domingo, 20 de novembro de 2011

Sobre a Psicanálise Clínica e na Comunidade: Entrevista com Judith Miller

Entrevista de Judith Miller para Revista O GLOBO- Jornal O GLOBO- Rio de Janeiro - Brasil *
*Matéria extraída da Revista O Globo .Ano 3 n. 158 . 5 de agosto de 2007
Isabel de Luca editora da revista O Globo

Coordenação: Gisèle Gonin pela comissão de divulgação e imprensa do 3 Encontro Americano



Dois anos antes de sua morte, em 1937, o inventor da psicanálise , Sigmund Freud, já idoso e doente, demonstrou no ensaio “Análise terminável e interminável” a preocupação com a longa duração do tratamento das doenças mentais. (...)

No acelerado século XXI, eis que surge um movimento da Associação Mundial da Psicanálise, de orientação lacaniana, com questões semeadas naqueles textos e que ganham força nos dias de hoje. Em meio a tantas alternativas de terapias breves, psicanalistas encaram o desafio de modificar a ligação da psicanálise a algo lento e caro e mostrar que o tratamento pode ser curto e surtir efeito, sim.

Foram criados há quatro anos na França, berço de Jacques Lacan, o grande leitor de Freud, centros de tratamento gratuito com quatro meses de duração. A boa notícia para quem foge do divã pelos motivos citados acima é que eles já desembarcaram por aqui, em consultórios instalados no Rio, em Belo Horizonte e na Bahia.

Psicanalistas brasileiros iniciaram as pesquisas em torno do tema logo após a inauguração do primeiro CPTC (Centre Psychanalytique de Consultations et de Traitement), fundado por Jacques-Alain Miller, difusor e genro de Lacan, em Paris. Na prática, desde o início do ano, alguns profissionais brasileiros atendem com a nova proposta. Neste fim de semana, o XV Encontro Internacional e III Encontro Americano do Campo Freudiano, que acontece em Belo Horizonte com a presença de Judith Miller, filha de Lacan e espécie de madrinha dos novos centros, discutirá os (bons) resultados.

-A preocupação é não deixar a psicanálise à margem do que acontece na contemporaneidade. Será que ela pode responder às urgências da nossa época? Os primeiros meses de tratamento são fundamentais, porque é quando o paciente faz uma pausa para pensar nas suas queixas e vê seus problemas acolhidos, o que produz alívio. Portanto, quatro meses podem ter ótimo efeito – diz Heloisa Caldas, diretora da Escola Brasileira de Psicanálise no Rio.

As urgências mais comuns do nosso tempo, segundo os psicanalistas, são depressão, distúrbios alimentares, crianças hiperativas e angústias causadas por desemprego ou excesso de trabalho. É o perfil da maioria dos pacientes que batem à porta desses centros, espalhados também por Espanha, Itália, Bélgica e Argentina.

Na França, 1,9 mil de pessoas já receberam o tratamento gratuito e de curta duração nos nove consultórios montados. No Brasil a última novidade foi à abertura de um novo centro chamado a-tempo, há um mês, na capital mineira. No Rio, esses espaços ganharam um caráter social, com os centros Digaí Maré, na favela da Maré, e Clac, em Botafogo, que atende a comunidade do Morro Santa Marta – uma forma de reagir ás críticas de que a psicanálise é elitista. Duzentas pessoas deitam no divã dos dois centros no momento.

-O fundamento: análise para todos. E o tempo pode ser prorrogado para até oito meses, dependendo do caso. Mas mesmo em períodos curtos é a psicanálise engajada com seus princípios, só que em menos tempo. Ou seja, o método é fazer o analisando falar, sempre interrogando e tratando as particularidades de cada um – esclarece Elisa Alvarenga, presidente da Escola Brasileira de Psicanálise, ressaltando as diferenças da psicanálise para as terapias breves.

Seria início do fim da tradicional psicanálise a longo prazo? De jeito nenhum, garantem os psicanalistas. Os novos centros representam pesquisa clínica, instrumento adorado pela psicanálise, que nasceu de um incansável pesquisador, Freud.

O grande objetivo desse trabalho é fazer com que as pessoas saibam que na hora que a corda apertar, elas podem recorrer e, assim, valorizar a psicanálise- finaliza Heloisa Caldas.

Reflexões psicanalíticas
Com a filha de Lacan

Seu pai é Jacques Lacan e seu marido, Jacques-Alain Miller, o criador dos cen­tros psicanalíticos com tratamentos de curto prazo. A francesa Judith Miller, presidente da Fundação do Campo Freudiano, cresceu e vive até hoje cercada pela psicanálise. Antes de em­barcar para o Brasil para o congresso que acontece neste fim de semana em Belo Horizonte, ela conversou por email com a “Revista O GLOBO”.

O que a senhora acha da iniciativa brasileira de seguir o exemplo dos analistas lacanianos franceses que atendem pessoas em situações de emergência, em um tratamento de curto prazo?

JUDITH MILLER: Com direção do psica­nalista Hugo Freda, o Centro Psica­nalítico de Consulta e Tratamento vem dando provas do seu valor. Demons­tramos que todo cidadão pode exercer seu direito de tomar conhecimento da dimensão do seu inconsciente. Desse modo, ele tem a possibilidade de se aliviar de alguns sofrimentos e de sair do impasse no qual se via acuado. Eu só posso me alegrar com o fato de os colegas brasileiros declararem seu de­sejo de pôr em prática essa idéia.

De que outras maneiras a psicanálise pode ajudar, já que apenas poucas pessoas podem pagar por um tratamento desse tipo?

JUDITH: Quando a psicanálise se aplica à terapêutica, ela não é uma ortopedia. Freud sempre o disse, e, depois dele, Lacan. Aplicada à terapêutica, a psi­canálise permite àquele que se dirige a um psicanalista encontrar outras so­luções diferentes daquela constituída pelos sintomas de que padece. A psi­canálise não se propõe a “ajudar”, como vocês dizem. E hoje, um século depois de publicada a “Interpretação dos so­nhos”, ela está em condições de fazer reconhecer o direito de cada um de se inscrever no laço social particular.

A senhora acredita que a modernização da linguagem freudiana feita por Lacan permitiu o progresso da psicanálise tratar das novas doenças psíquicas como a depressão e os distúrbios alimentares, duas das mais encontradas entre os brasileiros?

JUDITH: Jacques Lacan não “moderni­zou” a linguagem freudiana. lnicialmente­, ele leu Freud e restabeleceu o fio condutor da disciplina da qual Freud é o inventor. Não se deixem enganar. A anorexia, a bulimia e a depressão não são “novas doenças psíquicas”! Os la­boratórios fabricam antidepressivos. Alguns deles gostariam de nos con­vencer dos benefícios dessas drogas no enfrentamento desse novo mal. E mais responsável estarmos suficientemente formados a fim de podermos distinguir de qual estrutura decorre um sujeito deprimido, um sujeito anoréxico ou um sujeito bulímico para, então, intervir­mos de modo conseqüente. Essa es­trutura com freqüência é psicótica, mas nem sempre. Também é verdade que a psicose é cada vez mais freqüente, não apenas no Brasil.

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