sábado, 29 de outubro de 2011

Terapias: Dos Medicamentos à Cura (Parte II)

Continuando o Post Anterior, especialmente neste post, alguns casos encontrados no COTIDIANO (CLIQUE AQUI SE AINDA NÃO LEU A PRIMEIRA PARTE):

Bom, então partimos do pressuposto de que por trás do padecimento de um corpo, existe alguém. Este alguém é quem procura o tratamento, quem acolhe (ou não) a terapia medicamentosa. É exatamente quando falamos de um alguém que os medicamentos tendem a sair de cena. 

O Conceito de sujeito, de pessoa, está um pouco para além do corpo físico. Precisamos no entanto repensar alguns transtornos e distúrbios para compreender melhor esta parte. Mas continuemos com as explanações.

Primeiro gostaria de apresentar alguns casos nem tão comuns assim.

Podemos encontrar na bibliografia médica alguns transtornos onde depois de um acidente, ou algum problema fisiológico, uma doença, ou outra eventualidade, alguns pacientes deixam de reconhecer partes de seu corpo. Bom, até aí tudo bem, mas por outro lado, aqui no HU de Londrina, houve um caso um pouco mais interessante. Uma criança que havia nascido com uma deficiência no intestino cresceu com uma bolsa de colostomia até aproximadamente seus 3 anos. Sua vida era muito mais hospitalar do que fora dele, e no entanto era muito saudável fisica e psiquicamente, com um único problema de uma anomalia congênita mas que seria operado depois de um tempo para a correção.

O que se sucedeu no entanto foi surpreendente.

Após a criança ser notificada pelos médicos que a bolsa seria retirada e enfim a criança não precisaria mais andar com aquilo tudo, o desespero tomou conta da criança. O serviço de psicologia foi acionado e o que partilha-se do caso foi que simplesmente a criança sentia que aquele ato de retirada da bolsa era na verdade como uma amputação de um membro dela.

Bom, uma coisa é não reconhcer-se frente ao seu próprio corpo, ou ainda não reconhecer-se no espelho e ter uma sensação de estranhamento. Freud relata em sua obra um momento em que isso aconteceu com ele. Estava no trem e ao ver um senhor na janela, deu lugar para o senhor passar, quando ele percebeu que estava frente a um espelho. Este estranhamento momentâneo de si mesmo, ou de partes de si, podemos dizer que acontece com determinada frequência, mas integrar coisas exógenas (de fora) e perceber como parte de sí aí a coisa complica um pouco.

Muito mais do que prolongamentos nervosos, como explica a medicina nos casos de dores fantasmas dos membros amputados, este caso da criança evidenciava alguma coisa a mais do que simplesmente uma imagem representada no cérebro. Algumas pessoas devem estar achando que não foi assim tão complicado explicar para a criança, acreditem, quando me relataram o ocorrido, a psicóloga que atendeu a criança dizia que a expressão da criança era de pânico e passava uma idéia de um desespero e um luto como se ela mesma fosse morrer.

Bom, agora que os casos já foram devidamente explicitados (por ser um blog aguardo maiores perguntas depois, rs) posso continuar.

Não temos simplesmente uma imagem "cerebral" de nosso corpo. Ao contrário, temos antes, uma imagem mental que representa nosso corpo, mas que não é ele. Em 1923, Freud escreveu sobre o "Eu" em "O Ego e o Id" dizendo que basicamente o eu é uma superfície corporal, ou seja, está representado enquanto um corpo em nossa psique. No entanto nossa psíque não é apenas corporal, muito menos nosso eu. Existem outras "partes" em nossa psíque que também influenciam este "eu" e por consequência, este corpo imaginado.


No texto sobre o estádio do espelho, Lacan diz de uma criança que ainda não tem a plena capacidade motora, ao se ver no espelho, presentificado pelo outro, cria um corpo integrado em sua psiquê, mas que ainda não pode controlar. É mais ou menos como ter uma perna, mas vê-la mover-se sozinha, como uma parte alheia a sua própria vontade e no fundo saber que ela pertence a você. O Infans (termo que designa a criança que ainda não aderiu à linguagem), na realidade ainda não da conta de si, mas sabe que aquilo tudo lhe pertence. Começa então um jogo de desenvolvimento motor e psíquico para capacitar-se fisicamente para controlar os movimentos e membros do corpo.

Bom, podemos compreender então que anteriormente ao controle do corpo foi necessário a criação de uma imagem mental, ou ainda, para falarmos mais corretamente, uma representação mental deste corpo que está presente.

Agora, voltando ao assunto do post anterior, sobre a medicação, até que ponto os medicamentos influem nesta "representação mental"? Muito simples, até o ponto em que os medicamentos representam para nós uma cura, ou no mínimo um alívio do sofrimento.

Lembro-me de meu pai dizendo que quando foi operar o dedinho do pé, ficou totalmente imobilizado, mas sentiu a dor de toda a operação. Fiquei em pânico quando entrei na sala de cirurgia para uma operação que eu precisava fazer. Fiquei imaginando toda a cirurgia, a dor, e tudo mais, foi quando de repente acordei e me dei conta de que já estava no quarto novamente, operado e que por mais que eu tentasse me lembrar, só lembrava do enfermeiro me dando um comprimidinho e eu rindo dizendo que compridos não funcionavam comigo.

Opa, mas aí parece que estou fugindo do "efeito mental" do medicamento. Não é por aí minha gente, estou dizendo que o efeito do medicamento tem dois fatores, o fator real, e o fator psíquico. O problema surge quando o fator psíquico impede o funcionamento deste fator real. E isso acontece muitas e muitas vezes. Mas o contrário também pode ser verdadeiro. O fator psíquico pode determinar a validade de uma medicação que até então mostrara-se inócua. Como é o caso dos testes com placebos onde algumas pessoas tem até as reações adversas tomando o comprimido de farinha.

De alguma forma temos um corpo representado psíquicamente que irá também ser tratado quando tomamos uma medicação. Em Londrina tive a oportunidade de conversar com um portador do vírus de HIV que adquiriu a imunodeficiência através do compartilhamento de seringas. Hoje ele se diz um homem feliz, com mais de 20 anos sendo portador do vírus e com mais de 10 anos manifestando a síndrome (AIDS). Quando perguntei a ele mais sobre a relação das picadas (Heroína que utilizava) com os exames de sangue que ele fazia regularmente fui surpreendido com seu dizer:

 - "O que eu gostava mesmo, era da agulha fazendo um buraco na minha pele, sentir a picada mesmo, isso era muito melhor que a viagem porque a viagem tinha suas consequências depois, mas a picada da agulha eu continuo tendo até hoje". (Tiba*)

São dizeres como estes que nos remetem às perguntas de como este cara consegue ter prazer com uma agulha em seu braço, e ainda por cima ser feliz como portador de uma doença como o HIV???

Continua...


  • Para esclarecer: o Tiba é um ex usúario de Drogas Injetáveis que permitiu a divulgação de sua história. Ele mesmo quem a divulga em seu trabalho no Núcleo de Redução de Danos de Londrina.

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