segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Escrever é bem diferente de falar.

A escrita é como uma carta a alguém, muitas vezes por mais emocionados que estejamos as lágrimas escorrem, mas de alguma forma conseguimos escrever aquilo que nos incomoda, nos machuca, nos ajuda, nos forma.

Falar é muito diferente. A gente sente o nó na garganta, a gente sente que as lágrimas, o calar, o rubor, o corpo, pode dizer muito mais do que a própria vocalização do som. É algo muito interessante, e ao mesmo tempo muito doído a experiência de não poder, de não conseguir falar.

Este ano na clínica tive experiências interessantes, desde sintomas como pânico, desamparo, solidão, paranóia, até início de depressão e ainda por cima em minha própria vida o maior de todos os sintomas, a culpa e a vergonha que impedem que a palavra seja dita. Diferente dos outros sintomas, a culpa barra a fala, caminha com a vergonha e impede que seja dito, que seja colocado para fora e que a pessoa consiga explorar o fato de outra forma. Já os outros sintomas, como a depressão, o pânico, a paranóia, ou qualquer outro sintoma, se fala do sintoma sem problema algum (na maioria dos casos), e aos poucos vai se chegando ao ponto do problema, retirando na medida em que a pessoa e o analista conseguem aguentar, no tempo certo que a relação estabelece, o sintoma, a queixa até que se chega na raiz da dificuldade.

É de suma importância o trabalho na clínica, pois lá é onde as pessoas se achegam, e quando se sentem acolhidas, ultimamente tenho ouvido delas: "quero um lugar que eu possa falar, preciso de alguém que me escute". 

Que lugar é este, e quem é este alguém?

Seria muito fácil se pudéssemos todos escrever nossa história, nosso "contos de fadas" particular, ou nas palavras de Freud, nosso "mito individual". Acho que encontraríamos best sellers de qualquer pessoa que resolvesse por no papel sua história, sua vida, seu passado, seus sonhos e anseios.

Mas quando começamos a escrever, as lágrimas correm, as dores nos trucidam, mas aos poucos vai passando e aquela história parece voltar a ser monótona, parece que vai se re-encaixando no tédio rotineiro do cotidiano. Aos poucos conforme o sentimento vai se esvanecendo, a escrita vai perdendo o sentido, e vai cessando também a letra colocada no papel. Assim, sem necessariamente ter um ponto final.
Quando falamos, no entanto, a história é outra. 

Alguém está lá escutando, mesmo que não seja necessário este alguém ajudar, acima de tudo está ouvindo e de alguma forma somos forçados a ter um começo, um meio e um fim. Não podemos simplesmente deixar de perder a fala, conforme o sentimento que impulsionou o primeiro som acabe cessando. Temos que continuar, e é exatamente isso que vai fazer a diferença depois. O analista de certa forma é este ouvinte que ocupa o lugar de alguém que ouve, e se está ali ouvindo, o analisante tem que falar.

Alguém para escutar é alguém que está disposto a "ler" esta vida falada e que nos move a continuar falando. Alguém que se coloca naquele lugar de leitor, de analista própriamente dito, e que pontue, marque e grife, cada frase, cada palavra, cada sentença, até mesmo o silêncio que sentencia não o final, mas alguma coisa outra que ou não pode ser falado ainda, pois o enredo não está preparado, ou porque perdeu o sentido de ser dito.

No papel como escrevemos o silêncio? Como colocamos a angústia nas letras?

Isso é trabalho para os poetas, mas na clínica, todos esperimentamos um pouco este momento de poetas de nossa própria vida.

Este lugar de falantes, onde encontramos alguém que esteja disposto a nos ouvir e acima de tudo, a nos fazer ouvir a nós mesmos. A importância de alguém que escute e nos traga de volta o que falamos, no sentido de nos levar ao incomodo e à realidade daquelas palavras, pode ser entendida também como um exercício ético, um exercício de ter que se haver com a própria palavra dita, o que ultimamente está muito em baixa na sociedade contemporanea.

O segredo do analista é conseguir, de algum jeito, fazer com que o cliente, paciente, analisante, pessoa, passe a ouvir-se e a se implicar com aquilo que fala. Passe a dizer de si, para se dizer, para se construir e reconstuir aos poucos, a cada palavra, mas também a cada hiato da voz que a experiência da escrita não pode dar. 

Entre um parágrafo e outro há uma lacuna, mas não necessariamente um silêncio. Na escrita damos ponto final e passamos para outra coisa, ou alguma coisa que se ligue ainda que de alguma forma, ao que foi escrito anteriormente.

As idéias para para serem escritas já estão de certa forma organizadas, mas para falar não precisa de organização alguma, é nesta não ordem que trabalha-se com a construção do sujeito. A pessoa vai se identificando com algumas palavras, algumas letras, e até mesmo com certos sons, que significam algo para ela. Esta significação toda a leva a se identificar consigo mesma, perceber-se uma pessoa que carrega desde a mais tenra idade os mesmos desejos, sonhos, e medos. Em suma, percebe-se que até então é a mesma pessoa, a mesma "criança habitando um envólucro grande" como disse uma vez Di Loretto.

É acima de tudo do lugar de falante que as pessoas tem buscado ocupar na clínica. Ao menos meus pacientes aos poucos vão percebendo (isso quando não digo diretamente) que não sou eu quem dou as respostas, mas apenas os instigo a relembrá-las porque de alguma maneira, elas estão perdidas, desorganizadas e em algum lugar que eles não puderam encontrar até então.

A diferença é que quando escrevemos no papel, as palavras já estão tudo muito bem organizadas, mas não temos as respostas que o momento de silêncio, que a angústia do não conseguir, não poder falar, pode propiciar.


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