Estava eu e meu colega de estágio um dia desses no HU, quando ouvimos um grito. Aquele grito simbolizava algo aterrorisador. Tentei sair da enfermaria em vão. Alguém lá dentro precisava do serviço que eu por um acaso oferecia. Mas naquele momento, em que as pessoas mais precisariam de todo meu conhecimento e experiencia (muito pequeno é verdade, mas mesmo assim o conhecimento específico na área da psicologia, era eu o embaixador).
Quanto tempo se preparando para este momento, quanto tempo se preparando para realmente poder fazer alguma. Foram 9 meses de espera até aquele momento. Justamente naquele momento eu não podia fazer pois embora quisesse não desejava ver aquilo tudo outra vez.
Explico melhor.
A diferença entre desejo e querer acho que já discorri sobre isso em outros posts aqui no blog. mas basicamente o desejo é para onde meus pés me levam e a vontade é aquilo que posso de certa forma não fazer.
"Aquilo tudo outra vez", aquele grito de medo, de desespero, de morte. Estava tudo aquilo marcado pela minha história de vida. Alguém aqui já passou pelo momento onde uma pessoa morre e deve ser comunicado aos familiares?
Há um grito de terror, ou um silencio onde o grito se manifestará nas lágrimas. De certa forma tudo aquilo tinha que sair para fora.
O que quero aqui deixar claro hoje, é que as vezes, em situações traumáticas (de acordo com Freud o trauma é um conjunto de acontecimentos que a mente humana não pode elaborar, são acontecimentos repentinos e que trazem consigo como que um carregamento de elementos outros que se unem naquele momento traumatico), só nos resta gritar.
Fiquei ali imóvel ouvindo alguns familiares gritando pela voz, e alguns outros gritando pelas lágrimas que corriam de forma compulsiva.
Ambos sentiam uma dor que não inexprimivel, e se não pode ser exprimível, o que fazia eu lá? O que podia eu com todo o conhecimento teórico fazer ali com aquelas pessoas? Tinha cerca de 8 familiares ali se abraçando e chorando e eu, meu parceiro de estagio e uma outra mulher que trabalhava no HU.
Ser PRESENTE, isso é o que eu deveria fazer. Não ficar oferecendo nada a eles, mas simplesmente estar ali a disposição. Estar encostado na parede como quem participa do momento. Me apresentei para uma mulher que estava ali e pela primeira vez compreendi a diferença de SER PRESENTE e ESTAR PRESENTE.
Naquele momento eu era presente a eles todos eles. Ela começou a conversar comigo sobre outra mulher, e aos poucos começou a chorar, dei um abraço nela, eles já estavam de saída e então me coloquei novamente a disposição.
Estar presente é estar ali simplesmente como ouvinte, como alguém. Ser presente é você estar ali também, mas como pessoa, como sujeito que mesmo sem nada a oferecer se oferece ao outro com amor, como um presente que pode ser util para alguma coisa.
Ando lendo os jornais e para minha surpresa não sei realmente a quem apoiar. Ou apoiamos Zelaya, ou ao grupo que retirou ele do poder. Ou apoiamos o povo, ou ao grupo que está protegendo o povo. Apoiaremos os ditadores armados ou o golpista sensacionalista expulso por tentar ficar mais tempo no poder?
É estranho pois se fosse aqui no Brasil e o Lula quisesse ficar mais tempo o que aconteceria?
Não sei. Sinceramente não tenho uma resposta política, moral ou no mínimo racional para tudo isso. Ambos tentam realizar a manutenção ddo poder de acordo com suas idéias, com suas vontades, e acabam colocando o povo em segundo, terceiro, último plano.
Aqui em Londrina quando derrubamos o prefeito Belinati foi justamente por que ele deu uma festa para o povo, teria contratado até mesmo a xuxa para vir fazer um show na inauguração do PAI (Pronto Atendimento Infantil). Alguns políticos se organizaram para tira-lo da prefeitura com o slogan "pés vermelhos, mãos limpas" (pés vermelhos pois é o simbolo da terra roxa do N do PR.), em contrapartida o povo adotou o slogan "ele rouba mas faz".
Fiquei do lado dos mãos limpas na época. Ganhamos, derrubamos o prefeito, descobrimos um esquema de corrupção enorme que levou Belinati para a cadeia, e algum tempo depois nossas mãos continuam limpas.
A cidade está abandonada, o ex-prefeito tentou mais 2 eleições sem sucesso. Porém agora, o povo está de saco cheio das mãos limpas. Mãos que não trabalham, que nem se quer abrem a porta de seus gabinetes, que não limpam os ouvidos para os mais fracos.
Temos supostamente um prefeito que era intermediário, porém continua sem fazer nada e o pior com um aconchavo político violento e violentador dos ricos e principalmente dos pobres.
A realidade disso tudo meus amigos é que não importa, na política o mal (pelo menos aqui em Londrina) sempre vence os de bem.
No andar da carruagem a ordem é a mesma, não há ordem alguma, é sempre o mesmo grupo no poder. No banco central brasileiro o presidente LULA não modificou nada do que o FHC deixou, nos projetos sociais o LULA aumentou os benefícios que o FHC já dava para o povo, com um agravante, não é mais necessário apenas estudar para as crianças receberem a bolsa. O povão continua povão, o poder continua com o povão que dá seu poder a pessoas que o utilizam para retirar a chance que eles tinham de se mobilizar a favor de si mesmos.
Os que fazem algo para todos são sempre os mesmos. Ongs, Igrejas, Professores, e normalmente os que não são pagos por fazer nada disso.
E se me perguntarem o que é Brasil, responderei que é um país de brasileiros dominado pelos políticos e oprimidos pela polícia, pelo tráfico, pelo medo, mas acima de tudo um país que tem um povo que tenta fazer a sua história dar certo.
Eu nascia na surpresa, agora, na previsão; Eu não saia de casa, agora vou para a creche; Eu namorava alguém, agora vou ficando; Eu decorava tudo, agora uso o Google; Eu jantava na hora da família, agora, do microondas; Eu fazia passeata, agora, nem serenata; Eu escolhia uma faculdade, agora estudo em várias; Eu queria ser doutor, agora, inventor; Eu saía de casa cedo, agora sou canguru; Eu casava lá pelos vinte, agora, quase aos quarenta; Eu jamais me separava, agora só divorcio; Eu me aposentava aos cinqüenta, agora mudo de profissão; Eu morria aos setenta, agora tenho morte lenta. E se alguém me perguntar o que eu vou fazer agora, antes por favor me responda: - Afinal, que raios é a globalização?
Jorge Forbes, 9 de agosto de 2009
Resposta:
Um processo de desfronteiralização do sujeito onde ninguém mais é. Onde os desejos do sujeito são mesclados em tal profundidade que tudo o que o sujeito deseja é o que a sociedade oferece como desejo. Resta porém um ultimo desejo que este é inato, o desejo de permanecer em um estado de "nirvana" em um estado tal em que não há nenhuma inquietação. Este estado após ser não alcançado leva a duas situações. A primeira situação é a do reconhecimento da incompletude, da falta e com isso uma elaboração mais profunda do eu. Esta elaboração passa a dar um significado a vida do sujeito e com isso ele buscando a si mesmo encontra uma nova vida autonoma, uma vida na qual ele passa a ser o sujeito sujeitador de si mesmo. A segunda opção é encontrar o estado de nirvana na morte, seja morrendo lentamente em uma depressão pela impossibilidade de alcançar o objeto de desejo ou seja ainda pondo cabo a própria vida.
Bom gente, gostaria de agradecer as pessoas que frequentemente me falam sobre o blog, e agradecer também a todos que tem acompanhado as loucuras de minhas "Brain Storms".
O mais gostoso do Ato Falho é a surpresa e a vergonha com que ele nos acomete. É de repente, parece que sem nenhum sinal, a coisa sai antes mesmo de nos darmos conta.
O pior de tudo é exatamente que se ninguém comentar nada a respeito a vergonha da lugar a uma calma mais animadora. Porém, sempre ha alguém que comenta alguma coisa e o silencio se estabelece como forma de dizer. Vish (parafraseando a Karina do HU).
Bom, nada como após ser acometido do dito cujo, emendarmos um Xiste. Calma que explicarei melhor.
O Xiste é aquela típica piadinha que você faz de forma irônica e que normalmente as pessoas riem muuuuuuito. Um comentario sarcástico por exemplo sobre uma situação: A moça do check-in pergunta para o cliente de determinada comphania aérea: - Bom dia. O senhor relamente viaja bastante conosco, o Sr gosta de andar de avião?" Até aqui normal, mas o cliente logo responde em um tom meio baixo mas como aquela pessoa que está de saco cheio e não quer conversa: - Olha, andar eu não sei não, afinal logo que ele começa a andar e levanta voô.
Está aí um exemplo de um Xiste. (Existem outros melhorezinhos nas obras de Freud)
O que ocorre é que após um ato falho os xistes divertem, protegem a pessoa do erro e levam todas as pessoas a esquecer o que foi falado, ou no mínimo de vergonhosa a situação acaba sendo muito comica.
Estava eu fazendo a supervisão de um caso no HU quando em meio ao meu discurso lendo minhas anotações, quando fui indagado sobre uma questão do paciente e eu falei:
- Então espera um pouco, deixa eu achar onde o paciente escreveu.
No meio de 4 psicólogos uma vira e me diz:
- O paciente escreveu?
Notem bem que o paciente não escreveu nada, quem escrevia era eu, e não ele, como algumas coisas do paciente tinha a ver comigo me senti um pouco confuso e depois olhei pra ela e disse em um tom assim, para por favor que eu não uero brincar de ser analisado.
- Não, minto, eu psicografei.
Risada geral na supervisão, continuamos por ali e tudo deu certo.
O desejo ao ser expressado em um momento na qual não deveria, sugere que "alguém falou por mim". Devemos compreender a diferença entre EU e MIM. Lacan traz um trabalho maravilhoso sobre estes dois aspectos no texto "O estádio do Espelho", onde aparece um eu como sujeito e um mim que parece ser um outro eu que deseja. Na fala das crianças isso é muito comum "mim vai pra escola agora" parece que é uma outra pessoa que está indo para a escola. Não há ainda para a criança uma idéia clara de si mesmo como um EU. Ela pode ter e até em determinado momento acaba tendo consciencia de que ela é alguém, mas mesmo assim este mim continua aparecendo. Não se trata apenas de errar o portugues mas antes, se trata de um aparecimento de um outro que embora esteja na criança não é a criança ainda. Depois ao nos adaptarmos as regras (super-ego) lingüisticas, acabamos por colocar o mim de lado e tudo o que faço sou eu quem faço. Quanta responsabilidade agora, afinal de contas se eu errar sou eu quem erro, sou eu quem falo, sou eu quem minto. Mas também sou eu quem deixa escapar uma verdade, um desejo que no momento não deveria aparecer, então logo recorro ao pensamento de que as vezes parece que este que falou embora sendo falado por MIM não representa o que EU quiz dizer. Mas sempre o MIM acaba falando, isso é o que aparece como ATO FALHO.
Que mentimos da primeira vez, qu nos enganamos, que não conseguimos "lembrar" o que queriamos dizer.
Interessante analisar este tipo de expressão que comumumente se segue aos famosos atos falhos. Caso aconteceu com você fique livre para comentar sobre tal.
A palavra dita realmente é entendida como uma peripércia da nosso eu que eu ao discorrer sobre uma idéia teve um lapso, um corte na idéia e surgiu sem querer uma outra coisa que parecia que estava ali mas não deveria estar.
Retiremos a vírgula e teremos um lindo: "Não Minto". Digo então a verdade, mas que verdade é esta que aparece "do nada", que aparece deste lapso de consciencia?
É a verdade do desejo que aparece e com isso podemos dizer que ao não mentir fica o dito pelo não dito.
Esta troca entre o dito pelo não dito é muito engraçada as vezes, mas também muito sofrida e embaraçosa na maioria das vezes. Parece que dissemos algo que jamais poderíamos ter dito, pelo menos não naquela situação, não com aquele público.
Curioso que é o caso de um deputado que não desejava abrir uma sessão e disse ao iniciar a sabatina diária: "declaro fechada a reuniao de hoje", quando deveria declarar que estava aberta.
Freud compreendeu este movimento (e mais tarde Lacan explica melhor e um pouco mais dificil) como um movimento na qual o que eu desejo está suprimido pelas regras, pelo momento, pela moral, em outra palavra, pelo super-ego. Não podendo assim me expressar livremente me calo ou ainda, ("não, minto") minto para a sociedade porém não consigo mentir para este desejo que pulsa em mim.
Epidemiologista francês respalda Papa sobre preservativoRecorda que inclusive ONUSIDA lhe dá razão
PARIS, terça-feira, 15 de setembro de 2009 (ZENIT.org).- Para René Ecochard, professor de medicina, epidemiologista, chefe do serviço de bioestatística do Centro Hospitalar Universitário de Lyon, "as palavras de Bento XVI sobre o preservativo são simplesmente realistas".
Este é, de fato, o título de um documento que assinou em abril passado, após a viagem pontifícia à África (de 17 a 23 de março) e a polêmica lançada por meios de comunicação ocidentais sobre as declarações do Papa sobre o preservativo.
Entrevistado pelo jornal francês La Manche Libre, o professor Ecochard lamentou "a falta de realismo" que se dá "nesta questão que é prisioneira da ideologia". Parece algo como "se a opinião perdesse seus pontos de referência quando enfrenta as questões da sexualidade e da família".
René Ecochard considera que "se deu um erro de compreensão na opinião pública". "As pessoas acreditaram que o Papa falava da eficácia do plástico, do preservativo, quando na realidade falava das campanhas de difusão do preservativo. Isto é muito diferente".
"Da mesma forma que todo objeto tecnológico de prevenção, o preservativo tem uma eficácia quantificada", afirma. Mas, "o problema não está aí: todos os epidemiologistas concordam hoje em afirmar que as campanhas de difusão, nos países em que a proporção das pessoas afetadas é muito elevada, não funcionam".
"Se o preservativo funciona quatro de cada cinco vezes", isto pode ser suficiente "quando a Aids não está estendida". "Mas em um país em que 25% dos jovens de 25 anos estão afetados (Quênia, Malaui, Uganda, Zâmbia), isto não é suficiente". "O fracasso desta forma de prevenção é uma realidade epidemiológica".
"Rodeado de especialistas, bem informado pela Academia de Ciências de Roma, o Papa dominava perfeitamente esta questão antes de ir para a África", acrescenta.
Na entrevista, René Ecochard se detém em particular sobre o caso de Uganda, o único país "em que o número dos enfermos foi dividido por três na idade de 25 anos". "Além da campanha sobre o preservativo, este país realizou uma ampla campanha baseada no tríptico ABC (abstinência, fidelidade, castidade ou preservativo)".
"O casal presidencial, os grupos religiosos, as escolas, as empresas... todo mundo apoiou esta campanha, freando a Aids, que será combatida se cada um buscar ter atitudes sexuais conformes às tradições familiares", explicou.
"Pode ser que não seja fácil reproduzir isto de um país ao outro, mas hoje, é a única esperança", acrescenta o epidemiologista francês.
Hoje, "mais de 60% dos cientistas estão a favor das campanhas ABC", declarou, recordando que é a política adotada por ONUSIDA.
Se pensarmos que as escolas tem sido o centro da formação dos seres humanos nos últimos anos, não podemos deixar de lado uma das principais formações que este necessita (sim, o ser humano precisa da religião, seja por defesa, por medo, ou para poder sublimar as pulsões e fazer o bem). Vemos por aí uma grande demagogia entre a população brasileira que diz saber das coisas, porém não estudam e não sabem da missa o terço (realmente na missa não tem terço, então já começa por aí a confusão). A espiritualidade desenvolvida de forma sadia tem auxiliado as pessoas a conviverem melhor consigo mesmas e com os outros, basta ver os recentes artigos publicados em periódicos importantes tais como os que são publicados na revista Psique, ABRAPSO, periódicos em medicina, dentre muitos outros. Há um livro de um Respeitado DR. Adriano Hollanda sobre as religiões e a psicologia que acho que todos deverimos ler para compreender um pouco mais sobre o motivo de eu estar abertamente defendendo esta idéia. (Leia depois critique).
As pessoas "estudam" um tald e Carl Marx e o divinizam sobre sua proposta de socialismo, mas a proposta apresentada por ele esta fundamentada em um homem pouco conhecido pelos estudantes de Marx chamado Tomás de Aquino (sim, o santo). Peço licensa para dizer sim a religião nas escolas, e peço também licença para dizer sim ao estado Laico. O acordo entre vaticano e governo brasileiro não pretende de maneira alguma colocar ou outorgar uma fé sobre as outras, pelo contrario com o impacto do conhecimento de diversas expressões culturais e religiosas, quem sabe assim as pessoas irão parar de dizer que é o demonio quem baixa no terrero, como já ouvi na universidade estadual de londrina no meu primeiro ano de curso em um diálogo com uma professora que não vem ao caso citar. (não vou citar por questões jurídicas pois se eu disser seu nome tenho que provar e a unica prova que tenho é o estranhamento que tive em ouvir aquilo). Bom, Laicicidade não significa ignorancia, pelo contrario significa conhecimento de causa e repassar aos cidadaos brasileiros o sentido que cada cultura tem para seu rito. Este acordo é visto como promissor para fortalecer e "reeducar" o povo brasileiro. Se formos exluir a religiao, excluamos também a cultura que é vista por FREUD como forma de sublimação também. Proponho ir além, excluamos a política, que nos prende a ideais e aconchavos em nome da manutenção do poder. Ao fim de tudo, teremos uma sociadade enfim laica. Porém corre-se o risco de com tudo isso sermos aquilo que eram os primeiros discipulos como narra em atos dos apostolos "ninguém tinha propriedades pois tudo era de todos e conviviam de bem mutuamente". Fica aqui a dica, se for para ensinar religião, ensinemos tambám as artes de forma correta. Cansei de fazer trabalhos em Ed. Artística onde meu "dom" por assim dizer era o de escrever e eu tinha que pintar coisas que não só não conseguia como também não queria faze-lo. Ensinemos musica, ensinemos pintura, ensinemos escrita, ensinemos cultura.
Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, setembro de 2007 - ano 1 - número 6
”Os sentimentos mentem.” Assim falava Jacques Lacan provocativamente, acrescentando que o único sentimento verdadeiro seria a angústia, dado que, não sendo expressável em palavras, não poderia mentir.
Tomemos dessa boutade seu aspecto pragmático: há no humano uma distância entre o que ele sente e o que expressa. Por exemplo, no amor: nenhuma declaração de amor é convincente, por mais que se esforce o apaixonado.
Não há como apagar a dúvida que insiste a não ser relançando a declaração. Por isso é tão claro o verso de Drummond: “Ouvindo-te dizer: Eu te amo,/ creio, no momento, que sou amado./ No momento anterior/ e no seguinte,/ como sabê-lo?” A sociedade, em decorrência dessa distância difícil a suportar entre o afeto e a sua expressão, gera, para acalmar, formas padronizadas de sentir tanto a alegria quanto o sofrimento. Assim, ir a Paris é ótimo, ir ao dentista é um horror.
Isso ganha especial importância no campo da saúde, no qual se costuma afirmar que não há nada pior do que não saber o que se tem. Não é rara a alegria paradoxal de alguém que finalmente fica sabendo que só tem um “tumorzinho”. Essa necessidade de se acalmar em uma forma padronizada de sentir pode trazer sérios problemas. Na medicina de hoje – diferentemente da de antes, em que primeiro se sofria, depois se ia ao médico –, doenças são anunciadas antes de qualquer sensação. É o caso de exames genéticos que prevêem com muitos anos de antecedência algumas paralisias graves. Como reage o paciente diante dessa informação igualmente desagradável e estranha? Ele busca alguma forma adequada de expressar o que supostamente tem, para os outros e para si próprio. É aí que acaba se alienando em um sentimento prêt-à-porter, pronto para vestir.
Quem vai ter um comprometimento das pernas começa imediatamente a claudicar e corta de sua vida tudo o que demanda movimento. Dessa forma, acaba por aumentar a dor imediata e facilitar a velocidade de instalação da doença. Uma pesquisa clínica psicanalítica que estamos desenvolvendo no Centro de Estudos do Genoma Humano, na USP (Universidade de São Paulo), tem demonstrado a importância, nesses casos, de desautorizar o sofrimento – foi como batizamos –, a saber: evitar que a pessoa se acomode em expressões programadas de dor. Isso não se consegue sem que se enfrente o risco da incerteza, coisa que dificilmente alguém fará se o tratamento que lhe for dado congelá-lo em uma situação sem saída, confortado pela discutível compaixão.
Os exemplos são extrapoláveis para a vida de todo mundo: não há quem não prefira o conforto da dor conhecida à insegurança de novas formas de ser. Cuidado! Ou cada um se faz responsável por sua singularidade, mesmo que esquisita, ou vira genérico, substituível, descartável. É uma questão de escolha.
“Diante do insuportável somos convidados a incorporar o saber sobre o que fazer e dizer diante da dor, do sofrimento e da morte. Somos depositários de um saber de algo que não sabemos. Temos que ter clareza de que temos um lugar de saber específico e só podemos intervir na falta.” (ELIAS, 2008)
A função da psicologia diante do outro que se vê em um estado de hospitalização á a de assegurar a este que continue lutando e tenha forças para a vida independentemente de uma vitória ou derrota frente a um tratamento ou uma doença. Devido ao estado de debilidade e sofrimento em que muitos sujeitos se encontram nos Hospitais a psicanálise vem fazer um movimento para tentar assegurar também que o individuo continue a sonhar e desejar mesmo sem muitas vezes ter sucesso em seus desejos mais imediatos.
Não é função do psicólogo dar certezas ou incertezas sobre a cura para o sujeito que sofre. Não pode ser dada esta certeza sobre a cura do corpo que é objeto dos cuidados dos médicos, e também, o psicólogo não deve dar certezas sobre a cura da psique humana que é a real demanda para a atuação do psicólogo. Embora o sujeito deseje parar de sofrer tanto quanto vem sofrendo, o psicólogo deve ir além deste sofrimento, e permitir que a transferência faça o papel da reorganização e reconstrução do sujeito.
De acordo com MORETTO (2001), nem mesmo a instituição hospitalar sabe muitas vezes o que deseja do analista, o que ela sabe é que há uma grande demanda, mas não sabe o porque e muito menos o que o analista irá fazer com isso.
Na hospitalização, embora haja dor física, na maioria das vezes ela vem acompanhada de um sofrimento psíquico do paciente. Este sofrimento é a matéria com que o psicólogo deverá trabalhar. O sofrimento pode ser percebido em todo o contexto hospitalar, no paciente hospitalizado, nos cuidadores, equipe médica e também em outras áreas do hospital. A posição do psicólogo hospitalar não deve mudar de forma alguma. As relações a serem estabelecidas no ambiente hospitalar devem ser sempre de escuta analítica.
Em outras palavras a situação de hospitalização que ocorre devido ao ambiente do hospital, será sempre seguida de um sofrimento, de uma dor. Esta dor pode ser apenas física, mas também pode ser uma dor psíquica. Sempre será encontrado dentro do hospital material para fazer psicanálise pois em um momento ou em outro, os conflitos e as angústias, seja do paciente ou da equipe, uma hora irão aparecer.
Embora o local seja diferente e o setting analítico também esteja de certa forma comprometido, a psicanálise dentro da instituição hospitalar deve fazer o mesmo que faz na clínica, a escuta analítica.
A escuta analítica não deve ser apenas uma ferramenta para ouvir o sujeito em análise, mas antes de tudo, é necessário escutar toda a instituição hospitalar. Considerando a instituição hospitalar como um sujeito, poderemos encontrar dentro de seus membros os sintomas que muitas vezes estão ocultos e demoram muito mais para aparecer na análise individual do que se a instituição for analisada como um todo.
Ainda segundo MORETTO (2001), a posição do analista para Freud era a de um tratamento do sujeito psíquico, o sujeito do inconsciente com o objetivo de um desvelamento do que está oculto para um alívio das angústias e sofrimentos dos sujeitos. Por isso a autora diz que a psicanálise é nitidamente diferente das outras áreas que cuidam do paciente no hospital, desde os médicos até enfermeiros, serviço social, entre outros.
Mas se pensarmos que o analista virá de encontro com o sofrimento para aliviar as pressões (defesas) que o inconsciente exerce sobre o ego, estaremos incorrendo também em um erro de interpretação. Embora o analista perceba, pontue e coloque tudo o que o paciente precisa fazer, e mesmo que esse o faça, exatamente como lhe foi ordenado, de nada irá adiantar a terapia, ou o resultado será muito aquém do esperado. Quem na realidade vai de encontro com o inconsciente é o próprio paciente através da sua palavra.
O ato de resignificação das vivências passadas que é possibilitado através de uma analise bem direcionada acaba por trazer ao paciente um alivio de suas angústias que são a princípio o desejo diante da terapia, mesmo que isso não fosse a real demanda do sujeito do inconsciente. E pode-se dizer que nunca o é, visto que, este conteúdo da demanda propriamente dito, está recalcado por camadas e mais camadas de lembranças e significações de certa forma conflitantes e faltantes em si mesmas. Em outras palavras o conteúdo da demanda se encontra no Sujeito do inconsciente enquanto que o conteúdo do desejo se encontra no ego.
Para ilustrar esta questão entre demanda e desejo, QUINET (2008) diz que “Assim como o ser da coisa nunca é atingido pelo significante, o desejo está no próprio deslizamento do significante que busca se realizar de significante em significante. É isso que confere ao desejo seu aspecto enigmático:... Você acha que é aquilo e já não é.”.
Enquanto que o desejo nunca atingirá verdadeiramente a demanda devido a função metonímica do sintoma, quando o cliente consegue descobrir a real demanda dos seus desejos o conflito tende a enfim se desfazer. Este desfecho como dito anteriormente, não é nem uma vitória nem uma derrota, mas um certo gozo apenas pelo fato de que a resultante do processo traz sempre uma certa paz. O processo de análise trará como resultado um relembrar e resignificar as histórias passadas e com isso o sujeito poderá enfim “descansar”.
A situação analítica sempre deve partir do pressuposto de que o inconsciente está presente no discurso a ser decifrado, o discurso do sintoma, o discurso falado pelo corpo, pelo sujeito. Embora seja um discurso falado, ele nem sempre é um discurso da linguagem vernácula. Temos por exemplo o corpo que fala, ou até mesmo e principalmente, a palavra desconexa que caracteriza o chiste ou o ato falho. O sujeito fala, mas este sujeito é o sujeito do inconsciente.
Diferentemente da clínica, dentro do hospital os sintomas mais evidentes são da ordem do real, do corpo do sujeito. Embora também haja o sintoma da ordem do inconsciente a análise deve ser muito cautelosa e o analista muito mais atento na escuta e na percepção do que está ocorrendo com o paciente do que na clínica.
Um dos casos comentados nas aulas durante os sábados, a psicanalista havia relatado que em uma manha escutou de uma de suas pacientes seguinte discurso: “chegue mais perto que quero vomitar”.
Se pensarmos no vômito, o organismo realiza um ato de expulsão, de colocar para fora o que está fazendo mal. Da mesma forma, o vomitar do sujeito em análise é por para fora o que não está fazendo bem, e muitas vezes é um ato reflexo do corpo humano para preservar sua integridade mental Neste caso, em uma instituição hospitalar as condições eram favoráveis aos dois vômitos, primeiro pelo estado de paciente, segundo pelo estado de analisando.
Como dizer que esta ação real do corpo não é também um sintoma, ou o alivio de um sintoma psíquico e não apenas físico?
Dentro do hospital o real atinge o sujeito de tal forma que muitas vezes se faz necessário levantar as defesas do ego para depois trabalhar as questões de ordem psíquica para que possa ocorrer uma transformação do sujeito e dos significados que a experiência da hospitalização traz para o sujeito.
Freud (1923) diz que o trauma é uma “experiência que, em curto período de tempo, aporta à mente um acréscimo de estímulo excessivamente poderoso para ser manejado ou elaborado de maneira normal, e isso só pode resultar em perturbações permanentes da forma em que esta energia opera”.
Compreender o sujeito marcado pelo trauma do real, ou seja, por uma experiência que o sujeito passe, em que seu corpo não pode se recuperar de forma normal, como uma doença ou uma internação hospitalar para exames de diagnóstico, constitui o primeiro passo para encontrar o sujeito que está hospitalizado. O paciente hospitalar está em estado de paciente enquanto se encontra hospitalizado, embora este estar em estado de, não significa por tanto que ele seja apenas este estado transitório.
Em contrapartida temos a equipe médica, que também é marcada pelo trauma da real ferida biológica instalada no outro. Esta equipe também deve levantar as defesas psíquicas necessárias para poder lidar com cada paciente que chega até eles. Em especial a da sublimação.
Enquanto o paciente lida com o sofrimento de si mesmo, a equipe lida com o sofrimento do paciente, porém ambos lidam com o sofrimento dos sujeitos outros que estão por detrás do rótulo de profissionais e de pacientes. Todos os “hospitalizados” lidam com as feridas de todos, sejam feridas orgânicas ou psíquicas, todos sofrem. Este sofrimento na instituição pode ser uma das demandas do psicanalista hospitalar.
Um dos maiores mistérios que permeia a existência do ser humano é a questão da morte. De tempos em tempos nós nos damos conta de que ela um dia chegará, mas vivemos nossas vidas como se ela nunca fosse chegar. A hospitalização é sempre um momento a mais em que as pessoas se percebem finitas e isso é causa de grande angústia nos seres humanos.
De acordo com ARNAO (2008), o ato de compreender, ou seja, de aprendizado do ser humano, ocorre através das representações. Quando algo acontece a sua volta, primeiro ocorre as impressões no corpo humano, e depois esta energia é representada psiquicamente.
Considerando a teoria psicanalítica, quando ocorre um encontro com algo que não tem uma representação psíquica o ser humano tende a fantasiar sobre. No caso da morte, ninguém ainda passou por estas experiências, então as defesas se levantam em forma de fantasia para proteger o ego. O acontecimento da morte acaba gerando então angústias nas pessoas que estão próximas, ou em situação parecidas a do sujeito que deixou de ser.
Todos os sujeitos hospitalizados, seja por vontade da própria cura ou pela obrigação imposta de um desejo que deseja curar, passam pela experiência da finitude da vida mais próxima do que as pessoas que não foram submetidas à hospitalização. O fim fica evidente nos corredores dos hospitais e com isso o medo e acima de tudo as defesas que o ego tem para que não se veja como um daqueles que irão findar.
Também existe a questão da dor. A dor é uma das principais demandas que leva as pessoas aos hospitais, a dor que afeta a todos e embora de maneira diferente, todos estão sempre se precavendo contra ela, seja se cuidando para evitá-la ou em casos de psicopatias severas, se auto infringindo alguma espécie de ferimento para evitar uma dor maior, para evitar a dor da consciência de ser um ser faltante.
Nos hospitais também são encontrados outros sofrimentos que se seguem e se somam ao sofrimento das doenças. O abandono, o preconceito, o medo, o descaso, a insegurança.
Embora os pacientes sejam os representantes destas questões, a equipe hospitalar nunca ficaria imune aos casos que se apresentam dia após dia diante deles se não fossem as defesas do ego.
Aliás, ao nos aprofundarmos em alguns casos, nem mesmo as defesas egóicas são suficientemente fortes para neutralizar o sofrimento intenso do sujeito. Segundo KOVÁCS (2001) às vezes o médico busca fazer até mesmo o impossível para salvar a vida dos seus pacientes, mas mesmo assim quando eles morrem fica um sentimento de que algo mais poderia ter sido feito. Um paciente que morre é sempre uma ferida narcísica para a figura onipotente médico.
De acordo com a mesma autora, em alguns casos quando o paciente expressa o desejo por apressar a morte, pois não suporta mais viver o sofrimento em que se encontra, alguns médicos buscam incessantemente um especialista que possa dar um maior suporte e também um diagnóstico de que o desejo por morrer, é na verdade um ato psicótico ou alguma forma de depressão mais grave. Tudo o que alguns médicos tentam fazer na realidade é provar que o paciente está mentalmente incapaz de tomar decisões acerca de si mesmo.
Da concisão
-
Possivelmente tudo começou ato contínuo à leitura do s do adeus. Lembro-me
ainda hoje - dez anos depois - daquele bilhete elíptico; não era longo
feito s...
Começo de estar comigo
-
A essa altura, enquanto não sabe nada a meu respeito, depois dessa
desastrosa tentativa de apresentação em que ainda me apresento coberta e
tão plena de ...
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