segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pedido da Luh:


Quando a mudança perde o sentido (justamente por estar resultando em novidades demais) a pessoa pode, diante de qualquer trauma (pensando que os traumas são normalmente subseqüentes, o que explicaria uma pessoa reagir muito mal no luto de alguém que não conhece, mas quanto ao luto de membros familiares ela simplesmente conseguir lidar com maior serenidade), se desestruturar e retornar às antigas formas de ser.

Este post a pedido da Luh do Blog Metamorfoses da Alma, será apenas uma explicação do parágrafo anterior. Na verdade começarei por escrevê-lo de outras formas:

Quando a mudança perde o sentido a pessoa pode, diante de qualquer trauma se desestruturar e retornar às antigas formas de ser.

Primeiro gostaria de pensar a questão d“O Trauma” para Freud.

Bem nos primórdios da psicanálise, Freud pensava em um trauma fundante, em alguma coisa que teria acontecido, e que, graças a este único acontecimento a pessoa iria depois de algum tempo, adoecer psíquicamente.

Interessante que no caso Katarina, descrito por Freud, ele encontra não apenas um, mas vários encontros que de uma hora para outra tornaram-se, ou ainda, foram percebidos por ela como traumáticos. O que deveria ser traumático, a cena em que ela vê seu tio (pai) com sua prima, na verdade estava remetendo ela a uma outra série de “encontros” com este homem. O que a fez desestruturar-se e com isso surgiram os sintomas histéricos.

Este caso, embora um dos mais curtos descritos na obra de Freud, mostra que “um trauma” nunca está só, na verdade, está ligado a outras situações tão, ou ainda até muito mais traumáticas que o evento que desencadeou os sintomas.

Bom, estou entrando um pouco na metapsicologia e no funcionamento do inconsciente aqui, tentarei ser claro e breve, na medida que minha explicação for insuficiente, peço que os leitores me completem ou ainda, perguntem novamente, rsrsrs.

Enquanto as situações não tiverem um sentido, elas não são traumáticas, em si mesma, passam como indiferentes. Até podem vir a se tornar traumáticas, mas de alguma forma elas são alojadas inconscientemente, ou seja, o que deveria ser sentido fica separado do fato, ou ainda, há uma cisão entre a memória e o sentimento, até que, em um determinado momento, outro fato ocorra e consiga ligar a memória com os sentimentos daquele momento. Temos aqui um representante psíquico inconsciente (a memória que é apagada e chamamos de inconsciente) que é atraído (como um imã) por outra situação. Esta nova situação faz com que todo o sentimento que estava deslocado da memória se ligue novamente a tudo aquilo que foi “esquecido”. Surgindo então o sintoma para proteger o sujeito consciente de seu próprio sentimento com relação ao que aconteceu.

Claro que expliquei muito rapidamente o que nas obras completas podemos encontrar em mais de 4 textos (A repressão, O inconsciente, O instinto e suas vicissitudes e 3 ensaios...). Na verdade é muita coisa para pouco espaço, mas mesmo assim acho que da pra entender de outra forma como:

Não é um trauma, mas são vários resquícios de momentos, como fragmentos de memórias que estavam até então inconscientes e que, devido a uma nova situação tudo o que estava desconectado, passa a se conectar, a ter nexo, a fazer sentido e também a ser sentido. Compreende-se então como traumática uma situação, quando na verdade são muitas outras coisas interligadas, mas até então fragmentadas em partículas cifradas, mas sem que o sujeito consiga, com estas cifras fazer música alguma.

Então, explicado a noção de trauma (ou traumas), podemos pensar que as mudanças que são subseqüentes, que seguem-se ininterruptamente, muitas vezes fazem com que a pessoa se perceba de uma outra forma. Em alguns momentos, esta “outra forma” de perceber-se é exatamente aquilo que a pessoa tanto evitou, ou ainda, é tudo aquilo em que ela nunca se reconheceu.

Temos então duas possibilidades distintas.

A primeira delas, é que a mudança realmente faça algum sentido positivo, normalmente isto ocorre, e é desejado que ocorre, durante a análise, em uma (umas) sessão clínica.

Perceber-se diferente do que sempre se imaginou par algumas pessoas é traumatizante, não pelo trauma em si, mas porque isto mostra que a pessoa é muito mais do que ela podia imaginar. Podia, no sentido de que antes não havia mesmo condições de se ver de formas distintas, ou ainda de fazer outra coisa além da repetição contínua que é o cotidiano. É o trauma, a quebra da mesmice, em que o sujeito se encontra para novas possibilidades, diria até mesmo infinita, que se encontra a sua frente.

Algumas pessoas diante disso não ficam bem. É a novidade que afeta todas as seguranças de antes e que força o sujeito a um movimento diferente, a uma outra forma de pensar e de produzir-se frente aquilo que agora faz-se sentido, que toca de uma outra forma o sujeito. Em meu caso, com a mudança do blog, pensei em desistir de escrever, mas não era apenas a mudança. Muito trabalho, muito cansaço e muito estudo também estavam pesando. Com a entrada de uma razão, de um sentido (dado por mim), ou seja, quando mudou tudo no blogger para postar um texto eu simplesmente me vi acuado, querendo retornar ao modelo antigo, a forma anterior de pensar e de construir os textos. Todo este meu desejo foi em vão.

Uma vez que há uma nova possibilidade, não enxergamos mais as coisas rotineiras como antigamente. O sentido dado anteriormente a uma mudança, o objetivo propriamente dito, parece que desliza diante dos novos fatos encontrados e com isso podemos ter um novo sentido, até então obscuro e não percebido, que faz com que a mudança em si mesma perca o sentido de ser mudança e passe a ser vista apenas como mais um movimento. Este movimento sim pode levar a pessoa a novas formas de ser, ou pode fazer com que ela retorne a segurança de suas idéias e de seus ideais anteriores. Irá depender da forma como a pessoa se reconstruir frente ao trauma das possibilidades infinitas de ser.

Acho que o Filme: “A garota da capa vermelha” ilustra muito bem tudo isso. Ou ainda o famoso “De volta a lagoa azul”.

Depois de encontrarem-se com o novo e perceberem novas situações, era esperado que algo mudasse, mas pelo contrário, nem o casal d lago azul voltou ao continente e nem a vila, do outro filme, parou de proteger-se do mal, mesmo após ele ser destruído.
 Luh
Retorna-se ao seguro, retorna-se a uma forma anterior de perceber-se, de existir justamente porque os traumas não foram suportados. Suportados no sentido de suporte, de base. Os traumas foram e passaram, ficando como que esquecidos pois não encontraram um esteio para permanecer conscientes. Diferente do que acontece com a garota no filme, que depois de toda a violência do “inverno mais cruel de minha vida”, como ela bem coloca, ela sai transformada, diferente, e consciente de suas novas possibilidades. Podendo enfim responder a pergunta da Pepsi (pode ser?) com uma sensação de tranqüilidade e um leve sorrido de mona lisa:

- Pode sim. Pode ser.

De menina assustada temos então uma mulher, adolescente, que quer mais vida.


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