domingo, 10 de abril de 2011

Repetição - Parte 2

       No livro "A vênus das peles" o autor coloca com muita maestria um caso de sado-masoquismo em que o que o sujeito busca é sempre repetir uma cena. Todo o jogo que tem um cunho especificamente sexual é como uma encenação mítica onde vai se buscando cada vez mais chegar ao ponto crucial onde houve a primeira satisfação. Satisfação como um termo psicanalítico em que há a descarga da libido, da energia sexual que ao encontra uma forma de ser descarregada sobre um objeto específico. É justamente a imaginação de que apenas um objeto (objeto "a" para Lacan) irá satisfazer que a pessoa se cristaliza neste jogo de repetição, de busca de um prazer imaginário que o objeto imaginário deve (imaginariamente) dar.

       Tudo muito imaginado, tudo muito do campo do ideal e não do real. A repetição é isto, a busca incansável de um ideal de gozo, de um ideal de prazer fixado em um mesmo caminho, em um mesmo objeto.
       Mas encontrar o que se repete em nós não é tão simples assim. Na verdade essa busca por um  ÚNICO objeto que nos satisfaça é aprendido instintivamente. A gente se engana achando que nossos desejos são frutos de uma experiência com alguma coisa boa. Na verdade é o contrário, o desejo é a falta e é a partir da falta que podemos desejar. A busca então é no sentido de encontrar o que realmente nos falta. O que realmente está por tráz do desejo, ir além do que é aparente. Por exemplo, quando tenho sede posso tomar água, mas as vezes coca cola, e as vezes nem um nem outro me satosfaz, as vezes preciso de um canudinho para ficar mordendo. Mas veja que pegar um canudinho no bar, ou na padaria e não tomar é sem sentido, então apelo para algo que pode ter um significado e assim mascaro o que eu realmente precisava.

       Esse é o nosso processo de esconder de nós mesmos nossos desejos, nossa falta. A repetição mora onde existem as máscaras, onde pensamos que por causa de um trauma, ou porque temos uma história de vida assim ou assado, aquilo nos falta e eu busco, procuro, mas nunca encontro algo que me satisfaça. E é exatamente no caminho sem sentido que podemos encontrar a satisfação. 

       Pessoas com dores crônicas que procuram toda semana um médico de alguma forma procuram mais do que os remédios. As dores são as mesmas, as receitas são as mesmas, mas busca-se sempre ir visitar o médico, ou ir ao hospital para realizar exames. A satisfação não está em tomar os remédios (pode até ser que esteja) mas está em algum ponto do caminho, de toda a trajetória que se repete, está em repetir o ritual, de alguma forma sempre o mais próximo do igual.

       Mas há uma forma de acabar com isso tudo?

       Não sei. Na verdade, acredito que não. Mas podemos assumir outras posições em nossa vida que façam com que, embora faltantes, conseguimos até certo ponto viver um bem-estar. Não que o bem estar seja eterno e perfeito, mas que de alguma forma, uma mudança (não digo de comportamentos, mas de uma posição assumida frente a falta, frente ao desejo) nos faz termos uma opção a mais para viver, para experimentar as coisas nào exatamente como elas são, mas com uma máscara mais suportável para nós.

       É bem isso mesmo. As vezes as pessoas prometem milagres, curas, fim das dores, mas nada disso ocorre e o desespero começa a bater a porta. Viver acaba sendo tão insuportável que tudo e todos vão nos abandonando, piorando ainda mais a situação. Dentro do processo analítico há uma possibilidade de fazer diferente.

       Uma pessoa carente por exemplo mas que sempre precisou do sexo para ter carinho, cuidado e amor, encontra no analista um outro tipo de cuidado, acaba percebendo que existem outras formas de lidar com o desejo de amor que é tão intenso e pode assim, com uma possibilidade a mais, sair da posição em que estava.

       Uma pessoa que vive muitas dores como o Dr. House da série do Universal Channel pode exprimir exatamente o que todo esse post quer dizer. A procura pela medicação por causa de uma dor real, de uma falta real e biológica, depois de um processo de análise acaba sendo revisto. House descobre que o que ele busca é um pouco além de curar suas dores, mas de obter um certo prazer. É incrível que quando ele começa a melhorar, a assumir outras posições, por exemplo sair com a Cuddy e com seus amigos (Wilson), ou seja, quando ele começa a se importar com os outros, a pensar que talvez falte algo além do que ele poderia imaginar, ele várias vezes repensa no que está acontecendo.

       No último episódio que eu vi ele percebe que agora que está "bem" pode ter se tornado mais distraído e até mesmo um médico pior, mas nem por isso tornou-se um médico ruim, ao contrário, podemos ver um médico ainda excelente, mas que de alguma forma tem outros objetos de desejo aos quais se ligar. Tem o Wilson, a sua namorada a Cuddy e até mesmo a filha dela... 

Continua...

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