quarta-feira, 30 de setembro de 2009

"Não Minto"

O desejo ao ser expressado em um momento na qual não deveria, sugere que "alguém falou por mim".
Devemos compreender a diferença entre EU e MIM. Lacan traz um trabalho maravilhoso sobre estes dois aspectos no texto "O estádio do Espelho", onde aparece um eu como sujeito e um mim que parece ser um outro eu que deseja.
Na fala das crianças isso é muito comum "mim vai pra escola agora" parece que é uma outra pessoa que está indo para a escola. Não há ainda para a criança uma idéia clara de si mesmo como um EU. Ela pode ter e até em determinado momento acaba tendo consciencia de que ela é alguém, mas mesmo assim este mim continua aparecendo.
Não se trata apenas de errar o portugues mas antes, se trata de um aparecimento de um outro que embora esteja na criança não é a criança ainda.
Depois ao nos adaptarmos as regras (super-ego) lingüisticas, acabamos por colocar o mim de lado e tudo o que faço sou eu quem faço. Quanta responsabilidade agora, afinal de contas se eu errar sou eu quem erro, sou eu quem falo, sou eu quem minto.
Mas também sou eu quem deixa escapar uma verdade, um desejo que no momento não deveria aparecer, então logo recorro ao pensamento de que as vezes parece que este que falou embora sendo falado por MIM não representa o que EU quiz dizer.
Mas sempre o MIM acaba falando, isso é o que aparece como ATO FALHO.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

"Não, minto."

Quando dizemos "não, minto", o que nos parece?

Que mentimos da primeira vez, qu nos enganamos, que não conseguimos "lembrar" o que queriamos dizer.

Interessante analisar este tipo de expressão que comumumente se segue aos famosos atos falhos. Caso aconteceu com você fique livre para comentar sobre tal.

A palavra dita realmente é entendida como uma peripércia da nosso eu que eu ao discorrer sobre uma idéia teve um lapso, um corte na idéia e surgiu sem querer uma outra coisa que parecia que estava ali mas não deveria estar.

Retiremos a vírgula e teremos um lindo: "Não Minto". Digo então a verdade, mas que verdade é esta que aparece "do nada", que aparece deste lapso de consciencia?

É a verdade do desejo que aparece e com isso podemos dizer que ao não mentir fica o dito pelo não dito.

Esta troca entre o dito pelo não dito é muito engraçada as vezes, mas também muito sofrida e embaraçosa na maioria das vezes. Parece que dissemos algo que jamais poderíamos ter dito, pelo menos não naquela situação, não com aquele público.

Curioso que é o caso de um deputado que não desejava abrir uma sessão e disse ao iniciar a sabatina diária: "declaro fechada a reuniao de hoje", quando deveria declarar que estava aberta.

Freud compreendeu este movimento (e mais tarde Lacan explica melhor e um pouco mais dificil) como um movimento na qual o que eu desejo está suprimido pelas regras, pelo momento, pela moral, em outra palavra, pelo super-ego. Não podendo assim me expressar livremente me calo ou ainda, ("não, minto") minto para a sociedade porém não consigo mentir para este desejo que pulsa em mim.

CONTINUA...

domingo, 20 de setembro de 2009

Epidemiologista francês respalda Papa sobre preservativoRecorda que inclusive ONUSIDA lhe dá razão

PARIS, terça-feira, 15 de setembro de 2009 (ZENIT.org).- Para René Ecochard, professor de medicina, epidemiologista, chefe do serviço de bioestatística do Centro Hospitalar Universitário de Lyon, "as palavras de Bento XVI sobre o preservativo são simplesmente realistas".

Este é, de fato, o título de um documento que assinou em abril passado, após a viagem pontifícia à África (de 17 a 23 de março) e a polêmica lançada por meios de comunicação ocidentais sobre as declarações do Papa sobre o preservativo.

Entrevistado pelo jornal francês La Manche Libre, o professor Ecochard lamentou "a falta de realismo" que se dá "nesta questão que é prisioneira da ideologia". Parece algo como "se a opinião perdesse seus pontos de referência quando enfrenta as questões da sexualidade e da família".

René Ecochard considera que "se deu um erro de compreensão na opinião pública". "As pessoas acreditaram que o Papa falava da eficácia do plástico, do preservativo, quando na realidade falava das campanhas de difusão do preservativo. Isto é muito diferente".

"Da mesma forma que todo objeto tecnológico de prevenção, o preservativo tem uma eficácia quantificada", afirma. Mas, "o problema não está aí: todos os epidemiologistas concordam hoje em afirmar que as campanhas de difusão, nos países em que a proporção das pessoas afetadas é muito elevada, não funcionam".

"Se o preservativo funciona quatro de cada cinco vezes", isto pode ser suficiente "quando a Aids não está estendida". "Mas em um país em que 25% dos jovens de 25 anos estão afetados (Quênia, Malaui, Uganda, Zâmbia), isto não é suficiente". "O fracasso desta forma de prevenção é uma realidade epidemiológica".

"Rodeado de especialistas, bem informado pela Academia de Ciências de Roma, o Papa dominava perfeitamente esta questão antes de ir para a África", acrescenta.

Na entrevista, René Ecochard se detém em particular sobre o caso de Uganda, o único país "em que o número dos enfermos foi dividido por três na idade de 25 anos". "Além da campanha sobre o preservativo, este país realizou uma ampla campanha baseada no tríptico ABC (abstinência, fidelidade, castidade ou preservativo)".

"O casal presidencial, os grupos religiosos, as escolas, as empresas... todo mundo apoiou esta campanha, freando a Aids, que será combatida se cada um buscar ter atitudes sexuais conformes às tradições familiares", explicou.

"Pode ser que não seja fácil reproduzir isto de um país ao outro, mas hoje, é a única esperança", acrescenta o epidemiologista francês.

Hoje, "mais de 60% dos cientistas estão a favor das campanhas ABC", declarou, recordando que é a política adotada por ONUSIDA.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

carta de reposta a um abaixo assinado contra o ensino da religiao em escolas publicas

Se pensarmos que as escolas tem sido o centro da formação dos seres humanos nos últimos anos, não podemos deixar de lado uma das principais formações que este necessita (sim, o ser humano precisa da religião, seja por defesa, por medo, ou para poder sublimar as pulsões e fazer o bem). Vemos por aí uma grande demagogia entre a população brasileira que diz saber das coisas, porém não estudam e não sabem da missa o terço (realmente na missa não tem terço, então já começa por aí a confusão). A espiritualidade desenvolvida de forma sadia tem auxiliado as pessoas a conviverem melhor consigo mesmas e com os outros, basta ver os recentes artigos publicados em periódicos importantes tais como os que são publicados na revista Psique, ABRAPSO, periódicos em medicina, dentre muitos outros. Há um livro de um Respeitado DR. Adriano Hollanda sobre as religiões e a psicologia que acho que todos deverimos ler para compreender um pouco mais sobre o motivo de eu estar abertamente defendendo esta idéia. (Leia depois critique).
As pessoas "estudam" um tald e Carl Marx e o divinizam sobre sua proposta de socialismo, mas a proposta apresentada por ele esta fundamentada em um homem pouco conhecido pelos estudantes de Marx chamado Tomás de Aquino (sim, o santo).
Peço licensa para dizer sim a religião nas escolas, e peço também licença para dizer sim ao estado Laico. O acordo entre vaticano e governo brasileiro não pretende de maneira alguma colocar ou outorgar uma fé sobre as outras, pelo contrario com o impacto do conhecimento de diversas expressões culturais e religiosas, quem sabe assim as pessoas irão parar de dizer que é o demonio quem baixa no terrero, como já ouvi na universidade estadual de londrina no meu primeiro ano de curso em um diálogo com uma professora que não vem ao caso citar. (não vou citar por questões jurídicas pois se eu disser seu nome tenho que provar e a unica prova que tenho é o estranhamento que tive em ouvir aquilo).
Bom, Laicicidade não significa ignorancia, pelo contrario significa conhecimento de causa e repassar aos cidadaos brasileiros o sentido que cada cultura tem para seu rito. Este acordo é visto como promissor para fortalecer e "reeducar" o povo brasileiro.
Se formos exluir a religiao, excluamos também a cultura que é vista por FREUD como forma de sublimação também. Proponho ir além, excluamos a política, que nos prende a ideais e aconchavos em nome da manutenção do poder. Ao fim de tudo, teremos uma sociadade enfim laica. Porém corre-se o risco de com tudo isso sermos aquilo que eram os primeiros discipulos como narra em atos dos apostolos "ninguém tinha propriedades pois tudo era de todos e conviviam de bem mutuamente".
Fica aqui a dica, se for para ensinar religião, ensinemos tambám as artes de forma correta. Cansei de fazer trabalhos em Ed. Artística onde meu "dom" por assim dizer era o de escrever e eu tinha que pintar coisas que não só não conseguia como também não queria faze-lo. Ensinemos musica, ensinemos pintura, ensinemos escrita, ensinemos cultura.

Marco Leite

terça-feira, 15 de setembro de 2009

POR JORGE FORBES... ESPERO QUE GOSTEM

DESAUTORIZAR O SOFRIMENTO

Jorge Forbes

Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, setembro de 2007 - ano 1 - número 6

”Os sentimentos mentem.” Assim falava Jacques Lacan provocativamente, acrescentando que o único sentimento verdadeiro seria a angústia, dado que, não sendo expressável em palavras, não poderia mentir.

Tomemos dessa boutade seu aspecto pragmático: há no humano uma distância entre o que ele sente e o que expressa. Por exemplo, no amor: nenhuma declaração de amor é convincente, por mais que se esforce o apaixonado.

Não há como apagar a dúvida que insiste a não ser relançando a declaração. Por isso é tão claro o verso de Drummond: “Ouvindo-te dizer: Eu te amo,/ creio, no momento, que sou amado./ No momento anterior/ e no seguinte,/ como sabê-lo?” A sociedade, em decorrência dessa distância difícil a suportar entre o afeto e a sua expressão, gera, para acalmar, formas padronizadas de sentir tanto a alegria quanto o sofrimento. Assim, ir a Paris é ótimo, ir ao dentista é um horror.

Isso ganha especial importância no campo da saúde, no qual se costuma afirmar que não há nada pior do que não saber o que se tem. Não é rara a alegria paradoxal de alguém que finalmente fica sabendo que só tem um “tumorzinho”. Essa necessidade de se acalmar em uma forma padronizada de sentir pode trazer sérios problemas. Na medicina de hoje – diferentemente da de antes, em que primeiro se sofria, depois se ia ao médico –, doenças são anunciadas antes de qualquer sensação. É o caso de exames genéticos que prevêem com muitos anos de antecedência algumas paralisias graves. Como reage o paciente diante dessa informação igualmente desagradável e estranha? Ele busca alguma forma adequada de expressar o que supostamente tem, para os outros e para si próprio. É aí que acaba se alienando em um sentimento prêt-à-porter, pronto para vestir.

Quem vai ter um comprometimento das pernas começa imediatamente a claudicar e corta de sua vida tudo o que demanda movimento. Dessa forma, acaba por aumentar a dor imediata e facilitar a velocidade de instalação da doença. Uma pesquisa clínica psicanalítica que estamos desenvolvendo no Centro de Estudos do Genoma Humano, na USP (Universidade de São Paulo), tem demonstrado a importância, nesses casos, de desautorizar o sofrimento – foi como batizamos –, a saber: evitar que a pessoa se acomode em expressões programadas de dor. Isso não se consegue sem que se enfrente o risco da incerteza, coisa que dificilmente alguém fará se o tratamento que lhe for dado congelá-lo em uma situação sem saída, confortado pela discutível compaixão.

Os exemplos são extrapoláveis para a vida de todo mundo: não há quem não prefira o conforto da dor conhecida à insegurança de novas formas de ser. Cuidado! Ou cada um se faz responsável por sua singularidade, mesmo que esquisita, ou vira genérico, substituível, descartável. É uma questão de escolha.

A PSICANÁLISE E OS SUJEITOS HOSPITALIZADOS

V

Diante do insuportável somos convidados a incorporar o saber sobre o que fazer e dizer diante da dor, do sofrimento e da morte. Somos depositários de um saber de algo que não sabemos. Temos que ter clareza de que temos um lugar de saber específico e só podemos intervir na falta.” (ELIAS, 2008)


A função da psicologia diante do outro que se vê em um estado de hospitalização á a de assegurar a este que continue lutando e tenha forças para a vida independentemente de uma vitória ou derrota frente a um tratamento ou uma doença. Devido ao estado de debilidade e sofrimento em que muitos sujeitos se encontram nos Hospitais a psicanálise vem fazer um movimento para tentar assegurar também que o individuo continue a sonhar e desejar mesmo sem muitas vezes ter sucesso em seus desejos mais imediatos.

Não é função do psicólogo dar certezas ou incertezas sobre a cura para o sujeito que sofre. Não pode ser dada esta certeza sobre a cura do corpo que é objeto dos cuidados dos médicos, e também, o psicólogo não deve dar certezas sobre a cura da psique humana que é a real demanda para a atuação do psicólogo. Embora o sujeito deseje parar de sofrer tanto quanto vem sofrendo, o psicólogo deve ir além deste sofrimento, e permitir que a transferência faça o papel da reorganização e reconstrução do sujeito.

De acordo com MORETTO (2001), nem mesmo a instituição hospitalar sabe muitas vezes o que deseja do analista, o que ela sabe é que há uma grande demanda, mas não sabe o porque e muito menos o que o analista irá fazer com isso.

Na hospitalização, embora haja dor física, na maioria das vezes ela vem acompanhada de um sofrimento psíquico do paciente. Este sofrimento é a matéria com que o psicólogo deverá trabalhar. O sofrimento pode ser percebido em todo o contexto hospitalar, no paciente hospitalizado, nos cuidadores, equipe médica e também em outras áreas do hospital. A posição do psicólogo hospitalar não deve mudar de forma alguma. As relações a serem estabelecidas no ambiente hospitalar devem ser sempre de escuta analítica.

Em outras palavras a situação de hospitalização que ocorre devido ao ambiente do hospital, será sempre seguida de um sofrimento, de uma dor. Esta dor pode ser apenas física, mas também pode ser uma dor psíquica. Sempre será encontrado dentro do hospital material para fazer psicanálise pois em um momento ou em outro, os conflitos e as angústias, seja do paciente ou da equipe, uma hora irão aparecer.

Embora o local seja diferente e o setting analítico também esteja de certa forma comprometido, a psicanálise dentro da instituição hospitalar deve fazer o mesmo que faz na clínica, a escuta analítica.

A escuta analítica não deve ser apenas uma ferramenta para ouvir o sujeito em análise, mas antes de tudo, é necessário escutar toda a instituição hospitalar. Considerando a instituição hospitalar como um sujeito, poderemos encontrar dentro de seus membros os sintomas que muitas vezes estão ocultos e demoram muito mais para aparecer na análise individual do que se a instituição for analisada como um todo.

Ainda segundo MORETTO (2001), a posição do analista para Freud era a de um tratamento do sujeito psíquico, o sujeito do inconsciente com o objetivo de um desvelamento do que está oculto para um alívio das angústias e sofrimentos dos sujeitos. Por isso a autora diz que a psicanálise é nitidamente diferente das outras áreas que cuidam do paciente no hospital, desde os médicos até enfermeiros, serviço social, entre outros.

Mas se pensarmos que o analista virá de encontro com o sofrimento para aliviar as pressões (defesas) que o inconsciente exerce sobre o ego, estaremos incorrendo também em um erro de interpretação. Embora o analista perceba, pontue e coloque tudo o que o paciente precisa fazer, e mesmo que esse o faça, exatamente como lhe foi ordenado, de nada irá adiantar a terapia, ou o resultado será muito aquém do esperado. Quem na realidade vai de encontro com o inconsciente é o próprio paciente através da sua palavra.

O ato de resignificação das vivências passadas que é possibilitado através de uma analise bem direcionada acaba por trazer ao paciente um alivio de suas angústias que são a princípio o desejo diante da terapia, mesmo que isso não fosse a real demanda do sujeito do inconsciente. E pode-se dizer que nunca o é, visto que, este conteúdo da demanda propriamente dito, está recalcado por camadas e mais camadas de lembranças e significações de certa forma conflitantes e faltantes em si mesmas. Em outras palavras o conteúdo da demanda se encontra no Sujeito do inconsciente enquanto que o conteúdo do desejo se encontra no ego.

Para ilustrar esta questão entre demanda e desejo, QUINET (2008) diz que “Assim como o ser da coisa nunca é atingido pelo significante, o desejo está no próprio deslizamento do significante que busca se realizar de significante em significante. É isso que confere ao desejo seu aspecto enigmático:... Você acha que é aquilo e já não é.”.

Enquanto que o desejo nunca atingirá verdadeiramente a demanda devido a função metonímica do sintoma, quando o cliente consegue descobrir a real demanda dos seus desejos o conflito tende a enfim se desfazer. Este desfecho como dito anteriormente, não é nem uma vitória nem uma derrota, mas um certo gozo apenas pelo fato de que a resultante do processo traz sempre uma certa paz. O processo de análise trará como resultado um relembrar e resignificar as histórias passadas e com isso o sujeito poderá enfim “descansar”.

A situação analítica sempre deve partir do pressuposto de que o inconsciente está presente no discurso a ser decifrado, o discurso do sintoma, o discurso falado pelo corpo, pelo sujeito. Embora seja um discurso falado, ele nem sempre é um discurso da linguagem vernácula. Temos por exemplo o corpo que fala, ou até mesmo e principalmente, a palavra desconexa que caracteriza o chiste ou o ato falho. O sujeito fala, mas este sujeito é o sujeito do inconsciente.

Diferentemente da clínica, dentro do hospital os sintomas mais evidentes são da ordem do real, do corpo do sujeito. Embora também haja o sintoma da ordem do inconsciente a análise deve ser muito cautelosa e o analista muito mais atento na escuta e na percepção do que está ocorrendo com o paciente do que na clínica.

Um dos casos comentados nas aulas durante os sábados, a psicanalista havia relatado que em uma manha escutou de uma de suas pacientes seguinte discurso: “chegue mais perto que quero vomitar”.

Se pensarmos no vômito, o organismo realiza um ato de expulsão, de colocar para fora o que está fazendo mal. Da mesma forma, o vomitar do sujeito em análise é por para fora o que não está fazendo bem, e muitas vezes é um ato reflexo do corpo humano para preservar sua integridade mental Neste caso, em uma instituição hospitalar as condições eram favoráveis aos dois vômitos, primeiro pelo estado de paciente, segundo pelo estado de analisando.

Como dizer que esta ação real do corpo não é também um sintoma, ou o alivio de um sintoma psíquico e não apenas físico?

Dentro do hospital o real atinge o sujeito de tal forma que muitas vezes se faz necessário levantar as defesas do ego para depois trabalhar as questões de ordem psíquica para que possa ocorrer uma transformação do sujeito e dos significados que a experiência da hospitalização traz para o sujeito.

Freud (1923) diz que o trauma é uma “experiência que, em curto período de tempo, aporta à mente um acréscimo de estímulo excessivamente poderoso para ser manejado ou elaborado de maneira normal, e isso só pode resultar em perturbações permanentes da forma em que esta energia opera”.

Compreender o sujeito marcado pelo trauma do real, ou seja, por uma experiência que o sujeito passe, em que seu corpo não pode se recuperar de forma normal, como uma doença ou uma internação hospitalar para exames de diagnóstico, constitui o primeiro passo para encontrar o sujeito que está hospitalizado. O paciente hospitalar está em estado de paciente enquanto se encontra hospitalizado, embora este estar em estado de, não significa por tanto que ele seja apenas este estado transitório.

Em contrapartida temos a equipe médica, que também é marcada pelo trauma da real ferida biológica instalada no outro. Esta equipe também deve levantar as defesas psíquicas necessárias para poder lidar com cada paciente que chega até eles. Em especial a da sublimação.

Enquanto o paciente lida com o sofrimento de si mesmo, a equipe lida com o sofrimento do paciente, porém ambos lidam com o sofrimento dos sujeitos outros que estão por detrás do rótulo de profissionais e de pacientes. Todos os “hospitalizados” lidam com as feridas de todos, sejam feridas orgânicas ou psíquicas, todos sofrem. Este sofrimento na instituição pode ser uma das demandas do psicanalista hospitalar.

Um dos maiores mistérios que permeia a existência do ser humano é a questão da morte. De tempos em tempos nós nos damos conta de que ela um dia chegará, mas vivemos nossas vidas como se ela nunca fosse chegar. A hospitalização é sempre um momento a mais em que as pessoas se percebem finitas e isso é causa de grande angústia nos seres humanos.

De acordo com ARNAO (2008), o ato de compreender, ou seja, de aprendizado do ser humano, ocorre através das representações. Quando algo acontece a sua volta, primeiro ocorre as impressões no corpo humano, e depois esta energia é representada psiquicamente.

Considerando a teoria psicanalítica, quando ocorre um encontro com algo que não tem uma representação psíquica o ser humano tende a fantasiar sobre. No caso da morte, ninguém ainda passou por estas experiências, então as defesas se levantam em forma de fantasia para proteger o ego. O acontecimento da morte acaba gerando então angústias nas pessoas que estão próximas, ou em situação parecidas a do sujeito que deixou de ser.

Todos os sujeitos hospitalizados, seja por vontade da própria cura ou pela obrigação imposta de um desejo que deseja curar, passam pela experiência da finitude da vida mais próxima do que as pessoas que não foram submetidas à hospitalização. O fim fica evidente nos corredores dos hospitais e com isso o medo e acima de tudo as defesas que o ego tem para que não se veja como um daqueles que irão findar.

Também existe a questão da dor. A dor é uma das principais demandas que leva as pessoas aos hospitais, a dor que afeta a todos e embora de maneira diferente, todos estão sempre se precavendo contra ela, seja se cuidando para evitá-la ou em casos de psicopatias severas, se auto infringindo alguma espécie de ferimento para evitar uma dor maior, para evitar a dor da consciência de ser um ser faltante.

Nos hospitais também são encontrados outros sofrimentos que se seguem e se somam ao sofrimento das doenças. O abandono, o preconceito, o medo, o descaso, a insegurança.

Embora os pacientes sejam os representantes destas questões, a equipe hospitalar nunca ficaria imune aos casos que se apresentam dia após dia diante deles se não fossem as defesas do ego.

Aliás, ao nos aprofundarmos em alguns casos, nem mesmo as defesas egóicas são suficientemente fortes para neutralizar o sofrimento intenso do sujeito. Segundo KOVÁCS (2001) às vezes o médico busca fazer até mesmo o impossível para salvar a vida dos seus pacientes, mas mesmo assim quando eles morrem fica um sentimento de que algo mais poderia ter sido feito. Um paciente que morre é sempre uma ferida narcísica para a figura onipotente médico.

De acordo com a mesma autora, em alguns casos quando o paciente expressa o desejo por apressar a morte, pois não suporta mais viver o sofrimento em que se encontra, alguns médicos buscam incessantemente um especialista que possa dar um maior suporte e também um diagnóstico de que o desejo por morrer, é na verdade um ato psicótico ou alguma forma de depressão mais grave. Tudo o que alguns médicos tentam fazer na realidade é provar que o paciente está mentalmente incapaz de tomar decisões acerca de si mesmo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

ENTRE UM POST E O OUTRO...

Perdoem-me pelo lapso de tempo em que fiquei sem postar. Na realidade eu estava postando quando tive um contratempo e até então não tive mais tempo de postar aqui no Blog.

Quando a cronica que se seguiu nos 2 ultimos Posts, ela é uma crônica dividida em começo, meio e fim. Porém o fim cada pessoa faz da forma que compreende melhor para a história. Não há um final pré-determinado.

A história deve ser justamente narrada e com um espaço de tempo entro o primeiro conto e o segundo que deveria ser construido com as pessoas que estão ouvindo.

Eu pretendi publicar este conto pois é um conto que meche demais com as fantasias da gente. Uma familia bem estruturada, um jovem que parece ser um bom rapaz mas que está passando por uma certa dificuldade neste momento de sua vida. Para completar, uma carta.

Quando nós não estamos calmos, quando estamos envolvidos em algum tipo de estresse ocorre com maior frequencia os lapsos, os atos falhos, os chistes, entre outros caminhos do nosso inconsciente.

O pai ao ler a carta não se deu conta que havia uma assinatura na carta e que não era a do filho dele, foi um lapso.

Nossa fantasia também trabalhou entre um conto e outro, uma mistura de desejos, cada um querendo um final para a história mas todos querendo um bom final. Escrevo um bom final pois percebo que um final "feliz" nem sempre é tão feliz assim, e que o bom pode ser bom para todos, o que irá variar é a medida do bom.

Deixar as fantasias de lado, respirar fundo e dizer "fudeu" - um amigo meu dizia isso. Perceber a realidade vai muito mais além do que entrar nela e a compreender (compreender - entender trazendo para minha história de vida, sendo assim, é o que EU entendo, o que EU acho). Perceber a realidade é mais ou menos como aquela brincadeira de andar sobre as brasas. As brasas não queimam os pés, mas são brasas e se eu ficar parado vai queimar.

A realidade que se apresenta é a brasa, o ato de queimar dependerá de minha atitude diante dela, se eu correr sobre ela não queimará tanto, mas se eu ficar parado irá queimar. Em abos os casos a realidade da brasa não mudou, ela queima.

As fantasias embora nos atrapalhem em algumas muitas vezes, também nos são úteis em diversas situações. Lembra daquele ditado que diz "Dos males o menor"? Quais são estes males senão os imaginados para determinada situação experienciada?

Convido a uma reflexão sobre nossa posição frente a nossa vida. Será que estamos imaginando a brasa queimando (como o pai na história sem nem conseguir o que estava sentindo) mesmo sem ter experimentado a travessia?

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Fim da história

Para sua surpresa Carl o encontra no chão deitado em meio a uma pilha de papéis.

Lucas não havia escrito a carta.

Sua mãe ao subir encontra os dois chorando no quarto abraçados, como velhos amigos que se encontram após algum acontecimento trágico na vida de um deles. Embora apenas um tivesse sofrido a dor da tragédia, o sofrimento foi como que plasmado pela amizade no outro, assim sendo havia se cristalizado em ambos através da relação que mantinham. Os dois choravam pelo sofrimento de um só, mas também choravam pela alegria do re-encontro.

Carl jamais havia imaginado que um dia iria chorar de alegria por re-encontrar o filho perdido, mesmo que o houvesse perdido apenas em sua imaginação.

Margareth jamais entendeu como seu marido podia estar tão desesperado sendo que embaixo da carta estava escrito o nome de um outro rapaz. Desta vez, entretanto, cão conteve sua emoção e gritou com o marido. Por favor, este tal de Ricardo está para cometer uma bobagem e você fica aí chorando que nem criança? Vá trabalhar, afinal não é exatamente para isso que te pagam?

Lucas em um salto pulou e pegou a carta, disse que era de um amigo seu que estava indo viajar para o Canadá pois havia se apaixonado e seus pais não queriam a viagem. Tudo explicado mas pouco bastava para aqueles corpos carregados de um sentimento indescritivel de alívio, medo, alegria e que ainda mostravam um pouco de lacrimejamento.




segunda-feira, 24 de agosto de 2009

CRONICA DO COTIDIANO... TENHO EM UM PAPEL...

Lucas era um rapaz em seus 20 anos, estava estudando em uma das mais bem conceituadas faculdades de seu país. Havia recebido já alguns prêmios e alguns troféus durante os 7 períodos que completara cursando Engenheria Biológica. Nas paredes de seu quarto, fotos e mais fotos de viagens, amigos, namorada, família, e um recorte de jornal com seu nome e uma matéria que havia sido publicada devido ao seu trabalho dde campo.

Era um bom filho, um ótimo amigo, um excelente aluno, era quase perfeito. Poucas pessoas podiam se dar ao luxo de dizer que ele havia passado por elas, conversado e então ido embora sem fazer alguma diferença.

Um dia os problemas começaram a aparecer. Sua namorada havia terminado com ele, ele tirou então sua primeira nota C na faculdade, perdeu um de seus melhores amigos em uma competição de Hugby. Tudo aquilo em menos de um mês.

Seus pais receberam em casa uma carta que dizia assim:

Queridos pais, orbigado por tudo o que me fizeram mas hoje nada mais importa. Recebi tudo do bom e do melhor, talvez eu tenha sido apenas um reflexo de tudo o que me deram até hoje, por isso parto feliz, em paz. Peço de coração que me perdoem mas sei que um dia irão compreender, sei que uma hora me darão razão.

Seu pai trabalhava como detetive particular e não podia compreender o que acabara de ler. Seu filho havia escirto aquela carta a mão, e ele não percebera jamais o sofrimento de seu filho tão querido, suas pernas ficaram fracas, ele perdeu a cor, perdeu as forças e se sentou no chão. Chorou.

Margareth vendo tudo aquilo com seu esposo, correu e o apoiou, segurou em suas mãos, trouxe-o para dentro e gritou por Lucas, mesmo sem ter conhcecimento do que estava na carta seu coração de mãe sabia que algo estava errado.

Carl chorava de raiva, não sabia se dele, de seu filho ou de sua esposa, mas tinha raiva. Ao entregar a carta a Margareth, levantou-se tateando pela poltrona e deu um grito, isso não vai ficar assim.

Margareth Após ler a carta se sentou e contendo uma ou outra expressão facial disse ao seu marido.

- Meu bem, o que está pensando em fazer?

Respondendo de forma ríspida e direta disse novamente. Isso não vai ficar assim.

Carl subiu então as escadas entrou no quarto de seu filho e para sua surpresa ...

CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Lixo

Sabe quando começamos a reparar que em nosso dia a dia estamos acumulando lixo demais, sujeira dos outros, coisas que não precisariam estar ali guardadas. Estes momentos são muito preciosos em nossas vidas, ultimamente tem sido raros visto que nada mais é guardado, parece que nada fica, parece que quanto mais se tenta aplacar a sensação de vazio mais se percebe a profundidade desta falta, desta marca que embora esteja em nós, nunca conseguimos preenche-la totalmente.

Algumas pessoas defendem a regra do "experimenta". Tenho que experimentar de tudo quanto me for possível para saber se algo é bom ou ruim. Nossa, me espanto com o tanto de lixo que estas atitudes geram nos corações. Chega um momento que tudo está guardado, interiorizado em uma ministura frenetica de realidade e subjetividade que as experiencias vividas (leia-se nossas memórias) passam a se tornar impossíveis de serem revividas.

Quero acreditar que isso já aconteceu com vocês que vem acompanhando meu blog (este vem acho que está fora da gramatica correta...), então vamos ao exemplo, sabe quando procuramos um objeto, ou um livro que gostamos demais de ter lido, e ao abrir a primeira pagina a quantidade de poeira deixa impossível de se ler? (já precisei tomar "Alegra D" pra estudar na biblioteca da UEL, achei o máximo).

Assim como pegar um livro antigo, que nos emocionou ou que foi imensamente significante em um momento de nossas vidas e não conseguir mais nem sequer sair das primeiras páginas, assim também ocorre quando vivemos "experimentando" de tudo um pouco. Assim como o livro vai acabar virando lixo ou doação, nosso corção acaba marcado por aquele momento, mas com a certeza de que nunca mais vai viver aquele momento.

Acredito que existam duas formas de viver este "nunca mais". A primeira forma é se deparar com o momento derradeiro do livro e ficar insistindo, se atormentando, espirrando, sofrendo, e por fim, acaba-se por transformar o que era bom em um martírio, em uma auto flagelação para ter aquilo que passou e não volta mais.

Por outro lado, podemos olhar o livro, ver como ele ficou e relembrar o que do livro ficou em nós, e se desfazer do material, sem se desfazer da essência.

Confesso que a segunda opção é muito mais bela, e menos romantica do que ficar "chorando o leite derramado", mas para que isso ocorra é necessário uma certeza de que o livro foi lido. Para que possamos nos despedir de uma situação é necessário ter experimentado ela da forma mais pura possivel, na intensidade em que nós nos permitimos experimentar e quando ela passar, dizer que foi bom.

Aí volto ao começo do post de hoje, será que teríamos tempo de experimentar nesta vida todas as situações desta forma tão intensa e profunda? A resposta é simples NÃO. Então aproveitemos as experiencias dos outros e em vez de ficar guardando lixo, coletemos e guardemos em nossos corações o que pra outras pessoas valeu a pena. Nem por isso será também bom para mim, mas não custa tentar não é mesmo?

 
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