segunda-feira, 27 de junho de 2011

Amores e Saudades



E aquele rapaz cansado de perder tudo (que pensava ser seu) bradou em voz alta:

- Que fique então decretado a partir de hoje que não perco mais nada, ganho saudades.

É meus amigos, ganhar saudades, acumular derrotas, cultivar o que foi perdido as vezes também é uma forma de manter-se vitorioso. Parece que de alguma forma aprendi muito com aquele paciente meu, que não perde a coragem, ganha medo. Também não sente falta, ganha vazios. Outra coisa que me surpreendeu é que ele simplesmente não se lembra de nada ruim, apenas ganha mais memórias corroídas pelos seus sentimentos daquele momento, mas que tem a certeza de que tudo não foi bem daquele jeito. 

Está certo, este paciente não existe.

Mas e se existisse?

Quanta inveja nos levanta uma pessoa que até na derrota consegue sair por cima, vencedora de ter conquistado alguma coisa a mais. Enquanto perdemos e tentamos nos desfazer daquilo que foi tão ruim, ele apenas ganharia mais experiência, ganharia, sempre ganharia.

Enquanto passamos boa parte de nossos lutos chorando o tempo perdido, ele apenas ganharia mais tempo para cultivar outras amizades, outras relações, outros amores. 

É que falo aqui do nosso coração humano. Assim como a sexualidade é elástica e deve comportar-se de acordo com nossos desejos, assim também é nosso coração, o grande desejante.

É na nova tradução dos textos de Freud (Paulo César) que percebi que eu estava certo. Na verdade, eu, meu diretor espiritual (mesmo que na época), a Igreja, Viktor Frankl, e por aí vai. Segue-se uma lista infinita de pessoas que perceberam que a libido nada mais é do que amor.

Objeto de desejo é o mesmo que objeto de amor, só que aquele é na leitura pura, fria, real da carne. Objeto de desejo é um objeto da qual tanto desejo, e o amor refere-se a um amado, a uma amada, a um outro em todas as suas qualidades, características, e em especial mistério. Mistério que foge, que vai além de minhas projeções e me revela um outro, um além de um objeto apenas. Mas isso não desfaz a idéia de que a outra pessoa também é um objeto, é um objeto do meu amor, assim como o polém (suponho eu) é o objeto de desejo da abelha e que dele, com muito trabalho será feito o mel. Assim também são as pessoas, objetos de amor que um dia, depois de muito trabalho, se tornarão pessoas nas quais ultrapassam e muito nosso desejo.

Fica aí a pergunta, e agora o que fazer quando perde-se o objeto de desejo para ganhar o objeto amado?

Angústia suprema.

Não pode ter as duas coisas.

Cristo no calvário não podia ficar mesmo querendo ficar, seu desejo era o sacrifício, mas ficar aqui com seus súditos, seu povo, seus irmãos, estava com certeza sendo considerado por demais naquele momento. Ao contrário, renunciou a tudo o que havia conquistado para ir além, para tornar-se mais do que um objeto de desejo das pessoas e ser, enfim, objeto de amor.

É mais ou menos nesta narrativa que compreendemos o ato sacrifical em nossas vidas. Perder-se por amor, e não apenas porque amo, mas para que na perda, ganhemos algo, ganhemos enfim, nosso objeto de desejo e de alguma forma, com nosso sacrifício ocorre certa transubstanciação (emprestei da palavra litúrgica que significa - mais ou menos -  transformar uma substancia em outra sem acrescentar, sem retirar nada, apenas se transforma, como a Eucaristia) de objeto de desejo a objeto de amor.

Sempre foi a mesma coisa, mas agora quem mudou fui eu. Aquele que olha, não olha mais, e não fica mais nesta posição, de um olhar de alguém que pode usufruir de um objeto, mas agora olha com amor, ganhando assim uma certeza única e irrefutável, existem outras pessoas no mundo.

Sim meus amigos é isso mesmo, apenas na "transubstanciação" de nosso olhar, que passa a ver o outro não como objeto de desejo de nossa carne, de nosso desamparo, de nossos medos, que podemos ver o outro como outro, como objeto de amor.

Enquanto objeto de desejo, o outro serve apenas como mais um objeto, mas enquanto objeto de amor, o outro é de fato mais um outro.

Tentarei explicar de uma forma mais sucinta e simples o que acho por demasia complicado, mas que é gostoso de falar sobre, e ainda mais gostoso é escrever e ler sobre estas coisas:

Somente na posição de amantes é que conseguimos ganhar sempre, pois enquanto insistirmos em ficar apenas na posição de amados, as perdas serão sentidas como perdas e não conseguirão ser transubstanciadas em mais uma saudade.

Ah, o amor!!!

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