segunda-feira, 9 de maio de 2011

Medicalização:



Longe de escrever um texto de descobertas e hipóteses, como Freud fez em "Além do princípio de prazer", queria apenas deixar minhas impressões tanto de estudos feitos para projeto de mestrado, quanto de reuniões do GEPPPI e também do Grupo de estudos em Psicanálise aqui de Londrina. Ou seja, estou colocando um ponto de vista embasado em minha pequena trajetória de estdudos sobre esse tema.

Muitos psicanalistas e psicológos que estudam a sociedade contemporânea apontam para uma maquinação em que o discurso científico (não é a ciência em si, mas a forma como ela é compreendida e falada pelas pessoas) tornou-se, ou está para se tornar, uma verdade absoluta. A verdade de que enfim, ou de que logo logo, a ciência poderá dar conta de tudo. Lerbun, em seu livro "Um mundo sem limites" coloca que o discurso científico hoje está como que buscando tornar-se o discurso do senso comum, ou seja, a ciência e seu diuscurso acessível a todos os homens. Com este pensamento de Lebrun, a ciência portando a bandeira de que pode tudo, estaria no centro do discurso de todos os homens e mulheres da contemporaneidade.
Mas o que seria este tudo?

Tudo que possa ter relação com o humano. Desde as necessidades mais básicas como a tecnologia que provê novas formas de locomoção e de utilizar o fogo para o cozimento dos alimentos, até mesmo ao que concerne ao plano subjetivo, com as medicações anti-depressivas, ansiolíticas, entre outros.

Claro que não sou contra o uso de tais ferramentas científicas, mesmo porque não gosto de carne crua e o arroz fica simplesmente impossível de comer. Muito menos sou contra à utilização da medicação nos casos necessários. O que acontece é que muitas pessoas pensam que há uma sociedade que simplesmente recorre aos medicamentos de forma "erronea" quando na verdade a coisa é um pouco mais profunda do que parece.

Vamos aos fatos.

Há poucos séculos atrás, o responsável por conter o mal da sociedade era a igreja em seus representantes diretos, os padres, bispos e religiosos. Hoje em dia temos a impressão de que com o avanço científico, a ciência pode tudo, inclusive aliviar-nos de qualquer mal, de qualquer problema, basta que disponibilizemos as ferramentas que ela oferece. Sim, estou dizendo que trocamos um pelo outro. Trocamos um discurso voltado ao sobrenatural, que muitas vezes resolvia sim os problemas de quem os procuravam (mesmo que hoje possamos compreender como errado, era o que se tinha como solução e como tecnologia do momento) para um discurso voltado ao natural, onde a natureza é como uma equação matemática que deve ser descoberta e com isso pode-se modificar e utilizá-la da forma como for necessária para obter os devidos resultados esperados.

Os medicamentos sã a prova desta nova forma de pensar. Tudo que contém nos medicmantos são encontrados na natureza, de uma forma ou de outra, mesmo aqueles que são composições químicas de alto grau de complexidade, os elementos que formam estas composições podem ser retirados da natureza com os metódo próprio para esta função.

Confia-se então em um discurso em que quando o homem por si mesmo não dá mais "conta do recado" ele recorre ao que a ciência pode lhe dar. Antes recorria-se com muito maior frequência aos rituais religiosos, hoje, voltamo-nos aos rituais científicos, por assim dizer. Claro que isto se dá devido a uma maior eficácia deste sobre o primeiro na maioria dos casos. Como ritual podemos pensar na pessoa que vai ao médico e depois recebe a ordem de tomar dois comprimidos por dia por uma semana. Na hora marcada, lá está ela cumprindo, algumas mais e outras menos, obsessivamente este ritual no qual irá funcionar.

Mas e quando ele falha? Parte-se para o discurso de que o medicamento deverá ser trocado, pensa-se em outro e depois em outro, e depois em outro. Até que uma hora ou cura-se ou volta-se para o mais primitivo, ou seja o ponto anterior à ciência que é a religião. Não estou dizendo de forma alguma aqui que uma é melhor do que a outra, só estou dizendo como ocorre na maioria das vezes quando a doença, ou o problema vai um pouco além das ferramentas que a ciência pode oferecer. São realmente poucas as pessoas que a partir da fragilidade científica dedicam-se a uma forma científica de elaborar outra ferramenta, como os pais de Lorenço no filme "O óleo de Lorenço".

Hoje há um movimento quase que frenético pela busca de medicamentos, ou seja, das ferramentas científicas disponíveis para a cura, o tratamento, ou a solução dos problemas que o homem por si só não consegue resolver.

A ciência e seus frutos passam a ser este Outro, que capaz de tudo para o bem do humano, torna-se muito mais do que ela é e deveria ser, torna-se um outro capaz de prover, sustentar e ainda por cima retirar o ser humano daquilo que lhe é mais íntimo e precioso, ou seja, retira o ser humano dele mesmo, de sua vida, de sua história.

Como exempplo eu poderia citar inúmeros artistas que utilizam um comprimido para dormir, outro para acordar, um para comer e outro para ir ao banheiro, outro para parar de comer, um para ir trabalhar e outro para acalmar-se pois trabalhar demais faz mal, mas também tem o remédio que possibilita este trabalhador ficar "sozinho", mesmo porque ficar só é angustiante, aí temos um remédio para atenuar a angústia, etc.

Diante da solidão e do desespero, da falta de sentido real que é a vida, recorre-se a um outro, o que antes era uma pessoa, mas que agora aparece sem rosto, seja numa receita médica, seja na televisão, seja na internet, para que o humano amenize o sofrimento do viver. Amenizar tudo bem, mas estamos chegando a um limite em que as pessoas acabam com este sofrimento e de alguma forma, depois de tornarem-se "não sofredores" percebem que suas vidas não são vidas, ao contrário, passaram de humanos para serem máquinas, viva a evolução...

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