segunda-feira, 6 de junho de 2011

Culpa, o pior castigo.

Muitas vezes a gente pensa que um castigo deve ser proporcional ao dolo, ou seja, um castigo deve ser tão sofrido quanto foi o ferimento causado pelo autor do pecado. Não acredito nisso, pelo contrário, por maior que sejam os castigos imputados externnamente, o pior deles sempre será aquele em nós mesmo, a culpa, mãe da vergonha e precursora da virtude.

Se pensarmos em uma árvore genealógica para a culpa, poderíamos colocar ela como a mãe da vergonha, mas ao mesmo tempo, alguém que traz consigo a virtude que foi danificada pelo ato, pelo dolo, pelo pecado.

Não é brincadeira quando dizemos que a culpa pode acabar, destruir com a vida de uma pessoa. A culpa é natural, nos leva a pensarmos que somos normais, temos uma organização psíquica neurótica, um funcionamento neurótico (penso aqui no termo psicanalítico e não no patológico do senso comum) que nos permite tentar uma reparação, que nos permite e nos move para buscar algo além do que foi feito e construir algo novo, na qual possa ser pago o que foi feito e nos tranforme de devedores a credores.

A escola psicanálitica explica que a culpa funciona em nós como uma dique, como um estanque às nossas intenções mais primitivas, mas nem sempre ela vem primeiro do que o ato em si. Quando crianças sentimos a culpa imaginariamente, fantasmaticamente, pela destruição das coisas que tanto amamos. Seja por morder a mãe, o pai, ou quebrar nossos brinquedos, acabamos aprendendo que algumas de nossas atitudes nos privam daquilo que buscamos ter eternamente, a presença deste outro tão importante para nós, em última análise, seu amor.

A culpa sentida pelo afastamento do outro, pela perda "imaginária" do amor do outro, nos é sentida na carne quando crianças. É muito fácil verificar como isto funciona, é só vermos uma mãe, um pai, ou uma outra pessoa importante para a criança dizer a ela, "não faz isso que mamãe não gosta", "não faz isso que papai vai embora"...

A criança para de fazer "o mau" e ao menor sinal de ausência (pode ser verificado nas crianças de até 5 anos, ou até maiores esta fala) elas sentem-se culpadas e expressam-se da forma mais pura esta culpa dizendo que "papai foi embora porque eu não quiz escovar os dentes..." por exemplo.

É interessante ver o quanto nos dói perder as pessoas queridas e amadas e que a culpa depois torna-se uma barreira, para que cultivemos em nós pensamentos e sentimentos, além é claro das atitudes, sempre positivas. 

Podemos então pensar que nem sempre é por causa da culpa, mas também é a vergonha. Bom, só sente vergonha quem reconhece que foi o responsável pelo ato, ou de alguma forma, que reconhece-se como o culpado do praticado.

No texto do Freud "Totem e Tabu" temos uma descrição sobre a culpa como organizadora da sociedade humana. O texto parte de um pressuposto muito mais antropológico, dialogando com Levi-strauss sem deixar de lado o darwinismo característico de muitos escritos de Freud.

É na culpa, como castigo auto infligido, que surge a nossa sociedade.

E a vergonha?

Diante da culpa o primeiro sentimento que se segue é a vergonha, ao menos costuma ser. Enquanto a culpa é algo mais primitivo, que muitas vezes demora a aparecer, como nas depressões tradicionais, como no luto por exemplo, a vergonha aparece como um sinal, um sinal de que fiz algo e alguém viu, mais especificamente alguém que não deveria ter visto.

A vergonha leva-nos a nos esconder tanto de quem não deveria ter visto (como Adão e Eva no paraíso) como, tentar esconder o que foi que aconteceu. As vezes escondemos tão bem, que o acontecido fica recalcado, reprimido, inconscientemente e somente com uma análise profunda conseguimos nos libertar do peso da vergonha e da culpa adjacente.

A vergonha aparece e neste movimento de esconde-esconde, nossas energias ficam mobilizadas para um ideal de auto preservação que nos levam a morte. Como uma bola de neve, as coisas vão sendo encobertas e chega um momento que toda nossa vida acaba girando em torno de uma mentira, descobrimos então que não podemos ser nós mesmos, ou senão algo de muito ruim pode acontecer. Ao menos esta é a sensação.

O problema é que o "algo ruim" é na verdade o reconhecimento da culpa. Este responsabilizar-se pelo ocorrido é o primeiro passo para a uma mudança efetiva e então, de acordo com esta atitude, não apenas o receonhecimento da culpa, mas também de muitos sentimentos ruins que estão atrelados a ela. É como abrir a caixa de pandora onde primeiro saem as pestes, as guerras, os sentimentos mais podres da humanidade que habitam em nós, o desespero, o desamparo, o medo e até mesmo a morte, para que depois de tudo, a esperança possa surgir triunfante como a última coisa que da ao homem a chance de viver e ser feliz.

Seja no mito grego da caixa de pandora, ou no cristianismo com o reconhecimento de sermos pecadores, ou ainda na psicanálise com a consciência da culpa, tudo isso na verdade quer dizer apenas uma coisa. 

Um pouco mais além existe a esperaça, um pouco mais ao fundo é possível uma mudança, depois de sentida a culpa ela não é rechassada, mas assim que é aceita, ela nos traz a possibilidade de nova vida, de partir de um princípio de seres culpados, para um outro fim que não o de culpados.

A culpa é a sentença de morte de alguém, mas reconhecê-la é o início da ressureição, porque simplesmente a partir dela podemos pensar em uma reparação do que foi danificado, uma reparação não de um objeto externo, mas de nós mesmos que fomos destruídos pela vergonha.

Saímos então da morte da vergonha, para a vida de culpados, mas uma vida em que, de alguma forma, sentimo-nos aptos a pagar a pena em que nós mesmos fomos os juízes. Em outras palavras, este pagamento nada mais é do que permitir a virtude florescer.

E como sabemos, as virtudes são o que de mais sublime podemos fazer, podemos ser. Sem nunca deixarmos de lado a lembrança da culpa, mas indo além, indo em direção a uma forma diferente de existir que coexista com a culpa, porque de alguma forma ela sempre estará lá, nos lembrando de nossas fraquezas, mas ao mesmo tempo nos mostrando que é exatamente ali, naquele esterco onde pode florescer o jardim mais belo e perfumado, onde pode haver o encontro consigo mesmo, onde pode existir o encontro com Deus.


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