Longe de escrever um texto de descobertas e hipóteses, como Freud fez em "Além do princípio de prazer", queria apenas deixar minhas impressões tanto de estudos feitos para projeto de mestrado, quanto de reuniões do GEPPPI e também do Grupo de estudos em Psicanálise aqui de Londrina. Ou seja, estou colocando um ponto de vista embasado em minha pequena trajetória de estdudos sobre esse tema.
Muitos psicanalistas e psicológos que estudam a sociedade contemporânea apontam para uma maquinação em que o discurso científico (não é a ciência em si, mas a forma como ela é compreendida e falada pelas pessoas) tornou-se, ou está para se tornar, uma verdade absoluta. A verdade de que enfim, ou de que logo logo, a ciência poderá dar conta de tudo. Lerbun, em seu livro "Um mundo sem limites" coloca que o discurso científico hoje está como que buscando tornar-se o discurso do senso comum, ou seja, a ciência e seu diuscurso acessível a todos os homens. Com este pensamento de Lebrun, a ciência portando a bandeira de que pode tudo, estaria no centro do discurso de todos os homens e mulheres da contemporaneidade.
Mas o que seria este tudo?
Tudo que possa ter relação com o humano. Desde as necessidades mais básicas como a tecnologia que provê novas formas de locomoção e de utilizar o fogo para o cozimento dos alimentos, até mesmo ao que concerne ao plano subjetivo, com as medicações anti-depressivas, ansiolíticas, entre outros.
Claro que não sou contra o uso de tais ferramentas científicas, mesmo porque não gosto de carne crua e o arroz fica simplesmente impossível de comer. Muito menos sou contra à utilização da medicação nos casos necessários. O que acontece é que muitas pessoas pensam que há uma sociedade que simplesmente recorre aos medicamentos de forma "erronea" quando na verdade a coisa é um pouco mais profunda do que parece.
Vamos aos fatos.
Há poucos séculos atrás, o responsável por conter o mal da sociedade era a igreja em seus representantes diretos, os padres, bispos e religiosos. Hoje em dia temos a impressão de que com o avanço científico, a ciência pode tudo, inclusive aliviar-nos de qualquer mal, de qualquer problema, basta que disponibilizemos as ferramentas que ela oferece. Sim, estou dizendo que trocamos um pelo outro. Trocamos um discurso voltado ao sobrenatural, que muitas vezes resolvia sim os problemas de quem os procuravam (mesmo que hoje possamos compreender como errado, era o que se tinha como solução e como tecnologia do momento) para um discurso voltado ao natural, onde a natureza é como uma equação matemática que deve ser descoberta e com isso pode-se modificar e utilizá-la da forma como for necessária para obter os devidos resultados esperados.
Os medicamentos sã a prova desta nova forma de pensar. Tudo que contém nos medicmantos são encontrados na natureza, de uma forma ou de outra, mesmo aqueles que são composições químicas de alto grau de complexidade, os elementos que formam estas composições podem ser retirados da natureza com os metódo próprio para esta função.
Confia-se então em um discurso em que quando o homem por si mesmo não dá mais "conta do recado" ele recorre ao que a ciência pode lhe dar. Antes recorria-se com muito maior frequência aos rituais religiosos, hoje, voltamo-nos aos rituais científicos, por assim dizer. Claro que isto se dá devido a uma maior eficácia deste sobre o primeiro na maioria dos casos. Como ritual podemos pensar na pessoa que vai ao médico e depois recebe a ordem de tomar dois comprimidos por dia por uma semana. Na hora marcada, lá está ela cumprindo, algumas mais e outras menos, obsessivamente este ritual no qual irá funcionar.
Mas e quando ele falha? Parte-se para o discurso de que o medicamento deverá ser trocado, pensa-se em outro e depois em outro, e depois em outro. Até que uma hora ou cura-se ou volta-se para o mais primitivo, ou seja o ponto anterior à ciência que é a religião. Não estou dizendo de forma alguma aqui que uma é melhor do que a outra, só estou dizendo como ocorre na maioria das vezes quando a doença, ou o problema vai um pouco além das ferramentas que a ciência pode oferecer. São realmente poucas as pessoas que a partir da fragilidade científica dedicam-se a uma forma científica de elaborar outra ferramenta, como os pais de Lorenço no filme "O óleo de Lorenço".
Hoje há um movimento quase que frenético pela busca de medicamentos, ou seja, das ferramentas científicas disponíveis para a cura, o tratamento, ou a solução dos problemas que o homem por si só não consegue resolver.
A ciência e seus frutos passam a ser este Outro, que capaz de tudo para o bem do humano, torna-se muito mais do que ela é e deveria ser, torna-se um outro capaz de prover, sustentar e ainda por cima retirar o ser humano daquilo que lhe é mais íntimo e precioso, ou seja, retira o ser humano dele mesmo, de sua vida, de sua história.
Como exempplo eu poderia citar inúmeros artistas que utilizam um comprimido para dormir, outro para acordar, um para comer e outro para ir ao banheiro, outro para parar de comer, um para ir trabalhar e outro para acalmar-se pois trabalhar demais faz mal, mas também tem o remédio que possibilita este trabalhador ficar "sozinho", mesmo porque ficar só é angustiante, aí temos um remédio para atenuar a angústia, etc.
Diante da solidão e do desespero, da falta de sentido real que é a vida, recorre-se a um outro, o que antes era uma pessoa, mas que agora aparece sem rosto, seja numa receita médica, seja na televisão, seja na internet, para que o humano amenize o sofrimento do viver. Amenizar tudo bem, mas estamos chegando a um limite em que as pessoas acabam com este sofrimento e de alguma forma, depois de tornarem-se "não sofredores" percebem que suas vidas não são vidas, ao contrário, passaram de humanos para serem máquinas, viva a evolução...
11:20 AM
Marco Correa Leite

4 Clique aqui para comentários: :
Olá, Marco.
Mando-lhe uma réplica, porém em três partes, devido ao limite do blogger.
Interessante e importante reflexão. Mas não sei se posso concordar com você em tudo. Não vejo essa dinâmica da ciência destacada por Lebrun, a de que a ciência, tornando-se absoluta, seria acessível a todos os homens e mulheres; em suma, que a ciência seria cosmopolita. Não acredito que isso seja verdade, pelo menos não no que tange à nossa época, não como exemplo factível do que vivemos hoje. Talvez possa vir a ser válido, mas não arriscaria tal previsão, porque, além do mais, implicaria uma concepção bastante simplista da história. Tomemos um exemplo. O modelo padrão atual de partícula pressupõe que a existência do bóson de Higgs, uma partícula hipotética, pode ter grandes efeitos sobre o mundo que nos cerca. Porém, como se pode ver, esse tipo de descrição não afeta a vida prática de muitas pessoas. Embora possamos pressupor, teoricamente, que os fenômenos descritos por essa teoria nos afetem de algum modo ou moldem os nossos comportamentos, tornando-os possíveis do modo como o são, essa teoria não modifica o modo de agir de boa parte dos cidadãos do mundo. São poucos os que sabem, de fato, a teoria e, dos que sabem, devem ser poucos os que passam a agir de outro modo com base nisso. Acredito que, entre os poucos grupos que se encontram afetados, encontram-se os cientistas e os acadêmicos. E é bem provável que sequer um profissional técnico, ainda que tenha estudado física, se veja afetado por esse conjunto de enunciados. E talvez nem se trate apenas dessa presença prática da teoria, mas da própria possibilidade de sua compreensão. Quantas são as pessoas “habilitadas” a realizar a leitura de um artigo científico em que se descreva, em termos físico-matemáticos, com a linguagem que lhe é própria, o funcionamento de tal fenômeno? Nesse sentido, duvido muito que a ciência seja absoluta. Inclusive, essa é uma posição arriscada, pois pode nos levar a uma má compreensão do que é a ciência, de quais são os seus fins e de que modo pode ela contribuir conosco.
Por outro lado, se você defendesse a ciência como universalista, o que pressupõe uma tendência universalizante da mesma, talvez eu pudesse concordar com você. Afinal, isso não implica a presença prática do saber científico em nosso cotidiano, na “facticidade” de nossa existência, mas tão-só um conjunto de teorias, o ‘corpus scientificum’, preocupado em explicar (prever e controlar ou compreender?) o mundo em sua totalidade. Isso é o que chamaríamos de “teoria pura”. A ciência, nesse sentido, busca nos dar uma compreensão o mais ampla possível, por isso universal, do mundo, e nesse âmbito inclui-se o nós. Trata-se de seu tratamento do campo fenomênico, por um lado, e de seu modo de realizar esse tratamento, por outro. No primeiro caso, não se pode admitir nenhuma omissão, nada que esteja “para além do factível” (ao menos não de forma categórica), e, por outro, realiza-se a construção de leis e teorias que possam recobrir o máximo de fenômenos possíveis, ainda que em sua contingência. Mas a ciência não tem, ainda assim, legitimidade para sobrepor-se a outros discursos. Embora ela possa nos fornecer modelos sobre o mundo como um todo, ela não descaracteriza outros discursos, como, por exemplo, a religião e a arte, pois os seus modos de tratar essa realidade são absolutamente diferentes. Essa é, no entanto, uma questão sobre a qual ainda tenho de me debruçar com maior seriedade e tempo.
(PARTE II)
Outro ponto que me chamou a atenção foi certa nebulosidade entre a ciência e a técnica. Embora elas pareçam se confundir hoje, as duas possuem meios e fins diferentes. Essa é uma definição aristotélica. Por um lado, a ciência, que busca compreender o mundo através da razão, e, por outro, a técnica, que visa à produção de artifícios (utensílios, ferramentas etc.) por meio do labor. A técnica diferencia-se, ainda, da “arte”, que lhe é diferente por fim. É por isso que, para Aristóteles, o conhecimento é um fim em si mesmo. Nesse sentido, não há uma ética do saber; porém, há uma ética da aplicação desse saber em nosso mundo fático (prático), isto é, da técnica. A tecnologia (leia-se: técnica) é, assim, derivada, e não um princípio. Ela não tem "fundamento", ou, como diz certo filósofo, "a essência da técnica nada tem de técnica". Retornando ao exemplo do bóson de Higgs, poderíamos dizer que, embora essa teoria não tenha efeitos práticos na vida de muitas pessoas do mundo, as produções técnicas que podem ser derivadas de seus princípios e corolários podem, sim, efetivar alguma mudança no modo de agir dessas pessoas, para o bem ou para o mal. Outro exemplo, esse já clássico, é o da bomba de hidrogênio. A possibilidade de produção dessa bomba não segue, necessariamente, o postulado científico do qual deriva. A derivação da engenharia dessa bomba segue uma prática antes atrelada à técnica do que à ciência. É por esse vetor, e não por outro, que entram os julgamentos morais sobre o uso da teoria. A técnica deve vinculada aos preceitos morais de uma comunidade. A crítica a uma tecnologia desvinculada de seus fins morais e atrelada a certos princípios desumanos e desumanizantes (que se encontra no cerne do “capitalismo” para alguns) será feita, em especial, pela Escola de Frankfurt e seus descendentes (a Teoria Crítica). Um dos pontos cruciais, para esses autores, é o enfraquecimento da razão prática e teórica frente a uma razão impotente, a razão instrumental, servil aos processos sociais da sociedade fabril. Por exemplo, a crítica de Marx a essa sociedade, penso eu, dirigia-se a um ponto mais ou menos parecido com esse, que é, muitas vezes, ponto de partida dos teóricos críticos: a técnica de nossa sociedade tornou-se onipresente e onipotente, do que, incapazes por essa falsa consciência que é em nos moldada, não possamos apontar os seus verdadeiros fins. A técnica se vê desconectada da moral (e, por extensão, da ética).
Quanto ao deslize do discurso religioso ao discurso científico, e vice-versa nalguns pontos, não sei se isso ocorre como mera “troca”. Acredito que esteja certo que ambas busquem dar respostas a questões que nos despertam a curiosidade e que nos atormentam e angustiam, e que ambas sirvam como motores da significação, mas isso não implica em uma simples transitividade entre os dois conjuntos, ponto a ponto. Podemos apelar para outras características sistêmicas desses discursos: ambas têm princípios reguladores que precisam ser respeitados; ambas fundam-se, também, em “hipóteses” (racionais ou não). Mas, bem, a ciência funciona diferentemente da religião em vários aspectos. Por exemplo, a ciência não admite a estagnação de teorias (embora alguns princípios e teoremas possam ter vida realmente longa: veja-se, como exemplo, o teorema de Pitágoras), ao passo que a religião exige que seus princípios permaneçam intocáveis e inalterados. É a querela “ciência revolucionária versus religião estacionária”. Alguns dirão que a ciência busca pela solução mais simples e prática dos problemas enfrentados pela comunidade. Essa é uma definição pragmática da ciência, mas que, novamente, vai deixar um pouco obscura a fronteira entre a técnica e a ciência.
(PARTE III)
A meu ver, os fármacos não são mais do que artifícios da técnica, produtos colaterais da ciência, e não, simplesmente, seus produtos próprios e essenciais. Não há uma relação necessária entre ciência e farmacologia. A farmacologia obedece a outros critérios: poder, controle, previsão, normalização (veja, por exemplo, o que dizem Foucault e Canguilhem). Isso quer dizer que o sistema de regras sobre o qual se funda a técnica não é o conhecimento, não é a compreensão, mas outro, propriamente sócio-político, ainda que de modo velado. O fármaco deve ou deveria obedecer a preceitos morais e ser avaliado por uma comunidade. Infelizmente, isso não ocorre como deveria: apenas um grupo seleto e elitizado de indivíduos está “habilitado” a realizar essa avaliação. Esse grupo, no caso, é o de técnicos ou “cientistas” que trabalham em um laboratório de farmacologia. E será que esse grupo age moralmente? Acredito que o problema comece já com a própria limitação da avaliação a grupos restritos. E devemos notar que eles, assim como qualquer utensílio, não podem ser julgados, a priori, como maus ou bons. O que cabe a nós é julgar a ação de um sujeito moral com relação a esses utensílios, os fármacos. Cabe julgar se a sua ação foi moral ou não, e ao sujeito cabe justificar a sua ação.
Recomendo-lhe um texto de Slavoj Zizek. Em português, o artigo possui o seguinte título: “Filósofo defende a transformação da ética a partir da biologia”. Está disponível em um blog que organizaram apenas com coisas do filósofo. Uma das questões mais interessantes abordadas no artigo diz respeito à “natureza humana”, assunto sobre o qual o seu texto também versou, ainda que não explicitamente. A questão a ser feita é a seguinte: “O que é o homem?”. Recentemente, tem sido defendido que ele não passa de uma construção, um valor. Você poderia abordar essa questão em sua dissertação, ainda que como acessório.
Essas são as minhas opiniões. Espero poder contribuir em algo e – quem sabe – criar uma discussão.
Até mais!
Caro Hernani, bom saber que anda por estes campos... rsrsrs
Bom, sobre o humano já havia dedicado alguns textos aqui no Blog, e sugiro que de uma olhada com mais calma depois, buscando pelos textos sobre humanização que escrevi. Alguns artigos que foram publicados tabém estão postados aqui, claro que como simples fragmento ou apenas resumos..
Quanto à questão da ciência por exemplo, não trato da ciência em si mesma. A ciência não é nada sem o humano que a utiliza, nem boa, nem ruim, nem moral, nem ética. Estes são valores humanos e que também sofrem de acordo com o período histórico em que estão estruturados.
O que cito no texto é sobre o discurso científico, diferente do que é a ciência e ainda sim diferente do que é a técnica. É como um terceiro elemento que permeia a contemporaneidade tornando o discurso humano de certa forma enquadrado em um padrão científico. Por exemplo uma criança que explica perfeitamente porque o céu é azul, mesmo que isso não tenha a menor diferença na vida dela, mas será mesmo?
Será que não tem a menor diferença na vida das pessoas supor que há um outro universo paralelo constituído pela anti-matéria? Imagino que enquanto pragmáticos, talvez não tenha, mas enquanto sentido para as coisas, mesmo que elas não tenham uma utilidade essas descobertas modificam um imaginário humano de forma surpreendente.
Já reparou que antes dos Et´s as formas mais comuns de surtos e disturbios do sono eram atribuídos às bruxas, e ainda antes disso (claro que na sociedade ocidental) eram atribuídos os semideuses, anjos, e outras coisas que eram considerados parte do imaginário da época?
Estamos falando de um discurso científico que apenas por ser proferido (creio eu) já modifica alguma coisa, mesmo que não seja aquilo que ele deveria modificar (a realidade), mas que de alguma forma as pessoas são invocadas a dar sentidos a uma novidade, a uma descoberta, a uma ciência...
Abraços e nos vemos pela UEL..
Postar um comentário