segunda-feira, 2 de maio de 2011

Menores infratores:

Fragmento de Experiência em três meses de Projeto Leonardo Murialdo em Londrina - Pr.

Três meses de Leonardo Murialdo.

Não poderia ser diferente, em três meses não necessariamente é possível experimentar uma nova realidade por completo, mas é possível ter uma idéia do que se passa, do que acontece nos diferentes âmbitos de uma instituição, neste caso, do Projeto Murialdo em Londrina.

O projeto Murialdo, ou Murialdi, ou ainda Mu-Mu como dizem alguns meninos, tem o objetivo de receber e atender os adolescentes que cometeram algum tipo de ato infracional. Com trabalhos distintos, e de certa forma que se complementam, os técnicos conseguem realizar o que é pretendido pelo serviço, a saber, o acompanhamento, aconselhamento e reintrodução dos menores na sociedade. Reintroduz-se não porque eles deixam as drogas, ou a criminalidade, de fato, poucos são os que conseguem “mudar de vida” durante o tempo que passam cumprindo medida, mas porque, de alguma forma, eles entram em contato com outras possibilidades de existirem, ficando a escolha pelo crime, pelas drogas, pela “vida loca” como uma outra possibilidade, e não mais a única possível para existir.

Pensar e falar em mudanças não é fácil. Nas clínicas psicológicas, onde a mudança é buscada desesperadamente pelos que procuram o serviço de psicoterapia, já temos a experiência, de fato, que as mudanças demoram, que as pessoas não conseguem mudar por decreto, mas que é necessário todo um comprometimento da pessoa para que isso ocorra. Dentro do serviço prestado pelos técnicos do Murialdo é esperado uma mudança dramática na forma de se comportar, de viver, de experimentar o mundo, mas o tempo dado e os recursos são poucos. 

Então como pode ser afirmado que o projeto muda algo?

Através do afeto, do cuidado, representado pelo discurso dos técnicos, pelas visitas domiciliares, pelos atendimentos individuais, e até mesmo dentro dos grupos, ou seja, através de uma nova forma de vínculo onde os adolescentes começam a serem vistos como pessoas, como seres humanos, independente do dinheiro, da droga, da posição que ocupam no tráfico ou no crime.

Esta nova forma de vínculo estabelecido com um outro mostra-lhes uma nova oportunidade de ser e de se construir como pessoa dentro da sociedade. Pode-se verificar isso através da fala de alguns deles:

 - “As pessoas sabem que eu sou do crime, pelo meu jeito de andar, pelo meu jeito de falar, isso faz com que eles ajam diferente.” V. 15 anos reincidente no crime.

- “Entro no ônibus e tenho vergonha, parece que todos estão olhando para mim e sabem o que eu fazia.” F. 16 anos, ex-traficante.

- “Duvido que você nunca usou nada, nunca fumou uma “madeira”, nada, nada mesmo?” I. 18 anos, reincidente no crime.

O encontro com alguém diferente, e com pessoas que oferecem novas possibilidades, como cursos, trabalho, estudos, e um acolhimento para ouvir levam eles a uma reflexão de tal nível que acabam por colocarem os próprios técnicos como protegidos pelos usuários do serviço.

Quando ocorreu um roubo dentro do Murialdo, os adolescentes se movimentaram e V. disse que com certeza todos já sabiam quem era e que esta pessoa iria ter problemas. I.  ainda se exaltou e disse que o “moleque é muito burro porque roubou coisa que era de todo mundo”. Os adolescentes atendidos acabam vinculando-se à instituição e apropriando-se dela de uma forma muito positiva. Alguns até conseguem transpor os muros da instituição e compreender que as outras pessoas, assim como eles, também tem o direito de possuir objetos e que, assim como seus pais (os que tem pais) trabalharam e sofreram para conseguir conquistar a mercadoria, as outras pessoas também passaram pelas mesmas dificuldades, o que gera neles um certo respeito ao outro.

O trabalho mais eficaz que pude observar com eles é quando tentávamos oferecer a eles idéias diferentes para se pensar em outras possibilidades. Parece que quando eles chegam há todo um discurso pronto, cristalizado, é isso que tem que ser e pronto. Quando começamos a oferecer novas oportunidades, embora nem todos consigam, ou queiram, aproveitar, eles acatam com certo respeito e alguns até mesmo conseguem sair totalmente do crime.

L. 17anos, esposa de um adolescente que foi atendido no Murialdo há algum tempo disse que seu marido havia saído totalmente do crime, que era possível, mas que bastava querer. L. disse também que quando ela começou a namorar ele ela foi bem taxativa a respeito de que se ele quisesse ficar com ela, ele deveria trabalhar sério para sustentar a família. Seu marido então conseguiu um emprego com ajuda do Murialdo e eles deixaram o tráfico para traz, sendo ainda respeitados na comunidade onde vivem.

São poucos os casos assim, onde há verdadeiramente uma mudança de vida, uma re-integração na sociedade e uma quebra com a criminalidade, porém, eles existem. F. 16anos depois de ser detida e enviada para Curitiba para cumprir medida de internação, foi acolhida pela tia e largou o tráfico, busca agora largar totalmente o uso das drogas, mas já trabalha, voltou a estudar e acima de tudo, construiu um novo vínculo com sua família que “Antes eu não ligava para família, agora eu gosto muito de estar perto deles, agora eu sinto que eles são importantes para mim.”

As mudanças que podem ser verificadas com os adolescentes são principalmente diante dos vínculos que são, ou restaurados, ou criados com outras pessoas. Uma forma de sentirem-se importantes para alguém diferentemente do passado, do que fizeram, ou do que ainda fazem.

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