quarta-feira, 29 de junho de 2011

Dejavú

É meus amigos, o futuro inexiste.

Quando traçamos metas, pensamos em planos e nos permitimos sonhar para além do agora, alguma coisa acontece que nos transporta ao amanhã. É como se pudéssemos estar presentes onde nem sequer estivemos ainda, mas desejamos tanto que orientamos nossa vida para aquele momento da chegada em um lugar novo, sonhado, desconhecido, mas intensamente desejado e familiar.

O texto de Freud "O Inquietante" ("o sinistro" em outras traduções), me levou muito a repensar uma antiga teoria minha. Um pensamento já demasiado surrado pelo tempo, mas que vira e mexe ele retorna, parece até mais um sintoma, do que um pensamento em si.

Já repararam que o Déjà vu é um fenômeno um tanto quanto complexo?

Embora tenhamos a certeza de que já experienciemos aquilo tudo, ao mesmo tempo, temos a certeza de que aquilo ali nunca aconteceu. Racionalizamos (como bons neuróticos) e damos uma explicação bem interessante, costumamos dizer que alguma vez já havíamos sonhado com aquele momento. Somos capazes até mesmo de prever o que o outro irá dizer. 

O problema começa quando tentamos provar que já vivenciamos aquele momento. Por maior que seja nosso esforço só reconhecemos depois que aconteceu, depois que passou. 

Depois que o tempo passa, e os acontecimentos realmente tornam-se ou presentes ou passado, começamos a ter uma leve idéia do que estava acontecendo.

Neurologicamente este fenômeno muito interessante é descrito como uma série de combinações neurológicas, as famosas sinapses, que de repente sofrem como um curto circuito, fazendo que percebamos algo como proveniente de um outro momento, de um outro tempo, misturando sensações de elementos comuns nas duas cenas, a do passado e a do presente, nos trazendo a impressão de que tudo já havia sido vivenciado.

Quero aplicar esta lógica para o que sonhamos e desejamos para nossas vidas. Experimentar algo novo não é um desejo muito comum nos dias de hoje, ao contrário, parece que está cada vez mais difícil, até mesmo impossível, fazer algo diferente do habitual. Sonhamos com o diferente, mas este sonho não passa de uma vaga lembrança das sensações que aquele novo nos trouxe, alegria, prazer, adrenalina...

A novidade em nossas vidas parece ser cada vez mais pura ilusão. Estamos sempre copiando, realizando uma espécie de Déjà vu com nossa história, repetindo algumas cenas, repetindo alguns desejos, sempre em busca de viver algo parecido com alguma coisa que não sei o que é.

Até que um dia conseguimos ter esta sensação de estarmos felizes, de termos feito uma coisa legal, diferente, ou ainda por cima realizado nosso sonho mais profundo. Tudo bem, até pode ser que isso realmente aconteça, mas a sensação não será de surpresa, não será de uma novidade, mas apenas de um reconhecimento íntimo de algo que há muito tempo foi sentido e agora pôde retornar. 

Um Déjà vu em que não reconhecemos a experiência nova como já acontecida anteriormente, mas reconhecemos que as sensações de alegria e bem estar, oriundas da realização do sonho, são na verdade tão íntimas e familiares que podemos até nos expressar com comparações do tipo: "a última vez que me senti tão feliz assim foi..."

Mas existe uma outra expressão: "Não me lembro quando foi que me senti tão bem assim", esta é muito mais interessante, diz de uma suposta novidade, de uma sensação na qual aparentemente não existia até então, ao menos na intensidade dela.

Aqui vem minha teoria que retornou como um bumerangue quando lia um trecho do Inquietante de Freud.

Na verdade não passa de um sonho conquistado, e uma vez sonhado, não é novidade, mas apenas um acontecimento que transpassou da imaginação para a realidade. Esta também já havia sido sentido, mesmo que em sonho, mesmo que em expectativa, mas apenas passou a ser real.

É, no fim das contas, a vida é mesmo este eterno retorno de algo que já experimentamos, que até nos parece estranho em um primeiro momento, mas que na verdade não passa de um Déjà vu. 

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