quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Conversando com um taxista no Alabama, ele me disse em alto e bom tom "O dinheiro é meu e eu faço o que eu quero com ele. Tenho família para sustentar, filhos que quando precisam de médicos eu mesmo pago, eu mesmo levo, não vejo necessidade de dar mais dinheiro ao governo para algo no qual eu não serei beneficiado".

Ele estava muito enfurecido com relação à criação de um imposto para a saúde nos Estados Unidos. Ele havia nascido na Lousiana e começou a trabalhar de taxista naquele estado. Passou sua vida inteira como motorista de táxi, vivendo "independente" do governo até quando se acidentou no trabalho. Uma das políticas que aquela companhia de taxi tinha é que uma vez que o motorista fosse acidentado, ele deveria pagar pelos danos físicos ou materiais e depois seria restituído se houvesse prova de que ele não era o culpado. Foi obrigado a mudar-se para o Alabama pois não pagou à companhia de táxi o que devia para eles.

Com um ar de uma "quase arrogância" me dizia que não havia sido culpado, acima de tudo, não tinha dinheiro para arcar com as despesas todas, desde a conta no hospital (ficou 1 semana internado até poder ir para casa). Dizia com um tom de voz ambargada que foi como se tivesse perdido tudo naquele acidente, nunca havia guardado dinheiro antes, mas a lição serviu pelo menos para uma coisa boa, conheceu sua mulher naqueles momentos de dor e angústia. Ela era recém formada em Nursing (um tipo de enfermagem com um trabalho muito mais operacional do que costumamos ter no Brasil). Eles se conheceram quando teve de ir para o Alabama, ficar na casa de um irmão seu e ela trabalhou cuidando dele. 

Nunca mais pode retornar para Lousiana. Havia contas a serem pagas por lá e a "máfia dos taxistas" não iria permitir que ele retornasse sem antes quitar sua dívida hospitalar.

Fiquei intrigado e perguntei a ele se por acaso um imposto não seria muito útil naquele momento de desamparo, pois afinal de contas, as contas médicas seriam quitadas, e ele poderia continuar trabalhando sem sofrer toda a violência de perseguição e ter seu nome sujo no estado. Disse-me que não, pois se alguém tivesse pago ele jamais teria conhecido sua mulher.

Longe de pensar nas políticas públicas dos Estados Unidos, logo me veio à cabeça que nós realmente deixamos o todo para vivermos no particular em inúmeras ocasiões.

Será que o amor fez ele superar tudo o que ele passou? Provavelmente não, mas o ajudou, o deu forças para continuar mesmo quando em outras ocasiões seria necessário a ajuda do governo, a ajuda de alguém.

Quando entramos no terreno do amor, saímos do coletivo e entramos no território do individual, do indivíduo, da posse, do ciúmes. Foi somente devido à oportunidade de sentir-se desamparado e ter de ir para outro lugar que ele pode conhecer a mulher de sua vida. 

Arrisco-me a dizer com todas as letras que o amor procede ao desamparo. Seja o desamparo do governo, seja o desamparo físico, seja o desamparo emocional.

O que faz Hugo Chávez com seu povo ao não ser, representar, colocar-se no papel de uma grande mãe que fornece aos seus filhos (súditos leais) o que eles precisam e o que eles reinvidicam? A população ama seu líder com uma plenitude avassaladora (não digo todos, mas uma grande maioria que cai no conto do vigário).

Nos Estados Unidos a população não precisava mais de uma mãe. Queria caminhar com suas próprias pernas, queria escolher a quem amar. E foi o que fez aquele taxista quando me disse bem assim:

"The USA Government is´t my mom, neither my dad, is just my government. Obama should think about it before give something to someone who don´t want it. The people should have the opportunity to chose"
É pois isso que acontece nos regimes totalitários, o povo não tem a opção de escolher. É isso que ocorre nas relaões amorosas devoradoras, uma vez escolhido o governante (amante) a entrega deve ser total.

Mas é justamente o contrário que ocorre no amor "maduro" (se é que existe isso). A pessoa escolhe o amado, e ama, fica com o amado na posição de amante e não de entregue, mas de entregar-se a cada dia mais e mais.

Saímos do conto de fadas de um amor de felizes para sempre, uma única escolha, um único beijo, um único fim. Saímos da posição pré edípica onde há um só objeto (a grande mãe) para entrar na posição de um amor responsável, onde não há um fim, e por ventura, talvez, nem houve um começo, apenas um dia se percebeu assim. Um amor "maduro" onde os atos importam, onde as escolhas podem ser diferentes sem necessariamente acabar com o outro, engolir o outro, amar menos o outro.

A escolha passa a ser a cada momento e desde a manhã até a noite nos sonhos, é possível continuar amando, exercendo a atividade de amar. Muito diferente da posição de poder falar:

"já sou amado, agora não preciso mais amar".



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