segunda-feira, 25 de abril de 2011

"O segredo de seus olhos" - Sobre o filme

Um filme surpreendente. Traz a tona sentimentos ímpares em que parece nos afetar com algo que vem de dentro e não de fora. Como se o filme fosse responsável por despertar em nós alguma coisa adormecida, ao invéz de trazer para nós alguma coisa que estava (ao menos supostamente) do lado de fora. Vamos ao cinema, ou assistimos a um filme, de comédia por exemplo, e esperamos que de alguma forma aquele tempo traga até nós um certo sorriso, uma certa distração. Vamos ver um filme de terror quando queremos nos deparar com alguma coisa que nos traga medo, ou para rir justamente diante do medo. Bom, o que quero dizer é que mesmo que em uma análise mais superficial os filmes normalmente nos afetam da tela para nossa psiquê, este filme é um pouco diferente. Não nos afeta de fora para dentro, mas nos traz aos poucos, com uma pitada de humor inteligente, toda a trama se desenvolve de forma quase que aleatória do tema principal do filme.

Acho que se fosse uma redação de vestibular o roteirista seria sumamente reprovado, com chances de ter sua história nos e-mails de pérolas do vestibular. Reprovado no quisito "fuga ao tema", mas é exatamente por causa desta fuga que se descobre no final vários temas que estão sempre se achegando perto, esbarrando, mas nunca chegando ao ponto de fato do tema principal deste romance, a impressão que se tem é de que no máximo os temas adjacentes tangenceiam o tema principal.

Podemos dizer isso de uma análise feita no divã, podemos dizer isso também deste filme, mas sobre tudo, devemos reconhecer que o filme representa com uma estranheza ímpar a vida humana, o cotidiano de um homem que vivie 25 anos distraindo-se para depois reconhecer que o tema de sua vida é um só e sempre será este o grande início e fim de sua vida.

Encerrando com os dizeres "será complicado" mas com um sorriso nos lábios os atores demonstram que viver, que amar, é muito fácil, mas fazer algo com este amor, colocá-lo em prática na realidade do dia a dia, é aí que mora a complicação. A dificuldade está presente em realizar por fim o desejo, o que implica de certa forma passar da posição de desejante para, enfim, completo.

Opa, alguns teóricos lacanianos, freudianos, ou psicanalistas (ou mesmo muitos estudantes) podem estar se arrepiando com este "completo". Mas não podemos negar que enquanto a fantasia funciona, de certa forma, a relação fantasmática que estabelecemos com nosso objeto de desejo nos torna completos, mesmo que imaginariamente. Angustia sim, porque significa morrer frente a uma posição ocupada durante toda uma vida, uma vida de paixão, de busca, de desencontrar-se para não ter que se haver com uma possibilidade de "ser" de outra forma. Mas ao mesmo tempo ao encontrar e possuir o objeto de desejo, morre-se o buscante para dar lugar ao satisfeito, ao pleno, ao amante.

É bem isso que nos desperta o filme todo. Uma estranha sensação de sucessões que se sucedem mas que de alguma forma não dizem nada. O que falta, a letra "a" que segue faltando até o final, mas que possibilita essa reviravolta em toda a trama, é o signficante que liga todo o filme e ao final podemos enfim, como despertar de um sonho que parecia muito mais um pesadelo, perceber que durante todo o filme o roteiro fazia sentido. O tema não era o segredo dos olhos, nem o assassinato, nem a busca, muito menos as formas de amar, de maltratar, de justiça, de vingança, não meus amigos, o segredo do filme é o mesmo segredo da vida, é o segredo do amor.

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