quarta-feira, 6 de julho de 2011

Não correspondidos - Síndrome do carteiro.

É assim que muitas pessoas tem se sentido ultimamente. Inclusive já passei também por esta fase. Posso dizer então com um pouco de propriedade, como alguém que já escreveu mas ninguém leu, ninguém notou a carta que chegou, não havia nem qualquer alguém para sequer ter esperado aquela carta.

Recebi um texto interessante que dizia de pessoas que tinham um sofrimento interessante por não serem correspondidas. Lógico que não havia nada de correspondência no sentido de receber uma carta pelos correios, mas foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Uma carta escrita, enviada, que talvez até tenha chego, mas nunca houve uma resposta.

Seria isso o nó principal de todo problema?

Uma resposta, uma mínima palavra, letra, pingo no papel, ao menos alguma coisa que faça com que a pessoa importou-se a ponto de mover-se. É meus amigos, muitas vezes este é ponto que chegamos quando pensamos em nossas investidas amorosas, em nossas relações familiares, em nossa comunicação com os amigos. Interessante que eu ainda não consigo achar que é somente isso que causa tanto mal-estar, mas talvez alguma coisa que esteja acompanhada com isso tudo.

Quantos e-mails encaminhamos e não recebemos retorno? Muitos deles não estamos nem aí. Muitas vezes falamos com alguém que simplesmente não nos escuta, ou, ainda que escute, não se move, sentimo-nos falando "com as paredes".

Acho que o que está em jogo é algo mais narcisico, mais egoentrico. É uma ferida na nossa alma ver que fizemos tanto para aquela pessoa que significa tanto para nós, e de repente, percebemos que somos iguais a qualquer outra pessoa para ela. Que nossa opinião vale tanto quanto a de outra pessoa qualquer. no final das contas, entendemos que somos, para aquela pessoa tão especial, uma outra pessoa qualquer.

Há uma sindrome de distribuição de cartas hoje em dia. Ou melhor, de distribuição de e-mails. Envia-se achando que você receberá de novo aquele e-mail e estará entre "os 7 melhores amigos mais especiais que fizeram a vida de alguém valer a pena". Prefiro pensar em cartas.

Porque as cartas me parece muito mais poético.

Muito mais bonito uma "Síndromo do carteiro" do que "Síndrome do e-mail". Pelo menos eu acho.

Então as pessoas distribuem cartas e esperam recebê-las de volta, mas nem sempre voltam, as vezes ficam paradas no meio do caminho, as vezes erra-se o endereço, as vezes o cachorro comeu, as vezes a outra pessoa até recebeu, mas não sabia seu endereço, já que você colocou nos correios como anonimo, e não pode responder. O legal disso tudo é que havia uma enorme quantidade de variáveis envolvidas e nós só imaginamos aquelas que está a nosso alcance mental, e como somos limitados nisso.

Estava eu na 5º série, aula de espanhol. O professor, um argentino tomador de vinho, fã de tango, mas que não fumava charuto, nem cachimbo, resolveu nos mostrar como era a vida de nossos avós. Nós de Londrina estaríamos escrevendo cartas para uma outra escola, na argentina e lá alguém iria escolher e depois manar de volta. Claro que naturalmente quem fazia esta travessia era o próprio professor. As cartas vinham de 15 em 15 dias. Nós escrevíamos em castellano e eles respondiam em Português. Todos aprendiam e eram felizes. Até que o semestre resolveu acabar.

Foram algumas cartas trocadas e na última carta eu lembro-me de ter escrito qualquer coisa como:

Queria que pudéssemos continuar escrevendo. Se você ainda quiser me escrever, deixo o endereço para você me escrever. Por favor envia-me o seu.

Era mais ou menos isso. A chica nunca respondeu nada. A única coisa que eu sabia é que eu havia entregado aquela preciosa carta para o professor Luís. Nunca tive resposta. aquele peso em meu coração de expectativa durou alguns meses, até que acabou-se o ano, mudei de escola e, até hoje de manhã, nunca mais havia me lembrado daquela carta que não voltou.

Na época era triste, depois foi indiferente, hoje, vejo graça nisso tudo, pois afinal de contas uma carta é uma carta e nada mais. Entre o esquecimento total e a paixão pelas palavras da menina (não tenho nem idéia do nome dela) descobrimos que tudo aquilo não passava de um exercício para nos motivar a escrever em espanhol. Sim, aquelas cartas eram na verdade apenas as provinhas que tinhamos que realizar. Não havia ninguém na argentina (embora o professor fosse de lá, isso é verdade). As respostas eram escritas pela filha do prosessor, e o curioso foi saber que a própria filha do professor (isso me lembro perfeitamente) tinha o mesmo nome da menina a quem eu me correspondia.

Enviei uma carta para alguém que não existia, mas tinha a resposta de alguém que existia. 

A sindrome do carteiro é mais ou menos isso que acontece. Enviamos cartas e mais cartas a Deus e o mundo. Mas quando recebemos uma reposta, não nos contentamos com quem está respondendo, ou ainda, a reposta dada é insatisfatória. Queríamos muito mais, queríamos estar naquela lista dos 7 melhores amigos do mundo. Quando na verdade podemos estar na lista dos 7 inesquecíveis da história de alguém que foi marcado por uma carta, um olhar, um gesto de carinho, ou simplesmente um bom dia. Queremos aquilo que imaginamos, mas às vezes, o que o outro nos dá pode ser muito melhor.


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