terça-feira, 26 de julho de 2011

Comunicação não existe - Lacan no cotidiano

Comunicação não existe...

Deu novamente Lacan a favor na empresa onde trabalho.

O cliente ligou para a responsável pelos orçamentos e ela estava ocupada, a ligação foi transferida para a supervisora que também pode fazer orçamentos (uma dica, se ficar muito complicado vai desenhando que ajuda, :D). A ligação transferida era apenas de um cliente novo, que desejava um orçamento de um serviço em sua casa. A supervisora como não encontrou os dados do histórico, colocou a mão sobre o telefone e perguntou quanto ficava para a responsável "mor" pelos orçamentos. A responsável então disse que ficava a partir de 200 reais para ir na casa e realizar o orçamento junto com o serviço, pois para ir até o problema haveria de deslocar equipe técnica e mais um supervisor para ver o que deveria ser feito. 

Até aqui tudo bem, tudo corretíssimo, a informação foi passada corretamente, mas, lembremos sempre que trabalhamos com pessoas, e cada um com sua história, compreende, ou seja, apreende o que ouviu sempre relacionado com sua história de vida.

A supervisora então tira a mão do telefone e diz que o valor seria aproximadamente 200 reais e que poderia encaminhar uma equipe naquele exato momento. Dito e feito, quando ouvi este "aproximadamente", já imaginei que logo logo teríamos um problema.

Meia hora depois, a equipe liga do local informando que havia ficado em 350 reais e que o cliente só iria pagar 200 reais pois falaram para ele que ficaria até 200 reais o serviço.

Vamos aos fatos:

A responsável pelo orçamento cotou um valor mínimo para deslocamento dos funcionários. Lembrando que este valor mínimo poderia ser ainda menor, mas para não perder a oportunidade fez um preço intermediário.

A supervisora compreendendo que era um preço intermidiário, ao invés de passar um valor mínimo e máximo, apenas disse que seria aproximadamento 200 reais, sem repassar ao cliente uma provável variação que todo serviço comumente tem. 

O cliente ouvindo os 200 reais, como ele que iria que pagar compreendeu que seria este o valor máximo do serviço, afinal, ele estava interessado no serviço e precisava urgentemente de uma solução. 

Os três estavam corretos em sua maneira de falar, de pensar e, ainda por cima, de compreender, mas no final as contas simplesmente não batia.

Aí entra a especificidade do psicólogo do trabalho para intervir em uma comunicação que existe mas que nunca "com (un) ica", ou seja, nunca deixa em comum uma notícia. Para ser mais realista possível, inexiste enquanto sua qualidade de transmitir uma informação na qual todos os ouvintes entendam objetivamente o que foi passado, objetivamente e com uma união tal, na qual se fosse necessário, qualquer pesosa ali poderia reproduzir o mesmo discurso sem qualquer erro, ou falha e todos os outros que ouvissem poderiam enteder da mesma forma.

Para simplificar, basta lembrar do conto do Livro de Areia, onde cada pagina se escrevia quando a pessoa ia lendo. Quando fechado e aberto na mesma pagina é uma nova história que se lê. Cada vez que lemos um livro, demos enfase sempre a uma novidade, a um ponto específico que outrora passou despercebido, ou ainda, que não era importante. Assim, temos o mesmo livro, mas sempre que é lido, é significado de forma diferente.

Cada vez que uma pessoa proferia então sua desculpa na empresa, nunca encontrávamos um culpado. Eu apenas sorria pois sabia que todos estavam certos em sua forma de pensar e raciocinar. Todos estavam corretíssimos em sua forma de compreender, apenas haviam se esquecido de um elemento ímpar.

Esqueceram-se que diante deles, e do outro lado do telefone, havia um outro, uma outra pessoa, um outro mundo, um outro livro de areia.

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