segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Psicanálise para quem?

"Psicanálise é o nome: 1) de um procedimento para a investigação de processos psíquicos que de outro modo são dificilmente acessíveis; 2)de um método de tratamento de distúrbios neuróticos, baseado nessa investigação; 3) de uma série de conhecimentos* psicológicos adquiridos dessa forma, que gradualmente passam a constituir uma nova disciplina científica."(Freud, 1923 p.274).

Nada melhor que começar a falar de psicanálise introduzindo o que o próprio criador da psicanálise pensava sobre ela.

Freud, em diversos textos deixa claro que a psicanálise não é uma forma de patologizar o indivíduo através de uma série definida de diagnósticos e nomenclaturas que cristalizariam o sujeito em sua posição de sofrimento.

Dito de outra forma, Freud, em toda sua obra não estava tão preocupado em catalogar sintomas diversos e agrupá-los sob um ou outro nome de psicopatologia que diria sobre as características dos indivíduos de sua época. Ao contrário, Freud estava muito mais preocupado em dar condições para que o paciente pudesse dizer sobre si mesmo, seu sofrimento, seus sintomas, e, quase que por acaso, percebeu junto com seus pacientes que quando eles diziam sobre o que os fazia sofrer, os sintomas geralmente cediam e os pacientes frequentemente melhoravam de suas enfermidades.

No início de seu trabalho, Freud foi convidado para traduzir para o alemão as palestras de um grande médico e cientista de seu tempo o Professor Charcot, que tinha entre suas pesquisas o trabalho com pacientes "doentes dos nervos" e que sofriam de histeria. A histeria na época de Freud era comum em mulheres, mas também era encontrada em homens, embora devido à nomenclatura (histeria - uma doença que estava ligada a uma desordem no útero - hysteros em grego ) o pensamento da época é que apenas mulheres poderiam ser acometidas por esse mal. O que Freud constatou nas palestras de Charcot que não era verdade, também muitos homens eram acometidos por esse mal que se caracterizava por uma alteração no funcionamento normal de parte ou partes do corpo, distúrbios na visão, na fala ou nos movimentos, porém, toda essa sintomatologia deveria necessariamente não ter nenhuma ligação com alguma doença orgânica constatada.

O que mais chamava a atenção de Freud foi a forma como os sintomas sumiam mediante a técnica da hipnose. Inclusive Charcot costumava hipnotizar dois ou mais pacientes e fazer com que os sintomas fossem trocados entre seus pacientes. Por exemplo: maria e joana foram diagnosticadas como histéricas. Maria não movia seu braço esquerdo, por outro lado, Joana não movia sua perna direita. Após a sessão de hipnose na frente de todos, o sintoma era trocado pelas pacientes. Joana, embora recuperasse os movimentos de sua perna direita, devido à fala do hipnotizador ela deixa de mover seu braço esquerdo, o oposto ocorria com Maria.


O que mais intrigava Freud era o sofrimento que esses pacientes passavam, muitas vezes por toda uma vida, pois tinham uma enorme angústia, dores sem explicações e nem mesmo uma causa que a medicina da época pudesse dar conta. Eram pacientes que estavam "mentindo" para seus médicos, pois fingiam uma doença até então inexistente.

O que ficava claro, é que a histeria, bem como seus sintomas e o sofrimento adjacente a eles, não estava na ordem orgânica, mas antes, respondiam a uma outra ordem, que Freud posteriormente irá chamar de inconsciente.
Com o atendimento dos pacientes chamados de histéricos, Freud abriu todo um leque de possibilidades de tratamento para um tipo de adoecimento que foi nomeado como psiconeuroses. Entre os trabalhos de Freud, destacavam-se principalmente os tratamentos das fobias, das histerias e também das neuroses de angústia.  

Com o tempo, a psicanálise deixou de ser apenas focada em um ou outro tipo de adoecimento, ou seja, já não importava mais o diagnóstico que era dado para que o paciente fosse para análise, mas sim, importava que o paciente tivesse o desejo pela sua cura.

Desta forma, indivíduos melancólicos (chamados de psicóticos maníacos depressivos até a década de 80, e posteriormente de bipolares), bem como psicóticos (esquizofrênicos e paranóicos) começaram a ser atendidos pelos psicanalistas. E o mais surpreendente é que, embora em alguns casos não houvessem a cura propriamente dita, a maioria dos pacientes tinha restaurado sua capacidade de amar e de trabalhar. Justamente em 1914, Freud quando discorre em seu texto chamado "Introdução ao Narcisismo" estava iluminando a compreensão dos indivíduos considerados psicóticos, e possibilitando um caminho de tratamento para além da medicação e do internamento em instituições especializadas como era comum em sua época. Neste texto, Freud diz que a psicanálise tem como objetivo devolver aos indivíduos a capacidade de amar e de trabalhar.

Mas não é apenas um amor ao outro, mas antes, um amor a si mesmo e a sua própria história de vida. Um amor que possibilite ao paciente se ver sem censuras, sem julgamento e que, diante desta visão, possa se dar ao luxo de escolher um outro caminho.

Freud deixa bem claro em seus textos que o adoecimento psíquico está intimamente relacionado com a sociedade em que os indivíduos se encontram. Geralmente as demandas sociais pesam sobre os indivíduos e estes podem adoecer a partir da dificuldade de corresponder a estas demandas. Aqui temos um exemplo do que seria o conflito psíquico: alguém quer algo de mim que eu não posso dar.

Esta fórmula aparece quase que como mágica na evolução da psicanálise como teoria e ciência. O indivíduo teria dois caminhos diante da demanda da sociedade, primeiro corresponder a essa demanda e ser um "bom cidadão". O segundo caminho seria o adoecimento psíquico em que o sujeito não conseguiria corresponder a esta demanda, neste ponto, teríamos o acréscimo do sofrimento, bem como uma série de sintomas podem surgir daí. Angústia, pânico, histeria de conversão somática, dores pelo corpo, enxaquecas, crises de asma, alcoolismo, drogadição, ou seja, de uma forma ou de outra, o indivíduo encontraria um segundo caminho que o fizesse "vítima" e assim, não fosse capaz de "dar conta do recado".

No entanto, aproximadamente em 1920, Freud começou a discorrer a respeito de uma outra questão que estava sempre presente, porém não estava muito claro até aquele momento, que era a pulsão de morte. Freud via em sua clínica que o adoecimento nada ajudava o seu paciente, ao contrário, apenas aumentava ainda mais o seu sofrimento psíquico.

Não era ou trabalhar ou adoecer, não existia essa escolha. Aparentemente os indivíduos adoeciam, muitas vezes eram impedidos do trabalho ou de manterem relações de amor com outros devido à sua condição, mas no discurso deles, também havia um grande sofrimento por não conseguirem darem conta de uma vida "normal".

Freud percebeu então que para além do conflito entre "trabalho - amor X não trabalho - não amo" o indivíduo buscava (na grande maioria das vezes) trabalhar e amar, mas seu adoecimento o impedia disso. Aqui começamos a vislumbrar uma força que era independente do Eu, que se movia por trás do indivíduo e que o fazia sofrer não importando qual escolha ele fizesse. Freud dizia que o adoecimento era resultado do conflito de forças que tinham uma característica inconsciente, mas que era possível trazer à consciência essas forças a partir da psicanálise.

Uma vez que, o que estava ali, no inconsciente fosse revelado à consciência, o paciente poderia falar sobre aquilo e decidir conscientemente (ao menos o quanto for possível) o que queria fazer. Não estaria mais à mercê de suas paixões que o levasse ao adoecimento. E mesmo que isso ocorresse, o paciente saberia identificar o processo, compreender o que estava acontecendo e poderia tomar as decisões de forma a evitar o que seria até antes da análise inevitável.

Cerca de 100 anos se passaram desde o texto de Freud escrito em 1915 sobre a psicanálise devolver ao paciente a capacidade de amar e trabalhar. Muitos avanços foram feitos, o próprio Freud continuamente retornava aos seus trabalhos antigos para reescrever a mudança de seu ponto de vista, porém os psicanalistas ainda continuam nesta empreitada de tornar consciente o que está inconsciente e a partir disso devolver ao individuo a capacidade de amar e trabalhar

Hoje em dia, diversas pessoas chegam aos consultórios com as mais variadas queixas. Tem pessoas que procuram por motivos de adoecimentos reais, outras são encaminhadas por médicos, parentes, amigos, mas que demonstram algo em suas vidas que não vai bem.

Algumas poucas (mas nem tão poucas assim) procuram para se conhecerem melhor, para saberem porque fazem de uma ou de outra forma, mas conforme o trabalho vai acontecendo, geralmente se chega no ponto crucial que se resumiria em uma pergunta: "Porque ainda sofro com isso?".

Poderíamos resumir que todos os pacientes que buscam a psicanálise e tem uma perspectiva de tratamento na mesma, seriam indivíduos que estão incomodados com seus sofrimento e não querem mais sofrer.


... CONTINUA...

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