terça-feira, 24 de abril de 2012

Um pouco sobre o Inconsciente em Freud e Lacan.

Muito se fala sobre o inconsciente em psicanálise, e muitas coisas devem ser esclarecidas sobre este tema. Estudantes, profissionais e a população em geral normalmente tem a sensação de que o inconsciente seria algo das profundezas do psiquismo. Algo como uma entidade, um ser que está lá adormecido nas entranhas dos homens e que de alguma maneira não deve ser tocado. Ao contrário, deve ser dominado, domesticado, refreado, contido.

Bom, não é desde inconsciente que fala Freud em 1915 (depois em 1930 no texto "mal-estar na civilização" ele irá sedimentar melhor o pensamento de que coisas boas encontram-se neste estado). Lacan em 1964 chega a afirmar que o inconsciente "Não é o lugar das divindades da noite" (p.31) embora no mesmo texto, Lacan traga que Freud em seu texto "A ciência dos sonhos" afirma que dali saem larvas. Mas o que afinal seriam estas larvas?

Pensemos que as larvas aqui descritas são aquilo que nos incomodam, que nos trazem uma sensação de asco, que nos movem a julgar moralmente, ou ainda que ao olharmos para elas, sentimos vergonha de as ter cultivado em nosso íntimo. Sim, cultivamos as larvas que não queremos olhar, e até aqui o cultivo, ou ainda o ato de alimentá-las com nosso sangue, nos revela muito sobre este inconsciente que está vivo. Alimentamos as larvas para não ter que se haver com a fome delas, com sua reinvidicação, como animais que são acalmados com comidas para que seus donos não tenham problemas com eles.

No entanto é necessário dizer que estas larvas não estão nas profundezas, mas antes, se apresentam sempre em nossa face. Nós é quem não conseguimos enxergá-las em nós mesmos. Aí temos as formas de nos defendermos daquilo que nos é tão íntimo, que está em nossas entranhas, enraizado e que produz seus frutos em nossa face.

Com frequência aquilo que não suportamos nos outros é justamente aquilo de que tanto tentamos fugir de nós mesmos. Aqui funciona alguns mecanismos deste "local de larvas" para não ser identificado em nós, por exemplo, o mecanismo da projeção. Projeta-se em alguém, e normalmente a sensação é muito maior do que de fato a característica se apresenta na personalidade da pessoa, e a partir disso temos alguém muito mais que nós mesmos, o que nos move a fixar o olhar na imagem do outro. Assim como Narciso (no mito) fixou-se na imagem refletida na água.

O inconsciente está aí, na cara, na face, no reflexo de si mesmo no outro. Simplesmente não temos condições para aceitar. Seja por vergonha (medo de reprovação), asco (medo de ficar impuro e ser exluído da presença dos "puros") ou ainda pela moral (medo de ser julgado e condenado socialmente). Embora pareça que não, estes três "diques psíquicos" (Freud, 1926), dizem da mesma coisa, ou seja, o medo de ser excluído da relação com outro que amo, seja eu mesmo este outro, ou ainda um outro qualquer que me ame. Em última instância, estes três fatores (asco, vergonha e moral) me impedem de reconhecer em mim aquilo que imagino que o outro irá reprovar. Efim, medo de perder o amor pelo qual tenho orientado minha vida (Freud, 1930).

O interessante disso tudo é que justamente, as larvas estão em nossa face, comem-nos de fora para dentro, e as marcas ficam à lá "O Retrato de Dorian Gray". No livro não é difernete, embora as pessoas não percebam a verdadeira face do jovem, eles percebem que algo esta muito estranho, afinal de contas o tempo para ele não passou. 

O inconsciente embora seja atemporal (enquanto cronológico) ele nos move em direção ao tempo, ele é movimento que tem seu próprio tempo, o tempo das marcas. O personagem do romance no entanto não tem marca alguma senão a marca do tempo que não passou. O inconsciente está na cara das pessoas, seja por lágrimas diante uma situação ruim, ou pelo leve sorriso diante de uma felicidade incontida. 

Incontido, esta é a palavra que nos ajuda a definir o inconsciente, ele não pode ser contido. Não pode, porque não temos forças suficientes para isso, mas tentamos. O Ego trabalha, como diria Freud, "como um caveleiro que conduz o cavalo" o cavalo é mais forte e segue adiante, mas o caveleiro quem designa o caminho a seguir. 

O inconsciente então é revelado, ora como força, ora como local e ora como estado, isso em Freud. Lacan vai reunir tudo isso e em 1964 vai indicar que o inconsciente é tudo isso junto, e ainda mais, vai ao cerne da questão e afirmar que "é estruturado como a linguagem", o inconsciente fala, é vivo, chegando a afirmar que de fato, "O que o sujeito (do inconsciente)* mais teme é nos enganar, nos colocar numa pista falsa ou, mais simplesmente, que nós nos enganemos, pois, antes de mais nada, é bem claro, vendo nossa cara, que nós somos pessoas que podemos nos enganar como todo mundo" (Lacan 1964, p.43). 

O inconsciente então meus amigos, é simplesmente aquilo que está para além de nossa imagem refletida no espelho. Revela-se a nós como larvas que nos comem por dentro, porque nos revelam nossa própria condição humana, nossa existência passageira, nossos desejos. O inconsciente não é uma entidade demoníaca (muito menos o ID freudiano), ele apenas é a verdade sobre nós mesmos, na qual, devido ao medo de perder o amor do outro (Freud, 1930), não nos permitimos enxergar.


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* - Lacan quando cita o Sujeito aqui, está falando do inconsciente, porém julguei necessário os paraenteses acrescentando o termo "inconsciente" pois não consta neste parágrafo específico exatamente esta expressão"Sujeito do inconsciente", embora, durante a leitura fique claro que ele está de fato falando do Sujeito do Incosciente.

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