terça-feira, 26 de julho de 2011

O grito.

Acho que quero mudar daqui...

O barulho das sirenes anunciando o perigo a cada passada de ambulância na rua em frente ao meu apartamento, há muito tempo deixou de ser natural.

A sensação de que alguém está precisando de socorro, alguém está gritando muito mais de dor do que as sirenes que alardeiam a passagem das viaturas no meio dos carros, esta sensação me causa por demais sofrimento.

Dias atrás, estava me arrumando para ir trabalhar, lá pelas 7:00 da manhã. Quase saindo de casa, quando de repente escuto um barulho ensurdecedor de acidente. Imaginei que alguém mais uma vez havia errado a curva, acertado o poste, ou batido em um carro parado na esquina. Imaginei aquilo que sou permitido imaginar, que de alguma forma me protege da realidade crua da dor e da morte. Não fosse aquele grito ecoando nas ruas desertas e subindo como aranhas pelas paredes de meu prédio até alcançar minha janela.

O grito que era um parou, depois veio outro ainda mais alto, e depois um último. 

Rezei para que a pessoa  continuasse gritando, muito melhor ouvir sua presença sofrida do que o silêncio fúnebre que se seguiu. Mil vezes preferível o sofrimento dos sofrimentos do que a inexistencia, do que o fim, do que o término. Havia acabado o grito.

Em mim o grito continuou ecoando por cerca de mais 5 minutos. Tempo que demorou para o socorro chegar, e com isso, a coragem apareceu para que eu me movimentasse e fosse continuar com minhas atividades.

Depois de algumas horas fiquei pensando. Não é possível que aquele homem gritou por 5 minutos seguidos. Apenas três gritos não dariam nem um minuto. Não é possível que ouvi o inaudível apenas por meu egoísmo de querer imaginar que alguém ainda estava ali. Que aquele homem (pelos gritos era um homem) ainda estava vivo, ainda estava consciente e ficaria bem. Não, me recusei de imediato a aceitar minha incapacidade de aceitar os fatos, de aceitar e mais do que isso, de acatar o silêncio como outra coisa que não a morte.

Rezei novamente como há muito tempo não rezara, pedindo a Deus e aos anjos para que aquela pessoa esteja bem, esteja tranquila e que de tudo certo para ela ainda aqui na vida, porque depois desta vida, o amanhã a Deus pertence.

Fui angustiado frente a uma segunda feira que se estandeu gritante por minha semana. Na hora que tive um pequeno tempo, liguei para minha namorada que estava atendendo na Ortopedia do HU.

Havia imaginado que alguém naquele estado de grito, e depois que vi a motocicleta embaixo do carro, presa, agarrada, como se uma coisa fosse parte da outra, teria ido para o hospital para ser tratado, deveria ter algum membro quebrado. Não havia sinais de sangue, não havia aquele saco plástico por perto, quando a pessoa morre no local. Tudo o que havia era o grito, o grito que ainda unia a pessoa acidentada com aquela engrenagem louca construída por um acidente. O grito, o angustiante sinal de que alguém estava ali, onde não se conseguia mais encaixar peça alguma, havia alguém ali que fora desencaixado daquele local.

É meus amigos, as sirenes não anunciam gatos presos em galhos de árvores, anunciam, ao menos para mim, pessoas presas em arvores de metal. Anunciam o socorro, anunciam o medo, a angústia da morte.

É sempre o anúncio.

Mas como todo anúncio, anuncia também coisas muito belas e lindas. Como uma mãe que está prestes a ter o seu bebê. Anuncia a emergência de um parto, de uma dor lascinante de onde virá a vida. Anuncia a própria vida, seja aqui ou na próxima vida, anuncia sempre a chegada de alguém, da novidade.

Não é apenas o angustiante sinal de morte, ou de vida que toma conta de mim. É o medo da sirene, o medo do que ela anuncia, o medo de ficar parado e me sentir desamparado, sem saber o que fazer, sem saber como fazer, sem saber.

É o sentimento de incomodo diante do barulho da sirene que toca o mais profundo de minha história, acusando em minha memória uma lembrança inexistente, um desejo que nunca foi realizado e que jamais poderá ser, porque o tempo dele já passou. É o pavor de ter que me haver com o que aconteceu e não poder fazer nada, apenas imaginar formas diferentes de compreender a mesma coisa.

Será que quando minha hora chegar eu terei a oportunidade de gritar ou serei abençoado com o silêncio, angustiante silêncio para quem fica.

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