quinta-feira, 9 de junho de 2011

Além da Clínica - Psicologia Hospitalar: humanizando o serviço.

Psicologia Hospitalar : a mesma escuta, o mesmo cuidado, em um lugar diferente, de uma forma diferente, mas ainda sim, é possível o trabalho do psicólogo / analista.


II Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar    
Londrina - Pr 

O que faz do homem psiquicamente diferente dos outros seres vivos que conhecemos, entre outras coisas, é o conhecimento de si mesmo, planejamento do futuro e também a percepção da finitude, da morte. Embora eu saiba que esta é uma concepção que todos temos, mesmo assim carregamos em nós, ainda que de forma inconsciente,

 uma dúvida quanto a nossa mortalidade. Durante a maior parte de nossas vidas agimos e fazemos planejamentos como se fossemos imortais, imutáveis, inabaláveis. Esta característica humana de viver como se sempre houvesse um amanhã, é fundamental para que possamos viver e constituir-nos como sujeitos.

 Freqüentando o Curso de Psicologia Hospitalar, no ano de 2009, do Hospital Universitário/Universidade Estadual de Londrina, pude compreender que esta distância que o ego insiste em ter da certeza do fim, é mais que necessária. Arrisco-me a dizer que sem essa distância, muitos de nós não conseguiríamos levar a maior parte de nossas tarefas a cabo. A compreensão racional de nosso fim é sim importante, mas muito mais importante que esta, é a sublimação da certeza da morte pessoal, para que seja possível um projeto de vida. Em um dos casos que atendi, durante o curso no hospital, pude ouvir de um de meus pacientes: “depois que eu morrer, deixarei tudo pra minha filha”. Nesse discurso, o sujeito que foi atendido por mim e que não tinha muitos recursos financeiros, deixava sua herança ainda em vida para sua filha. Essa e muitas outras falas me levaram a compreender que, embora saibamos do fim, sublimamos essa certeza de nosso fim último, esta sublimação é uma estratégia que permite a pessoa continuar vivendo com o sentimento de que mesmo depois de morta continuará viva no outro.

Sobre essa particularidade do ser humano, de uma suposta tomada de consciência com relação à transitoriedade da própria vida, Freud (2009/1915) afirmou que essa consciência na verdade nada mais é do que a vivência de um luto.

Na experiência do luto, de acordo com o autor, a capacidade de amar determinado objeto (libido) se encontra sem o objeto específico onde o amor encontraria repouso. Sem o local do repouso, esta energia estaria enfim livre para qualquer outro objeto. O problema, como afirma Freud (2009/1915) em seu texto intitulado “Sobre a Transitoriedade” é que a energia não encontra de imediato outro objeto ao qual se fixar e isso causa uma tristeza pelo objeto que se foi e uma angústia pela energia que fica sem repouso na psique humana.

Segundo Freud (2009/1915), essa energia psíquica tende a voltar para o próprio sujeito por um momento até que o ego encontre outro objeto de amor. Mas como voltar a libido para si mesmo, sendo um sujeito que sabidamente irá morrer?

De acordo com o autor, “Se os objetos forem destruídos ou se forem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (libido) será mais uma vez liberada e poderá então ou substituí-los por outros objetos ou retornar ao temporariamente ao ego” (Freud, 2009/1915, p.318). Diante do dia a dia hospitalar percebemos ambos os movimentos psíquicos, porém os que mais precisam de ajuda para se restabelecer são aqueles que voltam à energia para si.  

O que ocorre no hospital muitas vezes é exatamente o movimento de uma aniquilação do ego para que o corpo continue vivo. Uma pessoa que está com um diagnóstico de uma doença grave recebe um golpe diante da suposta imortalidade do ser. Esta notícia da eminente perda de um membro, ou de si mesmo, leva o individuo a uma regressão e às vezes a uma cisão com a realidade, pois ele nada pode fazer com relação à sua doença. Uma vez se percebendo impotente diante da sua situação o ego se retrai para poder lidar com a internação e o tratamento.

Em outras palavras, no que se refere ao atendimento psicológico, por vezes não atendia o sujeito, mas é como se houvesse uma cisão tão profunda que o atendimento era do doente apenas e não do sujeito como um todo.

Freud (2009/1915) escrevendo sobre a transitoriedade, afirmou que o ser humano direciona a libido ao que sobra para ele amar e que de certa forma dá um sentido à sua vida. Dentro do hospital, no entanto, quando encontramos pessoas em sofrimento, porque já percebem que tudo o que eles amam conseguem viver em sua ausência há a necessidade de um trabalho para retirar o sujeito da posição subjetiva que ele vem ocupando de identificação com seu estado de saúde, sua dor, seu sofrimento.

Nas enfermarias a maioria dos casos que atendi não eram de pacientes com prognóstico fechado. Entende-se como um prognóstico fechado uma pessoa que tem uma determinada doença sem possibilidade de cura. Embora os pacientes não estivessem diante de uma doença terminal que os levaria a óbito, curiosamente muitos deles estavam morrendo em vida. Dentro do hospital alguns pacientes já estavam cansados de si mesmos, de suas dores, de suas vidas. É especialmente sobre estes pacientes que irei discorrer.

Definir o que é ser humano é uma tarefa muito complicada e até mesmo de alguma forma impossível se levarmos em conta que somos “uma metamorfose ambulante” (Raul Seixas). Procurei encontrar um ponto em comum para facilitar o trabalho de humanização dentro das enfermarias do HU.

Humano é o ser que vive, que ama, que sofre, que sabe de seu fim, que mente, que engana, que faz mal, que faz bem, que se contradiz em suas certezas, humano é uma espécie rara de ser que encontramos dentro das enfermarias, mas que logo perde sua identidade para se tornar paciente, doente, número, trabalho, cansaço.

Quando se está no espaço hospitalar de alguma maneira se perde um pouco da energia psíquica responsável pela negação em relação à transitoriedade da vida. A realidade diante da hospitalização traz à tona uma noção de finitude, uma noção de que a morte é real. Diante de determinados momentos de dor muito intensa e de sofrimentos inesperados e muitas vezes eternos no momento da dor, percebe-se sem grande dificuldade uma apatia, uma regressão ou ainda uma desistência em relação à cura ou ao tratamento. O que ocorre em outras palavras é o rompimento egóico diante da dor e do sofrimento. Onde havia certamente uma catexia pela pulsão de vida, há agora uma catexização pela pulsão de morte. O sujeito deseja que acabe o sofrimento mesmo que isso signifique sua morte, seu fim.

Claro que não digo isso diante de uma situação x ou y, mas diante dos sujeitos x ou y e da forma como eles encontram para lidar com a hospitalização e com os sofrimentos inerentes a essa situação.

A psicanálise dentro deste contexto de sofrimento biológico pode proporcionar ao paciente enfermo, uma elaboração de seus conflitos no exato momento em que eles estão mais evidentes. Dentro da teoria psicanalítica os sintomas são sempre elucidatórios e estão remetidos às situações psíquicas. Embora não pudéssemos dizer com absoluta certeza que uma doença tal seja resultado de um conflito específico, aos poucos, com o trabalho da escuta analítica, era evidente que os pacientes traziam, escondidos nas suas doenças, os conflitos inconscientes. 

No hospital geral a psicanálise tem a chance de promover uma reedição da percepção do ambiente e da experiência de internação hospitalar. A escuta analítica proporciona aos pacientes e a seus familiares, e até mesmo à equipe de saúde, outra forma de compreender o ser humano e seu sofrimento. Talvez se possa pensar em um hospital mais humanizado na medida em que houver uma melhor compreensão da inter-relação entre as patologias e o psiquismo de cada paciente e/ou sua família; entre as atitudes da equipe de saúde e a história de vida dos pacientes e entre cada paciente, submetido ao ambiente hospitalar, consigo mesmo.



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