quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Medo e Desejo, duas faces de um transtorno do Pânico.

Os Retirantes - Portinari
Medo e Desejo, dois opostos que levam para um mesmo fim.

Não é raro ouvirmos uma explicação simplista de que quando temos muito medo de alguma coisa, a palavra proferida "chama" e acaba acontecendo exatamente aquilo que se temia. O resultado muitas vezes é extremante desagradável, e as pessoas costumam dizer "eu avisei".

Na verdade parece que tudo o que ouvimos uma vez que "o universo conspira a nosso favor" ou as palavras bíblicas de que "tudo concorre para o bem daqueles que temem a Deus", ou muitos outros ditados populares parece que não passam de ilusão, e até mesmo, porque não dizer, uma anedota, uma piada que de nada serve ao não ser para enganar os "trouxas". O problema é que não é tão simples assim. 

Estes dias fui interrogado a respeito de um senhor que faleceu há pouquíssimo tempo. Ele estava apresentando "transtorno do pânico". Sempre fora muito alegre, muito festeiro, muito sério em seus negócios e também com a vida. Só tinha uma dificuldade, a bebida alcólica.

Era um grande Doutor, nefrologista, uma pessoa muito querida e especial. Para mim, um grande homem, o conheci há muitos anos, amigo da família, e tenho um grande carinho por sua família e também por sua memória.

Poderíamos pensar que ele estava "prevendo" que algo iria acontecer, um sentido de premonição de que logo logo estaria deixando seus familiares e amigos. Deixaria muita saudade, e não queria isso, por isso começou a ficar estranho. Um pânico terrível começou a acompanhá-lo, já não era mais o mesmo. Ainda bebia, pelo visto para tentar abafar o sentimento da presença do indesejável medo da morte.

Curiosamente não foi a bebida que o levou. Um dia, supostamente embriagado, suas pernas simplesmente pararam de funcionar. Caiu no chão e bateu a cabeça, entrou em coma, e depois de uma semana faleceu.

Algumas pessoas tendem a interpretar sua morte como prevista, chamada pelo medo, desejada pelo Dr.. Eu gostaria de ir para outro caminho.

Um Doutor de sua idade, pouco mais de 60 anos, nefrologista, que ingeria alcool desde sua juventude podia negar conscientemente que estava caminhando para a morte, mas sabia muito mais do que qualquer um que iria morrer e que uma hora seus hábitos testemunhariam contra ele em seu corpo. Já estava com problemas de diabetes, e sobrepeso muito grande. Alia-se tudo isso a um problema cardíaco e o que é esperado é justamente o inevitável. Mesmo que não falado, que ocultamente inconsciente, a morte estava presente com seus sinais, doenças, sintomas, e a cada dia ela aparentava estar mais próxima.

Como o tique taque de um relógio de parede que ele tinha em sua casa, ao dar meio dia, todos naquela casa ouviam o lindo som grave que marcava a passagem da manhã para a tarde. A partir daquele momento o sol estava começando a se por. Já chegara em seu ápice, e o relógio marcava bem esta passagem. Já a vida de meu caríssimo amigo também estava indo pelo mesmo caminho.

Somos como o ponteiro dos segundos, vivemos alheios ao passar das horas até que em um determinado instante algo marca a passagem do amanhecer para o entardecer, e depois disso a evidência do fim do dia começa a se instalar.

Pode ser uma doença, uma aposentadoria, um exame médico que aponta pela primeira vez para algo que sempre esteve ali, mas que nunca se manifestou. Como o relógio, o som sempre esteve presente no Tic Tac dos segundos, mas somente desta vez começou a fazer sentido de fim do dia.

A morte estava dando indícios de sua chegada e o pânico se instalou frente a um desamparo da vida. Mesmo que se quebrem todos os relógios que marquem a hora já avançada, mesmo assim o sol continua a se por. Por mais que se faça, chega um momento que a espera fica evidente. Algumas pessoas conseguem esperar mais do que outras. Dizem que Freud em uma de suas entrevistas disse que a vida é boa com a gente, pois chega um momento que ela deixa de ser tão querida e desejada e a morte passa a ser esperada com certa vontade de que venha mais depressa.

É isso que estava acontecendo com meu amigo. O Dr. não resistiu ao badalar do relógio, teve um avc, quisera que o relógio do corpo parasse para não se haver com o por do sol.

Tentou acabar de vez com a angústia, com o medo, com o pânico, com o desamparo frente ao derradeiro momento da morte, ou daquele momento de sua vida.

Não é facil ver e saber que estamos morrendo. Na verdade negamos isso em nossos sonhos, em nossa forma de viver, em nossa forma de amar. Sempre buscamos nos distrair e deixar pra lá estas coisas que tem a ver com o aDeus. A nós que estamos aqui só nos resta o pó "do pó ao pó".

O desejo de terminar de vez com a angústia só mostra uma saída, exterminar aquele que porta a moléstia da existência humana, acabar de vez com a própria vida. Entrar em contato de vez com o que, embora seja o causador da angústia, acaba se tornando, graças aos sintomas do pânico, muito menos temido do que o próprio estado de desamparo, e porque não, de desespero, que a pessoa está vivendo.

Porém existe outra saída.

Analisar elemento por elemento da vida do paciente e aos poucos encontrar outras coisas que o distraiam, caminhar com alguém neste "vale das sombras" é o que Lacan ensina sobre a dificuldade e resistência do analista ao invés de, como pensava Freud, ser uma resitência unicamente do analisante. O paciente já está, na maioria dos casos, caminhando por este caminho, só falta o analista caminhar junto com ele. Uma caminhada que, embora acompanhada, ainda assim é muito solitária, penosa e dolorosa. São dois cegos caminhando vagarosamente neste caminho que não se sabe onde vai dar, diferentemente de um cego guiando outro, os dois vão caminhando juntos, porém um deles, já passou por estes momentos (por isso a importância da análise para um analista) e sabe que tudo aquilo vai ter um fim, embora não se saiba qual.

As vezes faz-se necessário percorrer todo um caminho por toda a vida que se passou, até chegar no agora, no momento determinante que o paciente relata: "antes disso acontecer eu era assim, agora sou isso". A descrição de "isso" que o paciente traz é um ponto muito importante, pois não é mais alguém, identifica-se apenas com a angústia e com o conjunto dos sintomas, mostrando a gravidade do momento.

Retirar um paciente da angústia é muito fácil. Na verdade a retirada do sintoma é quase que natural. Basta que o paciente diga sobre este sintoma. É aquilo que Freud diz sobre um efeito catártico. Falar sobre aquilo alivia a tensão, traz um pouco de paz, mas depois de um tempo o sintoma reaparece, e normalmente muito mais forte tornando-se insuportável. Falar sobre algo é retirar a gravidade daquele ponto, e como que sem gravidade, encontrar outro ponto para gravitacionar ao redor.

Este conhecimento é tão antigo que podemos encontrar na bíblia quando Jesus Cristo diz sobre alguns tipos de demônios. Ele diz que quando se tira um demônio de uma pessoa e esta pessoa não se cuida, outros sete vem habitar novamente aquele corpo. Em outras palavras, a mudança do estado de humor de uma pessoa pode durar enquanto dura o efeito catártico. Pode ser uma vida inteira, ou pode ser que dure apenas alguns minutos. De qualquer forma, é um alívio que pressupõe uma certa sobrevivência.

A análise permite que a pessoa tenha a possibilidade de experimentar tudo isso de outra forma. Reconhecer por si mesmo em sua própria vida as mudanças, os processos que aconteceram em sua vida e que até então passaram-se como despercebidos. Reconhecer os desejos que o levaram para o caminho mais temido até então, e perceber que o pânico na verdade era apenas um sinal e não o problema. 

O Pânico passa ter um outro sentido, o sentido de que algo sinaliza o futuro daquelas atitudes e ações, e que um desejo de mudança está presente, muito mais forte do que a pessoa pode imaginar, mas que por alguma razão ainda não pode ser efetuada. A mudança é como se estivesse imperrada em um conflito entre a vida que se está levando agora, que leva para a morte, e a vida que se poderia levar, uma vida nova, diferente, na qual faz-se necessário primeiro o luto da vida velha. A morte do homem velho.

Para finalizar, tanto o medo quanto o desejo levam a uma morte, a um único fim, a morte. Porém, embora com o mesmo nome, são fins que se diferenciam por um simples detalhe. A dificuldade está em perceber este detalhe que faz toda a diferença.

Enquanto o pânico traz a morte como fim, o desejo traz a morte como possibilidade de um novo começo, de um novo caminho, de uma nova vida, de um homem novo.

Coragem meus queridos leitores, existe vida após a angústia, após o pânico, após a depressão, por que não dizer também, existe vida após a morte. Pode não ser aquela que esperávamos, nem aquela que conhecemos, ou sequer imaginamos, mas posso lhes garantir enquanto pessoa que já passou por tudo isso, ela vale a pena.


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