quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Terapias: Dos Medicamentos à Cura (Parte Final)

Primeiramente gostaria de dizer que esta Terceira e Última parte do texto pode ser considerada como independente, embora a leitura das outras duas partes seja um adendo importante a este texto.



Bom, no primeiro texto foi apresentado um pouco dos efeitos dos medicamentos sobre determinada pessoa, onde uma pessoa toma um remédio e ele faz ou não o efeito esperado, mas também existe o efeito placebo que contribui tanto para a cura quanto para o não funcionamento do mesmo.

Na segunda parte desta trilogia, pudemos ver um pouco do sujeito que toma o medicamento. Somos constituídos para além de um físico, para além de uma superfície corporal que necessita de um ou outro medicamento, e que, busca a cura de seu mal-estar independentemente de seu corpo. Como são os casos apresentados da criança que com certeza seria muito melhor (certeza para nós) e mais seguro viver sem a necessidade da bolsa, e também do Tiba, que afirmava que a "pira" estava em abrir um buraco em sua pele.

O que buscam as pessoas que independentemente da ordem física, podem estar psiquicamente saudáveis ou não?

Vamos explorar o luto para vermos se temos alguma resposta.

Bom, primeiro, precisamos compreender o luto como a perda do objeto amado. Ainda mais profundo, podemos compreender o luto como "a perda do amor da pessoa amada". 

Edvard Munch "A mãe morta e a criança"

Freud escreve em "O Mal-estar na Civilização" que nunca o ser humano está tão desamparado quando coloca o sentido de sua vida no amor. O amor foge ao controle do ser humano pois é indiferente às nossas atitudes conscientes. Um dia se ama, e outro dia pode simplesmente perceber-se não amando mais e perder aquilo que foi tão importante até então. A vida foi contruída de sonhos com a pessoa amada, foi uma construção imaginária de comphania, carinho, alegrias, sucessos, amizade, cumplicidade, ou seja, uma vida de muiuto amor e dedicação para com este outro.

Perceber a instabilidade e a fragilidade das relações humanas, levam as pessoas a uma situação de tomada de decisão. Claro meus amigos, tudo isto é um processo muito mais inconsciente do que se possa imaginar. Inconsciente, porém capaz de consciência.

As pessoas vão e vem como as ondas na maré.
Seja por qual motivo for, viagem, morte, mudança, trabalho, brigas, desentendimentos, mas elas se vão, isso é certo. E como ficamos nós com esta certeza de que nosso objeto de amor está pendurado na verdade pelo destino? Saber do destino (salvo quem crê que é possível) é impossível. Podemos planejar, repensar nossas vidas, fazer cronogramas, agendar encontros, mas no fundo sabemos que tudo isto não passa de mera tentativa de contornar o acaso, de dar uma volta sobre o abismo que é a alma do outro e o grande mistério que é a vida e a morte.

Bauman em seu livro "Amor Líquido" diz das relações artificiais que as pessoas estão tendo ultimamente. Podemos pensar nossa sociedade contemporânea como uma sociedade das relações pragmáticas como diria o filósofo Di Matteo. As pessoas se unem pelo que elas podem se dar em troca, não pelo mistério que são, mas pelo que conheço delas. Se as pessoas me surpreendem fazendo o que eu não gostaria de saber, a abandono pois aquele ou aquela não serve para o que planejei para minha vida, para o que eu esperava de um amigo, amiga, pai, mãe, etc. 

Poderíamos até pensar em uma sociedade do consumo e do descarte. Consumo o outro como meu objeto, como um brinquedo, até extrair dele, ou dela tudo o que eu puder, depois apenas descarto porque já integrei em mim aquilo que mais queria do outro, já sou tão bom quanto ele ou ela, e já consigo viver independentemente. Vou para outra loja de pessoas e compro com minha comphania, minhas piadas, meu dinheiro, minha presença, meu charme, meu sexo, outra pessoa. Compro com aquilo que eu puder pagar, até mesmo com o dinheiro.

Vemos também uma sociedade de controle. Um controle absurdo onde poderíamos dizer em qualquer lugar que formos, assim como o livro de minha querida professora Sonia Mansano : "Sorria, você está sendo controlado". A vida virou um Big Brother onde vídeos de tempestades, desastres, sequestros, explosões, nascimentos, aniversários, entre outros podem ser imediatamente vinculados a qualquer rede social e todos se apropriam dos fatos.

Vivemos sem controle, sem segurança alguma, vivemos em busca de um norte, de um amparo de um socorro. Os filhos vivem tentando agradar seus pais, os pais, tentando agradar seus filhos, um medo terrível de ser um mau menino, ou serem pais ruins. Até em nosa própria família a imagem de "eu" que se construiu é de altíssima dependência de alguém que sabidamente um dia irá falhar, irá faltar, irá ser desprezado, irá morrer. A idéia então que podemos ter é a de pessoas cada vez mais se preparando para gerir-se independente do outro. Porém esta independência tem um preço altíssimo que se paga, a solidão.

A solidão não é apenas ficar sozinho, mas é ver-se e reconhecer-se no espelho, reconhecer aquele que está a sua frente no espelho e ver que aquele ali também vai falhar, vai sofrer, vai faltar, e um dia também vai morrer. Pânico? Sim, para os mentalmente saudáveis sim. Pânico, loucura, doenças físicas e mentais na busca de um eixo, de algo que possa me dar um amparo, uma segurança de que aquele ser a minha frente tem condições de suportar a vida, a existência, com todas as suas características, com todas as suas faltas.

Na existência humana, a falta é a grande marca da vida. Falta controle, faltam regras, faltam amigos, faltam amparos, falta segurança, falta estabilidade, falta ar, faltam idéias, falta emprego, falta dinheiro, falta mãe, falta pai, falta tempo, falta vida.

Como no Filme "Não me abandone jamais" a definição dada para ser humano é basicamente essa: "Falta tempo para viver tudo aquilo que queríamos viver".
Buscar então em um padrão de comportamentos, dando idéia de uma segurança para estas faltas, nos levam a um mundo ainda pior. Medicar-se quanto à falta de ar com bombinhas para asma, não tira o sujeito da posição de alguém sufocado pela própria vida e pelo pânico que desencadeia de tempos em tempos a asma. Claro que a medicação age no corpo, socorrendo o doente no momento de crise asmática. Falta mãe, falta pai, faltam pessoas, o que não faltam são medicamentos para dar continuidade a uma situação que, de tão insuportável, faz-se necessário utilizar estimulantes para que a vida passe a ter alguma "graça". Falta consolo no luto, na dor da perda, na angústia frente a morte, mas não faltam antidepressivos para fazer com que a pessoa levante da cama e, ao invés de pensar sobre suas dores e o que se foi, continue a tocar a vida.

Bom, claro que os medicamentos ajudam, mas existe outra coisa também possível. 

No meio disso tudo uma mudança faz-se necessário. Muito mais do que tomar medicamentos e fazer uma terapia com psicólogo, psicanalista, ou quem quer que seja para ter um apoio. O ideal seria o contrário. O efeito do medicamento de analgesiar o indivíduo frente às intempéries da existência, e às dores e dificuldades da vida pode ser justamente o que precisa ser retirado.

Ao invés de uma posição passiva frente a vida, tomando medicamentos para continuar engolindo sapos, a terapia vem em forma de modificar toda a posição de um sujeito que começa a se dar conta de que só os remédios, por incrível que pareça não estão dando conta do recado. Ao contrário, ainda sim algo mais urge, como uma necessidade, como algo que pulsa internamente e que não para de dizer: "Olha, do jeito que está não vai dar mais". Justamente quem diz isso é aquele que está a nossa frente no espelho e que marca nossa vida nos trazendo sempre problemas, dificuldades, repetindo situações embaraçosas.

E a nós, cabe a escolha, continuar na escola clássica de tomar medicamentos, cada vez um a mais, sempre indo e vindo nos postos, em médicos diversos, e sempre rezando a Deus para a descoberta de um medicamento suficientemente bom para resolver tudo isso, ou podemos dar voz àquele frente ao espelho, que não pode falar, mas que nos mostra um duplo em nós que no final das contas só quer nos ajudar.

Dar voz ao espelho é em outras palavras, recorrer a um especialista (Psicólogo, Psicanalista, Psiquiatra - Alguém que nos ouça) que faça esta função, a função de falar sobre você por suas próprias palavras, a função de um analista que te mostra não aquilo que você quis mostrar, mas aquilo que você até então não foi capaz de enxergar em si mesmo. Pode ter certeza, para existir, para sobreviver, para viver de verdade, de algum modo é necessário você. É este você que deve ser encontrado, e não o que você tem enxergado até antão.




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