domingo, 7 de agosto de 2011

Vem cá, me diz porque vale a pena viver se a vida, a própria vida não tem sentido e não se pode senti-la de outra forma que não o vazio, a falta, a angústia?

Simplesmente esta pergunta é um dos pontos que procura-se ultrapassar na terapia.

O que é a brincadeira senão sentir todas as emoções estando de alguma forma protegido pela realidade de que tudo aquilo não passa de uma fantasia?

A psicanálise (principalmente a análise de Lacan) estabelece a angústia da percepção do real, do sem sentido da vida, como um primeiro passo para que a pessoa possa chegar a ser. Ela primeiro tem que perceber que não é, e que é justamente esta "falta-a-ser" que dará uma possibilidade de ser.

A brincadeira das crianças é mais ou menos isso. Nenhuma criança brinca de ser criança e de viver uma vida que ela já vive. Ao contrário, ela brinca com os elementos que lhe faltam. Algumas com os poderes que desejariam ter, como super visão, raios lasers, força sobrenatural. Tudo exageradamente para que elas encontrem um sentimento muito familiar, o da proteção, o sentimento do ser acolhido e poder acolher.

Vejam que as meninas brincam com a realidade quando brincam de casinha. Os meninos com seus bonecos brincam de guerra, de espadas. Por trás de toda brincadeira existe um motivo muito real, motivo este que faz com que eles tenham que escapar da realidade para poderem viverem uma experiência de satisfação que não é (ainda) possível.

Assim também é na análise. 

Diante daquele que fala, a vida vai se desestruturando, deixando de ter uma forma, a pessoa acaba encontrando uma vida sem fôrma alguma, sem linhas, sem marcas, sem destinos, sem início e sem fim. UMA vida, a própria vida.

A análise faz com que as pessoas encontrem-se em suas próprias vidas e isso meus amigos, nada mais é do que o próprio efeito do brincar. As crianças encontram-se a todo tempo com sua própria incapacidade e imaginam (brincando) algo que supra essa falta. Em um processo de análise fazemos a mesma coisa. só que de forma inversa. Na análise nós vamos descobrindo o que colocamos no lugar da falta para depois perceber que aquilo ali não pertence àquele lugar exato, mas que está apenas como que emprestado para se poder viver.

Assim é o amor, aqueles que vivem por estarem apaixonados, mas também aqueles que vivem em função de uma doença. A vida é movida, de um lado pelo amor, e do outro pela doença, mas é movida, é vivida, é sentida.

Claro que além do amor e da doença existem outros "motores" da vida. Uma busca pelo sucesso, o trabalho, os estudos, uma viagem daqui a um ano. Porém tudo isto está ligado com o desejo.

Reconhecer o desejo é o ponto que leva a pessoa a encontrar seu motor. Encontrar-se com a realidade do sem sentido e também que aquilo que é desejado nunca poderá ser encontrado de fato. Afinal de contas uma vez encontrado deixará de ser desejado, passará a ser concreto, real, e uma vez realidade presentificada, materializada perde-se todo o movimento que antes era realizado para se obter o que tanto se desejava. É meus amigos, é aquela velha história que quando perdemos algo, não adianta procurar. Quanto mais procuramos, parece que perdemos ainda mais a chance de encontrar.

Lembro-me de um ditado que dizia que o amor não pode ser encotrado, é ele quem nos encontra. Realmente, o amor desejado não é amor, é outra coisa, é ilusão. E mais uma vez, se é ilusão, esta ilusão serve apenas para ficar no lugar do amor real, e uma vez neste lugar, tampa, mesmo que por um período curto de tempo, a falta que o amor nos faz.

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