quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Serei na verdade o que sempre fui, e não o que queria ter sido

"Não sabia que era precisamente esse fracasso que me levaria ao lugar que desejava. As correntes do rio profundo foram mais generosas que o meu remar contra elas. Não cheguei aonde planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse." [Rubem Alves]
Deveríamos ter sempre em mente que algo dentro de nós pulsa, algo em nós vive e quer ser visto, olhado, tocado, ouvido, e até mesmo falado. Algo, não, melhor ainda, alguém. 

Deveríamos sempre levar em conta que talvez, aquelas fábulas que dizem que somos muito mais do que imaginamos sejam verdade, que podemos muito mais quando queremos algo, que somos diferente quando estamos felizes, quando estamos tristes, ou simplesmente, quando somos.

Deveríamos repensar não nossas atitudes, muito menos os porques, deveríamos apenas repensar sobre o que foi feito, que eu imaginava conseguir o que queria, e que, por algum motivo não senti no final, o prazer esperado no início.

Deveríamos lembrar que na verdade o mais gosotoso talvez tenha sido imaginar, sonhar, criar em pensamento toda uma expectativa que, de fato, nunca se realizou, mas que foi bom, por alguns momentos.

Deveríamos nos compreender melhor, e descobrir que dentro de nós, alguém quer continuar sonhando, como uma criança, e tem medo de chegar ao fim e descobrir que não era tudo aquilo. Tem medo de ouvir "eu avisei" e depois disso nunca mais tentar de novo.

Deveríamos deixar falar aquele que está em nós e devido às regras da vida acaba se calando, sendo recalcado e tendo que retornar apenas em sonhos, em atos falhos, ou em sintomas. 

Deveríamos ver que o sintoma é talvez a procrastinação mais bela do momento, do agora. Talvez muitas pessoas reclamem, e de fato deveriam, pois o sintoma atrapalha suas vidas. As dores impedem o trabalho, as mentiras encobrem verdades que deveriam ser ditas, as traições contra os entes queridos, seja por palavras, pensamentos, imaginações ou até em atos, fazem as pessoas sofrerem, fazem-nas se esconderem, por vezes, fazem as pessoas desaparecerem e até mesmo, um dia, morrerem.

Morre-se muito de desgosto, de tristeza, de medo, pânico, pavor, mas poucos são os que morrem de alegria, de prazer, de gozo. Morre-se de inveja, de dor, de cansaço, de trabalhar, mas poucos conseguem morrer de sorrir, de tanto gargalhar, de tanto viver.
Deveríamos morrer é de tanto viver e não por falta de vida, ou de alegria, ou de planos, ou de sonhos, ou por ideais mais nobres do que a própria pessoa, chegando ao ponto, como podemos observar nos mártires e em Cristo, de entregar-se com amor ao flagelo, apenas porque os que amamos continuamos a amar e os que nos amam, continuam a nos amar.

Morre-se de medo de ficar sem amor, morre-se em busca de um amor, mas pouquíssimos são os que morrem por amor. 

Talvez seja isso que o mestre nos ensina em Romeu e Julieta. Qual fim queremos para nossa história?

No meio do ódio mortal entre duas famílias e inúmeras gerações, mata-se exatamente quem ama. E não mata-se para que acabe o mal estar e as brigas, não, de forma alguma. Os amados se suicidam. Morrem por amor.

Uma experiência única é a de permitir a este outro em nós falar. Aos poucos vamos descobrir que o outro não está la dentro, como o Alien que Zizek coloca, sendo um sujeito do inconsciente, aos poucos, bem devagarinho, vamos percebendo que quem está lá dentro somos nós mesmos.

Falso Self, diria Winnicott.

Objeto do Outro, diria Lacan.

Alienação de si mesmo, diriam tantos outros.
Na verdade acredito que é simplesmente medo. Porque no fundo, temos medo do que nós podemos fazer com nossas vidas. No fundo temos medo daquele desejo de morte, que é o mesmo de Romeu e Julieta, dos mártires, de Cristo, e por que não, de toda a humanidade. Temos medo é de morrer de tanto viver, de tanto amar, de tanto rir e com isso contradizer o senso criado de que a morte é ruim.

Temos medo de desejar o fim, não porque nos falta, mas porque se percebe completo e se acabasse exatamente hoje, seríamos felizes, morreríamos como muitos santos, completos em sua falta, mas tranquilos, por que não dizer, satisfeitos com sua vida, com suas verdades.

Algumas pessoas devem estar pensando, mas como isso de santo aqui em um blog de psicanálise e saúde mental?

É simples meus caros. A Igreja Primitiva, longe de renegar os aspectos da natureza humana, colocava sempre o homem com seus próprios desejos. Mostrava os caminhos e permitia as pessoas que seguissem seus caminhos. Não existia uma repressão moral ou ética, mas uma compreensão baseada no amor. Está aí a história do filho pródigo, depois de se tornar alguém (objeto do outro) volta para casa para ser filho do pai. O que era em essência. 

Imagino depois de muitos anos este moço feliz, com sua família, desfrutando de sua própria terra e tendo uma atitude totalmente diferente do que ele havia imaginado em sua juventude. Cercado de amigos verdadeiros, com riquezas pelo seu trabalho e esforço. Com riquezas maiores ainda que seria sua família e seus entes queridos.

É, as vezes precisamos deixar este outro trabalhar em nós... lembrando que este outro, é na verdade você mesmo...

3 Clique aqui para comentários: :

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Grants For Single Moms