quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ser igual na diferença:

Um post para Marcele Luize:

O que podemos chamar de diferença?

No post anterior discursei um pouco sobre a criatividade de ser cada um como diferente do outro em suas escolhas, em sua forma de viver, de caminhar na existência da vida, cada qual com sua história.

Mas o que faz de nós diferentes dos outros a ponto de escolhermos nossa própria forma de existir e assim, assumirmos nossa história como, de certa forma, única baliza para nos guiar em nossas escolhas, em nosso jeito de ser?

Bom, para responder vou percorrer o caminho contrário, irei falar um pouco da identificação com o outro e desta pressão inconsciente em ser igual, em se apegar e ser um com o outro. Este tipo de percurso não segue minha forma de escrita, então desde já peço perdão se ficar muito confuso, ou se o leitor se confundir na explicação do oposto para explicar o avesso do avesso, ou ainda, em explicar o oposto da diferença que é a igualdade, para dela surgir a diferença.

A diferença vem depois, em primeiro temos uma igualdade, uma identificação que nos impede de ser diferentes, uma identificação que nos remete a uma segurança de caminhar por trilhas já caminhadas. Podemos pensar psicanaliticamente na relação simbiótica entre mãe e bebê, para o bebê, segundo M.Klein, Winnicott, entre outros, ele é um com a mãe e somente depois irá diferenciar-se para tornar-se alguém. Algumas pessoas não dão conta deste processo e ficam ligados como que em um cordão umbilical imaginário com sua mãe, alguns chegam ao ponto de terem as mesmas doenças, as mesmas dores, os mesmos problemas, repetindo a mesma vida, tornando-se ao final das contas uma réplica da mãe, ou igualzinho, ou totalmente seu oposto (devido ao processo inconsciente de conversão ao oposto), mas sempre tendo a mãe (ou quem fizer este papel materno) como baliza, como esteio para a construção do eu.

Na simbiose, não temos um "eu" temos um nós. Seja em uma relação simbiótica com um grupo, seja com uma pessoa, ou ainda com a própria mãe, pai, irmão, mulher, marido, filho...

A relação simbiótica protege ambos de uma possível destruição psíquica devido a uma aparente fragilidade em estar só. Estar só não é de forma alguma fácil, não é o estar sozinho apenas, mas um pouco além, é reconhecer-se diferente, reconhecer-se como um outro, e isso pode ser angustiante pois neste meio tempo, para que isso ocorra, é necessário perceber-se faltante e nesta falta, experimentar que o que completa o outro, não me preenche, resultando um vazio aparentemente impreenchível.

Quando nos ligamos simbióticamente a um outro, o que agrada ao outro me agrada também, e costumamos dar ao outro o que é bom para nós, o que implica em dar ao outro o que eu gostaria de receber e o outro, assim como eu (na simbiose comigo) aceita feliz o que lhe entrego, assim como eu ficaria se recebesse o mesmo objeto, ou ainda, a mesma demonstração de carinho, de cuidado, de amor.

Ser diferente no entanto, segue o processo de des-indentificar-se com este outro e de me colocar em uma posição de outro, de alguém que não sabe sobre si e que pode querer coisas que este outro nunca imaginou que eu pudesse querer, e ainda mais, pode ser feliz com coisas que para um outro só traria desgosto ou tristeza.

Este é o processo de ser sujeito, de sair da relação de objeto de alguém (saída da simbiose) para tornar-se "um", para poder dizer "eu" ao invés de nós.

Se de um lado temos uma indiferença em relação ao meu eu, ao meu querer, às minhas vontades enquanto ser único e diferente do grupo, ou de outra pessoa, do outro lado, do lado do sujeito que consegue dizer "eu quero outra coisa do que você(s) me oferece(m) como boa" ocorre uma indiferença em relação ao grupo, ao outro, pois passamos a nos guiar por nossas próprias pernas de uma forma nova e "libertadora" mas ao mesmo tempo angustiante pois não existem outros parâmetros ao não ser eu mesmo.

Aí temos o perigo de crer que estamos verdadeiramente livres dos outros, o que não é verdade. É com os outros que construímos nossa história, e o pensamento de querer ser diferente tem como base o não querer ser como alguém, implicando na existência de alguém antes de mim ao qual estou me remetendo.

É como se, ao passo que sou eu mesmo, ainda assim, algo pode me ligar a um outro, mesmo na minha individualidade, na minha indiferença a um determinado grupo, estou sendo reconhecido em um outro grupo ao qual não se identifica com aquele primeiro.

Mas o que nos leva a esta alienação de nós mesmos e uma identificação com determinadas pessoas, grupos ou ainda com um ideal de existir?

Muito simples, na base de tudo, o amor.

Se amo um ideal a ponto de dar a vida por ele, estarei eu identificado com ele a ponto até de me tornar este ideal. Jesus Cristo já havia explicado isso com relação aos cristãos, para que as pessoas cheguem ao reino de Deus Pai é necessário identificar-se com ele e também ser como ele. Cristão não remete a pessoas que seguem a Cristo, mas a pessoas como Cristo, que almejam um fim, que almejam ser de uma forma e que podem fazer com isso o mesmo que Cristo fazia.

Sou corinthiano, para me identificar com este grupo, preciso amar ao time, reclamar como todo corinthiano reclama do juiz, ouvir sempre a mesma piada do playstation na libertadores e de alguma forma ter raiva disso tudo.

Ser parte de uma família também segue os mesmos princípios, não apenas carregar ou recusar o nome, mas é de alguma forma, amar os membros dela, a ponto de ser feliz nos momentos bons e também sofrer com todos nos momentos ruins. Mesmo que a família não seja lá essas coisas (idealizadas dos contos de fadas), sabemos que amamos nas perdas, na saudade, no nunca conseguir deixar de brigar, no não conseguir deixar de se importar, porque de alguma forma aquele grupo diz também de mim.

Não acredito em "liberdade de ser" por causa destes detalhes de grupos aos quais nos vinculamos. Mais uma vez remeto ao filme "Survrive avec les loups", para ilustrar que no auge da solidão a pequena Misha encontra nos lobos amigos, e até mesmo uma mãe e um pai que ficam com ela e se identificam ao ponto de comerem juntos e um se preocupar e proteger o outro.

Em suma, precisamos do outro também para sermos diferentes. Até mesmo na diferença estamos nos remetendo a alguém que não queremos ser iguais, e que com certeza outros também querem ser diferentes daquilo que está posto.

No post anterior quando encontramos a diferença de nossa história e a coragem para seguir um caminho novo em que eu escolho, parece que é uma escolha no vazio, o pensamento não é bem por aí, é justamente porque os caminhos já estão dispostos a minha frente que tenho a possibilidade de escolher por um ou outro.

Então querida Marcele, quando você diz que "é tão difícil deixar de ser tão diferente" entendo que esteja olhando para um caminho que está sendo seguido por algumas pessoas, menos por você, mas de alguma maneira, você está indo por um outro caminho, ao qual você se identifica muito mais, e o qual diz muito mais sobre sua história, como que em uma individuação, uma separação, no qual podemos encontrar outras pessoas tão diferentes quanto você, que embora não sigam o mesmo caminho na vida e nas escolhas, também são iguais a você quando pararam um pouco com a loucura insana (pleonasmo mesmo, rs) da vida e resolveram dizer "eu".

A graça está justamente aí, quando resolvo fazer diferente, sou igual a um outro alguém que também resolveu ser tão diferente quanto eu.


NA DIFERENÇA SOMOS IGUAIS

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