quarta-feira, 8 de junho de 2011

Além da Clínica - O trabalho do psicólogo em outro lugar.

Um pouco do trabalho do psicólogo na Central de Acompanhamento de Penas e Medidas Alternativas de Londrina-PR - CEAPA/NUMOPA (Futuramente ACAJ):





"Não há possibilidade de nenhuma tarefa profissional correta em psicologia se não é, ao mesmo tempo, uma investigação do que está ocorrendo e do que está se fazendo. A prática não é uma derivação subalterna da ciência, mas sim seu núcleo ou centro vital". (Bleger, p.31)




O trabalho do psicólogo tem alguns pressupostos básicos, seja onde ele estiver, em uma clínica, em uma escola, em uma empresa, em uma organização, em uma empresa privada, ou até mesmo dentro do serviço público.

O que irá diferenciar o trabalho do psicólogo não é tanto aonde ele irá executar seu saber/fazer, mas sim, o público alvo de seu trabalho. Por exemplo, em uma clínica, trabalhando com uma pessoa apenas, o diagnóstico será do indivíduo, caso seja em uma organização, o diagnóstico será um diagnóstico da instituição. Porém, sempre haverá um diagnóstico situacional a ser elaborado.

Como psicólogos, não compreendemos o diagnóstico como a medicina a compreende. Independente da linha que se trabalhe na psicologia, o diagnóstico será na verdade como que o alvo do trabalho do psicólogo. Por exemplo, um diagnóstico organizacional poderá esclarecer desde o porquê de o mal-estar na organização e trabalhar em cima deste mal-estar para solucionar os problemas, até mesmo o porquê determinada empresa, ou setor de uma empresa se sobressai positivamente e trabalhar as potencialidades deste setor ou da empresa para que eles fiquem ainda melhores, para atingir objetivos superiores aos já alcançados.

Com o atendimento individual podemos diagnosticar desde um mal-estar psíquico e trabalhar este mal-estar para uma solução, em que a pessoa se comprometa com sua vida e sua própria decisão, até mesmo com orientações vocacionais para levar a pessoa a um curso, ou um objetivo de vida.

O que realmente é diferente para o psicólogo é o objetivo proposto para ele nos seus determinados atendimentos e suas intervenções dependerão tanto da possibilidade que o outro permite a ele realizar. Seja este outro uma organização (no termo de Spink, 2004, qualquer grupo de pessoas que tenham um objetivo em comum pode ser considerado uma organização), ou seja ele um outro indivíduo qualquer que procure o serviço na clínica.

Uma característica fundamental para o trabalho do psicólogo é sempre o de saber/fazer. Esta dupla de palavras significa que o saber do psicólogo estará sempre atrelado ao fazer do profissional em uma relação dialética, onde fica quase impossível uma estagnação tanto do fazer quanto do saber.  Cada situação é trabalhada sempre como uma nova situação, claro que levando em conta a teoria que embasa o profissional, mas diante de cada movimento, nasce uma nova forma de ver as coisas, uma ampliação do conhecimento e também uma nova possibilidade de atuação.

A palavra que mais irá identificar o profissional da psicologia é a palavra “movimento”, a atuação do psicólogo remete a um movimento, a um fazer diferente em que a pessoa ou organização possa se identificar com isso, e também construir a partir de sua história de vida.

Partindo destes pressupostos podemos ter uma idéia do trabalho do psicólogo inserido na CEAPA/ACAJ.

Realizar um diagnóstico do perfil tanto da instituição quanto dos beneficiários para que o encaminhamento seja proveitoso para ambos. Levantar as necessidades das instituições e verificar o que seria importante para a instituição quanto a um tipo específico de pessoa, quanto ao número de pessoas que poderiam ser encaminhadas para determinada instituição, qual o tipo de pena que não se encaixaria em uma ou outra instituição (como pessoas apenadas pelo artigo 28 da lei 11343/2006 em que não encaminhamos para escolas).

Seria muito fácil apenas receber as pessoas e encaminhá-las para determinada instituição para prestar qualquer tipo de serviço em que a instituição propõe, mas sempre buscamos levar em conta qual o que pode ser construído para que haja um bem-estar tanto a instituição quanto o beneficiário. Um dos casos atendidos ainda este ano foi de um senhor que desistiu de um curso superior por timidez. Ao realizarmos um diagnóstico do perfil deste beneficiário, ele foi encaminhado a uma biblioteca onde teria oportunidade de ler e estudar, o que ele gostava muito, e também de ter uma forma de contato com pessoas em que ele pudesse suportar, sem que estes contatos se tornem aversivos para ele. Com esta forma de trabalho fica tudo mais fácil, pois adequamos as necessidades e interesses da instituição com os dos beneficiários.

A cada contato com as instituições e também com os beneficiários, acabamos tendo que nos reorganizar na práxis da escuta para que, em aparecendo algum tipo de problema a equipe possa mobilizar-se não apenas para apagar o fogo, mas também para auxiliar os dois nos momentos de dificuldades. Lembrando sempre que o psicólogo chega até aonde ele é permitido chegar, nunca invadindo, acusando ou culpabilizando, mas ao contrário, escutando, e nesta escuta, identificando pontos em comum para trabalhar na função de permitir que se chegue a um consenso e com isso dando oportunidades para que o conflito seja resolvido.

Os projetos de intervenção são elaborados sempre amparados por um saber/fazer que se reedita a cada grupo, ou ainda, a cada encontro realizado. Amparados pela teoria que auxilia na construção de cada encontro para os grupos, não podemos deixar de lado as demandas e a forma de caminhar de cada um deles. É na individualidade de cada beneficiário, e também do grupo como um todo, que o saber vai sendo moldado ao fazer e que, o fazer, vai construindo uma nova forma de saber, de compreender a realidade daquele grupo. Um encontro tem sempre um objetivo e um método para que este objetivo seja alcançado, mas não necessariamente este método é cristalizado ao ponto do grupo tornar-se "engessado", ao contrário, de acordo com a dinâmica dos indivíduos e do grupo como um todo, cabe ao psicólogo reconhecê-la e trabalhar de acordo com esta dinâmica, para um maior aproveitamento de todos. Com isso podemos dizer que cada grupo é diferente do outro, mesmo que sejam os mesmos temas e conte com os mesmos objetivos.

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