles).


A tristeza que abatia aquele senhor que chorava era impenetrável por qualquer espécie de técnica que tentasse silenciar seu sofrimento. Suas dores eram dores do homem, não as dores de suas mãos feridas, muito menos a dor de fome que o atormentava imensamente. Viam-se suas costelas, seu cheiro ruim acusava sua situação de alguns dias sem banho, sem banheiro, sem casa; mas isso tudo era apenas uma armadilha para tentar disfarçar o que realmente importava. Seu coração estava mergulhado na profunda dor de perdas e mais perdas, esta dor, ninguém podia ver, e ele acreditava que ninguém podia tratar. Era ele hoje um mendigo, que ninguém queria saber sobre ele, sobre sua história, sobre sua jornada. Da parte dele, ele tinha tanto parta falar, mas ninguém ali naquele lugar conseguia ouvir.

Tentou falar por duas vezes o que o afligia, mas naquele lugar, assim como em todos os outros lugares, apenas o que era visto, sentido, percebido estava sendo tratado. Quanto às dores de sua alma, por serem invisíveis, eram tomadas como inexistentes.

Tomadas, do verbo tomar, absorver, engolir. Aquele homem era engolido, como as feras famintas fazem com suas presas, ele era isso, uma presa, ou melhor, um preso em sua carapaça de ferida, sujeira, mau cheiro. As cicatrizes em suas pés denunciavam seu estilo de vida, um homem que provavelmente venceria qualquer maratonista em uma prova de distância, seus pés eram uma pura crosta, misturado aos calos secos alguns cortes e cicatrizes mostrando que ali já houve a pele de um homem comum. Homem comum que deixou de ser há muito tempo.

Uma moça chegou à beira de seu leito e disse-lhe, com voz suave, sei que está doendo muito, mas o senhor vai ficar bem, vamos tratar do senhor e logo logo poderá voltar para sua casa.

Ainda mais lágrimas verterem daqueles olhos queimados, ele aparentava ser cego, mas por alguma razão parecia que enxergava, pairava a dúvida em todos, ninguém conseguia fazer um diagnóstico sem ouvir daquele homem, sem ouvir de sua boca se ele era ou não cego.

Virou a cabeça em uma última tentativa para falar algo e a mulher logo correu ao seu encontro dizendo: não fale nada, deite-se aí para descansar, deve estar cansado, com dores, já colocamos remédio em suas feridas e o senhor tem que se comportar para que os curativos façam efeito.

Era a terceira tentativa de falar, mas aquele homem recebeu aquelas palavras como sentença de morte. Sentenciado a descansar, em anos nunca ouvira alguém dizer isso a ele, descansar, deitar e dormir, e talvez nunca mais acordar, esta era a vontade daquele homem que apenas queria alguém que o escutasse.

Este texto retrata a história de um, entre vários, senhores atendidos por uma comunidade católica aqui de Londrina.

Tinha marcas em todo seu corpo, era silencioso, quieto, chorava muito, sempre arredio a qualquer tentativa de contato humano. Sempre que precisou de cuidados para sua saúde alguém ligava para a ambulância, ele era abandonado na porta de algum hospital e lá alguém fazia alguma coisa.

Quando jogavam ele pra fora da ambulância, ora era atendido, ora deixado ali jogado, ora era mandado a outro lugar. Teve uma vez que desmaiou na rua e um carro passou em cima de sua perna. “Não me lembro do que aconteceu, mas me disseram que fiquei sangrando com os osso a mostra por uns 30 minutos, o dr até disse que era milagre eu ta vivo, eu acho que é maldição”.

Comecei a conversar com ele e assim como os outros que eram atendidos naquela casa, todos tinham uma certa queixa pois ninguém os ouvia, era cuidados, tratados e depois iam embora, melhor ainda se chegassem e saíssem em silêncio.

Eu insisti que agora as coisas haviam mudado, que ele podia falar comigo, que eu estava ali pra ouvir, pra conversar, e então ele, meio assustado: “você que ouvir um mendigo? Um doente mental? Um andarilho? Um abandonado? Um mal caráter?”

Começou a chorar, e eu falei que talvez ele fosse tudo aquilo mas também era uma pessoa e que eu gostava de conversar com as pessoas, saber suas histórias, ouvir eles falarem, e que se ele quisesse eu iria voltar pra visitar ele.

Fui para um outro lado onde haviam mais mendigos acolhidos jogando dominó. Sentei em uma cadeira, acenei com a cabeça como que pedindo permissão pra sentar, sentei ao lado deles e fiquei cerca de 40 minutos, até a hora do café.

Quando o café foi servido sentei ao lado daquele senhor que não falava, suas lágrimas denunciavam suas dores, caiam de vez em quando, entre cada gole de café.

Terminado o café voltei para a cadeira, estava ocupada e eu precisava ir embora, quando eu estava saindo, ele estava no portão, olhando lá pra fora, parecia um ar de medo, de receio, de saudade, não sei o que era, mas tinha um afeto muito grande ali. Ele então me disse com voz meio rouca:

- Sabe o que é Marco, você ainda é jovem, vai aprender muito na vida, as dores do corpo a gente cuida, mas a dor daqui de dentro parece que não tem como acalmar. Me desculpa se fui grosso, mas é que a vida me deixou assim, doente, mal caráter, virei andarilho, mendigo mesmo. As pessoas acham que a gente tem fome, tem sede, mas na verdade as vezes a gente só quer alguém pra conversar.

Sorri pra ele e disse que ganhara meu dia pois ouvi dele, da própria boca dele que a vida tinha deixado ele daquele jeito, mas que ele não era assim, como muitos pensavam. Falei que retornaria, mas quando retornei ele já não estava mas lá, havia voltado pra rua, em silêncio, com seus segredos.

Para Fechar o Post, retomo a citação da obra de Sófocles com um comentário, as vezes a gente acha que as pessoas querem tantas coisas, casa, dinheiro, carro, drogas, remédios, quando na verdade, lá no fundo, tudo o que precisam é de alguém para conversar, de alguém que lhes dê a chance de falar de si. O dia a dia é o pensar no que há diante de nós, muitos ajudam com comida, remédios, mantimentos., Pouquíssimas pessoas no entanto se aventuram na incerteza de ouvir, de sentar do lado e entrar na conversa incerta de um final feliz.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Luto - saudade que não se vai.


E depois de acordar ficou aquele gosto da certeza que até então enquanto eu dormia jurava que era só uma impressão. A certeza única de que a realidade era maior que meu sonho, maior que eu mesmo e muito maior do que eu imaginava poder suportar. Acho que foi a primeira vez que tive contato com a realidade da vida e ela se chamava saudade.

Sonhava quase todos os dias, e também durante as noites quando deveria descansar era só colocar a cabeça no travesseiro e depois esperar pelas memórias, pelos sentimentos de desamparo que quase sempre acompanhavam as lágrimas. Eram muito bem vindas as lágrimas porque quando elas não vinham e vinham apenas as lembranças uma certa culpa tomava conta de mim. É como se para lembrar aqueles que haviam partido eu precisasse chorar, como um ritual merecido para mostrar-lhes o quanto eu sentia a falta deles, e para lembrar-me o quanto eu tinha medo de ter ficado para trás.

No começo quando perdemos alguém sentimos um aperto uma dor, como se a vida perdesse boa parte de sua cor. O sentimento que acompanha o luto não é propriamente a nostalgia e nem a saudade como alguns pensam, mas é o vazio. Vazio de um lugar, antes ocupado somente por aquele que era amado e que de certa forma se foi. Demora para perceber que este lugar nunca será ocupado por outra pessoa, demora para saber que o amor continua, o carinho continua, e na verdade, demora muito para perceber que o lugar vazio sempre ficará lá, vazio, faltando alguém, alguma coisa.

Demora muito mais para perceber que tudo bem, que o lugar pode ficar vazio, que a gente não precisa sempre chorar, que pode até sorrir quando se lembra daqueles que se foram, sorrir por lembranças boas. Demora quase uma eternidade (pelo menos é a sensação que tive, mesmo que não demore tanto, parece que é) para compreender que o sorriso e a expressão de amor é um tributo muito maior do que as lágrimas.

Poucas pessoas chegam a conclusão de que as lágrimas muitas vezes são apenas fruto do nosso egoísmo em querer as pessoas querida de volta, menos ainda, são as pessoas que se permitem pensar “egoisticamente” e compreender que está tudo bem.

Há quem diga que as fases do luto passam, estudos indicam 4 ou até 5 fases. Quem passa pelo luto, porém compreende que essas fases até podem existir, mas vira e mexe a gente volta de uma para a outra, porque uma vez que se tenha perdido alguém a falta acaba nos marcando como um carimbo, como uma marca de ferro no gado de corte.

Muitos livros de “auto-ajuda” insistem em nos fazer pensar positivo, olhar pra frente, deixar o que passou para trás, insistem em que há vida depois de tudo isso. Sim, há vida, mas não como era antes e isso é o que mais machuca, pois foi uma mudança que não tivemos escolha, que não pudemos optar e nos mostrou nua e cruamente o quão frágeis, quão dependentes, quão miséria somos todos nós. Citando o Pe Fiori, “ a vida é o instante que Deus beijou”.

Então durante as noites, quando sonhamos com os que se foram, há uma certa dúvida quanto àquilo tudo ser real, mas não importa, o que importa é que por um instante a mais, a saudade vai embora, o abraço é novamente possível e tudo volta ao “normal”.  Mas é só um sonho, e quando acordamos, estamos de mau humor, deprimidos, tristes e com a sensação daquele ultimo abraço, daquele último sorriso, daquela troca de palavras que acabamos de trocar como se aquilo fosse a realidade e, a vida, um pesadelo.

É triste perder alguém, só que mais triste ainda, é pensar que será sempre tudo cinza, tudo sem cor, sem gosto, sem valor. Perdemos, eles se foram, mas tudo aquilo que nos ensinaram e que eles nos ajudaram a nos tornar deve permanecer vivos conosco, vivendo em nós.

A saudade está aí, o luto, o medo, a dor, o desespero em alguns momentos, até mesmo a vontade de morrer, mas também está a sua frente uma oportunidade única de amar ainda mais aqueles que ainda não se foram, aprender ainda mais dos que ficaram, e assim ser uma pessoa melhor. Ser, este verbo só pode ser pensado diante do luto como um desafio, ser é tremendamente doloroso, é como se parecesse (mas realmente só parece) que aquele de quem sentimos falta não pudesse mais ser, mas isso não é verdade, afinal eles se foram, e ainda serão, enquanto nos lembrarmos deles.

Outro problema é o tempo que vai passando e aos poucos vai apagando a memória, as lembranças queridas da voz, do cheiro, do carinho, mas não se preocupe, afinal ,a lembrança de que alguém especial esteve na sua vida ficará para sempre em seu coração. E na verdade é isso que mais importa, não tanto aquilo que fizemos, ou deixamos de fazer, mas que alguém especial passou por nós e que da mesma forma, fomos especial para nossos entes queridos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Rumo ao tão sonhado objeto do desejo.

            O pior de tudo é estar frente a frente com o objeto de desejo e não ter idéia do que fazer com ele. Um objeto utópico sem rosto, sem definição, mas está ali. É estranho pois mesmo a minha frente, não sei  bem o que fazer com ele. Mesmo a minha frente pronto para que eu o alcance, ainda assim não sei como fazê-lo tornar-se real.

            Peço ajuda a quem já conseguiu, e tudo que sinto é que no final das contas, depende só de mim. Como se eu fosse capaz de fazê-lo de realizá-lo, meu sonho, não seria sonho se eu fosse capaz. Mas de alguma forma a capacidade de alcançá-lo e de ter o objeto de desejo não vem com o desejo, ao contrário, é consequencia do ato de perseguí-lo.

            Não que eu me sinta menor que os outros nem nada disso, é que simplesmente as condições me fugem do controle. Controle que eu nunca tive, de certo reconheço isso, mas antes eu tive desejo, vontade, agora no meio disso tudo, frente a frente com o caminho para alcançar o meu desejo, quando ele começa a ganhar forma, fica a impressão de que pode dar errado, de que alguma coisa está fora do lugar. Confiar até o fim que dará certo, acho que é loucura em qualquer projeto que a gente faça, mas desistir dele não é  e nunca deveria ser uma opção.

            Há momentos em que aquilo que mais queremos está tão próximo mesmo quando a distância a ser percorrida é ainda enorme, parecendo até que é infinita. Parece que já está pronto, acabado, está ali, mas só parece, e quando nos damos conta de que "parece" a casa cai, pois é hora de continuar e na continuidade do caminho, vamos em direção oposta ao nosso desejo, como se fossemos dar uma espiadela por fora do caminho, do labirinto que é a jornada até onde queremos chegar, mas de forma alguma saímos do labirinto ou voltamos pra traz.

            É sempre um caminho único, o caminho do caminhante, sempre para frente, onde os passos devem ser cuidadosamente mantidos, um após o outro, pois se parar divago, se divagar esqueço, e esquecendo é provável que eu saia daquele lugar sem experimentar o que ele tem de tão especial e que eu tanto desejei.

            E por acaso, como que somente por acaso, não é e nunca foi o objetivo de uma jornada, algum destino final. A jornada é a jornada em si mesma, o caminho é o que dá o gosto, o que dá a experiência, o que nos fortalece para enfim quando chegarmos ao nosso destino possamos chegar transfigurados, cansados sim, às vezes de tão cansados que estamos esquecemos de comemorar, mas afinal de contas, não importa tanto a comemoração, o que importa é que eu cheguei diante do meu objeto de desejo e agora ele é meu.

            Pensando bem, agora que ele é meu, acho que vou procurar outra coisa para buscar, vou deixar este por aqui e seguir por outros caminhos. A jornada vai recomeçar, em outro lugar, outra viagem, outro labirinto.

            É preciso coragem para partir quando aquilo que tanto desejamos está a nossa frente, mas se ficarmos, toda a beleza um dia se vai, é melhor por o pé na estrada da vida novamente, pois o belo da vida é justamente continuar, caminhar.

Nota:
A imagem deste Post é um labirinto que pode ser encontrado nos mosteiros beneditinos. segue uma breve explicação dos monges benetinos. A explicação foi retirada do blog de um dos queridos irmãos que lá reside:

O desenho é reprodução de um Labirinto que está na base do campanário, na entrada da catedral de Lucca, Toscana, Itália, feito provavelmente antes do séc. XI.
Partimos do local em que ele costumava estar nas igrejas cristãs: a entrada. Junto com os monstros e animais guardiães, ele tinha a função de alertar sobre a sacralidade do lugar: é um símbolo abstrato da regeneração, do enfrentar a morte e receber de novo a vida, do vencer a força misteriosa que nos ultrapassa e amedronta (monstro) para conquistar um sagrado, de valor infinito. Ninguém entra em uma igreja para sair o mesmo!
Dois elementos fundamentais, cujas explicações não podemos fornecer aqui, mas que deixamos como pressuposto: o círculo representa Deus, a divindade, a perfeição, a realidade eterna, o Céu. O quadrado, seu oposto, representa o mundo, a realidade terrestre, o imperfeito, o limitado, o humano.
Ao lado do desenho original esculpido na pedra, está escrito que esse é o labirinto do rei Minos, da Ilha de Creta, onde entrou e venceu Teseu. Mas, qual seria a finalidade de um elemento pagão em uma igreja cristã? Os cristãos sabiam interpretar os símbolos profundos, vendo-os como figura do grande e único Mistério: a Encarnação Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Sabemos como era e é importante no cristianismo o elemento da peregrinação, o dirigir-se para o lugar sagrado, e entre tantos que haviam, um sempre foi insuperável: o Santo Sepulcro de Jerusalém. Mas nem todos podiam fazer essa viagem tão longa e perigosa, e foi por isso também que começaram a aparecer os labirintos nas entradas das igrejas, como uma miniatura da peregrinação a Jerusalém, naquilo que ela tinha de conteúdo mais essencial: o integrar todo o corpo num itinerário, na direção do Senhor e ao mesmo tempo em companhia dEle. Estamos, pois, diante do símbolo do itinerário espiritual, do caminho para Deus, e por isso mesmo, um caminho místico. Não é retilíneo, mas torto, e isso já nos dá grandíssima alegria, porque é como nós... Mas as curvas nada mais são que movimentos dentro do círculo, logo, divinos! O homem, nas suas muitas voltas, não faz outro que rodear o próprio Deus! Logo de entrada, depois de umas poucas voltas se encontra muito perto do centro, como é comum acontecer aos principiantes na vida espiritual, tendo muitas “consolações” e um sentimento da proximidade de Deus, mas ainda falta muito caminho. Neste labirinto, a proximidade física não corresponde àquela do processo. Ao final, quando falta pouco para chegar ao centro, o viajante dará as voltas mais distantes do centro, e não obstante, no processo estará mais perto. A riqueza do símbolo é justamente de unir longe e perto numa mesma experiência. O que importa mesmo é que se esteja dentro, fazendo as voltas, pois “é em Deus que nos movemos e somos”.
Neste caminho de vida o importante é não retroceder nem parar, já que ele vai como uma “pista única”, rumo ao centro. Cada pessoa o faz segundo sua velocidade, estilo e ritmo. Agora, não é simplesmente caminhar, já que tem reviravoltas bruscas, que revertem a direção mesma da rota. As pequenas e fortes curvas, que parecem nos mandar de volta, que nos dão a impressão de retroceder, formam uma cruz que abraça todo o labirinto, ainda que não a percebamos à primeira vista. Seria como uma grande cruz no centro do mundo e de Deus, unindo essas duas realidades, mostrando como Deus entra no mundo, e ao mesmo tempo, o caminho do homem, do mundo até Deus. Será sempre a cruz a mudar nossos rumos, mas de maneira transfigurante, já que faz parte da dinâmica divina (redondo). “Quanto a mim, Deus me livre de gloriar-me, a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo , pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.”[1]
Enfim, muitas outras coisas podem ser descobertas dentro deste antigo e rico símbolo que se revela, pouco a pouco ao olhar atento. Olhá-lo com calma pode ser de ajuda para treinar o olhar interior na contemplação da natureza e sobretudo dos finos dedos da Mão de Deus na História. Um momento de parada na vida, uma celebração viva da liturgia pode ser este “ver o labirinto de cima”, intuir-lhe o sentido, alegrar-se com sua beleza, retomar as forças para continuar caminhando. “Não que eu já tenha alcançado o prêmio, ou que já seja perfeito, mas prossigo a minha carreira para ver se de algum modo o poderei alcançar, visto que fui apreendido por Jesus Cristo. Irmãos, não penso havê-lo já alcançado, mas uma coisa eu faço: esquecendo-me do que ficou para trás e avançando para o que está adiante, prossigo em direção do alvo para obter o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.[2]

Fonte:  http://livroquadrado.blogspot.com/2009/06/o-labirinto.html

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

No consultório

     - O que me faz desistir antes de tentar é o medo, sempre o medo. Medo de tentar e pior do que não conseguir, é justamente conseguir e a partir daí eu não sei o que fazer pois sou tão acostumado com minha vida, com meu jeito de ser assim, não um perdedor, um fracassado, mas do jeito que tá, até que tá bom.

     - Se está bom, porque então está falando em tentar mudar?

     - Ah! É só pra falar e ver se chego a conclusão de que não vale a pena mudar.

     - Chegou a esta conclusão na sessão de hoje?

     - Ainda não! E quer saber, talvez eu nunca chegue, afinal pensar é tão diferente de fazer né!

     - Nem sempre, olha, a sessão de hoje já acaboiu, semana que vem não poderei te atender, fica pra daqui a 15 dias.

     - Mas porque? Só o que me faltava meu terapeuta fugindo de mim também.

     - É isso que você pensa ou é isso que você sente? Bom, não vou falar mais nada, até daqui a 15 dias.

E com um sorriso na face a cliente entendeu que nesses 15 dias de férias ela deveria trabalhar muito mais essa questão entre o pensar e o sentir, que embora parecesse muito distinto, estão ligados, correlacionados. Não que um seja necessariamente a fonte do outro, mas o que acontece é que tanto pensar como sentir são potecializados um pelo outro, ou ainda, são desmascarados e perdem a força na medida em que vão ocorrendo em nosso dia a dia.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Silêncio

           Tantos blogs falando do silêncio, vou dizer da minha experiência, não o que é real, pesquisado, científico, do ponto de vista da ciência eu fujo do silêncio, mas das minhas experiências subjetivas seja bem vindo todos os silêncios.

            Estive no mosteiro beneditino em Ponta Grossa - PR por uma semana. Fui fazer uma caminhada um encontro vocacional. A vocação é uma palavra latina que significa vocare, em português, chamar ou chamado. Para ouvir alguém que chama, ou ainda, aquele que chama, é necessário o silêncio, para ouvir qualquer coisa, devemos silenciar nossa boca.

            A diferença é que para ouvir Àquele que nos chama intimamente, é necessário um silêncio íntimo. Como no post anterior, íntimo tem alguns significados, mas entre eles, gostaria de pensar em 2 específicos que acabam sendo uma coisa só.

            Íntimo de dentro, de uma qualidade daquilo que tenho em minhas entranhas, que está no meu íntimo, que está comigo.

            Íntimo de intimidade, de qualidade de uma relação ou de alguém que levo intimamente, que trago comigo em meu coração, nas profundezas de minha alma.

            Os dois falam da mesma coisa, embora o primeiro fale de uma noção egocêntrica, o outro diz de uma relação com um outro fora de mim.

            Para ouvir o que está dentro, é necessário calar por dentro, silenciar dentro. Este processo leva muito tempo, esforço, silêncio. É tão complicado quanto a busca pelo impossível, ou ainda a busca por Deus. No livro que inspirou São João da Cruz há um dizer que é mais ou menos assim "Se em um determinado momento encontrou Deus, Deus já não está mais ali, mas apenas o que você imagina que é Deus.". Posso dizer que na minha experiência isso também se dá diante do silêncio.

            Quando conseguimos tocar o silêncio, nossa alma se agita e então perdemos o silêncio, perdemos a paz, perdemos justamente o que havíamos encontrado e fica apenas o que pudemos sentir daquele momento, fica apenas a lembrança, mas nunca o real objeto de nossa busca.

            O silêncio é silêncio por si só. Não é a ausência de barulho que irá fazê-lo, mas uma paz indescritível, imperceptível, de qualidades que não conseguimos descrever, pois exatamente ao compreender (no sentido lacaniano que é trazer a experiência e apreende-la - de prender - de acordo com nossa história de vida) já não estamos mais falando do objeto real, mas do que significou aquele momento para nós, do que lembramos e lembrar, compreender, imaginar, tudo isso é de uma forma um tipo de falar; falando então eu, acabo por perder o silêncio.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sublinhando a Leitura da Vida

            E no Blog... "Vem cá Luisa... me dá tua mão", estão sendo sorteados 2 livros "lidos-queridos-sublinhados".

            Fiquei pensando sobre estes queridos e sublinhados, peguei um livro que estou lendo e cheguei a conclusão de que sublinho as partes mais difíceis. Normalmente uma parte com significado ainda desconhecido ou que eu simplesmente "não captei a mensagem". Uma ou outra parte sublinhada na verdade acabam sendo referências do texto que estou lendo, um resuminho de tudo o que li que muitas vezes alguns autores colocam em seus textos. Uma explicação de um monte de coisa dita mas que na verdade quase nada, ou mesmo nadica de nada, foi de fácil compreensão.

            Mais do que sublinhar, às vezes também escrevo do lado do livro para ligar um ponto com outro, do mesmo capítulo, livro, ou ainda de outra coisa que estou estudando, ou que simplesmente vi em algum lugar.

            O interessante disso tudo é que as partes mais difíceis são revisitadas com maior frequência exaustivamente, quando na verdade a solução para aquele emaranhado de letras esta muitas vezes a alguns parágrafos (normalmente 2 ou 3 no máximo) a frente. Claro que existem suas variações, como nos textos de Lacan (ou aqueles que explicam Lacan) que estão na verdade a 2 ou 3 capítulos de distância.

            Em nossas vidas é mais ou menos isso que acontece. Temos uma leitura da vida de certa forma a nos fixar nas dificuldades quando poderíamos continuar e ir um pouco mais, além do que nos prende.

            Um sentimento, um ocorrido, uma pessoa, um passado. São sempre coisas que podem ser re-significados logo ali, a um ou dois dias de distância. Mas também há outras coisas que são lacanianas eu acho, demoram 2 ou 3 anos, até mesmo talvez muito mais, as vezes somente em outro livro, em uma outra fase de nossa vida para compreender o que se passou.

            O importante é uma leitura corrida, no sentido de não tentar entender muito o que se diz, mas sim, compreender a essência do que está vivendo, do que está lendo.

            Nossa vida passa como se fossem as páginas dos livros, e quando nos fixamos nas dificuldades ou nos tornamos fracassados ou nos tornamos heróis. O problema é que ser herói hoje em dia é quase impossível.

            Somente após a morte é que são reconhecidos os gênios, os heróis, os bons. Enquanto ainda está sendo escrito o livro, não podemos dizer com certeza de que se trata de um bom livro, ou uma vida digna de ser vivida.

            Então aos que se fixam nos problemas só restam as dores, as dificuldades, os obstáculos e isso deixa um sabor amargo nas páginas de nossas vidas. Amarga tanto que o livro acaba ficando como a pessoa, deixado de lado nas prateleiras de uma biblioteca qualquer.

            Aos sofrimentos e as dores, ao dia a dia, a cada palavra, a cada linha, a cada parágrafo, sigamos a sabedoria evangélica de que "Não vos inquieteis a pensar no amanhã; a cada dia basta a sua pena".

            Esta passagem é lindíssima pois Pena tem dois significados :

            Dor - Afinal não há um dia sequer que não tenhamos alguma dificuldade, sofrimento, nem que seja aquela batida do dedinho na quina mesa.
            Leveza - Porque a pena é leve, levada pelo vento, pelo sopro. É justamente ela que nos faz voar.

            Então pensando nesta dupla possibilidade de cada dia, não seria um dia perfeito sem receber o pão nosso das penas de cada dia.

            E uma vez passado o parágrafo, deixemos para depois revisitá-lo, pois seguindo com a leitura de nossas vidas mais conhecimento se acumula, e com ele o que era dor penosa se torna como a pena dos pássaros que nos possibilitam voar.


            Um grande abraço a todos.


            PS: a foto foi de um livro meu " Um mundo sem limites: Ensaio para uma clínica psicanalítica do social"  - Recomendadíssimo

Perfeita Imperfeição

"Pois bem, o que fizeram de mim?
Minhas virtudes me transformaram em um monstro.
Meus pecados me permitiam ser humano, imperfeito, errado.
Eram eles que me pertiam chorar amargamente, meus defeitos, ah como eu queria aniquilá-los de uma vez por todas.
Ah se eu soubesse o preço que se paga pela perfeição do caráter.
Estar sempre certo, sempre pronto, sempre atento, sempre correto, sempre, sempre, sempre

O bom é errar e ter a oportunidade, a chance, a força para começar de novo!!
Como vovó que ao olhar ao horizonte de sua cadeira de balanço lá no rancho, perdia-se com seu olhar e errava o seu crochê!!!
Desfazia tudo para fazer de novo e nem ligava, era feliz.
Mas agora, pede-se perfeição em tudo, aboliu-se a qualidade de errar, de enganar-se, de dizer que talvez.
Agora é tudo certo, certo, certo, certo, sempre, sempre, sempre, sempre.
Cheguei à plenitude da perfeição, não àquela tão amada e perseguida pelos Santos.
Lembro-me de Franciso, o pequenino de Assis que dizia que apenas deveríamos amar, mesmo que fossem nossas fraquezas, nossos erros, nossas misérias.
 
Cheguei a perfeição da ciência, da modernidade, do caráter ético.
E enfim descobri que diferente de Salomão, não posso julgar quem é a mãe pelo amor que tem ao filho, mas apenas pelo que os dois tem em comum, seus DNA's.
Maldita vida perfeita
Escolho a imperfeição!
Afinal nela choro por mim e não por que não consigo mais chorar.

 
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