sábado, 24 de setembro de 2011

Resumo: A importância da clínica psicanalítica no atendimento a adolescentes"

Pablo Picasso - Mulher ao Espelho

Segue abaixo um resumo da apresentação feita no Simpósio Winnicott Londrina:

A Clínica Psicanalítica teve muitas mudanças com o passar dos tempos, porém, a condição que permaneceu imutável para uma análise foi o vínculo de confiança entre analista e paciente. O setting proposto por Freud foi readequado para atender às demandas de cada paciente e também de cada período histórico. Antes era uma exigência "sine qua nom" atender o paciente deitado no divã sem que os olhares pudessem se cruzar. Hoje, dependendo do paciente, o olhar deve estar presente, dando um sentimento de segurança e amparo onde o paciente sinta-se acolhido para falar. A partir de Winnicott, a relação estabelecida na clínica psicanalítica passa a ser de proporcionar um ambiente facilitador, nos moldes da primeira relação mãe-bebê, para o cliente. Podemos pensar que a relação estabelecida na clínica pode ser um protótipo, um simulacro, de todas as outras relações que se seguirão, e que, quando é suficientemente boa, traz uma relação de confiança que permanece na adolescência e na vida adulta. Tais relações criam um diálogo e uma escuta do outro que passa a ser seu fundamento; mas quando não é adequada pode trazer alguns sofrimentos psíquicos. Pensando sobre a adolescência, esta fase pode ser vista como um indicador de mudança de setting. O presente trabalho traz uma perspectiva clínica de uma paciente de 15 anos que não conseguia falar com as pessoas, que não tinha um lugar para falar, que não tinha quem a escutasse. O atendimento para ela passou a ser o ambiente facilitador para que ela pudesse, pela primeira vez, experimentar falar de si e assim ser vista.

Bom, este foi o resumo que foi para o congresso, porém na apresentação, claro que abordei muito mais coisas e também outros autores...
O que a clínica psicanalítica pode oferecer de diferente das outras conversas cotidianas? Porque se faz necessário hoje o atendimento clínico com adolescentes? O que a clínica pode trazer de positivo para essas pessoas que buscam a análise?

Estas perguntas me levaram a escrever o resumo e apresentar o trabalho relacionado a um dos projetos de pesquisa que estou participando atualmente. 

Diferente (ou ao menso pensamos que seja diferente em uma primeira análise) do atendimento com adultos, o adolescente não é ainda um ser humano formado, concreto, com uma identidade, ou ainda, uma noção de si mesmo, que abarque boa parte do "eu".

Somente neste parágrafo acima poderíamos ter problemas teóricos com as mais diferentes vertentes dentro da própria psicanálise. Por exemplo, Winnicott irá dizer de um processo de desenvolvimento que o adolescente está bem no auge, antes de se tornar um adulto, portanto, ainda não tem uma identidade estabelecida. Lacan irá trabalhar com uma estrutura psíquica que já esta muito bem formatada, pois aqui já se sabe como o sujeito reage à castração, em outras palavras, como é a relação do sujeito com a Lei. Há também uma terceira teoria, a da esquizoanálise que trabalha um sujeito sempre em "devir", que não necessariamente terá uma identidade fixa, muito menos uma estruturação fixa.

Mas o que quero trabalhar é de uma outra coisa. Seja adolescente ou adulto, ou ainda uma criança que começa a ter uma relação consigo mesma e com os outros, todos estes estão presos em processos de identificações com os outros. Não quero dizer aqui apenas de uma identificação que aliene a pessoa dela mesma. Como por exemplo os adolescentes com os grupos que participam, ou as crianças que são alienadas de si mesmas e "apenas" conseguem corresponder ao desejo dos pais. Vou tentar ir por outra via, a via da clínica psicanalítica.

O conceito de identidade deve estar ligado com uma identificação a alguém. Uma pessoa que se identifica como trabalhador, como estudante, como marido, como mulher, como filho, na realidade apenas consegue se identificar em uma relação com um outro. Compreendo este outro, muito mais que alguém, muito mais que uma pessoa, como alguma coisa que diga sobre o sujeito, por exemplo, uma pessoa que tem muito dinheiro pode identificar-se como rica sem precisar de pessoas pobres para que possa identificar-se com esta posição que acaba ocupando. Outro então deixa de ser uma pessoa, um sujeito, e passa ter valor de objeto.

Identidade passa a ser um conceito de identificação objetal baseado na relação que uma pessoa tem com este objeto.

A experiência clínica mostra então, em uma última análise, que o conceito de identidade na verdade mora na relação de uma pessoa consigo mesma. O objeto último de comparação nunca é outro que não o próprio sujeito.

A adolescência é marcada então por alguém que não tem outras formas de relação consigo mesma, que não aquelas que lhe foram apresentadas até então. Podemos pensar que não há uma identidade no adolescente porque ele ainda não estabeleceu uma relação consigo mesmo que seja própria dele.

Vou tentar deixar mais claro.

Uma criança está sempre respondendo ao desejo dos pais. Ainda que sua resposta seja "inadequada", ou seja, mesmo que ela faça o que ela quer, corre o risco de ouvir de seus pais "não faz isso que mamãe fica triste", "não faz aquilo porque papai não gosta". Há aqui um sujeito na posição de objeto de um outro que vem de fora.

Os adultos tem a capacidade de serem diferentes. Conseguem manifestar o desejo por alguma coisa e fazer o que desejam, realizar seus sonhos, eles, diferentemente das crianças tem em suas mãos, tem em si mesmos a chave para realizar o que querem. As crianças ainda dependem dos pais para que possam executar alguma coisa.

Para que um adulto faça um bolo, basta trabalhar, ter dinheiro, ir no mercado, comprar os ingredientes e fazer o bolo. A criança depende que um adulto faça tudo isso por ela.

Mas e o adolescente?

O adolescente está entre uma coisa e outra.

Ainda não sabe de suas possibilidades porque até então fazim tudo por ele, inclusive desejavam, falavam, nomeavam tudo em sua vida. Mas de alguma forma eles encontram nos grupos um simulacro onde podem realizar o que pela primeira vez parecia impossível até então, serem uma outra pessoa que não filhos pertecentes a tal pai ou tal mãe.

Aí entra a importância da clínica psicanalítica. Independete de estruturação psíquica, conceito de identidade ou identificação, dentro da relação entre analista e analisante, nasce uma possibilidade de nascimento e desenvolvimento de um sujeito diferente, mas dessa vez mediado por ninguém mais, ninguém menos que o próprio (algumas pessoas pensariam que a palavra aqui seria analista, mas não) analisante. Ou seja, na clínica psicanalítica o adolescente tem a oportunidade de aprender sobre si, entrando em contato consigo mesmo. 

No caso clínico que apresentei no Simpósio, depois que o rapaz me falou de seu irmão, seu pai, sua mãe, e mais ainda de quase todas as relações que ele teve em sua vida. Eu apenas pontuei que embora ele falasse de muitas pessoas, parecia-me que ele na verdade estava falando dele mesmo. Claro que para os analistas isto é óbvio, mas o impressionante foi a resposta que tive "É que tem muito deles em mim". Aí perguntei depois de um momento de silêncio:

- E quem é você?

A resposta a esta pergunta marca a diferença entre a criança, o adulto e o adolescente. Enquanto um é o filho(a) de seus pais, o adulto é alguém, o adolescente simplesmente não sabe nada de si mesmo.

Acho que poderíamos pensar diferente também. O Adulto sabe sobre si mas tem algumas lacunas, algumas dúvidas, uma impressão de ser algo mais do que é (um saber que não se sabe) e busca no analista que este lhe mostre, lhe aponte o que sabe sobre o analisante. A criança por outro lado tem a certeza do que é, mesmo que não seja absolutamente nada além de criança, mesmo que não seja nada além de seu nome, ela sabe e pronto. Sabe também, a criança, que para ela o ser não é tão importante quanto o que ela será. Já o adolescente mora na etapa do deixar de ser criança, deixar o "será" de lado para ser de fato aquilo que ele aspira para ele mesmo. Neste momento cria-se o conflito de interesses entre o desejo dos pais, e o próprio desejo. O conflito entre o desejo dos outros para ele e o perigo de bancar seu próprio desejo até as últimas consequências. O conflito na verdade entre deixar de ser para quem até então ele era filho, para se tornar alguém para ele mesmo, um sujeito, um adulto.

Em uma última observação a clínica psicanalítica possibilita uma trajetória, através da fala, onde o adolescente se engaja dele mesmo, se descobre, se analisa e aos poucos vai escolhendo como e o que ele quer ser. Não é o trabalho de associação livre, mas o de escutar e devolver ao adolescente as suas própias palavras, como em um jogo, uma brincadeira de palavras, onde o que o analista devolve é a palavra do próprio adolescente, mas dessa vez com o peso de um outro, de alguém de fora, que nesta etapa da vida ainda é muito importante e tem grande relevância. A clínica psicanalítica, em última análise, é a mesma com adultos e adolescentes, ambos brincam com as palavras, ambos descobrem-se no discurso de alguém que ocupa um lugar de "suposto saber". Tanto adultos quanto adolescentes, através do trabalho analítico entram, enfim, em contato com alguém dentro deles mesmos, e porque não dizer de outra forma: ambos entram em contato com quem eles são de verdade e descobrem que idenpendente de quem são, sempre haverá outras possibilidades de ser.

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