segunda-feira, 20 de junho de 2011

Carta a Freud, sobre o Duplo e a Alma.

"O tema do Duplo foi minuciosamente estudado por Otto Rank, num trabalho com este título. Ali são investigadas as relações do duplo com a imagem no espelho e a sombra, com o espírito protetor , a crença na alma e o temor da morte, mas também é lançada viva luz sobre o a surpreendente evolução do tema. Pois o duplo foi originalmente uma garantia contra o desaparecimento do eu, um ënérgico desmentido ao poder da morte"(Rank), e alma "imortal" foi provavelmente o primeiro duplo do corpo... Mas essas concepções surgiram no terreno ilimitado do narcisismo primário, que domina tanto a vida psíquica da criança como a do homem primitivo, e, com a superação dessa fase, o duplo tem seu papel invertido: de garantia de sobrevivência passa a inquietante mensageiro da morte" (FREUD, S. O Inquietante, 1919 p.351-352)

Querido Freud, está me dizendo que tudo que eu imagino como meu amparo frente a minha destruição revela-me minha fraqueza e meu próprio desamparo?

É, talvez faça sentido. Talvez seja isso que chamamos hoje em dia de dependência química, de relações simbióticas, ou ainda, da relação do asmático com sua bombinha de asma. Lembro-me quando era menor,  eu tinha destes problemas, eu sempre dava um jeito de esquecer a bombinha, mas de repente sentia meus pulmões fecharem, precisava de minha mãe, e de minha bombinha para respirar mais aliviado.

Embora eu quisesse tanto me livrar dela, era ela quem eu tinha como esteio. Embora eu quisesse abandoná-la a qualquer canto, era ela quem eu podia recorrer (minha mãe, e também a bombinha).

Com o tempo fui crescendo, e fui percebendo minhas fraquezas devido a minha dependência aos objetos, por exemplo, minha mãe, meu carro, meu Sorine, para mais tarde depender única e exclusivamente de um comprimido de Efexor por dia.

De alguma maneira essas coisas todas me permitiam viver consideravelmente bem. Mas como toda mentira tem seu fim, um dia tive que lidar com a certeza de que tudo aquilo era criação minha. De que mamãe não estava sempre ali para me buscar, ou me ajudar, de que a bombinha de asma não resolvia minha solidão e meu medo de morrer, de que o sorine não desentopia meu cérebro cheio de pensamentos de morte, e que inevitavelmente o antidepressivo não tirava a sensação de vazio e de sem sentido de minha existência.

É caro Freud, começo a compreender o que o senhor quis dizer. É na utilização destas coisas que eu me denuncio enquanto faltante, enquanto carente de algo que seja ainda maior do que eu, que me sustente, que me ampare, e que, de alguma forma, me deixe vivo, me faça imortal no agora, e não depois.

Olha só, não era bem minha alma que eu buscava para sobreviver, ao contrário, eram coisas que não tocavam minha alma, mas que aliviavam as idéias de insuportável sensação de fraqueza, de debilidade, de morte.

Bom, meu caro amigo Freud, hoje estou melhor, resolvi aceitar que estas coisas passadas falavam sim de um momento onde eu buscava a vida, e que depois que foram anunciando a morte, acabaram sendo trocadas por outras, mas e a alma?

E quando aceitamos a alma não como uma forma de eternidade, de proteção, mas como a certeza da morte? Faço o que com isso? Vivo melhor? Vivo mais despreocupado? Chego a viver de fato?

Acho que não, acho que apenas trocamos uma coisa pela outra. As mães sonham com as filhas realizando o que elas não puderam realizar. Os pais passam seus nomes aos filhos. Os avós contam histórias que ficam gravadas eternamente nas gerações futuras. É, a gente troca, ora uma coisa, ora outra, o importante no final das contas é encontrar alguma forma de viver que me identifique enquanto eterno, seja escrever um livro, plantar uma árvore, ou ter filhos.

Caro amigo, me despeço dizendo que concordo com suas palavras sobre a inquietante função de denúncia da alma, mas também gostaria de fazer aqui minha contribuição.

A alma sempre sobreviverá, desde que você acredite que ela será eterna, afinal, se eu morrer e ela não existir de fato, vou estar morto e não me lembrarei que um dia ela deveria ter existido para me fazer imortal.

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Jéssica Freitas Cunha disse...

Olá Marco C. Leite, meu nome é Jéssica Freitas, sou universitária do Curso de Letras da Uneb e estou fazendo um artigo acadêmico sobre o Duplo. Gostei das considerações que você fez aqui nesse texto e gostaria que se possível, me enviasse referências bibliográficas a respeito, pois meu enfoque é nas Horcruxes de Lord Voldemort, na saga Harry Potter, e como estas são objetos para duplicação da alma, eu achei pertinente estudar a teoria. Aguardando resposta, segue meu e-mail.
jeu.imyself@hotmail.com

? disse...

como me vejo, diante da morte, nada subjetivo (o máximo amparo do último homem - o de hoje) pode. Então, o negável e cia de si mesmo revela-se real, de diferentes maneiras conforme as tensões de cada um. A clareza de si mesmo nada deve, amarras e criações subjetivas estão numa casca e sempre fracassam. Amenizar sofrimento pode ser afinado ou não consigo, com ser mortal. Quanto a alma, se ela for construto para aliviar e tamponar o ser mortal, não importa se você acredite mais ou menos porque a mortalidade é indiferente a isto, nas palavras de Freud: formará sintoma. Esta afinação com a mortalidade é uma transvaloração do sofrimento como transbordamento e não falta.

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