quarta-feira, 22 de junho de 2011

Silêncio e solidão: experimentar a existência de outra forma.

 "A consciência enquanto aparelho psíquico (muito mais perceptual do que psíquico) é somente uma fração do que poderíamos objetivar como humano. O que podemos encontrar então que nos diz respeito tanto diante dos "doentes mentais" quanto diante dos "sãos" é simplesmente a liguagem. Esta segue sempre um caminho objetivo, o outro."

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Somos constituídos pela linguagem, pela palavra, utilizando a fala como meio, como forma de manifestar nossa existência. Esta fala diz de alguém que ouviu falar, e que agora, repete a palavra, tentando repetir o que foi falado para ser compreendido. Este alguém só é alguém porque um outro o coloca nesta posição e o remete a ele mesmo com um nome, uma outra palavra que diz sobre ele, mesmo em sua ausência.

Ouvir em uma conversa nosso nome é como ouvir os sinos da catedral chamando os anjos para a oração. Chamando nosso nome, temos a certeza que existimos mesmo sem estar presente naquela conversa, de que de alguma forma, estamos presentes ali.

A solidão nos remete a esta experiência de despersonificação, mas de alguma forma a mentira da existência continua. Nos pensamentos, ou nas palavras ditas a ermo, mentimos nossa existência através da fala. Falamos conosco, falamos e nos escutamos, ou cantamos para alguém que não existe ali naquele momento, nos empurrando ainda mais na mentira das relações humanas, inexistentes, pois não existe um outro para ouvir, ao não ser nós mesmos, e pasmem, na maioria das vezes (inclusive na análise) não estamos ali.

Escutar-me, caro amigo Melvin, remete-me à minha mentira, ao meu imaginado esquema de existir que insisto em chamar de vida. Por isso respondi que não gosto de me escutar, prefiro o angustiante silêncio.

Escutar as lembranças me levam ao passado, a um passado distânte de mim, mesmo que tenha se passado apenas alguns momentos, já não estou mais ali, o que se renova é apenas a sensação, até que não se renove nunca mais, mas seja trocada por outra. Novamente uma mentira, porque o que sinto agora em relação ao fato do passado, não diz nada do que aconteceu, ao contrário diz de mim hoje, e eu não estou por lá há muito tempo.

É mais ou menos aquela sensação de rir depois de uma experiência de quase morte, ou de perigo extremo. Na hora, o sentimento que domina é o pavor, o terror da agonia de enfrentar face a face nosso destino único e real, o último e único fim de tudo, a morte. Depois de um tempo a sensação passa, e tranforma-se em zombaria, em desengano, em vitória, por ter de alguma forma sobrevivido. Uma mentira ao meu ver, que é tão verdadeira que nos engana, nos fazendo, mesmo que por um instante, acreditar realmente que a morte nunca mais chegará.

Prefiro o silêncio que revela-me minha ausência. O silêncio, ao contrário das palavras, não constrói nem destrói, apenas da um tempo na existência, mostrando o que realmente está jogo, que a vida acontece mesmo sem eu.

A palavra que define o ser humano, que contrói sua vida, e que pode passar adiante sua história. A palavra que faz o futuro parecer tão perto dentro de nossos sonhos. A palavra que é utilizada até mesmo quando vemos alguma coisa que me "diz" alguma coisa. Dizer, é falar, é palavra também. Mas meus amigos, a palavras que é nossa tão terna e querida amiga é também aquela que nos trai.

Nos trai nos atos falhos, na verdade nos atrai, nos mostra quem somos de verdade, e nos traz o silêncio. Como a pessoa que ovaciona na hora errada, o silêncio toma conta do espetáculo, e sorrisos indiscretos são ouvidos, demonstrando que mais engraçado que o barulho, foi o ridídiculo do silêncio.

É no silêncio que todos os sentidos fazem sentido, e acima de tudo, no silêncio da palavra, do sentir, do pensar, do lembrar, do sonhar, que a palavra recebe seu significado mais nobre, o de nomear, o de transformar algo em coisa alguma.

Na solidão, ainda podemos nos mentir, nos falando, nos afirmando, mas pra que seria necessario afirmar uma coisa se ela já é real e existe?

É no silêncio caro amigo Melvim, que eu me percebo. É na ausência de mim mesmo que eu me percebo enquanto alguma coisa real, ali, parado, talvez não vivendo como um ser humano, como as pessoas gostariam de viver e chamam de vida, mas apenas existindo de passagem, e na realidade, a vida é isso, passagem por aqui e nada mais.

Na solidão enquanto me minto com minhas palavras parando para me escutar, não escuto nada. Já diante do silêncio escuto o tic tac do relógio que me mostra a existência para um além da temporalidade, para além do ontem, do hoje e do depois. É quando o tic tac deixa de ter o sentido da palavra relógio, da palavra tempo, que eu consigo ouvir minha respiração e com ela imaginar minhas células morrendo a cada expiração. Mas é também em cada inspiração que meus pulmões se enchem e outras células ganham vida, a cada momento.

É isso, a vida e em especial minha existência é um momento e nada mais. Agora quem eu sou, este sim, cheio de explicações, afirmações, negações, contradições... mesmo na solidão, sou uma palavra.

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