segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Maiêutica - O parto do Sujeito na Psicanálise.



"O método da arte maiêutica - método socrático - consiste em levar o interlocutor à descoberta da verdade mediante uma série de perguntas e mediante às perplexidades à que as respostas vão dando origem." Dicionário de Filosofia 3 (K-P) Volume 3 ISBN: 8515020068.




Na clínica psicanalítica podemos encontrar muits acontecimentos subjetivos. Desde a mudança de pontos vista, até mesmo uma mudança total no estilo de vida do analisante. Para que a última chegue a acontecer no entanto, é necessário justamente um parto de um homem novo.

Seja com os ensinamentos de Cristo, em que uma nova criatura pode nascer do batismo, ou de Freud, quando diz que a psicanálise possibilita uma mudança radical na vida de alguém que vivia cheio de sintomas, doenças e dificuldades, e depois da análise chega ao tão esperado ponto de poder amar e trabalhar, suportando a vida cotidiana e seus desprazeres sem maiores consequências.

O que ocorre é o que Platão havia aprendido de Sócrates, um parto de um novo sujeito. 

Enquanto a Filosofia Clássica preocupava-se com a verdade, com o conhecimento de uma verdade universal, ou ainda um princípio universal (Arché), a psicanálise descobre que há uma verdade em cada pessoa. Cada pessoa com sua história, suas dores, dificuldades, sofrimentos, perdas, alegrias, sucessos, vitalidade, ou seja, cada um com sua existência tem uma verdade sobre si mesmo e sobre o mundo a sua volta.

Uma sacada genial que encontramos no método psicanalítico é justamente de que, a teoria psicanalítica revelou que há sempre 3 pessoas dentro de nós e o método possibilita uma coexistencia destas pessoas. Calma, vou explicar.

Primeiro a pessoa que gostaríamos de ser. 

Temos em nós um modelo de pessoa, de bondade, de virtudes e que perseguimos. Podemos jocosamente dizer que existe dentro de nós um "Filhinho da mamãe e do papai". Obediente, honesto, seguro, feliz, ou seja, uma pessoa ideal que de alguma forma nos força sempre a ser melhor. É como se houvesse um modelo que busco ser para a sociedade e que isso supostamente me faria bem - SUPOSTAMENTE.

A segunda pessoa, ou aquela que faz tudo o que eu não queria ter feito.

Freud coloca esta "persona non grata" como alguém dentro de nós, ou ainda, alguém que se manifesta indepedentemente de nossa vontade. Alguém que na hora que nos damos conta do que fizemos a sensasação é de raiva de si mesmo, de ódio, de vergonha, de fracasso, ou simplesmente de embaraço.

Em um de seus textos  Feud coloca que havia um homem importante que abriria uma assembléia. Quando ele deveria ter dito: "Declaro aberta a sessão" ele simplesmente disse: "Declaro encerrada a sessão". Um lapso talvez, mas aí é que mora esta 2º pessoa, nos lapsos, nos esquecimentos, nos brancos na hora da prova, ou ainda (principalmente hoje em dia) na procrastinação dos afazeres.

Esta segunda pessoa parece que age por si só. Independente do que a socidade pensa ou espera de nós, é ela quem dorme até perder o horário, é ela quem come demais da conta até não conseguir mais, é ela quem gasta todo o dinheiro do mês em apenas um sábado. É esta pessoa quem nos impulsiona a fazer coisas as quais NEM SEMPRE concordamos.

A terceira pessoa é o resultado histórico dos outros dois.

Devido às diferenças existentes entre as duas formas de agir. Podemos até dizer que são paradoxais como por exemplo, alguém que quer a solidão para fazer o que quiser, mas também quer casar, pois pensa que não pode ser feliz sem uma mulher ao seu lado. Ou ainda, enquanto a primeira pessoa quer ir trabalhar e chegar cedo no serviço, fazer tudo direitinho, ser recompensado com elogios, aumento de salário e acima de tudo reconhecimento, a segunda pessoa só quer farrear, tomar todas no bar a noite e depois durante a manhã daquela reunião com o chefe simplesmente faz com que o trabalhador se apresente de ressaca, mal estar e um mau-humor que lhe custa a promoção e também deixa ele em uma posição embaraçosa na empresa onde trabalha.

Em meio aos conflitos das vontades (desejos) das duas pessoas paradoxias em nós surge alguém. Ou ainda melhor dizendo, surge a instância que Freud irá nomear de EU.

Fruto de uma série de adaptações sucessivas entre as incompatibilidades desejadas pelas pessoas, quem paga a conta é justamente este EU.

Sim meus amigos, quem gasta bebendo todas é a segunda pessoa, podemos dizer que quem gasta as energias estudando ou trabalhando mais do que consegue é a primeira pessoa. Ambas gastam e quem paga é a terceira pessoa, é o eu, é o indivíduo.

Até aqui falamos de teoria da psiché. Claro que muito resumidamente, muito superficialmente, mas que fosse acessível a todos os leitores do Blog.

Bom, agora vem a parte da clínica analítica, ou ainda o método psicanalítico.

A análise possibilita o eu de tomar consciência do quanto se gasta com as duas outras pessoas. Do quanto são incompatíveis as suas escolhas, mas que mesmo assim acontecem. Do quanto estava alheio e provavelmente, ainda será alheio à maioria das suas escolhas.

Mas de alguma forma a psicanálise clínica possibilita justamente uma forma de acolher estas discrepancias do eu e a partir daí a pessoa começa a responder por suas escolhas. Responsabilizar-se não é culpar-se, mas saber que quem agiu (eu) estava presente como atuante e não apenas como observador, como visitante da própria vida.

Se pensarmos na vida como um teatro, a clínica psicanalítica nem sempre fará com que você tenha as rédeas em mãos, mas ao menos, te dará condições de aproveitar o passeio e sentir o vento da cavalgada sem rumo, com menos medo, menos incertezas e ainda por cima com a segurança de saber que quem soltou as rédias foi você, e assim como você soltou, você tem toda a força para pegar de volta...


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