segunda-feira, 20 de junho de 2011

Diagnósticos Psis e Psicoterapias

Diagnóstico e tratamento psiquiátrico, psicológico e psicanalítico são a mesma coisa?

Não, na verdade, são todos diferentes e querem dizer de formas de tratar e de compreender a cura de formas distintas uns dos outros.

Quando temos um diagnóstico psiquiátrico de Transtorno de humor bipolar, embasado no DSM IV ou no CID10, na verdade o que temos é uma forma de olhar para um sujeito, para alguém que está enquadrado naquele quadro nosológico, ou ainda patológico.

Quando um psicólogo trabalha com este diagnóstico, o diagnóstico é o que menos irá importar no tratamento, diferente do psiquiatra que irá verificar qual o melhor medicamento, ou a melhor combinação de medicamentos, a psicologia irá compreender e tratar a pessoa que sofre. Não o sofrimento em si mesmo, que é aliviado pelos medicamentos, mas a forma como esta pessoa repete este sofrimento e o que um outro (neste caso o psicólogo) pode fazer para auxiliar neste momento de dor, de desamparo.

Quando na psiquiatria temos um caso de Transtorno Obsessivo Compulsivo ( TOC ) a psicologia (em suas diferentes formas de atender) tem como objetivo a retirada do sintoma pela modificação dos comportamentos, do estilo de vida, ou ainda pela introdução de uma forma diferente de existir, ao mostrar ao cliente o que ele está fazendo hoje, o porque faz e o que pode fazer diferente.

O trabalho funciona como um apoio, onde no momento em que a pessoa tem condições de se comprometer com suas escolhas e de ver-se frente a frente consigo mesma e com sua história, a medicação vai sendo retirada no intuito de tentar dar uma autonomia frente ao medicamento.

Uma análise é outra coisa.

A psicanálise não diagnostica apenas para saber como tratar, mas tem-se o diagnóstico para uma compreensão de como determinada pessoa funciona (pelo menos mais ou menos). 

Com a psicanálise temos 3 diagnósticos (estruturação psíquica) clássicos:

1 - Psicose - Esquizofrenia / Autismo / Paranóia / Asperger...
2 - Neurose - Obssessivos / Histéricos / Psicossomáticos...
3 - Perversão - Perversos / Psicopatas...

Em cada uma delas teremos graus de periculosidade ou outro e também a si mesmo. 

Em cada uma delas teremos uma forma de conseguir enfrentar as dificuldades da vida, uma forma de funcionar frente as emoções, a si mesmo e também aos outros.

A psicanálise não vai trabalhar com estes diagnósticos na forma de marcar um paciente que será sempre assim, cristalizado em uma forma de ser e que nunca poderá ser diferente. Ao contrário, uma vez que se tenha determinada estruturação psíquica, o trabalho será no intuito da pessoa se haver com esta forma de existir, responsabilizando-a (até onde se consegue ir) por sua vida, sua história. Trabalhando desta forma e dando a ela a oportunidade de se compreender de uma outra forma através do processo analítico, não temos um trabalho terapêutico, mas um trabalho analítico, de análise em que o cliente se analisa a ponto de compreender seus movimentos, seus afetos, aspirações e desejos.

A diferença entre os trabalhos será principalmente em função da cura. 

Para um psicanalista por exemplo, não irá existir uma cura frente à sua estrutura psíquica, mas assim como nos outros trabalhos psis, existe também o desaparecimento dos sintomas que fizeram com que a pessoa buscasse o atendimento.

A cura para as psicologias (estou generalizando, sei que nem todas são assim) é um tanto quanto frágil se compreendemos que um sintoma desparece, mas surge outra coisa, muitas vezes, apenas socialmente mais aceita, e que acaba depois de um tempo tornando-se novamente um problema. Aí busca-se novamente os medicamentos e outra terapia.

No processo analítico, as vezes o sintoma não desaparece, ao contrário fixa-se de tal forma que nem sequer os medicamentos são capazes de resolver, até que em um determinado momento, com muito trabalho de análise, chega-se a origem do problema e ele acaba tendo/sendo sentido. A partir deste momento o paciente pode perceber então o fim deste sintoma, e o fim de vários outros que vão sendo fragmentados e desfeitos como um monte de nós que até então organizavam-se impedindo o sentido da linha, fazendo com que muitas vezes o cliente "perdesse o fio da meada".

Não temos na Psicanálise, estes diagnósticos da moda, como TDAH, TOC, Bipolaridade, porque não vemos neles o problema maior, ao contrário, vemos nisso tudo sinais de algo que não está bem e por isso, de acordo com a estrutura psíquica apresentada pelo sujeito, pela pessoa, acabamos trabalhando todas essas coisas de uma forma diferenciada, privilegiando a fala, as escolhas do cliente e com isso o cliente acaba ficando na posição de analisante, onde ele mesmo analisa sua vida, sua história e sua forma de existir.

Não é raro encontrarmos pessoas diagnosticadas com "bipolaridade" que depois de algum tempo de análise acabam deixando de lado o medicamento (não são 100% dos casos, que isso fique bem claro) e escolhendo se haver com suas atitudes, com sua forma de sentir e de expressar-se escolhendo depois de um tempo viver sem o medicamento e descobrindo nas pessoas, nas relações afetivas, uma forma de bem estar que era até então conquistada apenas com a utilização do medicamento.

Pessoas diagnosticadas com TDAH também acabam sendo medicadas de forma assustadora em nossa Saúde Pública. Ou seria melhor chamarmos de Adoecimento Geral Público.

Tudo bem, não estou indo contrario ao diagnóstico, mesmo porque penso a cura como outra coisa além da retirada do sintoma. Penso o sintoma como um sinal e com isso, procuro encontrar a quem estes sinais estão sendo emitidos.

Lembro de uma história que minha mãe me contou, estava eu na casa de meus tios e como bom menino, sempre estava aprontando, ou fazendo birra. Em um destes momentos meu tio disse que era só pra chamar atenção e que deveria me deixar fazendo birra até que eu parasse. Minha mãe disse que se eu estava chamando atenção é porque precisava de atenção, e depois de uma conversa de "adultos" me levou embora pois eu estava morrendo de fome e também queria a atenção dela que iria me levar pra comer milho verde na praia.

O TDAH é muitas vezes um sinal de crianças que procuram loucamente atenção dos pais (até são diagnosticadas como loucas por alguns pseudo pais), mas que muitas vezes os pais não tem condições de dar esta atenção. São ótimos pais mas não conseguem atender muitas vezes a demanda de seus filhos. Muitas vezes quando tentam, parece que dá um choque, um curto circuito na relação, onde um fala/quer uma coisa, outro fala/quer outra coisa. As vezes somente este ato de escutar a criança e de deixar ela brincar na presença dos pais já ajuda e muito no tratamento do TDAH, sendo muitas vezes o remédio apenas um opcional que nem sempre precisaria ser utilizado

Fica aí então neste post apenas uma pequena contribuição para aguçar a curiosidade de um trabalho analítico, que é diferenciado dos demais trabalhos não por promover algo que os outros não promovam (afinal, todos buscam o bem-estar do cliente/paciente), mas acima de tudo uma experiência diferenciada das outras desde a forma de compreender um diagnóstico, até a forma de compreender a cura, não estando focados no "problema" temos um leque de outras possibilidades em que o próprio sujeito acaba se construindo em sua forma de existir.

O trabalho diferenciado de cada psicologia/psiquiatria/psicanálise é quase sempre terapêutico e visa não apenas uma mudança no sujeito mas também, e acredito que acima de tudo, o seu bem estar.

Mas e se o mal-estar for a forma como a pessoa se reconhece? Fica para o próximo post.

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