quinta-feira, 30 de junho de 2011

Saúde mental

Proponho enquanto ser humano, deixarmos um pouco de lado as nomenclaturas e viajarmos na maionese. Pelo menos para aproveitarmos alguns momentos a sós, vamos começar:

A proposta de saúde que circula por aí, desde OMS, até constituição brasileira (sim, na constituição temos direito à saúde desde que sejamos brasileiros) é a de uma condição livre de doença, de perfeito estado bio-psico-social

Acredito que enquanto meta, é uma opção muito "saudável" e até louvável tentarmos erradicar as doenças de nosso mundo e sermos saudáveis até morrer, de tanta saúde.

Em minhas crises alérgicas quando meu nariz fica escorrendo por cerca de alguns dias, mesmo com anti-alérgicos, acabo dando valor para algumas coisinhas simples, como por exemplo, a respiração. 

Inalar e expirar sem espirrar. Gente quando isso acontece realmente é um grande acontecimento em minha vida. Ao contrário do que temos em nossa cultura de que TODAS as doenças são ruins, algumas até que vem para nos dar um tempo para nós mesmos, uma gripe que nos derruba por um ou dois dias, até mesmo os casos extremos de AVE, Ataque Cardíaco, Problemas Renais e também de circulação. Estes casos tem em comum algumas coisas, que (claro que nem todos significam isso)  nos remetem a uma tentativa de viver de outra forma.

Uma nova vida está lá fora, e quando a pessoa adoece, passa a desejá-la muito mais do que sua antiga vida. Ou ainda, vou arriscar aqui aqui com vocês, talvez seja exatamente o desejo por uma vida diferente que acabe ocasionando estas moléstias.

Vou ser mais simples ainda. O eterno estressado que tem um infarte e depois disso resolve se aposentar, cuidar das crianças, estar muito mais tempo com a família, com os amigos, uma outra vida daquela levada em seu trabalho de pressão absurda com resultados, prazos e outras coisas estressantes.

Acredito que a saúde mental neste ponto de vista sofre com o mesmo dilema. Uma vez que cessam os sintomas, as patologias, ou ainda todo e qualquer tipo de mal-estar, como é que nós nos rearranjaríamos para sermos de uma outra forma?

Ou pior ainda, sem os sintomas, sem os mal-estares, a partir do que pensaríamos nossa existência? Como a ciência propriamente dita poderia evoluir sem um mal-estar que a levasse a uma busca por um mundo melhor?

Como mundo melhor, compreendo eu, que, para que haja uma busca por algo melhor, signifique que o atual não está tão bom assim. Significa, ao meu ver, um mal-estar diante daquilo que está posto, daquilo que está disposto e que de alguma forma, alguém sentiria melhor com alguma outra proposta, com alguma outra forma de mundo. Inventa-se então o telefone, a luz, o fogo, a roda... 

Não pude parar de rir depois que li "inventa-se" no parágrafo anterior. Na verdade não inventa-se, mas busca descobrir uma outra forma de fazer as mesmas coisas. Vamos ao exemplo do fogo, uma pedra com outra pedra, uma pedra em uma caixinha e uma outra em um palito (fósforo), duas pedras, uma caixinha contendo gás, uma mola, um click  e temos um isqueiro (bem rudimentar inclusive), mas descobre-se e utiliza-se destes novos meios para produzir um mesmo fogo.

Acho que a saúde mental tem que ter menos padrão de normalidade e acatar um pouco mais a a-normalidade. Fugindo um pouco do foco de saúde mental, e permitindo às pessoas se haverem com suas dificuldades, com suas normalidades, com seus defeitos e qualidades. 

Uma outra ótica tem sido proposta na psicanálise: Saúde mental para todos, não sem a loucura de cada um. É proposto aceitar o sintoma de cada indivíduo justamente como uma tentativa de individuar-se, de diferenciar-se dos outros, de existir enquanto pessoa em sua singularidade. Apagar o sintoma, ou seja, aquilo que se repete freneticamente, seja em segundos, horas ou uma vez por ano, mas apagar isto que fala sobre a pessoa em prol de um "estado de perfeição" é na verdade padronizar um estado de ser, uma felicidade que de acordo com meus princípios é irreal, ou melhor ainda, surreal.

Sim, podemos atenuar o sintoma e até mesmo eliminá-lo, mas não em nome de uma saúde sanitizadora da mente, ao contrário, permitindo que a pessoa identifique-se com outra coisa, não necessariamente aquele sintoma que provoca o mal-estar.

O que seria da poesia sem o mal estar?

Existe mal-estar maior que a própria paixão? Podem existir piores, mas que dure tanto tempo, que provoque tantos sintomas no corpo, na mente e também na alma, acho que não. Nem sequer a angústia faz isso. A angústia ainda mantém de certa forma intacta a consciência e a razão. O medo na angústia é de perder-se, de morrer, de ser implodido pelo sentimento que ela traz consigo. Na paixão sente-se tudo isso, mas quando é perguntado se está tudo bem, a resposta é a mais descabida, está tudo ótimo.

Proponho um pensamento de existência baseado no respeito ao outro. Respeito a forma de ser, de falar, de sofrer, mas também respeito na forma de compreender-se enquanto saudável. Isso sim, ao meu ver, seria a saúde mental para todos, abarcando a loucura apaixonada de cada um ser o que é, ou o que deseja ser. Se alguém quer voar, que seja piloto, paraquedista, ou como este homem ao lado, não precisa ser apenas "louco".



0 Clique aqui para comentários: :

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Grants For Single Moms