sexta-feira, 14 de outubro de 2011

FECHADO PARA REFORMAS:

Nada é fechado realmente para reparos...

Freud descobriu isso quando atendia seus pacientes e lhes pedia abstinência de qualquer tipo de decisão, ou qualquer movimento de mudança, porque tudo deveria ser exaustivamente levado para analise e somente depois do processo dar-se por completo, após 6 meses a 3 anos, é que a pessoa poderia enfim, tomar uma decisão segura de que estava fazendo o que era "certo".

Bom, a vida se passa e podemos dizer que eram quase 3 anos "parados" em terapia?

Não, muito pelo contrário, são nesses momentos em que a gente mais tende a fazer coisas, a querer mudar, a resistir a outras mudanças que achamos essenciais. Achamos, isso deve ficar bem claro.

Quando vamos reparar qualquer coisa que seja, normalmente devemos cavuvar na obra até encontrar o problema, ou ainda a viga mestra. Mas ao contrário do dizer neste título de post, nada se fecha para reformas, a gente se abre a novidades.

São outros públicos quem vem nos visitar, na reforma, entra pedreiro, marceneiro, carregadores, ajudantes, umas duas ou tres pessoas a mais, carteiros, engenheiros. Até mesmo restauradores, arquitetos, encanadores.

Bom, acho que deu pra ter uma idéia, entra coisa nova.

Todos vão cavucando, escavando, retirando o excesso, limpando, organizando, fazendo a maior bagunça. A única coisa que "estorva" é a porta. Bendita porta que está ali, escancarada desde as 7 da manha até as 7 da noite. Todos passam, olham, observam, dão seus palpites, a porta só se fecha a noite, tranca-se a porta pois a noite pertence às criaturas das trevas. Sempre tem um bebum que passa por ali e acha que a obra é banheiro.

No outro dia lá estamos nós de novo, reformando e a vida acontecendo a milhão por hora do lado de fora da reforma.

Se pensamos em outras coisas, como um aparelho eletrônico por exemplo, é a mesma coisa. A rotina de um toca cd´s quando vai para o concerto é totalmente alterada. Nada de por na tomada (algumas pessoas nem lembram que a tomada existe) e apertar um botão pro disco rodar. Ali no concerto tomada só na hora que estiver pra sair. O aparelho é aberto, é explorado é descoberto, é revisado, é minuciosamente analisado. Mas de forma alguma se fecha o aparelho enquanto não estiver funcionando perfeitamente bem.

Fechado para reformas é na verdade uma forma de dizer "olha agora não, estou dando um tempo pra mim". Um pensamento egoísta eu acho. Deveríamos aprender mais com as coisas, abrirmos nossas portas e esquecermos um pouco das "auto-ajudas" que prometem todas as respostas a partir de si mesmo. 

Mesmo quando estamos em análise em um consultório e o analista repete apenas nossas palavras, estas palavras vieram de alguém, vieram de fora, em um momento que estavamos abertos ao outro, em um momento em que o outro conseguiu tocar em nossas profundezas e fez uma marca, uma importante marca em nós.

Sim, falamos o que ouvimos dos outros, porque justamente neste momento da reforma de si mesmo vamos nos encasular como a lagarta e depois surgir como borboleta?

Por acaso Freud quase deixou escapar que antes de virar casulo, a lagarta tinha muito o que comer, comia muitas plantas, antes de virar borboleta, depois sim se enclausurava. As vezes achamos que isolar-se do mundo, ou das idéias e conceitos que os outros tem de nós mesmos, é a melhor saída para crescer. 

Não somos insetos.

Somos pessoas e como tais, acredito muito em Freud, Lacan, Jesus Cristo, Winnicott, Gandhi, e tantos outros que sempre disseram a mesma coisa com palavras diferentes: A palavra tem poder.

Se estamos em reforma, vamos nos abrir ao novo, seja esta novidade boa ou ruim, esperemos e vejamos os frutos disso tudo. O andar da carroça acaba ajeitando todas as abóboras, as boas ou as ruins. De nada adianta querer colocar somente as boas por cima, as ruins irão uma hora ceder, serão esmagadas e vão sujar as boas que até então estavam perfeitas.

Abrir-se para reforma é colocar tudo a vista, como fazemos em análise, sem a pretenção de tirar isso ou aquilo, mas perceber que tudo aquilo foi colocado ali por algum motivo e que simplesmente, talvez agora, possa ser diferente.

Coragem, pode ser diferente sim, mas não feche as portas para uma reforma, ao contrário, abra-as para o novo, e você irá perceber que a novidade não é tão nova assim. Aposto que no fim da mudança aparecerá uma obra de arte junto com a sensação de estranheza e também de familiriadade, porque afinal de contas, isso tudo foi reformado, mas a viga mestra, continou em seu lugar.


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